Capitulo 17 ESCLARECENDO TUDO
CAPÍTULO DEZESSETE: ESCLARECENDO TUDO
— Amor, onde você estava? Eu estou a horas te esperando. Por que não respondeu minhas mensagens? —
— Meu celular estava sem bateria, e eu também. — Falou passando direto pelo rapaz, a porta estava aberta e o rapaz notou o descuidado da jovem.
— E onde você passou a noite para estar chegando agora? —
— Eu estava com uma amiga. — Ângela abriu a porta de sua casa.
— Você devia ter me avisado sobre isso. —
— Por que você está falando assim comigo? Você também sai sem me avisar e eu não fico enchendo seu saco por causa disso. — A jovem levantou a voz.
— Então agora me preocupar com você é encher seu saco? — Rafael levantou a voz também.
— Não, mas agir como se dormir com uma amiga fosse coisa de outro mundo é. —
— Olha, eu só quero que você fique em segurança. —
— Eu já disse que estava com uma amiga. — Ângela já estava bastante estressada com tudo que descobriu sobre o pai e ainda ter que lidar com um namorado como Rafael estava colocando a jovem em seu limite.
— Meu amor, eu só estou sendo protetor e pensando na sua segurança.—
— Protetor? — Uma frase curta e direta foi o suficiente para fazer a loira chegar e ultrapassar o seu limite de paciência. Já havia ouvido aquela frase antes e em tantos contextos diferentes que só lhe restava ver tal situação como uma tentativa de controle. — Você não está sendo protetor, a única coisa que vem de você e de todos à minha volta é controle. Controle sobre o dinheiro, sobre as decisões, sobre o presente, sobre o trabalho e até sobre o futuro. A última coisa que vocês querem é me proteger, aliás, a última coisa que vocês querem é proteger alguém, a única coisa que interessa a vocês é controle sobre tudo que é benéfico para vocês. —
— Escuta aqui. — Rafael controlou o tom ao perceber que a namorada estava saindo do controle. — Eu não vou continuar ouvindo seus desaforos calado. É melhor aprendermos a respeitar um ao outro se quisermos que o nosso casamento dê certo. —
— E quem disse que eu quero que dê certo? — Ângela falou sem qualquer sinal de dúvida ou medo.
— Como é? Você não quer mais casar comigo? — Rafael voltou ao seu tom alterado, estava perdendo o controle devido às palavras da loira.
—Não quero mais? Eu nunca quis isso. As únicas pessoas que queriam isso eram você e nossos pais.
— Você não está raciocinando direito. — A voz de Rafael agora tomava o ar de desespero.
— Eu estou sim, pela primeira vez eu estou raciocinando muito bem. — Respondeu sem medo. — Agora me deixe sozinha, eu não quero mais perder tempo falando com você. —
— Eu não vou sair daqui sem que a gente resolva isso. —
— Acontece que tudo já está mais do que resolvido entre nós. Agora saia. — A voz de Ângela estava firme. — Eu vou chamar o porteiro se você não sair agora. —
Rafael franziu o cenho, seu rosto estava vermelho de raiva, mas mesmo assim ele acatou a ordem da jovem e saiu de seu apartamento batendo a porta com força. Ângela soltou uma lufada de ar tão forte que sentiu uma leve tontura. Pela primeira vez em sua vida, estava agindo abertamente contra a vontade de terceiros e tal atitude fazia até o ar sair de seus pulmões com mais facilidade.
Após expulsar o ex-namorado de seu apartamento, Ângela se preparou para ir ao ensaio fotográfico da formatura de Letícia e saiu rapidamente. Ela sabia que Rafael correria para falar com sua mãe e, mais cedo ou mais tarde, teria que enfrentá-la, mas não queria pensar no confronto naquele momento.
Chegou ao local mais cedo que o marcado e assistiu ao ensaio fotográfico da amiga. Estava ali para ajudar Letícia, mas foi difícil tirar a morena de sua mente. Naquele dia, Rafael não apareceu, apesar de ter sido convidado também. Ângela estava aliviada, pois não precisaria lidar com ele e poderia aproveitar a companhia da amiga ao mesmo tempo. Assim que o ensaio acabou, Letícia foi correndo até sua amiga.
