CAPÍTULO 7 — UM CASAL POR
ENGANO POV: Sofia A fotografia continua na internet quando acordo, prova de que apagar algo das redes funciona tão bem quanto pedir a Ghent que interrompa a chuva. Durante a madrugada, a conta que republicou a imagem criou uma enquete. Sessenta e oito por cento dos participantes acreditam que Elise e eu somos um casal. Vinte e um por cento acham que fomos um casal e estamos tentando reatar. Os restantes defendem que somos atrizes contratadas, teoria ofensiva apenas porque ninguém elogia nosso talento. Também há trinta e sete reservas para a sessão seguinte. O número transforma uma situação embaraçosa num problema ético com valor de bilheteria, categoria ausente da minha formação. Escolho uma camisa verde que não deveria inspirar teorias. A proprietária da hospedaria pergunta se Elise prefere flores ou chocolates, e respondo que prefere planilhas. Ela ri como se eu tivesse confirmado uma intimidade adorável. No caminho até o Aurora, Jules envia uma captura da bilheteria: quarenta e dois ingressos vendidos. Outra imagem mostra que a fotografia ultrapassou doze mil visualizações, porque constrangimentos também recebem métricas. O saguão está aberto quando chego. Duas mulheres tiram fotografias diante da marquise, e uma delas pede que eu pose ao lado do cartaz. Recuso com educação e indico o horário da próxima sessão. — Elise está aqui? — pergunta a mais jovem, segurando o telefone junto ao peito. — A fotografia de vocês ficou linda. — Foi um acidente no palco — esclareço, segurando a alça da bolsa para impedir que meu constrangimento encontre outra utilidade pública. — Os melhores encontros também são — responde ela, com a serenidade irritante de quem não precisará administrar as consequências. As duas compram ingressos antes de seguir para a confeitaria de Noor, satisfeitas por transformar meu acidente numa recomendação romântica. Entro no cinema e encontro Elise junto ao quadro de regras. Ela acrescentou outra linha abaixo das nossas observações: “Acidentes não constituem estratégia de comunicação.” — Isso parece direcionado a uma pessoa específica — comento, apoiando a bolsa no balcão. — Uma gestão saudável evita mensagens passivo-agressivas em áreas comuns.
— Uma gestão saudável também evita transformar uma queda em campanha romântica. Elise usa calça preta e uma blusa de gola alta cor de vinho. Seus cabelos estão soltos, presos apenas de um lado por uma pequena presilha dourada. A roupa parece comum. Meu corpo não recebe o memorando. — Eu não transformei nada. A cidade fez isso sem consultar a administração — respondo, abrindo o notebook para mostrar os números. — E você está satisfeita — conclui Elise, observando meu rosto com a atenção de quem procura a parte da resposta que tentarei esconder. — Estou dividida entre vergonha pessoal e alívio financeiro — respondo, girando o notebook para ela. — É uma posição emocionalmente sofisticada. Elise observa a tela. Quarenta e quatro reservas agora. A escola de idiomas confirmou vinte alunos, e a rádio publicou um trecho da entrevista com o título “As novas donas do Aurora querem devolver o cinema à cidade”. — Precisamos publicar a correção hoje — decide ela, devolvendo o computador na minha direção. — A história está crescendo porque deixamos espaço. — Podemos corrigir depois da entrevista. Uma resposta apressada vai parecer defensiva e gerar mais perguntas. — Sofia, existem pessoas comprando ingressos porque acreditam que estamos juntas. — Existem pessoas comprando ingressos porque estão curiosas. O motivo da curiosidade é inconveniente, mas o ingresso continua dando acesso a um filme, não à nossa vida. Elise cruza os braços. Lembro da fotografia, da pressão de seu corpo contra o meu e do modo como sua mão permaneceu na minha nuca depois que o perigo terminou. A lembrança não ajuda em nenhuma categoria da discussão. — Não quero mentir — diz ela, baixando a voz quando duas pessoas passam diante das portas de vidro. — Nem eu. Podemos dizer que somos coproprietárias, que a fotografia registrou um acidente e que preferimos falar sobre o cinema. Tudo verdadeiro. — E quando perguntarem diretamente? — insiste Elise, baixando o copo sem beber e deixando claro que não aceitará uma resposta construída apenas com habilidade verbal. — Respondemos que nossa vida pessoal não faz parte da campanha — proponho, embora a diferença entre privacidade e ambiguidade fique visível no rosto dela.
