Capitulo 13 AQUI ESTÁ SUA RESPOSTA
CAPÍTULO TREZE: AQUI ESTÁ SUA RESPOSTA.
Algo havia se quebrado dentro de Camila. As consequências da discussão com Ângela estavam cobrando seu preço ainda enquanto ela trabalhava. Os colegas viam que seu rosto estava inchado e seus olhos vermelhos, mas não tiveram coragem ou tempo para perguntar se ela estava bem. Até mesmo Carmen não falou com a amiga, mas manteve os olhos atentos a jovem para o caso dela precisar.
A atenção de Camila estava dispersa. Fez o atendimento se esforçando mais do que o normal para não anotar nada errado, mas a culpa e a concentração que tinha foram tiradas de si quando viu Rafael entrando no recinto. O rapaz estava acompanhado de uma bela jovem que usava um vestido negro curto, com a pele clara, os lábios vermelhos, as joias caras e uma bolsa que deveria ter custado uma pequena fortuna, o cabelo ruivo distinguia a mulher em meio a todas no recinto.
O rapaz seguiu até uma mesa mais ao fundo. Do local ele tinha uma boa visão da entrada do restaurante. Era onde ele sempre ficava. Camila foi até o rapaz para anotar seu pedido, já sabia o que ele queria, mas ainda assim era seu dever ir até ele.
— O que desejam? —
— Ora, o especial do dia para minha linda ruiva. — Rafael sorriu de lado enquanto segurava a mão da ruiva. Ele chamou Camila para falar algo em seu ouvido. — E eu conto com a descrição de sempre. — Falou baixo para a ruiva não ouvir.
— Sim, senhor. Com licença. —
Camila se retirou educadamente e seguiu para a cozinha, onde informou o pedido aos cozinheiros, saiu para atender outras mesas. Quando o pedido estava pronto, ela mesma foi entregar na mesa onde Rafael estava conversando alegremente com a jovem. Não era a primeira vez que via algo assim. Às vezes ela o via com outras garotas, diferentes em aparência, mas sempre muitos bonitas. Poderiam vê-lo beijando as meninas, mas não se importava pois sabia que o restaurante não era frequentado pelas pessoas próximas dele.
— Aqui o pedido dos senhores. — Ela colocou os pratos sobre a mesa, o vinho já havia sido servido e ambos já haviam bebido bastante.
— Muito obrigada. — A jovem ruiva falou, sorrindo para a morena.
— Sim, agora nos deixe a sós. — Rafael falou acariciando o rosto da jovem.
— Com licença. —
Camila não sabia o quanto a jovem ruiva sabia sobre o namoro do rapaz, mas pela maneira como ela o tratava, imaginou que não era alguém de má índole ou pelo menos parecia gostar genuinamente do rapaz. Independentemente do que fosse, Camila não contaria nada a ninguém. Não contou sobre as outras que ele trouxe para o restaurante e não contaria sobre aquela também, nem para a ruiva sobre as outras e nem para Ângela sobre todas as mulheres com quem já viu o rapaz.
Camila, de vez em quando, sentia a vibração de seu celular em seu bolso. Quando olhava, via o nome de Ângela, mas ignorava as ligações e mensagens. Os clientes entravam e saíam. Parecia que aquela noite duraria cem anos, ou mais, para terminar. Era apenas sua percepção devido ao estresse que passou. Quando finalmente o restaurante ficou vazio, a jovem sentou-se na cozinha e pôde respirar. Ainda teria que ajudar a limpar e guardar tudo, mas pelo menos estava livre e com uma gorjeta bem grande dada por Rafael. Sempre que o rapaz entrava pela porta, ela sabia que ele deixaria algum dinheiro a mais para ela, uma forma de pagar por seu silêncio. Ela não gostava, mas nunca recusou.
— Ei, você está bem? — Carmen sentou ao lado da amiga.
— Sim. Por que está perguntando? — Camila limpou o rosto.
