Capitulo 1 SENTIMENTO MÚTUO
CAPÍTULO UM: SENTIMENTO MÚTUO.
Era meio-dia e as aulas haviam se encerrado. Camila estava no campo conversando com dois amigos. Ela contava sobre a dupla que teria de fazer. A única razão para ela contar a eles era para evitar comentários quando eles as vissem juntas.
— Aquela riquinha esnobe?! — Carmen fez uma expressão de repulsa.
— Ei, você também é bem de vida. — Leandro cutucou a amiga. — De qualquer forma, tente não agredi-la. Lembre-se de que para nós o réu primário é mais complexo. — Ele riu da situação.
— Eu sei bem disso, mas se ela provocar eu não vou bancar a boa samaritana. — Revirou os olhos.
— Aqui está você. — A voz de Ângela fez o grupo ficar em silêncio. — Precisamos conversar sobre o trabalho. A sós. — Olhou os amigos da colega.
— A gente se vê depois, pessoal. — Os amigos se despediram com um “boa sorte”.
Ângela guiou Camila pelo campos até chegarem à biblioteca. Elas foram para o mais longe possível e então a mais alta decidiu parar para conversarem.
— O que quer falar? — A menor segurava a alça da mochila.
— Sobre o trabalho, eu tenho um apartamento na cidade. — Ela segurava os livros contra o peito para manter uma distância entre elas. — Vamos nos encontrar lá para fazer as pesquisas.
— Por quê? Não quer que seus pais saibam que você está fazendo trabalho com uma pobre coitada? — Rio de canto, divertindo-se com a provocação.
— Exatamente. Pessoas como eu não deveriam andar com gente como você. — Agora quem estava rindo era Ângela, ela sabia como irritar a colega de igual para igual. — O que vai fazer agora?
— Tenho treino de vôlei em alguns minutos, mas à tarde estarei livre. — Camila tenta ignorar a provocação.
— Então eu espero você e, quando terminar, vamos para o apartamento.
— Está com tanta vontade de ficar a sós comigo? — Mais uma provocação vinda da menor que não aceita ficar por baixo.
— Nos seus sonhos, agora anda que não tenho o dia todo. — Saiu ignorando a presença da menor.
Na quadra, Camila e suas colegas de equipe treinavam enquanto Ângela lia seu livro e, vez ou outra, desviava o olhar para a menor. Os olhos acompanhavam os lances minimamente calculados, os saltos dados por Camila chamaram a atenção da loira, pois não esperava tal agilidade de alguém de pouco mais de um metro e setenta.
— Vamos parar por hoje, meninas. — Camila segurou a bola.
— É menos do que estamos acostumadas a treinar. —
— Vocês podem continuar, mas eu preciso sair. — Devolveu a bola. — Tenho um trabalho a fazer e nos próximos dias terei de sair mais cedo.
— É melhor que isso não atrapalhe o time. — Uma moça de cabelos ruivos e sardas se aproximou.
— Não vai não, Carol. — A menor saiu para o vestiário.
Minutos se passaram e Camila saiu com outra roupa e sua inseparável jaqueta. Ao se aproximar de Ângela, a mais alta levanta pronta para sair.
— Finalmente. Achei que ia morar lá.—
— Vamos. Esqueceu que não temos o dia todo? — Camila saiu caminhando na frente da colega.
— Vamos no meu carro. — Ângela passou à frente.
— Você tem um carro? — Camila olhava surpresa. Nunca havia parado para observar a vida da jovem, mas não devia estar tão surpresa, pois já sabia o quão rica era a família da loira.
— Claro que tenho. — Ângela falou como se fosse óbvio.
Ao chegarem no estacionamento, foram direto a um Chevrolet prateado. Entraram no veículo e sentaram lado a lado, Ângela dirigiu para fora em direção ao seu apartamento. Sem engarrafamento e sem precisar conversar, foi a viagem mais curta que fizeram até então e, em quinze minutos, elas chegaram a um prédio não muito longe da universidade.
— Nossa, isso aqui deve ser bem caro. — Um assobio cortou o ar quando as duas entraram no local.
— Hm, deve ser mais caro que a sua casa. — Colocou os livros e o notebook em uma mesinha de centro.
— Dessa vez eu tenho que concordar. — Parou próxima ao sofá. — Eu posso sentar ou vossa alteza deseja colocar um paninho antes? — Debochou novamente.
— Você é tão ridícula. — Colocou alguns copos com água sobre a mesa. — Vamos começar. Quanto mais rápido começarmos, mais rápido eu fico livre do tormento de te ver todo dia. — Ângela respondeu.
— O sentimento é mútuo. —
Os estudos se iniciaram com alfinetadas e provocações, mas avançaram bastante, afinal, eram as melhores da turma e, mesmo que não se suportassem, elas sabiam como ignorar suas diferenças pelo bem de seus futuros. Elas devoraram páginas e artigos sobre o tema apenas para terem uma ideia inicial de como abordar o tema, ainda assim não chegaram a grandes conclusões.
— Eu preciso ir. — Falou ao olhar seu relógio. — Já estamos nisso há mais de duas horas. — Pegou os livros para guardá-los na mochila.
— É, eu concordo. — Ângela se espreguiçou e bocejou cansada. — Quais dias você vai ter livre para estudarmos? —
— Vou poder vir amanhã, mas os fins de semana não posso. — Conferiu o celular.
— Está bem. Se houver alguma mudança, me avisa, quero me organizar para evitar demoras. — Ângela pegou o celular. — Coloca o seu número. — Entregou para a menor.
