CAPÍTULO A OUTRA DONA DO CINEMA · Capítulo 17 de 30
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CAPÍTULO

MEIA-NOITE

13

—

O

BEIJO

DA

POV: Sofia Durante uma semana, Elise e eu nos comportamos como duas mulheres capazes de administrar um cinema sem transformar cada corredor numa discussão sobre desejo, abandono ou estações ferroviárias. É um desempenho excelente. Também é completamente insuportável. Na manhã seguinte à falha do projetor, recebemos a comissão da Fundação De Zwaan. Elise apresenta os relatórios, eu conduzo a visita e nenhuma das duas menciona que, poucas horas antes, quase nos beijamos na cabine. Thomas Verhaegen observa a parede de recados, fotografa as áreas restauradas e conversa com estudantes do clube de cinema. A comissão elogia a participação comunitária, pergunta sobre acessibilidade e informa que a decisão será comunicada depois da análise financeira. Não recebemos garantia alguma, mas ninguém foge gritando ao ver as dívidas. Considero isso um resultado institucionalmente romântico. Nos dias seguintes, Elise responde minhas mensagens com frases completas, pontuação correta e nenhuma palavra desnecessária. Quando precisamos aparecer juntas, usa o código, oferece a mão e mantém a proximidade prevista no acordo. Assim que as câmeras desaparecem, ela encontra uma pasta, uma ferramenta ou uma urgência situada exatamente no lado oposto do prédio. Não posso acusá-la de quebrar uma regra. Esse é o problema das pessoas organizadas. Elas conseguem erguer paredes usando apenas procedimentos corretos. Eu também faço minha parte. Não peço contato fora da campanha, não volto à cabine sem necessidade e não menciono o modo como sua boca ficou perto da minha antes que ela recuasse. Transformo frustração em trabalho, uma atividade valorizada porque parece maturidade quando acompanhada por planilhas. A quarta sessão vende todos os cento e sessenta e quatro lugares liberados dois dias antes da exibição. Jules imprime uma placa com a palavra ESGOTADO e a prende na bilheteria usando fita vermelha, quatro tachinhas e uma quantidade de entusiasmo que Elise considera estruturalmente perigosa.

O filme escolhido é Cartas para uma Cidade Adormecida, um drama romântico de 1971 sobre duas mulheres que trocam correspondência sem saber que moram na mesma rua. Helena anotou no catálogo que o filme prova duas coisas: cartas são mais perigosas do que parecem, e seres humanos conseguem complicar até distâncias curtas. — Sua tia continua nos atacando através da programação — comento, posicionando o cartaz na entrada. — Helena atacava todos. Você apenas começou a se considerar o centro temático — responde Elise, segurando a moldura para que eu a alinhe. Nossos dedos se encostam na lateral. Ela retira a mão antes que eu consiga decidir se foi acidente ou cautela. Elise usa um vestido preto de mangas compridas e brincos pequenos de pérola. O cabelo está solto, caindo sobre os ombros com uma simplicidade ofensiva. Minha vontade de tocá-lo surge às cinco e vinte da tarde e permanece ativa durante toda a preparação, demonstrando dedicação superior à de alguns funcionários. — Está torto — diz ela, observando o cartaz. — Você diz isso sobre qualquer objeto que não tenha sido instalado por você. — Porque objetos instalados por mim não ficam tortos. A discussão dura mais três minutos e termina com o cartaz exatamente onde Elise indicou no início. Não reconheço sua vitória, pois certas tradições sustentam relacionamentos ainda inexistentes. Às seis, já existe uma fila diante da marquise. Pessoas fotografam a placa de lotação, leem os cartões da parede e perguntam quando abriremos a quinta sessão. Noor vende doces na confeitaria e no saguão. Mina usa um vestido azul com estrelas prateadas e recebe clientes como se tivesse financiado pessoalmente cada poltrona. O senhor Peeters chega cedo para garantir o A-12. Quando explico que a cadeira não oferece vantagem técnica, ele informa que agora possui valor histórico por ter sobrevivido às nossas tentativas de manutenção. O compartimento permanece fechado. As chaves continuam guardadas, e a frase sob o assento espera que estejamos prontas, exigência irritante vinda de uma mulher que jamais explicou o significado de prontidão. Annika aparece para fotografar a lotação. Antes de nos posicionarmos diante da bilheteria, Elise toca duas vezes meu pulso. Ofereço a mão. Ela entrelaça os dedos nos meus e se aproxima, mantendo o ombro encostado ao meu enquanto Annika ajusta o enquadramento.