— É que... parece que você chorou hoje. — A jovem apontou para o rosto da amiga. — Aconteceu alguma coisa? —
— Não, eu estou bem. Foi só o cansaço de sempre. — Camila tentava transparecer serenidade, mesmo transbordando preocupação. — Eu vou ajudar a arrumar as cadeiras, nos falamos depois. —
— Ei! — Carmen segurou a mão da amiga. — Você precisa se cuidar. —
— Obrigada, mas já disse que está tudo bem. —
Camila voltou para o restaurante e começou a arrumar as mesas, Carmen olhava de longe com o olhar cheio de preocupação, mas não importunou a amiga. Enquanto limpavam o chão, ela removia as mesas e levantava as cadeiras. A morena não parava, não estava em condições de parar para pensar, pois se o fizesse, desabaria de uma forma que poderia não se levantar novamente. Após o trabalho, Camila voltou para casa, Carmen ofereceu uma carona, mas ela negou. Dentro do ônibus, ela conseguiu descansar um pouco as pernas, seu celular vibrava, mas ela ignorou todas as mensagens.
Entre uma chacoalhada e outra do ônibus, a morena dormia suavemente. Um sono leve, mas não o bastante para impedi-la de sonhar. O peito de Camila subia e descia calmo como um bebê, mas sua mente estava agitada com a imagem de uma loira abusada com um sorriso encantador. Em seu cenário imaginário, a loira sorria sem receios, seu rosto iluminado era como o sol de verão em campos de flores, havia uma atração entre elas que as unia como ímãs, mas então, ao se aproximarem, a loira lhe empurrava para que caísse em um penhasco escuro e sem fim.
Camila acordou em um pulo devido ao susto do sonho, ao se recuperar percebeu que já estava bastante perto de seu ponto e se preparou para descer. Eram apenas alguns metros até que chegasse à sua casa, finalmente poderia descansar.
Já em sua cama, Camila tentava relaxar para dormir, mas, apesar da exaustão que sentia, ela não conseguia adormecer. Sua mente voltava para o tapa que recebeu de Ângela, as mãos delicadas da loira não machucaram tanto seu corpo, mas destruíram sua alma. Queria remover Ângela de sua vida, não atendeu nenhuma das ligações ou respondeu as mensagens da loira. Nem se deu ao trabalho de ler pela barra de notificações, mesmo estando curiosa.
Sentimentos são confusos e incompreensíveis, quando amamos alguém não sabemos dizer o porquê, não há um momento que você possa dizer “foi aqui que comecei a te amar”, não é simples assim e com o ódio é a mesma coisa. Podemos dizer que tal atitude despertou nosso ódio, nosso desprezo, mas no fundo é algo que não podemos compreender, vem de repente e, quando nos damos conta, já somos reféns.
Ângela acordou no mesmo horário de sempre. Sua rotina não mudara nada, o mesmo horário para levantar, o mesmo cronograma de estudo e exercício. Havia apenas uma alteração e isso estava visível em suas olheiras e na face cansada de alguém que não dormia há alguns dias.
Ângela não dormia desde a briga com Camila. Sentia um peso devido à falta que a morena fazia. Antes elas apenas se encontravam quando iam transar ou nos jogos, apesar de nunca conversarem nesse último, mas ainda assim ela sabia que ela viria, que quando ela mandasse uma mensagem ela iria responder e à tarde entraria em seu apartamento para fazê-la se sentir desejada. Não havia mais essa certeza, depois de três dias sem uma resposta, ela tinha certeza de que não voltaria a lhe responder. Tendo isso em mente, Ângela decidiu se dedicar aos estudos, mas essa tarefa se mostrava cada dia mais e mais difícil.
— Maldição! — Esbravejou após reler o mesmo parágrafo pela quinta vez e ainda não conseguir entender. — Chega, não consigo ler mais nada hoje. — Fechou o livro e pegou o celular novamente. O aparelho havia sido o responsável parcial de sua falta de compreensão, olhava o objeto de minuto em minuto enquanto lia e agora estava relento às mensagens que enviou para Camila.
Nenhuma resposta, nem mesmo havia visualizado as mensagens, e isso deixava Ângela ainda mais inquieta. A frustração com toda a situação deixou Ângela sem alternativas, a loira saiu de sua casa e foi até o carro. O trânsito estava calmo, apesar do horário, então ela não demorou a chegar em seu destino.
Ela parou em frente a uma casa pequena pintada de amarelo. Ela entrou pelo portão e tocou a campainha. Enquanto esperava, seus olhos se voltaram para as flores embaixo da janela. Era uma flor branca e, na janela havia uma rosa do deserto vermelha.