Ela me conhece bem o bastante para perceber a ausência escondida na frase. Não confirmar não é o mesmo que negar, e eu construí boa parte da minha vida profissional em diferenças desse tamanho. Antes que Elise responda, Noor entra pelo corredor lateral com uma bandeja de cafés e a satisfação de quem traz informação que pretende usar contra alguém. — Quatro clientes perguntaram se haverá sessão especial no Dia dos Namorados — anuncia, colocando a bandeja sobre o balcão. — Uma delas sugeriu que vocês escolham o filme do primeiro encontro. — Não tivemos um primeiro encontro — responde Elise. — Isso não parece impedir ninguém — observa Noor, entregando um copo a ela. — A fotografia vendeu onze ingressos desde que abri a confeitaria. — Então o sistema econômico finalmente encontrou uma maneira de monetizar meu constrangimento — digo, pegando meu café. Noor percebe a discussão e pergunta se a correção pode esperar até o fim do dia. — Não estou pedindo que mintam — esclarece. — Só estou dizendo que a verdade continuará verdadeira depois que a rádio transmitir a entrevista. — Isso é exatamente o tipo de raciocínio que transforma pequenos problemas em festivais — rebate Elise, segurando o copo sem beber. Noor aponta para mim com o queixo, como se minha presença resolvesse uma discussão que ainda não terminou e provavelmente apenas mudará de formato. — Por isso deixo Sofia administrar comunicação — afirma. — Ela respeita a vocação natural dos festivais e raramente desperdiça um desastre utilizável. A campainha da porta toca, interrompendo a discussão. Um homem de casaco cinza entra carregando uma pasta azul e um crachá de uma fundação cultural. Ele se apresenta como Thomas Verhaegen, coordenador de projetos da Fundação De Zwaan. Reconheço o nome. A instituição financia restaurações, programas comunitários e espaços culturais independentes em Flandres. Elise endireita a postura. Noor recolhe a bandeja e desaparece pela passagem lateral com uma rapidez que contradiz seu interesse habitual por conversas privadas. — Não tínhamos uma reunião marcada — diz Elise, oferecendo a mão ao visitante. — Eu estava na região e vi a reportagem da rádio — explica Thomas. — Também recebi o material enviado pela senhora Moreira esta manhã. Elise se vira para mim. Seu olhar contém uma pergunta simples e uma previsão detalhada de meu julgamento.
— Enviei uma apresentação às seis e quarenta — admito. — Antes do café e, portanto, fora da validade da regra escrita no quadro. Thomas sorri. Ele tem pouco mais de cinquenta anos, barba curta e a aparência tranquila de quem já visitou muitos prédios tentando convencê-los a sobreviver com formulários. Mostro o saguão, a sala principal e as áreas de reparo. Elise conduz a parte técnica, explicando infiltrações, acessibilidade, segurança e a capacidade liberada. Funcionamos bem diante dele. Quando termino uma ideia, ela fornece números. Quando Elise descreve um problema, apresento uma campanha capaz de transformá-lo em participação pública. Thomas fotografa a marquise, examina o mural ainda vazio e faz perguntas sobre as doze sessões. Não menciona a fotografia até chegarmos ao palco. — A repercussão de ontem foi significativa — comenta, observando a fita sobre a área reparada. — Histórias humanas costumam aproximar o público de projetos culturais. — A imagem registrou uma queda — explica Elise, tão séria que ele consulta a placa provisória como se esperasse encontrar provas. — Naturalmente. Não pretendo invadir a vida de vocês. Para a fundação, importa a capacidade de mobilizar a comunidade e demonstrar compromisso conjunto com o espaço. A expressão “compromisso conjunto” fica entre nós com uma ambiguidade que nenhum dos três decide tocar. Thomas abre a pasta e entrega um formulário de pré-seleção. O Aurora pode concorrer a uma verba de até setenta e cinco mil euros para restauração e programação comunitária. A avaliação presencial ocorrerá em duas semanas, desde que enviemos o plano completo até segunda-feira. Setenta e cinco mil não apagam todas as dívidas, mas resolvem boa parte dos reparos urgentes. O valor muda a temperatura da sala e torna cada palavra seguinte mais pesada. — A comissão avalia impacto local, continuidade da gestão e capacidade de comunicação — explica Thomas. — O envolvimento pessoal das responsáveis é um ponto favorável, desde que o projeto não dependa apenas da atenção momentânea. Elise pergunta quais documentos serão exigidos. Eu anoto prazos, referências e indicadores de público. Thomas elogia o crescimento das reservas e menciona que a história das coproprietárias chamou atenção dentro da fundação. Quando se despede, promete enviar o regulamento completo ainda naquela tarde. A porta fecha, e Elise permanece olhando a pasta como se ela pudesse se transformar num animal hostil. — Você enviou uma proposta sem me mostrar — diz.