— Você terminou com Rafael? — Letícia perguntou antes que a amiga falasse qualquer coisa.
— Ah, ele já contou para você? — Ângela suspirou em frustração. Imaginava que Rafael iria chorar para outra pessoa, mas não esperava que fosse Letícia. Pelo menos com Letícia ela não precisa fingir e nem se defender.
— Acho que ele contou para todo mundo. —
— Claro que contou. Ele precisa ser a vítima da namorada cruel. —
— É... você resumiu tudo que ele está falando para as pessoas. — Letícia falou um pouco receosa. — Acho melhor você se preparar, porque se ele falou para os seus pais o mesmo que falou pra mim... seus pais vão ficar uma fera. —
— O que ele disse? —
— Basicamente, ele contou que você chamou ele de manipulador e que seus pais te manipularam para aceitar o casamento com ele. Ele usou palavras bem menos delicadas e mais agressivas para descrever a discussão, mas foi isso. — Letícia falava com calma na voz. — Você falou isso mesmo? —
— Sim, e eu não menti porque é o que eles são. —
— É, mas falar assim na hora da raiva pode fazer todos ficarem contra você. — A jovem tinha uma preocupação genuína com a amiga.
— Eu sei que agi sem pensar. Eu podia ter falado de uma maneira diferente, mas eu estava com muitos problemas na cabeça, sabe? —
— Ele me falou que você dormiu fora. O que aconteceu? —
Ângela suspirou, refletindo se devia ou não contar à sua amiga o que aconteceu. Sabia que Letícia era de sua confiança, mas sentia medo de um julgamento sobre suas atitudes, então ela contou somente uma parte da história.
— Você lembra da Camila? —
— Camila? Aquela do seu curso e que serviu de modelo para o uniforme que eu fiz? O que tem ela? —
— Eu dormi na casa dela. — A loira encolheu os ombros.
— Como assim? Por que dormiu na casa dela? Não me diga que vocês... —
— Olha, eu não posso falar agora. — A maior estava desconfortável em falar do assunto naquele lugar.
— Está bem. A gente conversa na sua casa, pode ser? —
— Está bem. — A loira falou. — Vai na frente. Eu preciso comprar umas coisas e te encontro lá. Quando chegar em casa, te explico tudo. —
Ângela comprou os remédios de Marília e foi até a casa de Camila. Quando chegou, encontrou a morena na entrada conversando com Carmen e Leandro. De longe ela chamou pela menor que quase não segurou o sorriso ao viu a loira.
— O que você quer? — Leandro falou, mas Carmen segurou seu braço, fazendo-o se acalmar.
— Eu só quero falar com a Camila. — A voz dela estava suave e meiga. — Pode vir comigo? Não vai demorar. —
— Claro. Eu volto logo. — Falou para os amigos.
A morena levantou para acompanhar a loira até um local isolado dos demais. Elas estavam em silêncio, mas Camila olhava com carinho para a jovem à sua frente.
— O que deseja falar comigo? — A voz de Camila estava calma, um tom de carinho podia ser notado ao se dirigir à loira.
— Eu queria dizer uma coisa. —
— Pode dizer, estou ouvindo. — O sorriso de Camila era apaixonante. Ângela não podia deixar de suspirar com aqueles lábios perfeitamente desenhados em um sorriso.
— Eu... terminei com Rafael. — No mesmo instante em que as palavras de Ângela alcançaram os ouvidos de Camila, a morena pareceu abrir mais ainda o sorriso, mas logo se recompôs.
— Eu sinto muito. — Disse Camila, lembrando que o relacionamento de Ângela era tão duradouro que já durava anos.
— Não sinta. Não é dele que eu gosto. Na verdade... nos últimos tempos ele tem me causado repulsa. — Confessou, sentindo o alívio tomar seu corpo.
— Que bom, porque na verdade eu não sinto nem um pouco. — O sorriso de alívio de Camila fez a loira sorrir.
— Assim espero. Eu devo isso a você. De certa forma você me deu coragem para procurar minha felicidade. — Ângela estava aliviada por aquilo ser tão importante para ela quanto era para Camila.
— Você deve isso a si mesma. Você tem muita coragem. — Camila sorriu sem mostrar os dentes.