Ângela tocou a campainha novamente e ouviu uma voz estranha responder que já estava chegando. A mulher estranhou, mas esperou com paciência. A porta foi aberta e uma mulher apoiada por uma bengala surgiu. A mulher era magra, baixa, tinha cabelos cacheados e sua pele tinha quase o mesmo tom de Camila, apenas um pouco mais escura.
— Com licença, a Camila mora aqui? — Perguntou, cogitando ter errado o endereço.
— Sim, você é amiga dela? — A mulher falou, olhando a menina.
— Eh... sim, ela é minha amiga sim. — Ângela tinha um sorriso amarelo.
— Ah! Entre, querida. Eu sou Marília. — A senhora deu espaço para ela entrar. — Não repare na bagunça, eu estava limpando a casa para ajudar a Camila. —
Ângela entrou na casa e de imediato notou que havia uma caixa de remédios sobre uma mesinha. Havia um espanador em um armário que indicava que ele havia sido usado recentemente. Ela sentou no sofá que estava impecável, pois a casa havia sido limpa recentemente.
— Então, o que deseja com a Camila? — A mulher sentou e tossiu um pouco, ela parecia respirar com dificuldade.
— Eu preciso falar algo sobre nosso artigo. — Ângela sorriu. — Onde ela está? —
— Ela saiu mais cedo, mas não deve demorar a retornar. Então vocês se conhecem da faculdade?! Me diga, como ela está se saindo? Ela não me conta muita coisa. —
— Ela é ótima, uma das melhores da turma. Nós fizemos um trabalho juntas e tiramos a maior nota da sala. — Ângela tinha um sorriso no rosto. — Ela é incrível. —
— Ah, então você é a jovem que fez esse trabalho com ela? — Marilia se alegrou. — Isso me deixa muito feliz. Camila ficou mais leve depois de fazer amizade com você. — A mulher levantou. — Eu vou fazer um suco pra você, querida. Espere aqui. —
— Não precisa se incomodar. — Tentou convencer a mulher a sentar novamente.
— Não é incômodo, querida. Eu volto já. — A senhora seguiu até a cozinha.
Ângela sentou no sofá, apertando as mãos sobre os joelhos, e se perguntava quem seria a mulher que lhe atendera. Seria mãe de Camila? Tia? Ou talvez alguém com quem ela dividia a casa? Não queria tomar conclusões precipitadas, mas queria saber qual era a relação entre elas. A loira olhou alguns papéis sobre uma estante e notou que alguns eram receitas. Havia também alguns boletos e um folheto sobre a Superliga de Vôlei. Além dos papéis, havia também fotos de Camila criança com a mulher que a recebeu, uma outra criança e um homem alto de pele escura e careca vestindo roupa do corpo de bombeiro.
— Voltei. — Camila entrou em casa e nem se deu conta de que Ângela estava em seu sofá. — Não encontrei nada. — Ela trancou a porta e somente ao virar se deu conta da loira sentada na sala. — O que faz aqui? — A expressão da mulher mudou completamente com a presença da jovem.
— Eu... eu vim... — Ângela tentava falar, mas estava nervosa demais e feliz demais em ver aquele rosto tão querido.
— Olá, filha. — A senhora entrou na sala com uma bandeja.
— Mãe, não pode se esforçar. — Camila correu até a mãe e pegou a bandeja para ajudá-la a sentar. Ângela levantou-se para pegar a bandeja e a morena nem tentou recusar.
— Não seja tão paranoica. Eu ainda não morri para ficar o dia todo deitada. — A senhora seguiu a filha até o sofá.
— E você tem que descansar para não deitar no caixão tão cedo. — Camila sentou a mãe no sofá. — Por favor, não faça mais do que pode. —
— Eu não fiz nada demais. Só lavei a louça do café e fiz um suco para a visita. — A mulher relaxou no sofá.
— Aqui está o suco. — Ângela entregou um copo de suco, que parecia ser de acerola, para a mulher.
— Obrigada, minha filha. — A mulher pegou o copo. — Por que não me disse que sua amiga viria aqui? — Olhou para a filha que não sabia o que dizer.
