Capitulo 12 QUEBRA DE CONFIANÇA Dificuldades De Um Amor · Capítulo 13 de 25
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Capitulo 12 QUEBRA DE CONFIANÇA

CAPÍTULO DOZE: QUEBRA DE CONFIANÇA

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Foi uma das poucas vezes que Ângela sentiu calafrios em sua espinha perto da amiga. Letícia era a pessoa que Ângela tinha o maior carinho possível, mesmo que às vezes fosse um pouco rude, sempre teve muito amor pela amiga e agora estava confiando a ela seu segredo.

— Está me dizendo que você é... — Letícia olhou a amiga. ​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌‌​​​‍

— É... eu acho que sou. — A loira se encolheu.

— Você tem que falar para os seus pais, não pode casar com um homem sendo que você gosta de mulheres. — Letícia se aproximou da amiga. — Isso seria um tormento. — ​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌‌​​​‍

— Ficou maluca? Já viu meu pai e minha mãe falando sobre gays? Sem falar que esse casamento foi planejado desde que éramos crianças. — Ângela falou alto, um pouco mais alto do que desejava.

— E daí? A sua felicidade é mais importante. — Letícia quase gritava e já estava fazendo Ângela se arrepender. ​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌‌​​​‍

— Fala baixo, por favor. — Pediu, segurando a amiga pelo braço. — Olha, eu só contei pra você porque estou muito confusa, mas se você continuar insistindo nessa ideia, eu vou ter que brigar com você. — Falou esperando que a amiga entendesse. — Você pode só me dar o apoio emocional que eu preciso agora? — O ar nos pulmões de Ângela era expelido com violência devido à agitação, mas ela conseguiu expressar o que queria.

— Desculpe, é que... eu não sei como agir. — ​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌‌​​​‍

— Só me dá um abraço. — Ângela deitou-se nos braços da amiga.

— Como você descobriu que gostava de mulheres? — Letícia fez carinho nos cabelos loiros da amiga. ​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌‌​​​‍

— Eu não tenho certeza. Eu achei que era só uma curiosidade, talvez eu até goste de homens também... mas ultimamente eu tenho até... nojo de pensar em algo mais íntimo com eles. —

— Você já se sentiu atraída por uma mulher? — A pergunta de Letícia fez a imagem de uma certa jogadora surgir na mente de Ângela. ​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌‌​​​‍

— Não... exatamente. — A loira se encolheu.

— Vai contar para o Rafael? — Apertou a loira em seus braços. ​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌‌​​​‍

— De jeito nenhum. — Ângela roçou o rosto nos braços da amiga, sentiu o peito de Letícia se encher de ar e já imaginou o que viria a seguir. — Não, eu não quero pensar sobre o que vou fazer agora... — Letícia se aquietou. — Esse é um problema que eu não sei se consigo encarar. —

— Bom, quando estiver pronta para contar, eu estarei ao seu lado. — Letícia falou e enquanto apertava Ângela. ​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌‌​​​‍

As amigas dormiram juntas naquela noite. Ângela se sentia segura com a amiga perto e, para além disso, sentia alívio por explanar para alguém o que sentia, mesmo que de forma incompleta e confusa. A manhã seguinte não foi tão boa quanto Ângela esperava, a sensação de alívio da noite anterior deu lugar a um desconforto, desconforto por saber que sua amiga agora tinha acesso a uma nova camada de sua vida, uma parte que ela mesma ainda estava descobrindo.

A loira levantou antes da amiga e foi até a cozinha fazer café para as duas, fez ovos mexidos e um suco, pois Letícia não se dava bem com café. Letícia se juntou à mesa e as duas comeram juntas. Havia um silêncio desconfortável e a ruiva sabia disso, sentia que cabia a si perguntar. ​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌‌​​​‍

— Se sente melhor? — Olhou a amiga enquanto bebia o suco.

