CAPÍTULO 17 — O FESTIVAL DAS
LANTERNAS POV: Sofia O Festival das Lanternas ocupa o centro de Ghent com milhares de pequenos objetos inflamáveis suspensos sobre ruas medievais, decisão coletiva que a prefeitura chama de tradição e Elise chama de formulário de risco incompleto. A quinta sessão do Aurora faz parte da programação oficial. Exibiremos curtas-metragens belgas na fachada lateral do cinema, enquanto lanternas de papel marcam o caminho entre o canal, a confeitaria de Noor e a bilheteria. Foram vendidos cento e quarenta e oito ingressos. A sessão não está lotada, mas deixou de parecer uma reunião de parentes coagidos. Nossa administração alcançou o estágio em que desconhecidos pagam voluntariamente para entrar. Chego às quatro da tarde com duas caixas de programas e encontro Elise no alto de uma escada, prendendo fios de luz sob a marquise. Ela usa calça preta, botas e um suéter cor de cobre. O cabelo está preso numa trança grossa, deixando alguns fios soltos junto ao pescoço. Nossa relação permanece privada há onze dias. Onze dias de beijos no escritório, cafés antes da abertura e caminhadas em que seguramos as mãos apenas quando nenhuma câmera parece interessada. A cidade ainda acredita no namoro apresentado pela campanha. A diferença é que agora a interpretação deixou de estar errada, embora continuemos evitando transformar isso em comunicado oficial com logotipo. — Você está olhando para a escada ou para mim? — pergunta Elise, sem interromper o ajuste do fio luminoso. — Estou avaliando dois riscos estruturais. Um envolve queda. O outro usa um suéter injustificadamente bonito durante horário de trabalho. Ela prende a última lâmpada e desce. Quando alcança o piso, segura minha cintura por um instante, sem público próximo e sem pedir porque já aprendemos a reconhecer quando não existe dúvida. — O suéter não estava no relatório de segurança — responde, beijando minha têmpora antes de recolher uma das caixas. O gesto é pequeno. Mesmo assim, meu corpo o guarda com a mesma atenção dedicada aos beijos mais longos, como se intimidade também pudesse ser construída por detalhes sem iluminação adequada.
Jules atravessa o saguão usando um colete amarelo e carregando uma prancheta quase tão grande quanto ela. Vê Elise afastar a mão da minha cintura e reduz o passo. — Vocês sabem que estão menos convincentes quando tentam parecer profissionais? — pergunta, analisando nossos rostos como uma especialista em adultos incapazes de discrição. — Nós somos profissionais — responde Elise, pegando a lista de voluntários. — Pessoas profissionais não sorriem para a nuca das sócias. Levo a mão ao cabelo. Elise concentra atenção demais na lista, o que confirma que Jules não inventou a observação. — O festival começa em duas horas — digo. — Direcione seu talento investigativo para cabos, cadeiras e adolescentes tentando entrar sem ingresso. — Posso fazer as duas coisas. Minha geração cresceu com várias abas abertas. Ela desaparece em direção à sala. Elise espera o corredor ficar vazio antes de tocar duas vezes meu pulso, embora não exista câmera. Ofereço a mão. Ela entrelaça nossos dedos e me conduz até a bilheteria, onde a gaveta guarda o acordo, as duas chaves e a caneta marcada com a estrela. — Você está confortável com esta noite? — pergunta, mantendo a voz baixa. — Haverá mais imprensa, mais fotografias e menos lugares para separar campanha de escolha. A pergunta demonstra que nosso aditamento funciona melhor do que qualquer regra criada para impedir beijos. Elise não presume que verdade elimina a necessidade de consentimento. — Estou. Não quero anunciar nossa vida como atração do festival, mas também não quero agir como se precisássemos esconder um crime cultural. — Então mantemos a frase sobre privacidade. Se houver contato, decidimos no momento. — E se eu quiser beijar você? Elise olha para a porta, depois para mim. A mão em volta da minha aperta levemente, sem usar o sinal de encerramento. — Pergunte — responde. A palavra acompanha meu trabalho durante o restante da tarde. Pergunte. Simples, direta e perigosamente melhor do que qualquer sistema criado para evitar respostas. Noor monta uma barraca de waffles diante da confeitaria. Mina distribui lanternas douradas usando um casaco vermelho que pertencia a Helena, ajustado para caber em seus ombros.