— Eu não avisei a ela. — Ângela foi rápida em responder. — Achei que ela estaria em casa e, como seria uma visita rápida, eu optei por não avisar. Me desculpe. —
— Não precisa se desculpar. É bom que minha filha receba visitas, ela mal recebe alguém em casa. — A senhora sorriu enquanto sua filha a olhava. — Ela não recebe ninguém aqui desde que terminou o namoro com aquela moça... qual era o nome dela mesmo? —
— Carol, e ela não era minha namorada. — Camila respondeu à mãe.
— Se vocês tinham intimidades, então eram namoradas. —
— Mamãe, já falamos disso. As coisas não são mais como antigamente. — Camila tentou argumentar.
— Não mudaram tanto, filha. Se você dorme com uma pessoa por várias vezes e gosta, é porque sente algo por essa pessoa. Isso não muda, independente da época, ninguém sente prazer com quem não gosta. —
A fala da mulher fez as jovens se olharem. Um leve desconforto se instalou e o silêncio reinou soberano na sala. As mulheres não sabiam o que deveriam dizer, mas Ângela sabia o que queria e foi ela quem quebrou o gelo.
— Então... Camila não recebe visitas? Eu achei que estivesse sempre com as amigas. — Ângela fez a pergunta para a mulher, mas olhava para Camila.
— Hm, sim. Faz bastante tempo que ela não recebe ninguém. Minha filhinha anda muito ocupada, nem tempo para os amigos ela tem. Mesmo comigo insistindo para ela sair e se divertir, ela se recusa. — Fez um carinho no rosto da filha. — Como vocês se tornaram amigas? —
— Ah, sim. Fizemos um trabalho juntas há alguns meses e assim formamos uma amizade. — Ângela respondeu com um sorriso.
— Ah, então é você que minha filha tem saído para ver? — A senhora sorriu com os olhos. — Ela disse que você estava ajudando com um trabalho extra, eu fico muito agradecida. — As palavras da mulher confundiam Ângela, que não entendia, ou não queria entender, o que se passava. — Camila estava muito preocupada com o preço dos remédios e bem nessa época você apareceu com um bico para ela. Foi a mão de Deus que colocou você em nossa vida sem dúvidas. —
Ângela abriu um sorriso amarelo, sua mão suava e sua garganta se fechou com força ao ouvir as palavras saindo da boca da mulher e formando um cenário trágico em sua mente. Ela desviou o olhar rapidamente para Camila, a morena estava com os olhos baixos, em silêncio, como se estivesse procurando se esconder do que ouvia.
— Ah, sim... — As palavras saíram de sua boca com dificuldade.
— Mamãe, a senhora devia descansar. — Camila falou. A voz falhou levemente. Aquela voz rouca e grave se tornou fina e falhada, como a de uma criança com medo de levar uma bronca.
— Está bem, eu vou deixar você e sua... amiga sozinhas. — A senhora lançou um olhar sugestivo para a filha. — Fique à vontade, filha. —
Camila acompanhou a mãe até seu quarto que ficava mais ao fundo na casa. A senhora tossiu um pouco enquanto caminhava e só depois de alguns minutos a morena retornou. Camila sentou no sofá, jogando a cabeça para trás e suspirando como se fosse um mineiro saindo da escuridão.
As mulheres ficaram em silêncio durante um período de quase cinco minutos. Camila olhava o teto, abrindo e fechando os olhos rapidamente a fim de frear as lágrimas insistentes em seus olhos. Com um movimento rápido de sua mão em seu nariz, ela levanta e pega os copos para levá-los até a cozinha.
— Não vai dizer nada? — Ângela perguntou, entrando na cozinha.
— Dizer o quê? — Camila passava a esponja dentro de um dos copos, não havia mais nada além dos copos na mesa, mas Camila não parava de passar a esponja repetidamente no mesmo objeto.
— Eu não sei! Que tal explicar o que sua mãe disse? —
— Você é inteligente o bastante para entender por si mesma. — Camila lavava o objeto com mais velocidade ainda.
— Não, você não pode me deixar com essas dúvidas. — Ângela balançou a cabeça negativamente.
— O que você quer ouvir, droga!? — A morena bateu as mãos na pia com força. Ela respirava com força, como se fosse um soldado que matara pela primeira vez.