— Hm? Ah, estou sim. — Ângela estava distraída, olhando para fora através da janela. ​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌‌​​​‍

— Olha, sobre o que contou ontem, fica tranquila, eu não vou ficar perguntando ou falando sobre. Só quando você quiser, eu vou respeitar seu espaço. —

Os olhares se cruzaram e houve ali uma conexão que apenas uma amizade verdadeira poderia ter. Era como se ambas tivessem corrido para um abraço sem sair do lugar. Um sorriso largo encerrou o incômodo que havia entre as jovens e puderam continuar com o desjejum conversando sobre os filmes que viram. ​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌‌​​​‍

— Você vai sair hoje ou vai continuar as pesquisas? — Letícia perguntou, arrumando suas coisas para ir embora.

— Eu vou visitar meus pais hoje. Querem me levar para o hospital. — Ângela se jogou na cama. ​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌‌​​​‍

— Boa sorte, e tente não se estressar com as cobranças deles. — Tudo que Letícia levou para a casa da amiga já estava em sua mochila.

— Tchau. Ligo pra você à noite. — Ângela abraçou a amiga já em frente à porta. — E não esquece de trancar a porta. — ​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌‌​​​‍

Ângela se arrumou, vestiu uma roupa branca para o caso de o pai a levar para ver alguma coisa importante no hospital. Combinou de encontrar os pais em frente ao hospital que o homem comandava. Às duas da tarde, os três se encontraram e puderam finalmente começar a visita.

— Então, o que queriam que eu visse? — Perguntou a loira, caminhando ao lado do pai. ​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌‌​​​‍

— Está mais para os demais funcionários se acostumarem com você por aqui. — O homem caminhava com suas mãos no jaleco.

— Então isso é uma espécie de apresentação? — Ângela perguntou enquanto passavam pela enfermagem. ​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌‌​​​‍

No local, algumas mulheres estavam fazendo atendimento primário, cuidando de alguns ferimentos que não eram urgentes. As enfermeiras e enfermeiros olharam para o homem enquanto ele passava, havia um desconforto como se não quisessem ele ali. Compreensível, já que ninguém gosta quando uma autoridade aparece de surpresa.

Continuaram em seu caminho, passando pelo local onde coletam sangue, a maternidade, os leitos onde estão os pacientes em recuperação, passaram também pela UTI e, por fim, pararam no refeitório, onde encontraram alguns médicos amigos de Daniel tomando café. O homem os cumprimentou com um aperto de mão forte seguido de um abraço. Todos ali conheciam Ângela e tinham grandes expectativas nela. ​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌‌​​​‍

— Estamos ansiosos para que venha trabalhar conosco, jovem. — O doutor Henrique falou. Era um homem de uns sessenta anos, mas com aparência imponente para a idade.

— Também estou ansiosa. — Os olhos de Ângela se iluminaram. ​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌‌​​​‍

— Seu pai sempre fala de suas excelentes notas. Tenho certeza de que será uma das maiores cirurgias do país. — Henrique continuou com os elogios. Daniel pôs a mão no ombro da filha e sorriu orgulhoso.

— Ela será sim. Minha filha tem muito potencial. — Daniel tinha um sorriso largo e a postura altiva. — Ela fará de nosso hospital o maior do país. — Olhou para a filha que deu um sorriso amarelo. ​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌‌​​​‍

— Não tenho a menor dúvida a respeito disso. —

— Agora temos que ir. Bom dia, meu amigo. — ​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌‌​​​‍

O próximo local a ser visitado era a área de câncer. As pessoas esperavam sua vez para serem atendidas. Havia pessoas de várias classes por todo o hospital, mas naquela área não havia tantas pessoas mais pobres.

— Aqui só tem pessoas da classe média alta, pai? — Perguntou a loira, passando pelas salas. ​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌‌​​​‍

— A maioria dos nossos clientes são pessoas de classe média, filha. Os pobres não podem gastar com nossos serviços. — O homem olhava os pacientes. — Tratamento para câncer é caro. —

— Não podem tornar os preços acessível a eles? — ​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌‌​​​‍

— Se baixarmos os preços, não poderíamos pagar os profissionais e aí não seríamos um hospital de elite e teríamos a qualidade de um hospital público. — Daniel respondeu. Achava a pergunta da filha um tanto ingênua e pouco ligava para suas intenções.

— Mas poderíamos receber mais pessoas. — Comentou Ângela. ​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌‌​​​‍

— Filha, o que faz do nosso hospital um hospital de elite é a classe à qual atendemos. — Daniel comentou.

