Capitulo 2 FOI SUA CULPA
CAPÍTULO DOIS: FOI SUA CULPA.
A primeira semana de estudos passou estranhamente rápido. As mulheres, apesar de brigarem, estavam avançando bastante no trabalho. Suas pesquisas eram avançadas e o trabalho logo seria concluído. Mais uma vez sentadas no sofá, devoravam os livros e teses sobre o assunto. Elas não trocavam palavras desnecessárias durante os estudos e isso parecia incomodar a loira.
— Posso fazer uma pergunta? — Ângela digitava sem ao menos olhar a colega.
— Se tiver a ver com o assunto, pode. — Camila olhava seu notebook, a afirmação fez a loira revirar os olhos.
— Por que você nunca come os lanches que eu sirvo? — Desviou os olhos para ver como ela reagiria à pergunta.
— Eu não como na casa de gente rica. — Camila nem se deu ao trabalho de olhá-la.
— Você não almoçou, pelo menos hoje deveria comer alguma coisa. — Parou de digitar.
— Não, obrigada. —
— Sabia que orgulho não enche barriga? — Largou o notebook.
— Não é orgulho, apenas sei meu lugar. — Continuou lendo a pesquisa.
— Somos uma dupla fazendo um trabalho, não quero te ver desmaiar de fome e atrapalhar as pesquisas. — Ângela continua olhando a mulher que não desvia o olhar um segundo da tela.
— Se essa é sua preocupação, pode se acalmar. — Desviou os olhos para a mulher. — Eu não vou atrapalhar a conclusão do trabalho. — Seu olhar era sério e frio. Havia também uma faísca de raiva que Camila nutria desde o dia em que ambas se viram pela primeira vez, mas que sempre tentava ignorar.
Elas permaneceram em silêncio até que concluíram mais um dia de estudos. Camila, mais uma vez, saiu, deixando Ângela arrumando a pouca bagunça que fizeram. Assim foram os dias de estudo da semana. Faltavam poucos dias para apresentarem seus trabalhos e mais uma vez Ângela observava a colega em mais um treino de Camila.
— Você faz o saque dessa vez. — Camila dá a bola a Carol.
A ruiva se preparou e então sacou a bola em direção ao outro lado, a bola foi recebida por outra garota e se iniciou um rali. Camila defendia sua quadra como podia e, a alguns metros de distância, Ângela observava o jogo. Na verdade, seus olhos estavam mais voltados para Camila, que suava e pulava mais alto que qualquer uma. O que faltava em tamanho, a jovem compensava com os saltos, parecia que a gravidade não a atingia quando saltava. Ângela pegou seu celular e gravou alguns lances que tinham como foco a morena em suas defesas absurdamente bem-feitas.
— Você está aqui. — Uma voz masculina tirou a concentração da loira.
— Amor! — Levantou-se para abraçar o namorado, o tom entusiasmado era falso, mas o rapaz não notou.
— Estava com saudade. — O rapaz aproveitou a aproximação para roubar um beijo desajeitado de Ângela. — Por que está aqui? —
— Esperando o treino dela acabar para terminarmos os trabalhos. — Apontou para Camila.
— Entendi, mas poderia ter me procurado enquanto ela está aqui. — Segurou a moça pela cintura. — Faz tempo que não nos vemos. — Tentou beijá-la mais uma vez.
— Rafael. — Ângela se afastou. — Eu estava fazendo pesquisas, não posso me distrair. —
— Um beijo não vai roubar tanto sua concentração. — Rafael sorrio de canto.
Ângela desviou o olhar um instante e percebeu que Camila a observava, por impulso, ela puxou o namorado e o beijou. Rafael não soube ao certo como reagir no início, mas a mulher estava no controle da situação.
— Certo, meninas, vamos parar por hoje. — Camila parou seu lance.
— Acho que no próximo jogo teremos uma bela vitória. — Melissa, a ponteira, comentou.
— Não sejam autoconfiantes demais. Não podemos subestimar as adversárias. — A morena pegou uma garrafa de água.
— Ela está certa. Ter confiança é bom, mas ter cautela é essencial. — Carol ficou ao lado da menor.
— Vou tomar banho. — Deu um tapinha na bunda da colega de equipe.
— E como está seu trabalho? — Ângela perguntou enquanto guardava seus livros com a ajuda de Rafael.