— Me diz tudo. Por que aceitou minha proposta tão de repente? Por que sua mãe está daquele jeito? E por que não me falou tudo? —
— Eu aceitei por ela. — Camila largou a louça molhada na pia e enxugou as mãos. Ao virar para Ângela, seu semblante era de cansaço e tristeza. — Antes de aceitar sua proposta, nós fomos para uma consulta. A doença havia avançado e os remédios precisariam mudar. — Ela se encostou na bancada. — Eles eram mais caros e eu não sabia o que fazer. A pensão não era o bastante para comprar os remédios e a faculdade, meu salário também não estava ajudando. —
— O que a sua mãe tem? — Ângela tinha o maxilar travado.
— Fibrose pulmonar. — Camila falou as palavras com dificuldade, como se ao pronunciá-las elas ganhassem força para machucar sua mãe.
— Por que não me falou?
— Para quê? O que você ia fazer? E por que eu falaria para alguém como você? —
— Eu podia ajudar! — Ângela falou um pouco mais alto. — Eu poderia falar com meu pai, ele ajudaria a... —
— Seu pai é a culpa disso tudo. — A morena olhou a mulher com lágrimas nos olhos.
— Do que está falando? Meu pai nem conhece você e sua mãe. — Ângela estava confusa.
Camila passou por Ângela indo em direção à sala, sentou no sofá jogando a cabeça novamente para trás, sua respiração estava baixa e lenta. Havia um esforço monumental na jovem para controlar suas emoções, saudade e raiva brigavam em seu coração desde o momento em que viu os cabelos dourados em sua sala.
— Seu pai de fato não deve se lembrar de nós. Ele não deve nem se lembrar do que fez. — A morena estava olhando para a foto que tinha com sua família. Seu sorriso largo usando o uniforme do time de vôlei a acalmava.
— O que ele fez? — Ângela sentou-se na cadeira.
— Eu falo e você me dá outro tapa? — Ângela engoliu em seco, sentiu o peso de seu ato e dessa vez não podia fugir dele.
— Me desculpe por aquilo, eu... fiquei fora de mim. — A loira se inclinou para frente. — Não vai acontecer de novo. Pode me dizer o que meu pai tem a ver com tudo isso? —
— Seu pai tirou o meu de mim. Ele morreu... eu tinha doze anos quando aconteceu. — Camila segurou a foto onde estava com seu pai, sua mãe e seu irmão. — Eu estava em um jogo de vôlei, minha mãe tinha me levado e meu pai esperou meu irmão sair da escola para levar ele. Ele estava indo para o jogo com o Lucas... quando um carro acertou os dois. Eles foram levados para o hospital, mas não sobreviveram. — Balançou a cabeça para negar enquanto fungava. — Eu e a mamãe só soubemos quando saímos do jogo. Fomos direto para o hospital. O Lucas morreu ainda no caminho para o hospital, mas o meu pai só morreu dois dias depois. — Ela enxugou uma lágrima solitária. — O motorista fugiu do local sem prestar socorro, mas as testemunhas conseguiram informar o modelo e a placa, foi graças a um rapaz que estava gravando algo... eu não lembro o que, mas ele gravou o momento e a polícia pôde pegar o culpado... pegar! — Falou com um certo tom de ironia. — Ele não passou um dia na cadeia, pagou um valor irrisório e foi embora como se nada tivesse acontecido. — Deu de ombros enquanto fechava os olhos rapidamente para impedir que as lágrimas teimosas saíssem.
— Meu pai não faria isso. — Ângela murmurou mais para si do que para a mulher à sua frente. — Ele é médico, ele nunca fugiria sem prestar socorro a uma vítima, é contra tudo que um médico é. —
— Mas ele fez. — Camila olhou para a loira demonstrando toda a magoa que sentia.
— Ele nunca falou nada sobre isso, nem sequer tem matérias sobre isso.
— Ele tem dinheiro. É para isso que o dinheiro serve. Para blindar quem tem mais. Ele é dono de um dos maiores hospitais do país, acha mesmo que ia deixar que sua imagem fosse manchada com uma notícia dessas? — Camila apertava os lábios com força. — Imagina a matéria: “dono de um dos maiores hospitais particulares do país e um dos maiores cirurgiões da América, atropela e mata pai e filho e foge sem prestar socorro”. — Ela olhou a loira novamente. — Ele nunca ia deixar algo assim sair. Eu nem imagino a quantidade de dinheiro que desembolsou para calar os fofoqueiros, mas deu certo. Apenas alguns jornais independentes cobriram o caso, mas nada nunca foi para frente. —
— Eu não estou duvidando de vocês, mas... é difícil de acreditar. Isso é muito confuso, como... parece um enredo mal feito de um filme meia boca. —
— Você acredita no que quiser. — Camila apoiou as mãos nos joelhos.