— As pessoas da classe C devem ter direito à saúde. — ​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌‌​​​‍

— Para eles, tem a rede pública. — Michelle interrompeu.

— Não somos instituição de caridade, eles não são problema nosso. — Daniel completou. ​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌‌​​​‍

— Mas... —

— Filha, não vamos aborrecer seu pai com esse assunto. Viemos aqui para você se preparar ​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌‌​​​‍

Ângela ficou em silêncio com a invertida de sua mãe. Não sabia como continuar o assunto e achou melhor acatar sua mãe e parar com suas perguntas. A visita ao hospital terminou após duas horas. Ângela estava feliz com a visita, apesar de tudo, pois teve a chance de ver novas alas e ver mais sobre os atendimentos.

— Gostou da visita, filha? — Daniel perguntou, olhando a filha. ​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌‌​​​‍

— Foi bastante interessante. Gostei muito de ver o tratamento para o câncer e os cirurgiões. —

— Só espero que você não tente transformar nosso hospital em uma instituição de caridade quando assumir. — Comentou o homem enquanto caminhavam em direção ao estacionamento. ​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌‌​​​‍

— Não se preocupe, pai. — Ângela fechou os olhos após a fala de seu pai.

— Ótimo. Não queremos encher o hospital pelo qual tanto lutamos, cheio de pobres barulhentos e sem educação. — Michelle comentou, caminhando à frente da filha que apenas cerrou os dentes. ​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌‌​​​‍

Ângela se despediu dos pais e seguiu até seu carro. Antes de dar a partida, decidiu mandar uma mensagem para a mulher que havia se tornado seu consolo para todas as frustrações e desgostos. Queria encontrá-la o mais rápido possível. Dirigiu pela cidade com impaciência e ansiedade para chegar em casa.

Ao chegar em casa, encontrou Camila na porta de seu apartamento. A morena estava mexendo no celular, provavelmente estava mandando uma mensagem para Ângela, cobrando sua presença no local. Assim que se encontraram, as mulheres engoliram em seco, um cumprimento rápido e ambas entraram. ​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌‌​​​‍

— Já estava indo embora. — Camila falou, retirando a jaqueta.

— Você ainda tem uma chave. Podia ter entrado. — ​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌‌​​​‍

— Eu não faria isso. Podemos ser rápidas hoje? Preciso ir para o trabalho logo depois. — Camila sentou no sofá.

— Na verdade, eu estava pensando se nós poderíamos só conversar hoje. — ​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌‌​​​‍

— Conversar? Sobre o que? — Camila olhou confusa para a loira.

— Sei lá, acho que só preciso de um pouco de companhia. — Sentou-se ao lado da morena. ​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌‌​​​‍

— E você quer a minha companhia? — A jovem estava incrédula. — Por que não chamou seu namorado ou a sua amiga Letícia? —

— Ela está ocupada e o Rafael mais atrapalha do que ajuda. — A dona do apartamento jogou a cabeça no sofá. ​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌‌​​​‍

— Não tinha mais ninguém? Precisava ser eu? — Olhou de canto de olho.

— Olha, se você quiser ir embora, pode ir. Eu vou pagar pela visita. Eu chamei você aqui porque queria companhia de alguém que não ia ficar fazendo perguntas. Achei que estávamos nos tornando amigas o suficiente para isso, mas você ainda age como se fossemos inimigas. — Ângela levantou irritada e virou as costas para a morena. — Então pode ir, se quiser. — ​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌‌​​​‍

— Espera, desculpe, eu... — Camila levantou-se e segurou a colega pelo braço, sem apertar forte. — Eu não esperava que você me chamasse aqui para isso. Eu posso te fazer companhia sim. — Sua voz estava baixa, tranquila como se estivesse falando com os amigos.

— Obrigada. — Ângela virou-se para a parceira. ​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌‌​​​‍

Ângela pegou duas garrafas de cerveja e colocou uma sobre a mesa enquanto bebia a outra. As duas estavam lado a lado. A distância entre elas era curta e a loira acabou repousando sua cabeça no ombro da parceira. Camila arregalou os olhos com a ação da colega, mas não a afastou, ela se manteve parada em seu lugar.