— Só uma tarde e você já quer meu número? — A menor sorriu de canto.
— Idiota, é só para termos um meio de nos comunicar caso algo dê errado. — Ângela entregou o celular e Camila colocou seu número. — Vou colocar meu número no seu também. — A jovem pegou o aparelho que estava com a tela trincada em vários lugares. — Isso aqui é mais velho que minha mãe. — Entregou após concluir a tarefa e pegou os copos sujos.
Quando foi guardar os copos, Camila saiu sem se despedir, deixando sua colega irritada pela grosseria. Ângela guardou seus materiais enquanto ouvia seu celular vibrar sobre a mesinha.
— Alô! —
“Oi, Ângela!”, a voz do outro lado era feminina e parecia empolgada.
— Oi, Letícia. —
“Sabe aquele vestido que meu professor pediu para fazer?”, a voz de Letícia era de pura alegria.
— Aquele azul com detalhes dourados? — Pegou os pratos nos quais serviu alguns lanches, lanches os quais Camila sequer tocou.
“Esse mesmo, ele adorou o resultado”, a mulher afinou ainda mais a voz. “Eu recebi a segunda maior nota”.
— Que bom, amiga! — Ângela abriu um largo sorriso. — Eu sabia que você conseguiria. Você é a melhor estilista que conheço. — Colocou os pratos sobre a pia e jogou a comida que Camila não comeu no lixo.
“Você não faz ideia de como eu estou feliz”.
— Eu também estou muito feliz. — Começou a lavar tudo. — Vem para o meu apartamento e a gente comemora. —
“Já estou no meu carro”. O som de uma porta batendo alertou Ângela.
— Vou pegar um vinho e avisar meus pais que vamos ficar aqui essa noite para comemorar. — Avisou sorrindo.
A ligação se encerrou e Ângela lavou tudo que havia sujado ao estar com Camila. Após tudo estar limpo, ela se dirigiu ao banheiro e tomou um banho. A água morna levou as tensões que seu corpo acumulou durante o dia. Enquanto a água caía sobre seu corpo, os pensamentos da mulher se voltaram ao breve momento em que esteve observando o treino de vôlei. Sem permissão, seus pensamentos se voltaram para o porte atlético da colega, suas pernas firmes, os braços fortes com uma tatuagem lhe fizeram soltar um suspiro e, instintivamente, ela acariciou os seios que estavam rígidos.
— Mas que porra é essa? — Falou, lembrando quem era o motivo de seu corpo estar agindo daquela forma. — Eu devo estar precisando muito transar. —
Ângela saiu do banheiro e logo pegou o celular, ligando para sua mãe. O celular tocou por algum tempo e, enquanto isso, ela escolhia uma roupa. Quando finalmente foi atendido, uma voz estridente e estranhamente alegre questionava sobre onde a filha estava.
“Então você vai ficar com a sua amiga”, a voz da mulher parecia desapontada.
— Eu posso dizer para ela vir outro dia. — Segurou o celular com força, temendo desapontar a mãe.
“Está tudo bem. É só uma noite longe do meu bebê”.
— Tem certeza? Se a senhora quiser, eu cancelo tudo. — Seu coração estava levemente acelerado.
“Tudo bem, querida”, sua voz estava mais calma. “Eu vou ficar com minhas amigas essa noite. Agora eu preciso ir, beijos”.
Ângela largou o celular para vestir as roupas e esperar a amiga. Poucos minutos se passaram e duas batidas na porta anunciaram a chegada da amiga. Letícia era uma mulher alegre, de longos cabelos ruivos ondulados, olhos grandes e magra. Seu sorriso era sua marca registrada, além de seu fascínio pela moda.
A jovem encarava a moda como uma das formas de expressão mais verdadeiras e bonitas, porém ainda não conseguiu se formar apesar de estudar a bastante tempo. A conversa sobre o vestido tomou a maior parte do encontro, porém Ângela mantinha os olhos fixados no celular para garantir que qualquer mensagem de sua mãe seria lida e respondida. Assim, passou a maior parte da tarde e da noite entre conversas e verificações das mensagens.
— O Rafael não vai aparecer aqui? — Letícia bebia o vinho com delicadeza.
— Não. Combinamos de nos vermos só no fim de semana. — Pegou alguns biscoitos.
— Entendo. — Letícia parecia desapontada. — Vocês realmente se sentem confortáveis com todo esse tempo separados? Quer dizer, a maioria dos casais gosta de ficar sempre junto. —
— Estamos sim, sempre fomos assim. — Ângela deita no colo da amiga. — Ele é bastante compreensivo com meu próprio tempo. — Relaxou, recebendo um cafuné da amiga.
— Ele é o namorado perfeito. — Os olhos da ruiva brilharam levemente. — Quer dizer, toda mulher quer um homem que respeite seu tempo. — Se apressou em corrigir a fala ao perceber que poderia estar falando demais. — E ele é bonito, então é o que a maioria quer, mas além disso é inteligente, educado. — Forçou um sorriso enquanto tentava acalmar a própria respiração. — Ângela? — Olhou a amiga e percebeu que havia adormecido e então a abraçou. — Ele é o namorado perfeito mesmo. — Suspirou, olhando para fora da janela.
O suspiro de Letícia era de alguém apaixonado e, em seus braços, Ângela abriu os olhos devagar, olhos que estavam tristes e cheios de ressentimentos por saber os sentimentos que a amiga nutria e que guardava por sua causa.