— Obrigada. — Ângela agradeceu. — Escuta... — Ela olhou para a mão de Camila. — Podemos nos ver depois do seu trabalho? —
— Claro, eu adoraria. —
— Ótimo. — Ela apertou a pequena mão. — Aqui estão os remédios da sua mãe. Eu tenho que ir agora, até mais. —
As jovens se despediram e então Camila voltou para falar com os amigos. Carmen e Leandro olhavam de longe a amiga voltar sorrindo, diferente do que aconteceria em outros tempos, mas depois de certos acontecimentos já estava claro que as duas estavam mais próximas.
— O que ela queria? — Leandro questionou, surpreso com o rosto da amiga.
— Ah, ela só queria falar sobre me dar uma carona depois do trabalho. — Camila não sabia se podia falar sobre o fim do namoro da amiga, então decidiu deixar isso para outro momento.
— E por que ela está querendo te dar carona? — Leandro indagou novamente e Carmen apenas olhava o rapaz. Ela já desconfiava do que estava acontecendo, mas o rapaz parecia não perceber.
— É que ela... tem me dado carona há alguns dias. — Camila falou como se não fosse nada demais.
— Como assim? Você sabia disso? — Leandro olhou para Carmen.
— Eu nunca vi elas saírem juntas no restaurante. Não me coloque nessa confusão. — Carmen tratou logo de tirar seu corpo da discussão.
— Ela não sabia. Ela só aparecia depois do restaurante fechar. —
— Mas não era você quem detestava ela por causa do pai dela? —
— Você disse bem, por causa do pai dela. Olha, eu sei que sempre tive raiva dela e acabei fazendo vocês sentirem o mesmo por tabela, mas depois de conhecê-la melhor, eu percebi que ela não é tão ruim. —
— E quando foi que você “conheceu” ela melhor? — Carmen perguntou, curiosa sobre os detalhes.
— Eu não quero falar disso, apenas saibam que ela não é ruim como o pai. —
— E você acha mesmo que dá para confiar nela? Talvez você esteja apaixonada e não veja como ela é de verdade. — Leandro provocou.
— Eu... talvez eu esteja apaixonada, mas ela é uma boa pessoa, ou pelo menos, tenta ser. — Carmen e Leandro arregalaram os olhos com a confissão.
— Tem certeza? Eu não vou dizer com quem deve se relacionar, mas também não quero que se magoe depois. — Ele apontou o dedo para a amiga.
— Eu estou disposta a correr o risco. — A morena inflou o peito e encarou o amigo com seriedade.
— Então você está apaixonadinha. Isso explica porque você fica cheia de sorrisos quando ela vai aos jogos. — O rapaz comentou.
— Como você fica com a Carmen? — Retrucou Camila. — Então você também está apaixonado por ela? — Acusou o amigo, esperando que ele parasse de provocá-la.
— Sim. — Respondeu Leandro, fazendo ambas as meninas quase engasgarem.
— Como é? — Camila perguntou, olhando o amigo sem acreditar no que ouviu.
— Camila, desculpa a gente não ter falado antes. Estávamos pensando como devíamos fazer isso. — Carmen respondeu, envergonhada.
— Vocês estão namorando? A quanto tempo? —
— Não faz muito tempo. Nem tem uma semana ainda. — Leandro respondeu. — Não contamos porque achamos que você poderia estranhar. Queríamos antes ter certeza de que isso funcionaria. Desculpe por isso. — O rapaz estava envergonhado.
— Ah, não é como se eu não desconfiasse que vocês se gostavam. Eu só não esperava receber a confirmação assim. —
— Obrigada, mas agora voltemos a seu casinho, você já falou para ela? — Leonardo voltou a provocar.
— Não. Preciso de tempo para pensar no que sinto... — Camila respondeu. — Eu preciso ir agora. Depois falamos. —
Camila saiu da presença dos amigos antes que eles prosseguissem com as perguntas. Não que a possibilidade não tivesse passado por sua cabeça, mas estava fugindo dela pois sabia que poderia se machucar se aceitasse o que sentia. No entanto, lembrou-se de que Ângela estava solteira. Havia terminado com Rafael pois nunca o amou, mas isso não tornava mais fácil aceitar seus sentimentos ou declara-los a ela.