— Você não vai beber de novo? — Perguntou a loira. — É porque sou eu quem está oferecendo? — ​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌‌​​​‍

— Não é isso. Eu vou trabalhar depois daqui, não posso beber e ir para o restaurante. — A voz de Camila estava baixa, amena e acolhedora, o contrário de como sempre esteve.

— Hm, então eu bebo. — Pegou a segunda garrafa e começou a beber. ​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌‌​​​‍

— Tente não se embriagar. — Comentou Camila.

— Você já pensou sobre o motivo de fazer esse curso? — Perguntou, ignorando o conselho da outra. ​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌‌​​​‍

— Claro. Foram perguntas que me fiz todos os dias antes de fazer o vestibular. —

— Mas você já pensou que talvez esse motivo não seja o bastante para continuar? Sei lá. Talvez não consiga fazer o que você idealizou no começo. — Os olhos de Ângela estavam atentos à garrafa em suas mãos. ​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌‌​​​‍

— Às vezes, mas não posso deixar que isso me pare. Eu fui longe demais para dar atenção a essas dúvidas. —

— É, mas às vezes... você não quer desistir? — ​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌‌​​​‍

— Eu não tenho essa escolha. — Os olhos de Camila se tornaram tristes.

— Eu não estou falando de escolha, mas de desejo. Você tem vontade de desistir? — ​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌‌​​​‍

— Hm. Sim, às vezes eu queria largar tudo e focar em ser jogadora de vôlei. —

— Você é ótima jogando, aposto que se sairia bem em qualquer time grande. — Ângela sorriu. ​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌‌​​​‍

— Eu já estou perdendo as esperanças. Só quero aproveitar esse último campeonato que vou participar. — Camila sorriu.

— Não vai perguntar o motivo das minhas perguntas? — ​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌‌​​​‍

— Você disse que não queria que fizessem perguntas. —

— Obrigada. Você é uma ótima ouvinte, melhor que a maioria. — ​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌‌​​​‍

Elas ficaram em silêncio por alguns minutos. Camila não queria ou sentia vontade de fazer perguntas, já Ângela estava com o coração mais tranquilo perto da morena.

— Eu visitei o hospital que meu pai comanda. — A loira olhava para a mão de sua companhia. — Era tudo muito legal, os pacientes são bem cuidados, todos os profissionais tratavam os pacientes com total atenção. — ​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌‌​​​‍

— Que bom. —

— É, mas todos os pacientes eram de classe média alta. A classe C só estava apenas pagando por algum exame ou atendimento rápido. — Ela suspirou frustrada com a lembrança. — Os tratamentos mais longos não são acessíveis aos mais pobres. — ​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌‌​​​‍

— Isso é cruel. —

— Sim, mas o que mais me incomodou foi o que meus pais disseram. — Ela continuava olhando a mão da colega. — Eles acham que as coisas têm que continuar assim, que se houver tratamento acessível para todos, o hospital perderá seu status e seu valor. — Suspirou frustrada. — Quando eu comecei a me interessar por medicina, eu queria salvar as pessoas, sabe? Queria cuidar e salvar todos, não somente as pessoas que têm condições de pagar. — ​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌‌​​​‍

— É um bom motivo para fazer o curso. — Camila comentou, era bom saber que a loira se importava com as vidas humanas e não apenas com os bolsos delas.

— É, mas meus pais acham que é bobagem, como se eu quisesse transformar o hospital em uma ONG ou público, sei lá. — A loira se encolheu. — Eu só sei que eles não gostam das minhas ideias. — Ela pegou na mão da morena e levou seu braço para colocá-lo sobre seu ombro. ​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌‌​​​‍

— Ricos são assim, visam o lucro acima de tudo e foda-se os que não podem pagar. — Camila apertou o ombro da mais alta.

— Alguns são assim, mas nem todos. — Ângela se aconchegou. ​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌‌​​​‍

— Se existe algum que não seja, está muito bem escondido. —

— Você não gosta de pessoas ricas? — ​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌‌​​​‍

— Por que eu gostaria? Nada a eles nada é negado e, mesmo quando eles infringem a lei, ainda assim ficam livres... mesmo que tirem a vida de alguém. — Camila jogou a cabeça para trás e encarou o teto.