O senhor Peeters chega duas horas antes, reclama da multidão e pergunta se a sessão possui lugar reservado. Informo que seu ingresso indica B-4. — Quero o A-12 — responde, como se a poltrona fosse título hereditário. — Hoje a projeção será externa. O A-12 está dentro do prédio, protegido de pessoas que tentam transformá-lo em residência principal. Ele considera o argumento ofensivo, mas aceita uma cadeira próxima à saída. Jules prende uma pequena lanterna em sua bengala sem pedir. Ele mantém o adorno depois de declarar que é ridículo. Às sete, a rua diante do Aurora está cheia. Lanternas azuis, vermelhas e douradas balançam sobre as cabeças. O cheiro de canela, açúcar queimado e chuva antiga fica preso entre as fachadas. A tela ocupa a parede lateral. Luca controla o som, Jules recebe o público e Elise circula entre os cabos com uma lanterna presa ao casaco. Vejo-a antes de perceber que parei no meio de uma conversa. Ela se ajoelha para ajustar uma proteção de borracha, o suéter acompanha seus movimentos e meu cérebro abandona temporariamente a parceria com a linguagem. — A pergunta era se os curtas terão legendas em francês — repete uma mulher diante de mim. — Terão em francês e neerlandês. Também haverá versão com audiodescrição disponível por fones, desde que nosso técnico não seja levado pela multidão ou por minha distração administrativa. A mulher acompanha meu olhar até Elise e sorri. Não comenta, o que considero elegância rara numa cidade que transformou nossa fotografia acidental em narrativa comunitária. Thomas Verhaegen, da Fundação De Zwaan, aparece pouco antes da sessão. Não integra a comissão naquela noite, mas veio observar o impacto do festival. Ele elogia a parede de recados, a lotação crescente e a parceria com a escola de idiomas. A decisão sobre a verba ainda depende da análise final do conselho. — Vocês construíram algo difícil de medir em planilhas — diz, observando famílias ocuparem as cadeiras. — Elise tentará medir mesmo assim — respondo. — Sofia colocará cores no gráfico e chamará isso de emoção comunitária — rebate ela, surgindo ao meu lado. Thomas ri. A mão de Elise encontra minhas costas depois de dois toques no pulso, gesto público, aprovado e ainda capaz de alterar minha respiração. Quando ele se afasta, ela não retira a mão imediatamente. O polegar se move uma vez sobre o tecido do meu casaco, longe da visão de qualquer fotógrafo.
— Isso foi campanha? — pergunto. — Metade — responde. — E a outra metade? — Não cabe na planilha. A sessão começa sob um céu limpo. Os curtas mostram cidades, famílias, duas mulheres idosas reformando uma casa e um menino convencido de que o canal esconde um monstro vegetariano. O público ri, comenta e permanece mesmo quando o vento aumenta. As lanternas projetam manchas coloridas sobre rostos e janelas, transformando a rua numa sala sem teto. Durante o terceiro curta, uma criança deixa escapar uma lanterna presa a um fio. Elise alcança o cordão antes que o papel encoste numa luminária quente. A mãe agradece. A criança pergunta se Elise é “a namorada da moça das legendas”. Nenhuma comissão preparou resposta para interrogatórios conduzidos por pessoas de seis anos. Elise olha para mim. Não usa a frase oficial. Também não entrega uma resposta que ainda não combinamos publicar. — Sou a Elise — diz, devolvendo