Capitulo 8 OS ENCONTROS
CAPÍTULO OITO: OS ENCONTROS
Já havia se passado alguns dias desde o jantar no “céu e mar”. Camila e Ângela não haviam se encontrado novamente, mas na quinta-feira daquela semana a loira decidiu chamá-la para seu apartamento. Ainda estavam na aula quando enviou a mensagem para a colega que não pôde deixar de ficar vermelha com o que leu. Vermelha de raiva. Vermelha de vergonha? Nem ela sabia dizer. Ao fim da aula, ambas foram ao banheiro, separadamente, para evitar comentários.
— Ficou maluca? Mandando aquela mensagem no meio da aula? — Camila segurou Ângela pelo braço.
— Nenhum pouco. — Ângela tentou manter a indiferença, mas estava nervosa com a forma brusca com a qual foi abordada.
— Não faça mais isso. Espere até sairmos para mandar algo assim. — Camila tinha o rosto sério, rígido, como se estivesse interrogando um criminoso.
— Eu faço de novo se quiser e você só vai aceitar, sou eu quem paga. — Ângela encarou os olhos sem demonstrar seu nervosismo.
— Sua... — Camila levou uma mão ao pescoço de Ângela, mas não usou tanta força ao ponto de machucá-la. — Acha que ter dinheiro te dá o direito de humilhar os outros? — Falou próxima ao rosto daquela que considerava como inimiga.
— Não, mas pagar me dá o direito de humilhar você. — Inclinou a cabeça um pouco, de forma que os rostos estavam bem mais próximos e quase se encaixando em um beijo.
Antes de Camila responder, ouviu passos se aproximando e largou a mulher. Cada uma ficou em um canto do banheiro sem olhar uma para a outra. Ângela estava desorientada. Como era possível que a pessoa que tanto detestava causasse arrepios e elevasse a sua libido a níveis tão perigosos com apenas um toque, enquanto o namorado que devia amar nem sequer a fazia suspirar? Não seria uma resposta fácil, mas sabia que queria mais.
Às quinze horas, Camila bateu à porta de Ângela com agressividade, a jovem não queria perder nem um segundo a mais do que o necessário. Logo que a porta foi aberta, ela encontrou Ângela usando uma roupa casual que se resumia a um short jeans e uma regata branca. A ausência de um sutiã deixava visíveis os mamilos já excitados da jovem. Os olhos de Camila percorreram o corpo sinuoso e delicado com desejo reprimido, pararam nos seios e passou a língua rapidamente pelos lábios que, sem perceber, estavam abertos.
Ângela queria esperar que Camila tomasse a iniciativa, mas como a jovem não parecia disposta a fazê-lo, ela puxou a morena para um beijo cheio de desejo. Camila agarrou a loira pela cintura e puxou com força para si, aquele era o toque forte e quente que Ângela tanto desejava, as mãos firmes, os dedos ríspidos, os lábios quentes e cheios de desejo. O beijo ganhou um tom de raiva misturada ao desejo e Camila começou a dar mordidas nos lábios da loira arrancando suspiros excitados.
Os corpos se moviam às cegas pelo apartamento, os beijos não cessavam por mais que alguns instantes e logo recomeçaram com mais desejo e raiva. O corpo de Ângela se chocou contra a porta de seu quarto e ela abriu a porta com dificuldade, os corpos caíram sobre a cama macia e as roupas de Ângela foram removidas com uma velocidade inacreditável. Camila não tirou sua roupa, apenas sua inseparável jaqueta, e já estava com uma das mãos segurando a coxa de Ângela. Seus lábios afoitos procuraram o pescoço para deixar sua marca..
— Não! — Ângela falou ofegante. — Sem marcas. — Os olhares se cruzaram, estavam embriagados de desejo.