— É por isso que não gosta de mim? Você acha que sou desse jeito? — ​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌‌​​​‍

— E você não é? — Camila olhou com certa arrogância para a loira.

— Claro que não. Você me conhece e ainda pensa isso, você é uma preconceituosa. — Ângela se afastou da morena. ​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌‌​​​‍

— Eu? Não foi você quem disse que tem direito de me humilhar enquanto estiver me pagando? — A voz de Camila estava ríspida e cheia de amargura.

— Eu não... — Ângela se calou ao lembrar-se do ocorrido. — Isso foi antes. — ​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌‌​​​‍

— Não o quê? Não tentou me humilhar, me diminuir por ter me tornado... sua... — Os lábios de Camila estavam pressionados um contra o outro com força, como se a palavra se recusasse a sair. — Sua prostituta particular? —

— Você aceitou porque quis. — Ângela se recusava a assumir sua culpa, preferia jogar toda a responsabilidade em cima da morena. Era sua forma de se esconder. ​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌‌​​​‍

— É o que você acha? Você fala que quer ajudar os pobres, mas nos culpa por tudo que passamos, mesmo quando a culpa é de vocês. —

— De que está falando? Eu nunca fiz nada para você, não tente jogar em mim a responsabilidade pelas suas escolhas. — Ângela apontava o dedo para a outra. ​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌‌​​​‍

— Você é uma cretina cruel igual ao seu pai. — Logo que terminou sua fala, Camila recebeu um tapa em sua face, um tapa que feriu seu corpo, mas principalmente, feriu sua alma.

— Não fale do meu pai. — Voltou a apontar o dedo. ​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌‌​​​‍

Camila não falou nada, ela olhou para a loira com os olhos marejados e uma expressão de surpresa. Em silêncio ela pegou sua jaqueta e saiu do recinto sem dizer uma palavra.

— Onde vai? — Ângela perguntou, olhando a morena caminhar. Seu sangue ainda fervia nas veias, mas ao ver a parceira sair, sentiu um aperto. — Volte aqui, eu não deixei você sair. — Caminhou em direção à mulher que já estava segurando a maçaneta. — Eu paguei para você ficar aqui. — Apelou para a única coisa que ainda mantinha controle. ​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌‌​​​‍

A mão de Camila parou de girar a maçaneta, por um instante cogitou o que poderia acontecer se saísse pela porta, medo e angústia consumiam sua consciência, mas ela engoliu em seco e escolheu assumir o risco. Camila saiu pela porta sem sequer olhar para Ângela. Sentia nojo, mas acima de tudo, se sentia estúpida por se deixar criar algum mínimo sentimento pela loira. Se maldizia por achar que a menina poderia ser diferente, por gostar tanto dos olhos azuis, da pele macia, do cheiro de flores do campo, da voz suave, queria arrancar de sua memória os momentos que a fizeram amar aqueles gostar tanto da loira.

— Maldita! — Sussurrou a morena enquanto as lágrimas molhavam seu rosto. — Como eu sou burra! — Ela cerrava os dentes. — Você acreditou que ela poderia ser diferente? Sua burra! Burra! Burra! — Ela tentava segurar as lágrimas, pois iria trabalhar em algumas horas. ​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌‌​​​‍

A morena se encostou em uma parede para tentar se acalmar, a respiração estava desregulada e o corpo tremia, sua reação poderia se passar por exagerada por qualquer um que a estivesse vendo na rua, mas para ela aquele tapa foi a quebra de algo que, aos poucos, se tornava mais e mais especial. Após vários minutos, ela conseguiu regular sua respiração. Sua mente ainda estava voltada para o que precisaria fazer para conseguir mais dinheiro, pois não pretendia voltar a receber um centavo de Ângela.

Em seu apartamento, a loira caminhava de um lado para o outro, roía as unhas inconscientemente, não entendia como a situação que estava tão aconchegante havia chegado àquele ponto. Estava arrependida do tapa que deu na parceira. Estava arrependida de ter falado sobre a visita ao hospital, queria voltar e apenas aproveitar o abraço de Camila para recuperar suas energias. ​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌‌​​​‍

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