— Sorriam — pede a jornalista. — Vocês acabaram de lotar uma sessão. Isso costuma ser considerado uma notícia boa. — Elise não confia em notícias boas antes de verificar anexos — respondo. — Sofia confia antes de verificar o título — rebate Elise, e a câmera registra minha risada. Nossos olhos se encontram durante o clique seguinte. A fotografia será convincente, provavelmente mais do que deveria, mas agora conheço a diferença entre parecer próxima e ser impedida de permanecer depois. Quando Annika se afasta, aperto a mão de Elise uma vez. Ela solta, obedecendo ao sinal que criamos, e volta para a prancheta sem comentar. A regra funciona. Eu a odeio. A sessão começa às sete e quinze. Todos os lugares estão ocupados, inclusive as cinco poltronas que recuperamos na limpeza das primeiras fileiras. Fico junto à entrada durante os vinte minutos iniciais, observando o público e conferindo o som. Elise sobe à cabine com Luca, e Jules permanece no corredor para orientar atrasados que não existem. A sala cheia modifica o prédio. O calor aumenta, o piso vibra sob passos e o saguão guarda conversas demais para qualquer pessoa parecer sozinha. Helena teria ficado perto da cortina, fingindo irritação com o movimento enquanto contava cada cabeça. Talvez reclamasse da fila e depois guardasse a placa de lotação numa gaveta secreta. A saudade não desapareceu. Apenas deixou de ocupar todos os cômodos ao mesmo tempo. Na metade do filme, subo à cabine para levar água. Luca está diante do projetor, e Elise confere o sistema digital reserva. — Nenhum defeito? — pergunto, colocando as garrafas sobre a mesa. — Ainda não — responde Luca, tocando a madeira com dois dedos. — Não devemos elogiar máquinas antigas durante funcionamento. Elas interpretam como provocação. Elise aceita a água sem olhar diretamente para mim. A cabine parece lembrar de tudo que aconteceu ali, embora objetos normalmente tenham o bom senso de não participar de constrangimentos humanos. — A comissão enviou uma mensagem — informa, mostrando a tela do celular. — Querem uma versão detalhada do plano de acessibilidade até sexta-feira. — Isso é bom. Pedidos adicionais significam que ainda estamos na avaliação.

— Ou que perceberam lacunas. — Elise, uma instituição pediu mais trabalho. Esse é o modo burocrático de demonstrar interesse e hostilidade ao mesmo tempo. Luca ri e se afasta para verificar o áudio. Elise guarda o telefone, mas não encontra outra tarefa com rapidez suficiente para impedir o silêncio. — A sessão está lotada — digo. — Eu notei. — Você poderia parecer satisfeita sem comprometer a estrutura do rosto. — Estou satisfeita. — Seu rosto parece estar analisando um imposto. Um sorriso breve aparece. É pequeno, verdadeiro e suficiente para me lembrar por que a distância desta semana pareceu uma punição mesmo depois de ela negar qualquer intenção desse tipo. Aproximo-me um passo. Elise percebe, mas não recua. O espaço entre nós diminui até o ponto em que a conversa poderia mudar de assunto. Luca chama da outra extremidade da cabine e pede que eu confira uma linha das legendas. O momento desaparece, devidamente assassinado por uma preposição francesa. Termino a revisão e desço antes de tentar ressuscitá-lo. O filme encerra às nove e quarenta. As luzes se acendem diante de cento e sessenta e quatro pessoas emocionadas, algumas enxugando lágrimas enquanto outras discutem o final. Recebemos aplausos quando subimos ao palco. Jules anuncia a lotação e agradece aos voluntários. Noor distribui cartões restantes para a parede. Elise fala sobre as próximas sessões. Eu apresento o plano de acessibilidade, novas parcerias e uma mostra de curtas produzidos por estudantes locais. No fim, o senhor Peeters levanta a mão para perguntar se a lotação significa que finalmente consertaremos o apoio de braço do A-12. — O senhor passou três sessões afirmando que aquele é o melhor assento da sala — lembro. — É o melhor disponível. Isso não significa que esteja bom. A plateia ri. Elise promete examinar o apoio antes da semana seguinte, porque aparentemente administrar cultura envolve negociar com um homem que transforma fidelidade em reclamação contínua.