Camila não questionou, apenas desceu mais para o meio das pernas da parceira. Ela segurou cada perna com firmeza e as separou, revelando o quão molhada Ângela estava. Passou a língua suavemente entre os grandes lábios e, em resposta, viu o corpo da parceira se contorcer, sendo seguido por um gemido baixo e longo. Satisfeita com a reação, ela prosseguiu o movimento lentamente, suas mãos acariciavam as coxas enquanto seu rosto se afundava entre elas.
Enquanto seus lábios se ocupavam com o clitóris, Camila levou um dedo para a entrada de Ângela e a penetrou, arrancando um gemido mais alto. Penetrava lentamente enquanto lambia e chupava o clitóris de maneira suave. Os olhos vez ou outra fitavam o rosto da parceira que se contorcia de prazer. O interior de Ângela estava quase em ebulição, os movimentos firmes e constantes de sua parceira a deixavam mais molhada a cada instante.
Camila estava atenta às reações da parceira, aos poucos a velocidade e a força de suas estocadas aumentavam. Os gemidos estavam cada vez mais altos, as pernas de Ângela se agitavam, fazendo Camila segurar com mais firmeza.
— Devagar! — Pediu com a voz falhada. — Calma, devagar... —
Camila permaneceu no mesmo ritmo, mas suas lambidas eram lendas e um gemido mais alto ainda ecoou pelo quarto. Ângela se desesperou, gemendo e se contorcendo, suas pernas se agitavam procurando alívio. A língua de Camila circulava o clitóris sem pressa alguma, ela lambia e penetrava na mesma velocidade, prolongando mais o prazer.
Os olhos da Morena estavam fixados no rosto de Ângela, admirando as expressões a cada lambida. Ela queria mais daquilo e diminuiu o ritmo. O rosto de Ângela estava vermelho e suas expressões davam a ela um ar quase angelical.
— Continua! — Pediu em tom de súplica, quase chorando.
Camila prosseguiu sem alterar seu ritmo. Estava mais concentrada do que jamais esteve em toda sua vida, queria ver aquele corpo se contorcer e ouvir os gemidos manhosos que não podia negar que gostava. As mãos de Ângela pressionaram a cabeça da parceira e, pouco tempo depois, soltou um gemido mais alto enquanto a prendia entre suas pernas. Foram alguns longos e deliciosos minutos até que ela relaxou na cama.
A morena sentou na cama respirando devagar, seu rosto estava quente, quase vermelho, e seus olhos transmitiam surpresa com o que acabou de fazer. Após alguns minutos sentada na mesma posição, ela levantou para procurar a jaqueta.
— Não demore com o pagamento. — Falou ao encontrar a peça de roupa.
— Espera, você já vai? — A loira tinha um lençol cobrindo o corpo.
— O que tinha para fazer aqui eu já fiz. — Ela não virou para olhar Ângela.
— Eu quero fazer uma pergunta. — Sentou na cama, ainda cobrindo os seios. — Por que aceitou minha proposta? Você tem um emprego, para que precisa de mais dinheiro? — Questionou o que não saía de sua cabeça desde o jantar com Rafael.
— Não é da sua conta. — A voz da morena estava mais irritada que o normal, como se a pergunta tivesse desencadeado sua raiva. — Não esqueça de pagar. — Caminhou rapidamente em direção à porta.
Ângela deitou novamente na cama pensando sobre o que aconteceu, estava em um misto de satisfação pelo sexo e frustração por não ter obtido resposta para sua pergunta. Na rua, os passos de Camila eram lentos e mais relaxados do que quando estava a caminho do apartamento. Se perguntava o motivo da loira perguntar sobre suas razões para aceitar transar por dinheiro. Sentia calafrios só de pensar na possibilidade de alguém como ela descobrir seus motivos, mas por sorte ela não insistiu e os próximos dias ela provavelmente não perguntaria também.
Os dias passavam devagar, com a faculdade sendo o único lugar em que Ângela e Camila se encontravam, além do apartamento. Ao final de um dia de aula, para a surpresa de Ângela, encontrou seus pais a esperando no campus. Rafael foi até eles, abraçando ambos com grande alegria.