— Estamos quase terminando. São vocês que parecem querer fazer um TCC antes da hora. — O rapaz sorrio da dedicação da namorada.
— Nossa futura profissão requer dedicação aos estudos. Vocês não podem ser tão relaxados com isso. — Olhou brava para o homem. — A vida de muitas pessoas vai estar nas nossas mãos. —
— Você se preocupa demais. Vamos estar todos prontos quando formos trabalhar. — O rapaz parecia não se importar com as preocupações da namorada e isso a irritava. — De qualquer forma, eu preciso ir. A gente se vê depois. — Beijou a companheira e saiu.
Ângela ficou alguns minutos ali enquanto as demais alunas seguiam treinando. Carol já não estava mais na quadra e Camila estava demorando para voltar. Cansada de esperar, ela foi até o vestiário à procura de sua parceira para que pudessem ir até o apartamento. O local estava quase vazio, mas um som baixo chamou sua atenção.
— O que aquela ridícula está fazendo? —
Ela caminhou sem fazer barulho até que viu Camila contra a parede e Carol a beijando. A cena a fez recuar. Os lábios das duas pareciam dançar, parecia tão natural, diferente do beijo que dera em seu namorado poucos minutos atrás. Os beijos não paravam por mais que dois segundos e já eram reiniciados.
— Droga. — Ângela saiu correndo ao se dar conta de que estava ali há mais tempo do que gostaria.
— O que foi? — Carol olha para Camila, confusa, após ela se afastar.
— Parece que eu ouvi passos. —
— É só impressão. — Tentou continuar o que estava fazendo, mas foi afastada.
— Eu tenho que ir, preciso terminar o trabalho. — A menor pegou sua mochila.
— Achei que queria ficar mais tempo comigo. — Abraçou a menor por trás.
— Olha, é muito legal ficar com você e tal, mas a gente não… — Suspirou profundamente, frustrada por ter que repetir mais uma vez o que já haviam combinado.
— Entendo. — Carol interrompeu. — Sem namoro. — Ela se afastou.
— A gente pode sair na sexta. Nossa apresentação do trabalho é quinta. — Sua oferta era mais uma tentativa de reparar o estrago nos sentimentos da amiga.
— Não, obrigada. — Deu de ombros, fingindo ser mais forte do que era. — Vou sair com umas amigas.
— Então, até amanhã. —
Ao sair do banheiro, Camila não encontra Ângela e sai à sua procura. Ela vai até o estacionamento e lá encontra sua dupla dentro de seu carro. Duas batidas no vidro fazem a loira se assustar, mas ver a face da morena a deixou mais nervosa do que qualquer outra coisa.
“Haja naturalmente”, dizia para si mesma enquanto a mulher entrava no veículo. “Você já viu pessoas se beijarem antes, não foi nada demais”, ela repetia em pensamentos enquanto dirigia pelas ruas.
No apartamento, a revisão do trabalho foi tensa por parte de Ângela. Seus pensamentos iam e voltavam para a cena que, sem querer, testemunhou, e ter a protagonista de tal cena a seu lado era estranhamente interessante.
— Você errou algumas palavras no final. — Camila digitou para corrigir.
— Desculpe, eu me distraí. —
— Preste mais atenção. Não estarei nos próximos trabalhos para corrigir seus erros. — Camila estava séria como sempre.
— Já pedi desculpas. — Alterou a voz irritada. — Por que você nunca para de me provocar? — Olhou irritada a menor.
— Irritar você não é minha intenção, é apenas um bônus. —A morena da situação.
— Ridícula! Idiota! — Ângela virou para olhá-la. — Você é tão arrogante e fria. — Ela olhou o rosto rígido e bem desenhado da outra.
— Sua companhia não ajuda muito a relaxar. — Encarou intensamente a colega com aqueles olhos verdes claros.
— Eu estou fazendo meu melhor para você se sentir bem, mas você continua irritando como se essa fosse sua principal função aqui. — A essa altura, ela quase gritava enquanto encarava os lábios carnudos de Camila. O sorriso pretensioso não ajudava Ângela a se conter diante das diversas emoções que sentia desde que viu aquele beijo. — Então você quer relaxar? —
Em um ato de impulsividade e tesão, Ângela segurou o rosto de Camila e a beijou desajeitadamente. Os lábios se tocavam de uma maneira rude, pouco romântica ou coordenada, a menor tentava se desvencilhar da colega, mas aos poucos cedeu. O beijo ficou mais calmo e tranquilo e Camila segurou a nuca da maior, encaixando melhor o beijo. Beijo que demorou bastante para ser encerrado, mas que, ao perceberem o que tinham feito, as jovens se afastaram como se a outra estivesse com uma doença contagiosa.