O saguão demora a esvaziar. Pessoas deixam fotografias, cartões e doações. Uma professora oferece parceria para sessões escolares. Dois casais pedem informações sobre aluguel do espaço. Julian De Wilde aparece perto das onze, observa a movimentação e nos parabeniza sem mencionar a proposta de compra. Sua educação continua tornando difícil tratá-lo como antagonista, falha irritante de homens razoáveis. — O prédio parece diferente cheio — comenta ele. — Prédios costumam preferir pessoas a camas de hotel — responde Elise. Julian aceita a frase com um sorriso e se despede. Sofia de alguns anos atrás teria usado a oferta como saída simples. Agora observo as portas fecharem atrás dele e sinto alívio. Às onze e vinte, restamos Elise, eu, Jules e Noor. Mina já foi embora com três cartões que afirma precisar corrigir em casa, embora mensagens comunitárias não sejam exercícios escolares. Jules termina a contagem. Cento e sessenta e quatro ingressos, quarenta e nove novos cartões, cento e oitenta e seis euros em doações e vinte e sete reservas para a semana seguinte. — Temos o primeiro sold out — anuncia, erguendo a folha sobre a cabeça. — Preciso publicar antes que vocês encontrem uma maneira adulta de diminuir a importância. Elise aprova uma fotografia da placa. Eu escrevo a legenda, retiro dois adjetivos por exigência dela e acrescento um ponto de exclamação quando se afasta. Jules publica antes que Elise perceba. A gestão exige decisões rápidas quando a pontuação está em risco. Noor fecha a caixa de doces e observa uma e outra com suspeita. — Vocês estão estranhas desde a sessão passada — diz, sem oferecer qualquer transição ou respeito pelo ambiente profissional. — Estamos cansadas — responde Elise, empilhando os cartões vazios. — Cansaço não faz Sofia evitar piadas sobre a gola do seu vestido há quatro horas. Olho para a gola. É simples, arredondada e completamente inocente. O fato de eu ter notado não deveria entrar no relatório de Noor. — Eu não possuo comentários sobre todas as peças de roupa de Elise — argumento. Noor e Jules me encaram com a expressão idêntica de pessoas diante de uma mentira pouco ambiciosa. — Vão para casa — ordena Elise, apontando para a porta.

Jules aceita, porque tem aula cedo. Noor leva mais tempo e só parte depois de me entregar a chave da confeitaria “caso alguma de vocês precise de açúcar, coragem ou testemunhas”. — Não precisaremos de testemunhas — respondo. — Essa foi a parte menos importante da frase — conclui, fechando a porta lateral atrás de si. Ficamos sozinhas. O saguão guarda copos, papéis e o cheiro doce dos caramelos. A placa de lotação permanece na bilheteria, iluminada pela última luminária acesa. Elise começa a recolher os cartões. Eu empilho programas, fecho a caixa de doações e espero que uma das muitas tarefas produza uma conversa. Nenhuma produz. Quando o relógio marca onze e quarenta, ela leva a caixa de cartões ao escritório. Sigo com os relatórios, embora pudesse deixá-los sobre o balcão. Elise coloca a caixa ao lado do envelope que contém minha mensagem antiga. A proximidade dos dois objetos parece uma provocação montada por Helena além do alcance da lei. — Não podemos continuar assim — digo. Ela para com as mãos apoiadas na mesa. Não pergunta o que quero dizer, outra vantagem irritante de falar com alguém que me conhece antes da explicação. — Assim como? — pergunta mesmo sabendo, talvez porque algumas verdades precisem ser formuladas inteiras antes de serem enfrentadas. — Tocando uma à outra para fotografias e fingindo que não existe nada quando as portas fecham. — Não estamos fingindo que não existe nada. — Então estamos evitando. — Você concordou quando eu recuei. — Concordei que você podia recuar. Não concordei em passar o restante das semanas sendo tratada como um problema que pode desaparecer se ninguém olhar diretamente. Elise fecha os olhos por um instante. Quando volta a me encarar, o cansaço da semana está visível no rosto. — Não estou tratando você como problema.