a lanterna. — E ela é a Sofia. — Isso não responde — observa a menina. — Você tem futuro no jornalismo — respondo, entregando um caramelo antes que a investigação avance para questões patrimoniais. A mãe pede desculpas e conduz a filha até as cadeiras. Elise fica ao meu lado, segurando o fio da lanterna como se ele exigisse inspeção adicional. — Gostei da resposta — digo. — Não respondi. — Exatamente. Foi muito sua. Ela sorri e toca minha mão com o dorso dos dedos. O contato não é fotografado, mas Noor percebe do outro lado da rua e ergue um waffle numa aprovação silenciosa. O último curta termina às nove e vinte. A fachada permanece iluminada enquanto Jules conduz aplausos e anuncia a sexta sessão. Temos cento e quarenta e três presenças válidas, cento e noventa euros em doações e trinta e seis reservas novas. A planilha ficará satisfeita, fenômeno raro e provavelmente temporário. Mina insiste que devemos assistir ao lançamento das lanternas no Graslei. Noor fecha a barraca, Luca protege os equipamentos e Jules convence o senhor Peeters a participar da
caminhada. Seguimos com o público pelas ruas. Elise e eu ficamos atrás, carregando uma caixa vazia e a pequena lanterna dourada que Mina colocou em minhas mãos. As pontes estão cheias. Pessoas alinham-se junto ao canal, segurando lanternas elétricas ou pequenos barquinhos luminosos que serão colocados na água. Annika surge com um fotógrafo e pede uma imagem nossa diante do canal. Olho para Elise. Ela toca duas vezes meu pulso, e posamos com a lanterna entre as mãos. O fotógrafo pede que nos aproximemos. Elise passa o braço pela minha cintura, e eu apoio a cabeça por um instante em seu ombro. — Perfeito — diz ele. — Agora olhem uma para a outra. A instrução já produziu problemas antes. Ainda assim, viro o rosto. Elise me observa sob a luz dourada, e a multidão perde importância ao redor. O clique acontece. Depois outro. O fotógrafo agradece e se afasta para registrar o lançamento. Elise continua com a mão na minha cintura. — A fotografia terminou — aviso, sem qualquer intenção real de pedir que me solte. — Eu sei. A primeira fileira de barquinhos luminosos toca a água. As pessoas aplaudem enquanto pontos dourados se espalham pelo canal. Penso na campanha, no encontro sem registros e nas onze manhãs em que acordamos escolhendo não nomear cedo demais o que já ocupava nossas rotinas. Também penso que esconder uma escolha pode começar como proteção e terminar parecendo medo. Não quero que Elise interprete meu silêncio como outra porta entreaberta. — Posso beijar você? — pergunto. Ela observa a multidão, Annika, Jules e as pessoas que já acreditam conhecer nossa história. Depois retorna aos meus olhos. — Aqui? — Aqui. Não para a fotografia. Não para a fundação. Porque quero. Elise solta a caixa vazia no chão e segura meu rosto com as duas mãos. — Pode. Beijo-a diante do canal enquanto as lanternas seguem pela água. O contato começa lento, mas a mão dela desliza até minha nuca e me puxa para mais perto. Não escuto aplausos de imediato. Percebo apenas sua boca, o calor dos dedos e a firmeza com que Elise escolhe permanecer naquele gesto sem prazo escondido. Quando nos afastamos, Jules está com as mãos sobre a própria boca. Noor segura o braço de Mina, impedindo-a de atravessar a multidão e organizar uma celebração oficial.