— Uma apresentação inicial. Sem valores, assinatura ou compromisso. Estava dentro das minhas responsabilidades e usei apenas dados públicos. — Incluiu a fotografia? — Incluí a reportagem da rádio. A fotografia estava incorporada na página e eu não percebi antes de enviar. Isso é parcialmente verdade. Eu vi a imagem, mas acreditava que seria removida da matéria quando a página atualizasse. Descubro, com atraso, que detalhes técnicos são péssimos esconderijos morais. — Você percebeu depois? — pergunta Elise, mantendo a pasta junto ao corpo enquanto espera uma resposta que já parece ter deduzido. — Sim — admito, fechando o notebook porque nenhuma planilha oferece abrigo adequado para aquela conversa. — E não me contou — conclui ela, sem elevar a voz, o que torna a acusação mais difícil de contornar. — Pretendia contar quando houvesse uma resposta. A maior parte dessas propostas desaparece dentro de caixas de entrada e reaparece três meses depois com uma recusa automática. Ela caminha até a primeira fileira, mantendo a pasta junto ao corpo. O palco ainda nos separa do saguão, mas o espaço parece menor depois da visita. — Setenta e cinco mil euros — digo, descendo para ficar no mesmo nível. — Isso cobre a caldeira, a fiação, parte do piso e várias poltronas. — Eu sei fazer contas — responde Elise, e a firmeza da voz não consegue esconder que o valor também alterou sua avaliação do problema. — Então também sabe que a comissão gostou da atenção em torno de nós — acrescento, escolhendo cada palavra antes que pareça entusiasmo demais. Elise me encara. Não preciso formular a proposta para reconhecer que ela já percebeu a direção da conversa e não gosta do destino. — Não — diz Elise, antes que eu consiga formular a proposta inteira, e seu olhar confirma que chegou à mesma conclusão vários passos antes. — Ainda não falei — protesto, embora nós duas saibamos que minha expressão já apresentou a ideia com eficiência suficiente. — Você vai sugerir que deixemos as pessoas acreditarem que somos um casal até a avaliação.
— Eu usaria palavras melhores — respondo, apoiando as mãos no encosto de uma poltrona para manter a proposta no campo profissional. — A mentira não melhora porque recebe vocabulário de campanha — rebate Elise, aproximando-se o bastante para que eu perceba a tensão em seu maxilar. Caminho entre as poltronas, procurando uma forma de apresentar a ideia sem parecer exatamente o tipo de pessoa que Helena acusava de transformar sentimentos em ferramentas. — Não precisamos inventar uma história. Não precisamos dizer que namoramos, nem responder perguntas íntimas. Apenas continuamos aparecendo juntas, evitamos corrigir a interpretação e usamos o interesse para falar do Aurora. — Isso é alimentar uma conclusão falsa. — É permitir que as pessoas vejam o que querem enquanto entregamos informação verdadeira sobre o cinema. Publicidade, religião e cinema funcionam assim há bastante tempo. Elise não ri. A sala vazia devolve minha frase com uma secura que elimina qualquer charme, como se o próprio prédio estivesse cansado de minhas justificativas. — E o que exatamente você espera que façamos? — pergunta. — Entrevistas juntas. Fotografias aprovadas. Participação nos eventos. Talvez uma caminhada pelo centro para o material da fundação. Nada físico além do que já seria normal. — O que seria normal para nós? A pergunta me interrompe. Normal já significou dividir caramelos no A-12, trabalhar até tarde na cabine e ficar próximas demais sem coragem para decidir o que aquilo representava. Agora normal inclui planilhas, toques interrompidos e uma fotografia que parece mais honesta do que nossas respostas. Nenhuma dessas definições serve para uma proposta profissional. — Estabelecemos limites — digo. — Regras claras. Prazo curto. Até a visita da comissão, depois corrigimos a interpretação e voltamos ao plano original. — Você quer fingir um relacionamento durante duas semanas para conseguir dinheiro. — Quero deixar de negar um relacionamento que nunca confirmamos, enquanto demonstramos parceria estável diante de uma fundação que pode impedir a venda do cinema. — Isso é a mesma coisa com mais palavras — observa Elise, e o cansaço em sua expressão torna minha construção verbal menos brilhante.