— Pai, mãe, o que fazem aqui? — Perguntou, forçando um sorriso.
— Viemos buscar você para uma pequena viagem de família. — Michelle respondeu, sorridente.
— Como? — Perguntou, surpresa.
— Eu fui convidado para dar uma palestra na Itália e vocês duas vão comigo. — Seu pai respondeu, orgulhoso de si.
— Mas e as aulas? — Ângela estava desesperada para encontrar uma saída para aquela situação, a última coisa que queria era passar mais tempo sob os olhos julgadores de seu pai e os comentários manipuladores de sua mãe.
— Não se preocupe, já falamos com o reitor. Também não será uma viagem longa, somente três dias e estaremos de volta. — Daniel respondeu.
— Vamos arrumar suas malas. — Michelle puxou a filha pelo braço.
Três dias com seus pais em outro país poderia ser o sonho de muitos, mas definitivamente não era ode Ângela. Enquanto era praticamente arrastada pela mãe em direção ao carro, Ângela viu de soslaio Camila olhando para seu pai com atenção. Não teve tempo de observar mais, mas percebeu o olhar penetrante em direção a Daniel e estranhou o ocorrido.
Em seu apartamento, Ângela e Michelle arrumavam as malas para a viagem. Na verdade, estava mais para Michelle escolher o que levar e Ângela apenas guardar. Ela mexia no guarda-roupas procurando os vestidos mais lindos e fofos.
— Mãe, esse vestido é horrível e eu não sou mais uma criança para usar esse tom de rosa. — Falou, segurando um vestido rosa bebê com alças, o vestido parecia mais feito para uma criança do que para uma mulher adulta.
— Mas, filha. — Michelle se aproximou da filha e segurou o vestido para mostrar como ele ficaria em Ângela. — Com a sua pele clarinha, seus cabelos dourados, no frio europeu, você vai ficar parecendo uma princesa. —
— Vou parecer é alguém que está realizando o fetiche de algum pervertido. — Murmurou baixinho. — Mamãe, tem outros vestidos tão lindos e elegantes para usar na Itália que não me fazem parecer criança. —
— Não. Eu sempre quis ter uma filha para vesti-la como uma princesa. — Michelle fechou a cara. — Ou levamos o que escolhi ou não vamos e aí seu pai perde a palestra. — Sentou na cama com os braços cruzados e o rosto rígido, parecia uma criança fazendo birra.
— Mas deve ser importante para os negócios dele. — Tentou apelar para o bom senso de Michelle.
— Bom, está tudo nas suas mãos. Você decide. — As palavras de Michelle irritaram Ângela profundamente, mas que escolha ela teria além de aceitar a condição de sua mãe? Sabia que ela era irredutível para conseguir o que queria.
— Está bem, vamos levar o vestido de criança. — falou baixinho, quase um suspiro de decepção, decepção consigo mesma e com as insistências de sua mãe que nunca lhe dava liberdade, decepção com a mãe por sempre agir daquela forma.
Às dezenove horas, elas já estavam no aeroporto para pegar o avião que as levaria para a Itália. Apesar de tudo, o voo foi agradável. Viajar à noite era mais divertido para Ângela, se sentia como uma estrela, olhando tudo de longe, sem ter ninguém por perto, solitária e silenciosa. Desembarcaram de manhã e logo foram para o hotel. Daniel teria a primeira palestra em algumas horas precisava descansar.
Ângela o acompanhou pois poderia aprender algo para depois que se formasse, e se não aprendesse, bom, pelo menos o pai pensaria que estava. Como esperado, foi tudo bastante chato e cheio de discursos repetidos sobre como os convênios cresciam e como ele conseguiu aumentar seus lucros e garantir um atendimento de excelência. Após a longa palestra, Daniel foi chamado para uma mesa onde vários homens conversavam. Não sabia sobre o que falavam, os homens não pareciam ser da área médica e sim empresarial, mas não estava realmente interessada naquilo e nem tentou entender o que do que falavam.