— Que porra você estava fazendo? — Ângela empurrava sua colega.
— Eu? Você que me beijou, maluca! — Camila estava vermelha.
— Eu beijei? — A morena colocou as mãos na cabeça. — Por que eu fiz isso? —
— Olha, eu não faço ideia do que você pretende, mas eu vou embora. — Pegou sua mochila e saiu do apartamento sem sequer esperar resposta da colega.
Na rua, Camila olhava para uma pedra que chutava constantemente enquanto caminhava. As pessoas desviavam da jovem ao ouvirem suas reclamações.
— O que diabos ela estava pensando? — Chutou a pedra para longe. — Aquela vadia queria me provocar? — Cerrou os dentes. — Mas que merda. — Chutou a pedra com tanta força contra uma parede que a mesma ricocheteou e acertou sua perna. — Inferno. — Seu grito chamou atenção dos estranhos que a olharam acreditando se tratar de alguém com problemas mentais. — Que porra foi aquilo? — Se encostou na parede para relaxar.
O tempo passou e no dia seguinte Camila chegou à faculdade muito cedo, ela ignorou os amigos e foi para a sala preparar sua apresentação. Ela estava anotando algumas coisas quando viu sua colega entrar. Os olhares se cruzaram por alguns segundos e foi o suficiente para as lembranças do dia anterior voltarem com tudo.
— Bom dia. — Ângela se aproximou.
— Bom dia. — Camila não a olhou, temendo o rubor que poderia surgir.
A aula começou e a dupla se preparou para sua apresentação. Como esperado, o desempenho estava acima da média. As moças explicaram o assunto e responderam às perguntas sem qualquer dificuldade e, ao final, receberam a maior nota, o que não foi uma surpresa para os colegas das duas.
O restante das aulas passou com olhares discretos, ou não tão discretos, entre as moças. Quando finalmente tudo se encerrou, Ângela saiu antes de todos e seu namorado foi logo depois. Camila foi ao encontro dos amigos para almoçarem antes dos treinos.
— Já disse que não vou a essa festa! — A morena já estava irritada por ter de dar a mesma resposta novamente.
— Você está precisando se divertir. — Leandro tentava convencer a amiga.
— Não. — Guardou seus livros. — Agora eu vou para o meu treino. — Saiu sem esperar o amigo falar.
— Eu falei que ela não ia. — Carmen comentou, passando mais uma página de sua apostila.
— Ela vai. Eu tenho uma semana para convencê-la. — O rapaz pegou o suco e bebeu.
— Acho melhor você não fazer isso. — Carmen alertou o amigo.
— E por quê? Por que você não quer ela com outras garotas? — Sorriu de lado e foi acertado por uma borracha.
— Ela não quer ir. Você devia respeitar as vontades dela. — Carmen levantou a sobrancelha.
— Eu sou amigo dela desde sempre, eu sei o que ela precisa. —
— Não acha que isso impede você de ver os limites da relação de vocês? — Pegou o suco do rapaz.
— Olha, eu conheço ela, sei do que precisa. — Seu sorriso convencido irritava Carmen.
— Em vez de pensar nessa festa, você deveria estar estudando. Suas notas não foram as melhores e desse jeito você não vai se formar. —
— Eu não gosto de fazer isso. — O rapaz desviou o olhar, aquele era um assunto que o deixava desconfortável.
— Mesmo assim, deveria estudar. — Voltou seu olhar para o papel sobre a mesa.
— Eu tento, ok? Mas eu não consigo manter as informações na minha cabeça. Eu me distraio com tudo. — Voltou a olhar a moça, mas dessa vez estava triste. — Não sou tão inteligente quanto você. — O rapaz parecia frustrado.
— Eu não sou tão inteligente, eu só tenho mais tempo para estudar. Se quiser, eu posso te ajudar. — Deu espaço para ele sentar ao seu lado.
— Pra você brigar comigo a cada lição? — Leandro bufou.
— Prometo que não brigo se você prometer levar os estudos a sério. — Carmen propôs rapidamente.
— Está bem, mas não me xinga se eu não conseguir aprender. —