Os pensamentos de Camila estavam todos voltados para a loira, já a jovem estava chegando em sua casa e se deparou com os pais sentados no sofá com Letícia junto a eles. Ângela olhou para Letícia e pôde ver nos olhos dela o medo que sentia.
— Como entraram aqui? — Ângela perguntou, fechando a porta.
— Temos a chave, mocinha. — Daniel falou, segurando a chave no ar.
— Suponho que já saiba do que viemos falar. — Michelle levantou e ficou ao lado do marido.
Ângela suspirou, procurando acalmar seus pensamentos. Sabia que podia sair dessa com uma boa mentira, como sempre fez, mas estava refletindo se deveria seguir novamente o caminho dos covardes e fugir da verdade. Olhava para os pais, as pessoas que, embora tivessem muitos defeitos, ela sempre admirou pelo amor que dedicavam um ao outro e por serem tão protetores com a reputação da família. Reputação da família. Essa frase se repetia em sua mente. Sabia agora a que preço ambos estavam dispostos a proteger a família e era hora de decidir se iria fazer parte de tudo ou se seguiria sua própria vontade.
— Sim, eu sei que vieram exigir explicações sobre meu término com Rafael e talvez queiram tentar me fazer voltar para ele. — Ela guardou as chaves e encarou os pais. Letícia estava sentada apenas observando a família se encarando. Era desconfortável estar naquela situação, mas os pais da moça pediram para que ela esperasse a filha junto com eles.
— Ele disse que você o acusou de ser manipulador e de estar com você por conveniência. — Daniel falou.
— Nos acusou. — Reforçou Michelle, indignada com as acusações.
— Quero que você explique essas acusações que fez a nós três. — Exigiu Daniel.
— Ok, eu vou explicar. — Ângela apertou as mãos, sentia seu coração disparar em seu peito. — Eu terminei com Rafael porque ele nunca esteve comigo por amor. Eu sempre fui uma conveniência para ele. A garota que chamava a atenção de todos, a aluna modelo que o fazia parecer mais inteligente, a futura cirurgiã que formaria um casal poderoso e bem-sucedido, a filha de um casal milionário que estava no mesmo status que ele... tudo sempre foi para ele ser visto, ser admirado. — Ela respirava com certa dificuldade, pois falava sobre o que a deixava desconfortável no relacionamento.
— Eu pedi para explicar as acusações, não para explicar por que terminou com Rafael. Isso nós resolveremos depois. — Daniel falou com autoridade na voz.
— Não há nada que resolver. Eu posso ter me exaltado com algumas palavras, eu estava com a cabeça cheia e posso ter exagerado quando falei de vocês, mas não muda o fato de que para Rafael, eu sempre fui apenas um objeto que agrega valor à imagem dele. — Afirmou com a voz firme.
— Então decide terminar um namoro de anos só porque estava com um problema? — Michelle questionou.
— Não foi um problema. Eu só percebi que todos sempre estavam ditando qual caminho eu devia seguir e essa situação já foi longe demais. — Novamente, Ângela tentou se explicar.
— Nós nunca fizemos isso, Só... — Michelle começou.
— Só queriam facilitar minha vida para que eu não precisasse me preocupar. Eu sei, mas isso se tornou uma manipulação. Eu sequer tinha o direito de opinar, vocês sequer me perguntavam o que eu achava sobre qualquer coisa. —
— Está bem. — Daniel falou antes que sua esposa pudesse falar novamente. O homem percebeu que a filha tinha seus argumentos e não iria ceder tão rapidamente. — Se você está dizendo que ele não é o ideal para você ter um relacionamento, então está bem. Não vou permitir que minha filha tenha um casamento de conveniência com alguém que pode tratá-la mal e até traí-la. — O homem falou com a voz mais calma. De forma nenhuma estava disposta a ceder, apenas não queria dar mais razão para sua decisão.
— Mas amor... —
— Querida, nós a criamos com amor e carinho. Você realmente quer que nossa filha fique com alguém que não a ama e apenas vai usá-la? Não foi para isso que a trouxemos para nossa família. Foi para amá-la, e não para usá-la. — As palavras de Daniel foram como um estalo para Michelle e como ele havia planejado, teve o mesmo efeito em Ângela.