— O que aconteceu depois? Como sua mãe ficou assim? —
— Você não acredita e, ainda assim, quer ouvir mais? — Camila levantou uma sobrancelha.
— Mesmo com dúvidas, eu quero ouvir, depois eu posso conferir a história, mas antes eu quero saber tudo que aconteceu depois disso. —
— Depois disso... depois disso, minha mãe passou a viver entre tentativas de conseguir justiça e manter a casa funcionando. Com o tempo, ela acabou adoecendo e teve que desistir. — Camila colocou os braços sobre os joelhos. — Foi antes de eu começar a faculdade. Minha mãe trabalhava no Céu e Mar, os donos eram amigos da minha mãe, então eu pedi um emprego lá. Como eles conheciam minha mãe e eram meus padrinhos, deixaram eu trabalhar à noite e me deram o salário completo. — Ela entrelaçou os dedos e Ângela tinha total atenção de Ângela. — Por um tempo, tudo correu bem. O trabalho, apesar de desgastante, não consumia tanto do meu corpo e, como os donos me conheciam, eles me deixavam bem livre para jogar vôlei. Só que... recentemente minha mãe foi piorando, os remédios ficaram mais caros e todo o tratamento estava sugando toda a pensão que ela recebe. Eu pedia adiantamentos no restaurante, mas... eu já tinha muitos pagamentos adiantados.— Ela puxou o ar com força. — Na última visita ao médico, a receita mudou e o remédio ficou mais caro, eu não podia comprar... eu pensei que podia dar um jeito, já estava pedindo muitos adiantamentos... então você surgiu com aquela proposta. No começo, eu quis te mandar para o inferno, senti nojo de você e da sua proposta, mas quando cheguei em casa e vi minha mãe... ela estava passando mal... Depois de alguns minutos fazendo os exercícios ela melhorou, ver ela naquele estado me fez engolir meu orgulho. —
— Eu não fazia ideia. — Ângela baixou a cabeça. — Por que não me disse? Eu não teria feito se soubesse. —
— E aí eu não teria conseguido pagar os remédios. —
— Eu teria ajudado. —
— Você? Me ajudar? Você me humilhou, sempre fez de tudo para me diminuir em tudo.
— Isso não tem nada a ver, eu não... eu não faria essa proposta e não deixaria você passar por isso! — Ângela levantou indignada com a acusação.
— É mesmo? Você, naquela situação, sem ter qualquer relação ou intimidade comigo, em meio a brigas e discussões, você… você me ajudaria? — O olhar de Camila era acusador.
A loira emudeceu com a pergunta, seus pensamentos voltaram ao passado, revisitou os sentimentos que tinha antes da proposta, o que sentia por Camila não passava de desprezo e rivalidade, comemorava sempre que se saía melhor do que ela em alguma coisa. A relação com Camila, se é que podia chamar de relação, se resumia a uma tentando ser melhor que a outra ou talvez... talvez apenas ela queria ser melhor enquanto a Camila só tentava sobreviver. Talvez a rivalidade fosse alimentada pelas duas no início, mas certamente uma já estava cansada enquanto a outra não deixava de sentir que precisava ultrapassar a outra.
Ângela chegou à conclusão de que não, ela não teria feito muita coisa para ajudar Camila, mesmo se ela tivesse ido até ela pedir ajuda e contar tudo sobre seu pai. Na verdade, ao avaliar a situação, chegou à conclusão de que teria agido com o desprezo de sempre. Foi uma conclusão amarga, mas sabia que era verdadeira. Ângela sentou novamente em silêncio, as palavras continuaram distantes como se quisessem dar espaço a suas conclusões.
— Me perdoa. — Ângela apoiou os cotovelos nos joelhos. — Eu... eu me arrependo muito de ter me aproveitado dessa situação... —
— Agora já passou. Não tem mais o que fazer e nem como voltar atrás. — Camila baixou a cabeça.
— O que eu posso fazer para te ajudar? — A loira virou o rosto para encarar Camila.
— Por que você quer ajudar? — A morena olhou a loira, confusa.