— Está me tratando como risco. — Você pode ir embora. A frase chega sem crueldade, mas carrega a mesma ferida que nos acompanha desde a cabine antiga. Respiro antes de responder, porque humor agora seria outra forma de covardia. — Posso — admito. — Não sei onde vou morar depois das doze sessões. Não sei como meu trabalho vai funcionar, nem se o Aurora conseguirá continuar sem vender parte do prédio ou mudar completamente o modelo. Elise desvia o rosto, como se a honestidade confirmasse exatamente o medo que tentou evitar. Aproximo-me da mesa. — Mas não saber o que acontece depois não torna falso o que eu quero agora. — O agora termina — responde ela, mantendo uma mão sobre o envelope e a outra fechada junto ao corpo. — Tudo termina ou muda. Um contrato, uma sessão, uma cidade, uma vida. Isso não significa que só devemos tocar o que vem com garantia. — É fácil dizer isso quando você sempre foi a pessoa que partiu. A acusação não é injusta. Ainda assim, recuso receber sozinha uma história que já descobrimos ter sido construída por duas pessoas em silêncio. — E é fácil exigir garantias quando você nunca pede diretamente que alguém fique — respondo, sem elevar a voz. Elise fica imóvel. A frase encontra o ponto exato entre o cartão, a estação e o quase-beijo. — Isso foi baixo — diz. — Foi verdadeiro. Nosso acordo diz que não podemos mentir uma para a outra. — O acordo também diz que não devemos usar o passado para punir. — Não estou punindo. Estou dizendo que você não pode exigir uma decisão definitiva antes de permitir que qualquer coisa real comece. O relógio do escritório muda para onze e quarenta e sete. Lá fora, uma bicicleta passa pela rua e a luz percorre as cortinas fechadas. Elise se afasta da mesa e caminha até o saguão. Acompanho-a, não porque pretenda pressioná-la contra uma parede, mas porque deixá-la encerrar outra conversa com distância seria repetir a pior parte de nós.

Ela para diante do quadro de regras. O envelope do acordo está preso atrás dele, visível apenas pela borda cor-de-rosa da pasta de Sofia, que aparentemente sou eu quando objetos recebem propriedade emocional. — Você queria me beijar na cabine? — pergunto. Elise não se vira. — Você sabe que sim. — Quero ouvir. Ela inspira devagar e finalmente me encara. — Queria. A resposta muda o espaço entre nós. Não porque seja surpresa, mas porque desejo nomeado deixa menos lugares para a dúvida se esconder. — Recuou porque queria pouco? — pergunto. — Recuo porque queria demais — responde, corrigindo o tempo verbal sem perceber ou escolhendo não esconder que o desejo continua presente. Meu coração bate com força suficiente para tornar qualquer frase ensaiada inútil. — Eu não posso prometer Paris, Ghent ou os próximos cinco anos esta noite — digo. — Posso dizer que penso em você quando acordo, que noto suas mãos antes de qualquer outra coisa numa sala e que odiei cada toque autorizado nesta semana porque precisava soltá-la depois. Elise aperta os lábios. Seus olhos ficam úmidos, mas ela não desvia nem tenta interromper. — Posso dizer que não voltei apenas pelo cinema. Talvez tenha começado assim, mas já não é verdade. — Sofia... — Também posso dizer que não quero usar o acordo para pedir isto. Aproximo-me até deixar apenas um passo entre nós. Não toco seu pulso. Não uso o código criado para câmeras, porque o que estou pedindo não pode parecer parte de uma estratégia. — Elise, posso beijar você? O silêncio dura tempo suficiente para que eu escute o relógio do saguão aproximar-se da meia-noite.