— Sou tradutora. Mais palavras constituem parte do serviço — respondo, tentando recuperar um pouco do humor que a sala decidiu retirar da proposta. Elise se afasta em direção ao corredor lateral. Acompanho-a até o saguão, onde três novas reservas aparecem no painel da bilheteria. Ela vê os números. Eu vejo o momento em que a recusa simples se transforma numa decisão com custo financeiro. — Não use os ingressos para me pressionar — avisa. — Não estou usando. Eles aparecem sozinhos no sistema, o que considero falta de sensibilidade da tecnologia. A campainha toca novamente. Uma mulher entra com duas meninas adolescentes e pergunta se pode conhecer “as donas apaixonadas do cinema”. Elise fecha os olhos por um instante. Explico que somos as coproprietárias e conduzo o grupo até o mural das memórias. As meninas tiram fotografias, compram quatro ingressos e prometem trazer colegas da escola. Quando saem, Elise permanece atrás da bilheteria com as mãos apoiadas no balcão. O painel registra cinquenta e três reservas. — Isto pode sair do controle — diz. — Já saiu. A escolha é corrigir agora e perder o impulso, ou controlar a narrativa até apresentarmos o projeto. — Você realmente acredita que conseguirá controlar uma história sobre nós? Aproximo-me do balcão. Não ficamos tão perto quanto na fotografia, mas o espaço entre nossos braços parece cheio da memória daquele contato. — Acredito que consigo proteger o cinema — respondo. — E prometo que não farei nada que você não aprove antes. Elise olha para minha boca por menos de um segundo. Talvez eu imagine, porque passei horas demais lendo análises de desconhecidos sobre nossos rostos. — Sem beijos — diz Elise, e meu coração reage com uma força desproporcional a uma proibição que deveria pertencer apenas ao campo profissional. — Eu não sugeri beijos — respondo, cuidando para que a voz não revele quanto a palavra mudou o ar entre nós. — Você sugeriria depois, quando alguma campanha decidisse que precisa de uma imagem mais convincente — insiste, apertando a caneta entre os dedos. — Nenhuma campanha terá acesso à minha boca sem autorização por escrito — garanto, e o humor alcança seus olhos apesar da rigidez do rosto.
Elise pega uma caneta e consulta o quadro de regras. — Sem declarações falsas — acrescenta Elise, voltando a escrever. — Sem histórias inventadas sobre encontros, datas ou sentimentos que nunca existiram. — Concordo — respondo, observando a ponta da caneta avançar pelo papel como se estivéssemos negociando um contrato de risco real. — Sem envolver Mina, Noor ou Jules em encenação alguma — continua, marcando a cláusula com uma linha firme. — Concordo com reservas sobre Jules, porque ela já participa por conta própria e provavelmente cobrará crédito criativo — digo, arrancando um pequeno movimento de sua boca. — E qualquer uma pode encerrar o acordo — conclui Elise, levantando os olhos para confirmar que compreendi a parte mais importante. — A qualquer momento — confirmo, desta vez sem humor, porque nenhuma de nós deveria permanecer presa a uma história que deixou de parecer segura. Elise coloca a caneta sobre o balcão, mas ainda não diz que aceita. O silêncio se estende enquanto o painel registra outra reserva. — Preciso pensar — diz Elise, deixando a caneta sobre o balcão antes que o gesto seja confundido com aceitação definitiva. — A fundação quer o plano até segunda, e a visita será em duas semanas — lembro, mantendo a pressão nos prazos e longe dos sentimentos. — Então você consegue sobreviver algumas horas sem transformar isso numa campanha oficial — responde, reunindo os documentos numa pilha organizada. — Posso tentar, desde que ninguém tire outra fotografia acidentalmente romântica — prometo, acompanhando-a com os olhos enquanto ela atravessa o saguão. Elise caminha até o quadro e lê nossas regras anteriores. Eu observo a linha de seus ombros, a presilha dourada e a forma cuidadosa como ela escolhe cada decisão. Quando se vira, o rosto parece calmo. Apenas os dedos apertam a caneta com força suficiente para denunciar o resto. — Amanhã, oito e meia — determina. — Se fizermos isso, haverá cláusulas. — Oito e meia? O relacionamento falso ainda nem começou e já está destruindo meus direitos trabalhistas. — Chegue no horário e traga café. Precisaremos definir o que significa parecer um casal sem agir como um.
Ela sobe para o apartamento com a pasta da fundação. Fico no saguão, diante do quadro de regras e do painel que agora mostra cinquenta e cinco reservas. A proposta deveria ser apenas estratégia. Duas semanas, algumas fotografias, respostas ambíguas e distância suficiente para nenhuma de nós confundir aparência com verdade. Mesmo assim, quando acrescento “acordo de imagem” à agenda da manhã seguinte, preciso apagar três vezes a palavra “namoro” antes de encontrar uma expressão menos perigosa.