— Porque... eu me importo... com você. — A pele clara ganhou um tom avermelhado intenso.
— Você se importa com alguém além de si mesma? — A expressão de Camila era de quem via um impossível, como se aquelas palavras fossem, de alguma forma, incapazes de serem ditas pela pessoa a seu lado. — Desde quando? —
— Eu não sou um monstro insensível. — Foi a vez de Ângela baixar a cabeça. — Você não é uma pessoa tão desagradável e... depois de meses transando e conversando... acho que não tem como não criar ao menos um sentimento de amizade por você. —
— Amizade? Como isso aconteceu? — Camila quase sorria, mas o peso da realidade que vivia não lhe deu esse prazer.
— Eu não sei, só que você não é tão desagradável e irritante como todo o resto. — Apertava os dedos com força. — Você... não sentiu nada durante... esses meses? — A pergunta saiu baixa, quase um fio que podia ser cortado até pelo vento, mas resistente o bastante para chegar até a parceira.
Camila olhou Ângela de lado. Seus dedos, assim como os da loira, estavam entrelaçados. Seus lábios estavam contraídos segurando qualquer palavra que saísse no calor do momento. Seus olhos estavam centrados, ela sabia que sentia algo, amizade, carinho ou qualquer outra coisa que fosse, não parou para nomear, mas sabia que sentia algo e era honesta o suficiente para reconhecer isso.
— Eu... senti. — Camila falou como se não quisesse ser ouvida, mas por mais baixo que tivesse falado, Ângela ouviria, pois sua atenção estava totalmente voltada para a morena de cabelos cacheados.
— O que sentiu? — Ângela se exaltou levemente ao constatar o que tanto queria ouvir.
— Eu não sei, eu só... senti. — Camila colocou as mãos na cabeça. — Eu não devia sentir isso... você e aquela sua família tiraram pessoas importantes de mim. —
— Mas... eu não fiz nada. Eu não sou meus pais... — A loira se apressou em dizer, sua voz soou mais alta e desesperada do que pretendia.
— Não? Quando eu falei sobre seu pai, você agiu como se eu tivesse ofendido você mesma. — A morena foi tomada pela lembrança dolorosa.
— Aquilo... — Ângela olhou para baixo, arrependida de sua atitude. — Aquilo foi instintivo, eu não devia ter feito. Mas, meu pai sempre pareceu um ótimo médico, sempre o vi como um herói, um salvador... — Lembrou-se de quando foi escolhida pelo casal, realmente, eles lhe salvaram de uma vida miserável e deram a ela tudo que uma órfã poderia desejar e até mais. — Eu não podia admitir alguém falando algo como aquilo sobre ele... mas se o que falou for verdade... nesse caso... ele nunca foi o que pensei que ele era. —
— Tudo que falei é verdade. Mesmo que pareça que não, é a pura verdade. —
Ângela não respondeu. Havia um medo de concordar por acreditar ser uma traição com seu pai e de discordar e acabar julgando mal a parceira. A luz amarelada do sol entrava pelas janelas, a tarde estava passando mais rapidamente do que esperavam, Camila precisaria trabalhar e Ângela teria de ir embora.
— Eu vou para casa, vou procurar tudo sobre o que você falou. — Ela levantou.
— Eu acompanho você. —
— Não precisa. — Ângela falou.
— É questão de educação. — Camila respondeu, passando à frente.
— Você não pensa assim quando me deixa sozinha. —
— Não é a mesma coisa. — Ambas já estavam perto da porta.
— Qual a diferença? — Ângela estava genuinamente interessada na resposta.
— Ah... não importa, só não é a mesma coisa. — A morena abriu a porta.
— Está bem. — A loira passou pela parceira entendo que não era hora para aquele questionamento. — Qual o nome do seu pai? — Se virou para a morena. Ângela ficou estática por um instante. Sob a luz do entardecer, os olhos castanhos ganhavam um brilho diferente, sua pele morena parecia ainda mais atraente e seus cachos pareciam brilhar.
— Por que precisa saber? — A voz de Camila fez a jovem despertar de seu breve transe.
— Para... pesquisar informações. —
— Hm. Pedro Ferreira é o nome do meu pai. —
— Obrigada. — Se aproximou e depositou um beijo na bochecha da colega. — Até mais. —