Ao final da primeira noite, eles retornaram ao hotel exaustos e com Michelle um pouco alta devido ao vinho. Em seu quarto, Ângela conversava com Letícia por ligação e ignorava as mensagens de Rafael. Falava com a amiga sobre o quão chata havia sido a noite. Ainda não havia tido tempo para ver a cidade, então as conversas se resumiam à palestra e outros assuntos banais.
O dia seguinte foi de passeios. Daniel teria alguns encontros com possíveis parceiros e, enquanto isso, mãe e filha decidiram passear por Roma. Ângela ficava encantada com a beleza da cidade, as casas que pareciam estar ali há séculos, os museus com suas obras de arte, as esculturas, a história da cidade e do império romano, tudo despertava sua atenção, mas sua mãe insistia em arrastá-la para lojas e restaurantes.
— Está feliz de ter vindo? — Michelle perguntou enquanto as duas tomavam um café em uma padaria.
— Estou sim. Roma é tão linda. — Falou com ar de adoração.
— Você gostou bastante, não é? — Michelle prestava atenção na filha. — Quem sabe não nos mudamos para cá após seu casamento? Pelo menos a lua de mel tem que ser aqui. — Ângela quase engasgou ao ouvir as palavras da mãe. Novamente o assunto do casamento que tanto detestava. — Imagine, você e Rafael casados, desfrutando a lua de mel em Roma, indo a museus, às ruínas das cidades antigas. Que sonho. — Suspirou levemente imaginando tudo.
— Mãe, a gente nem sabe se Rafael e eu vamos nos casar e a senhora já está fazendo planos para a lua de mel? — Ângela estava indignada.
— Como não? Eu falei com os pais de Rafael e ele está empolgadíssimo com a ideia.
— Você falou sobre casamento com os pais do Rafael? — Ângela estava literalmente de boca aberta diante da falta de noção de sua mãe. Pensava se a viagem havia sido planejada para abordar o assunto do casamento e, considerando o quanto Michelle era insistente, não era difícil que ela tivesse convencido o pai a fazer leva-las. Ao pensar nisso, Ângela cerrou os punhos devido a raiva.
— Por que não falaria? Estamos planejando seu casamento e sua vida desde que você chegou em nossa casa, tudo para que você não precise se preocupar com nada além de seus estudos e em ser a melhor filha de todas. — Falou após beber um pouco do delicioso café.
— Mãe, por que você é assim? —
— Assim como? Preocupada com o seu futuro?
“Não, uma vaca controladora”, Ângela pensou em responder, mas optou por algo menos agressivo.
— Mãe, isso é algo que eu e o Rafael devemos decidir juntos, sem que outras pessoas se metam. —
— Mas vocês dois querem isso, então nós só estamos planejando os detalhes. —
— Quer saber? — Levantou as mãos. — Eu não vou falar mais sobre isso. — Levantou-se para voltar ao hotel, sabia que permanecer ao lado da mãe só iria deixa-la mais irritada e seu autocontrole já estava desaparecendo a cada comentário.
Ângela voltou para seu quarto enfurecida com a mãe e o namorado, ligou para ele exigindo satisfação por não ter lhe contado sobre a conversa a respeito do possível casamento. O rapaz tentava amenizar a situação, dizendo não ser nada demais, mas Ângela estava transtornada com tudo que ouviu. Ela sabia que Rafael mentia bastante e sempre fazia coisas pelas suas costas, coisas que levavam sua mãe a insistir ainda mais na ideia do casamento.
— Você sabe que confiança é a base de todo relacionamento, se você esconde coisas de mim é como me trair. — Falou alto, mas não o bastante para outras pessoas a ouvirem.
“Olha quem fala. Você também tem seus segredos”, os olhos de Ângela se arregalaram e seu coração disparou com a frase dita por Rafael.
— D-do que está falando? — Tentava a todo custo segurar o nervosismo.