Ela olha para minha boca, depois retorna aos meus olhos. Sua respiração está rápida, e as mãos permanecem fechadas junto ao corpo. — Pode — responde. Não avanço imediatamente. A palavra que esperei durante dez anos exige cuidado quando enfim chega. Ergo uma mão e toco sua bochecha, oferecendo tempo para que recue se a resposta mudar. Elise inclina o rosto contra minha palma. Aproximo-me devagar. Nossos narizes se encostam, e a lembrança de todos os quase-beijos atravessa o espaço mínimo entre nossas bocas. Quando a beijo, o contato é hesitante por menos de um segundo. A boca de Elise está quente e macia, e o primeiro movimento parece uma pergunta que nenhuma de nós precisa traduzir. Ela segura minha cintura e me puxa para mais perto. O beijo se aprofunda com o peso de uma espera antiga, mas não se torna apressado. Existe desejo, cuidado e uma cautela que não reduz nenhuma das duas coisas. Minha mão desliza até sua nuca. Os cabelos se prendem entre meus dedos, e Elise solta um som baixo contra minha boca que desmonta o restante da minha prudência. Beijo-a novamente, mais firme. Ela responde com a mão aberta nas minhas costas, aproximando nossos corpos até não restar espaço para contrato, campanha ou fotografia. O sino do relógio começa a marcar meia-noite. Não contamos. Não paramos. O Aurora pode administrar sozinho doze sons enquanto Elise me beija diante da bilheteria onde discutimos regras para impedir exatamente aquilo. Sua boca se afasta apenas o suficiente para respirar. Mantém a testa encostada na minha, e os dedos continuam presos ao tecido da minha camisa. — Você ainda quer continuar? — pergunta, com a voz baixa e a respiração curta. A pergunta me atinge mais profundamente do que o beijo. Mesmo depois de anos de silêncio e semanas de desejo, Elise ainda oferece espaço para minha escolha. — Quero. Desta vez, ela me beija antes que eu me mova. Não há hesitação no início, apenas cuidado na forma como sua mão sobe até meu rosto. Minha boca se abre sob a dela. O beijo ganha calor, e preciso segurar seus ombros quando minhas pernas deixam de demonstrar compromisso com funções básicas.

Elise me conduz dois passos até o balcão. Minha cintura encosta na madeira, e ela para antes de pressionar o corpo contra o meu. A pausa contém uma pergunta. Respondo puxando-a de volta pela gola do vestido. Ela ri contra minha boca, um som curto e surpreendido. A sensação transforma o beijo em algo menos solene e mais nosso. — Você está amassando minha roupa — murmura. — Finalmente encontrei um defeito estrutural que não pretende consertar durante o beijo. — Não confie nisso. Beijo o canto de sua boca. Elise fecha os olhos, e meu polegar acompanha a linha de sua bochecha antes que eu volte aos lábios. Não avançamos além disso. A intensidade já parece grande o suficiente para exigir que continuemos presentes em vez de transformar o momento numa corrida. Quando nos afastamos, o relógio terminou de marcar meia-noite. A rua permanece vazia, e a placa ESGOTADO continua iluminada atrás de nós. Elise mantém as mãos na minha cintura. Eu continuo com uma palma em sua nuca, como se soltar completamente pudesse devolver a semana anterior. — Isto não resolve Paris — diz. — Eu sei. — Nem o que faremos depois das sessões. — Também sei. — Não quero que use o beijo para prometer uma coisa que ainda não decidiu. — Não vou. E você não pode usar a falta de promessa para fingir que ele não aconteceu. O canto da boca dela se move. Não chega a ser sorriso, mas perdeu a rigidez que carregou durante toda a semana. — Não conseguiria — admite. Olho para o quadro de regras. A cláusula cinco continua guardada dentro do envelope, intacta e oficialmente violada por duas mulheres que assinaram o próprio problema. — Precisamos revisar o acordo — digo. — Amanhã.

— Podemos acrescentar uma observação dizendo que a administração reconhece falha grave de previsão. Elise retira do bolso uma cópia dobrada das cláusulas, provavelmente usada durante a entrevista da comissão. Abre na página dos contatos físicos e encontra a linha que proíbe beijos. Rasga apenas aquela faixa de papel, separando a cláusula cinco do restante da cópia de trabalho. — Isso não altera o documento assinado — observo. — Eu sei. Amanhã revisamos corretamente. — Você acabou de cometer vandalismo administrativo simbólico. — E você está sorrindo como se tivesse recebido aprovação jurídica. Seguro o pedaço rasgado. A frase “Não haverá beijos” permanece legível até eu dobrá-la e guardá-la no bolso. — Prova histórica — explico. — Pode valer dinheiro quando o cinema ficar famoso. Elise toca minha bochecha. O gesto é simples, sem código ou plateia, e agora não precisa terminar dentro de um tempo combinado. — Boa noite, Sofia — diz, embora permaneça diante de mim. — Você pretende subir e me deixar aqui depois disso? — Pretendo trancar o cinema. — Resposta tecnicamente correta e emocionalmente suspeita. Ela me beija outra vez, curto e lento, antes de caminhar até a porta principal. Eu a acompanho para apagar as luzes. A placa de lotação desaparece na escuridão quando desligamos a última luminária. O beijo não oferece respostas sobre Paris, a fundação ou o futuro do Aurora. Mesmo assim, quando Elise segura minha mão para subir comigo até o escritório e guardar os relatórios, nenhuma de nós usa dois toques para pedir permissão.

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