Algumas pessoas fotografam. Desta vez, a ideia não me incomoda. Elise mantém a testa encostada na minha. — Isso foi real — diz, tão baixo que a frase pertence apenas a nós. — Foi. A campanha pode preencher um formulário de reclamação amanhã. Ela ri e me beija outra vez, mais breve. Não existe anúncio, discurso ou legenda preparada. Apenas uma escolha pública que não precisa ser explicada naquela noite. Voltamos ao Aurora depois das dez. A equipe guarda cadeiras e equipamentos. Jules pede autorização para publicar uma fotografia do beijo. — Amanhã — responde Elise antes que eu decida. — Hoje nenhuma de nós aprova nada. Jules concorda, ainda sorrindo como se tivesse assistido ao final de uma série. Noor leva Mina para casa, Luca fecha a van e o senhor Peeters exige saber se o beijo atrasará o conserto do A-12. Às onze e quinze, o cinema está vazio. Elise apaga a marquise e sobe comigo até o apartamento, levando a lanterna dourada. Meu quarto temporário continua disponível perto da estação. A mala está lá, a cama está seca e nenhum periquito ameaça cantar ao amanhecer. Mesmo assim, quando Elise fecha a porta do apartamento, nenhuma de nós menciona o hotel. Ela coloca a lanterna sobre a mesa. A luz fraca cobre seu rosto, o suéter e a trança já quase desfeita. — Você quer ficar? — pergunta. A pergunta inclui mais do que dormir. Vejo isso no cuidado com que ela mantém distância e na forma como as mãos permanecem visíveis junto ao corpo. — Quero. Também quero que você me diga se quer que eu fique. — Quero você aqui. Aproximo-me. Beijo Elise devagar, sem a urgência da multidão, e sinto suas mãos pousarem na minha cintura. O beijo ganha calor. Minha palma desliza sob o suéter apenas o suficiente para encontrar a pele morna de suas costas. Elise interrompe o movimento sem se afastar. — Está confortável? — pergunta. — Estou. Você? — Estou. — Quer continuar? — Quero.
Ela me beija novamente. Caminhamos até o quarto entre pausas, risadas baixas e um encontro pouco digno com a lateral da porta. Na cama, Elise pergunta antes de tirar meu casaco. Eu pergunto antes de puxar o suéter por sua cabeça. Cada resposta torna o próximo gesto mais fácil, não automático. Seus dedos percorrem meus braços, minha cintura e a curva das minhas costas com atenção. Eu beijo seu pescoço, o ombro e a pele acima do coração. Não existe pressa para chegar a algum ponto que prove a noite. Há desejo suficiente no modo como ela diz meu nome e cuidado suficiente nas pausas. Quando a camiseta dela cai ao lado da cama, Elise cobre o próprio corpo por reflexo. Afasto sua mão e beijo seus dedos. — Posso olhar? — pergunto. Ela assente, mas espero a palavra. — Pode. A luz da rua atravessa a cortina. Observo Elise sem comparar seu corpo com qualquer lembrança, fantasia ou promessa. Apenas a mulher diante de mim, escolhendo ser vista. Ela toca meu rosto. — Você está muito quieta. — Estou tentando não arruinar o momento com uma observação sobre restauração histórica. — Agradeço o esforço. — É considerável. Elise sorri e me puxa para outro beijo. A noite avança em gestos lentos, mãos guiadas e perguntas respondidas sem constrangimento. Quando o desejo se torna mais intenso, não precisamos abandonar o cuidado. Ele permanece na forma como Elise observa meu rosto e como eu paro sempre que sua respiração muda. Depois, ficamos deitadas sob o edredom, com as pernas misturadas e a lanterna dourada ainda acesa sobre a mesa. Meu corpo está quente, cansado e estranhamente calmo. Elise desenha linhas pequenas no meu braço com a ponta dos dedos. — Você está bem? — pergunta. — Estou. E você? — Também. — Algum arrependimento administrativo? — Apenas não ter fechado melhor a cortina.
Olho para a janela. Nenhum prédio próximo possui ângulo para o quarto, mas a observação devolve o humor sem diminuir o que aconteceu. — Podemos acrescentar persianas ao orçamento da fundação — proponho. — Item: proteção patrimonial contra intimidade mal iluminada. Elise ri contra meu ombro. O som me faz apertá-la um pouco mais. Não falamos sobre Paris. Não por fuga, mas porque a noite não precisa ser transformada em negociação para merecer importância. Ela beija minha clavícula e alcança minha mão sob o edredom. Entrelaça nossos dedos no mesmo lugar em que dormimos na noite do vazamento. Desta vez, não preciso perguntar se posso ficar até amanhecer. Elise já respondeu antes de me levar para o quarto, e eu escolho acreditar na duração exata da resposta. A lanterna apaga sozinha pouco depois da meia-noite. O canal continua cheio de pontos dourados do lado de fora, enquanto o quarto fica escuro e nossas mãos permanecem unidas sobre o lençol.