“Você também esconde as coisas de mim. Sua mãe me falou sobre você não querer se casar após a formatura”, Rafael não sabia, mas aquela era a coisa menos ruim que ele poderia levar para a discussão. “Já estamos namorando há cinco anos e você ainda quer esperar mais?”.
— Escuta, meu amor. Nós ainda somos jovens, casamento é algo sério, precisamos planejar bem isso. — Forçou um tom amoroso que há muito não tentava mais usar.
“Meu pai e sua mãe con...”
— Não. Não coloca nossos pais nisso. — Interrompeu o rapaz. — Quem vai casar somos nós, nós devemos planejar isso e não eles. — Sua voz estava firme. — Olha, falaremos disso quando eu voltar, mas não fale mais disso pelas minhas costas. — Forçou o tom amoroso novamente. — Eu tenho que desligar. —
“Está bem. Eu te amo.”
— Tchau. — Desligou sem esperar alguma resposta. — Filhos da puta! — Falou em um sussurro cheio de ódio. — Malditos! — Continuava a esbravejar baixinho para não ser ouvida.
As poucas coisas que Ângela poderia aproveitar na viagem haviam acabado. Não sentia nada além da vontade de voltar para seu apartamento e ficar nos braços da jovem que lhe trazia tanto prazer e alegria. Mais tarde, quando Michelle e Daniel chegaram ao hotel, ela esperava ao menos fingir que a discussão não havia acontecido, mas ao olhar o rosto de sua mãe, percebeu que não seria fácil.
Michelle chegou de braços dados com Daniel, sorridente como era de se esperar, mas no momento em que viu a filha, fechou o cenho e ganhou uma expressão de irritação. A mulher passou pela filha sem falar com ela enquanto Daniel falava sobre os encontros com empresários. Foi um momento curto, mas foi suficiente para Ângela entender que mais uma vez a mãe usava de suas artimanhas para machucá-la.
Durante o restante do dia, Ângela tentou conversar com a mãe, suas tentativas não rendiam nada além de respostas monossilábicas e às vezes nem isso conseguia. Entre uma tentativa e outra, percebeu que o anel que havia comprado não estava mais no dedo de sua mãe. Aquilo fez a jovem revirar os olhos cheios de frustração sabendo que teria que se esforçar ainda mais pela reconciliação pois, da última vez que sua mãe agiu assim, levou semanas para voltar a falar com ela.
Em mais uma tentativa de conversar com a mãe, Ângela a chamou para seu quarto para ajudá-la a se vestir para a noite. A mulher foi sem a empolgação que sempre demonstrava ao vestir a filha.
— Onde está o anel que lhe dei de presente? — Perguntou, olhando o dedo da mulher que estava em silêncio, arrumando algumas roupas jogadas na cama.
— Estava machucando meu dedo, então eu parei de usar. Deve estar dentro da minha bolsa. — Ângela apertou a blusa que segurava com força, sentia o peso de suas ações cair sobre seus ombros. Perder o controle mais cedo havia sido um erro e agora tinha que lidar com a raiva de sua mãe que as vezes parecia uma criança.
— Mas a senhora nunca disse nada. — Michelle nada respondeu. — Eu não disse aquilo por mal, eu só queria que essa conversa sobre casamento fosse entre Rafael e eu. — Amansou a voz e sentou ao lado da mãe, que permaneceu em silêncio.
O desconforto de Ângela só crescia, queria que tudo voltasse ao normal e que sua mãe parasse de a magoar com sua indiferença, mas não era uma tarefa agradável. Lembrou-se de algo que sua mãe não poderia ignorar, levantou e foi até a mala, pegando o vestido rosa que sua mãe insistia em colocar na viagem.
— Que tal esse para a noite? — Os olhos de Michelle brilharam com a visão.
— Ah, você vai ficar tão linda. — Finalmente desfez sua expressão de indiferença.
— O que a senhora acha de me ajudar a vestir e me maquiar? — Ângela sabia que aquele convite era um caminho sem volta, Michelle faria dela sua boneca customizável, como fazia na infância. Desagradável era uma palavra que poderia ser usada na falta de uma definição melhor para o que sentia nesses momentos, mas ela suportava para ver a mãe feliz.
Michelle não resistiu ao convite e, alguns minutos depois, começou a maquiar a filha. Usava tons suaves, nada que chamasse muita atenção, pois sabia que a filha era linda naturalmente. Queria exibir essa beleza ao mundo e apenas realçar levemente seus traços. Escolheu os acessórios que mais combinavam com o vestido. Parecia uma criança brincando de boneca, mas não perdia o foco e, ao final, colocou a filha diante do espelho.
Ângela detestava aquele vestido, não por ser feio, o que ele nem era, ou por ser estranhamente infantilizado, ela o odiava pelo que ele a fazia sentir. Sentia como se fosse uma boneca nas mãos da mãe, como um acessório que era usado unicamente para trazer elogios a quem o estava usando. Por isso, ela odiava aquele maldito vestido, mas mesmo assim, ela sorriu diante do espelho como se estivesse adorando tudo.
— Todos vão adorar você. — Michelle falou, segurando os ombros da filha. — Vamos! — Puxou a filha para fora.
Ângela havia conseguido fazer a mãe voltar a falar com ela. Abriu mão de suas vontades e individualidade para isso, mas o que importava para ela era que Michelle já não agia como se ela fosse um incômodo. A viagem chegou ao fim e Ângela não podia estar mais aliviada. Estava de volta a casa e agora teria que resolver seus problemas com Rafael, mas ela esperou aquele primeiro dia apenas para descansar. Dois dias após sua volta ela chamou o rapaz para sua casa para que pudessem conversar.
— O que você tinha na cabeça para falar de casamento com a minha mãe? — Ela estava de pé enquanto Rafael estava sentado no sofá, olhando a namorada andando de um lado para o outro.
— Por que eu não posso falar sobre isso? — O rapaz não parecia ligar para as queixas da namorada. — A gente vai casar mais cedo ou mais tarde. —
— A questão não é essa. Isso devia ser discutido entre nós. Por que vocês não entendem? — Falou um pouco mais alto, mas o rapaz não ligou, estava mexendo no celular como se o que Ângela falava não importasse para ele. — Todo mundo faz as coisas pelas minhas costas e só resta para mim concordar e fazer como ordenam. — Seus passos estavam mais pesados que antes. — Pelo menos isso eu deveria poder opinar e escolher. —
— Amor, a sua mãe só quer nos ajudar. — Rafael levantou para olhar a namorada nos olhos. — Eu sei que a sua mãe é um pouco controladora, mas não é o fim do mundo e, no fim das contas, quanto mais rápido nos casarmos, mais rápido ela perderá o controle sobre você. — Beijou a bochecha da namorada. — Eu tenho que ir agora, não foi ao lançamento do livro do meu pai pra ficar com você, mas agora preciso fazer outra coisa. —
Ângela nem teve tempo de protestar e o rapaz já estava fora de sua vista. A frustração por mais uma vez não ser ouvida voltou a golpear seu coração. Cansada e estressada de todas as relações complexas de sua vida, ela pegou o celular e mandou uma mensagem para alguém que, contra sua vontade, seu corpo desejava.
“Preciso encontrar você, venha ao meu apartamento agora”. Deitou no sofá esperando uma resposta que logo veio.
“Agora não posso. Estou ocupada.” Foi uma resposta seca, mas Ângela não estava afim de esperar.
“Vem agora ou não terá pagamento.”
Não houve mais respostas. Ângela imaginou que Camila iria obedecer e não fez questão de enviar mais mensagens. O tempo corria rapidamente, Ângela não recebia novas mensagens e já estava cogitando a possibilidade de Camila não aparecer, ela pegou o celular afim de enviar uma mensagem exigindo que a colega aparecesse, mas no momento que pegou o objeto ouviu duas batidas na porta.
— Pensei que não viri... — Ao abrir a porta, deu de cara com Michelle, que a olhava surpresa.