A jovem sabia que não era aquela a razão de ter sido adotada, mas não sabia como prosseguir a conversa depois de tudo. Como falar que amava a filha do homem que seu pai matou? Não conseguia. O caminho do covarde é sempre menos doloroso.
— Vamos voltar para casa. Teremos de falar com Rafael e os pais dele sobre desfazer o compromisso. — Daniel falou e se dirigiu à porta com a esposa a seu lado. Não era de seu interesse fazer Rafael aceitar o fim do namoro, mas sabia que a esposa conseguiria reverter a situação com o tempo.
Ângela não agradeceu. Não sentia a necessidade de fazê-lo porque: primeiramente, foram eles que a arrastaram para aquele relacionamento e a pressionavam a seguir em frente; segundo, não tinha mais admiração pelo pai. Assim que o casal saiu, Letícia correu para abraçar a amiga. Ela estava em silêncio durante todo o tempo, porém atenta ao que era dito e principalmente as reações da amiga.
— Obrigada por ter ficado. — Agradeceu, retribuindo o abraço da amiga.
— Eu não deixaria você sozinha numa hora dessas. — Letícia falou, acariciando as costas da loira.
— Obrigada. Você é a melhor pessoa que meus pais trouxeram para minha vida. — Ângela encerrou o abraço. — Acho que você está curiosa sobre o que eu queria falar para você, não é? — Sentou no sofá.
— Nem tanto. Primeiro precisamos fazer você se acalmar. Eu percebi que estava nervosa. — A estilista pegou um copo de água e entregou a amiga. — Eu cheguei a pensar que você iria explodir e falar tudo que pensa, que bom que você não fez isso. —
— Eu queria ter feito, mas novas coisas surgiram e eu não sei se consigo falar sobre isso com eles. Pelo menos não agora. —
— Do que está falando? —
Ângela apertou o copo nas mãos. Estava na hora de contar toda a história para Letícia, desde a proposta com Camila até a recém-descoberta sobre seu pai e sua adoção.
— Eu... tenho saindo com a Camila há alguns meses. — Falou antes que sua coragem sumisse novamente.
— O que? — Letícia perguntou, não que não tivessw ouvido, mas o que ouviu era tão surreal que não conseguia acreditar.
— Eu estava saindo... transando com a Camila há alguns meses e acabei me apaixonando por ela. Eu também descobri o motivo dela me odiar. Acontece que meu pai atropelou o pai e o irmão dela quando ela era criança e fugiu sem prestar socorro, o que resultou na morte deles, além de ter pagado para não ser investigado. E sobre meus pais... eles me adoraram só para chamar a atenção da mídia e desviar a atenção das mortes que ele causou. Tudo que eles falam sobre meu bem, sobre amor, tudo isso é mentira. — Ângela soltava lufadas fortes, falou tudo sem parar nem para respirar.
— Eh... — Letícia abria a boca, mas a voz estava presa em sua boca. Quantas informações havia naquela frase? Ela não havia contato, ela não estava conseguindo assimilar tudo, mas aos poucos foi se acalmando e organizando as informações. — Isso é... muita informação para assimilar. Como assim, seu pai atropelou e matou o pai e o irmão da Camila? Como não há notícias por aí sobre isso? —
— Tem uma. Só uma matéria no Google sobre o caso. Ele usou muito dinheiro para silenciar os fofoqueiros e contou com jornalistas para evitar notícias sobre o caso. Como eu já disse, ele me adotou só para encobrir o crime. —
— Isso não parece algo que o senhor Daniel faria. Ele sempre foi tão profissional. — Letícia parecia tão abalada quanto a própria Ângela quando descobriu.
— Eu também pensei isso, mas não posso mais fugir dos fatos, não dá para fingir não ver que ele só pensa no próprio bem-estar financeiro. — Ângela pegou o notebook e procurou a matéria. — Aqui, a matéria falando todos os detalhes. —
— E como você descobriu tudo isso? A Camila te contou? — Letícia conseguiu trazer o segundo assunto à tona. Queria falar disso desde o começo, mas não sabia se estava pronta.
— Eh. Foi ela sim. — A loira voltou a encolher os ombros.
— Há quanto tempo exatamente vocês estão saindo? E como isso aconteceu? E por que você estava traindo o Rafael? —
— Ah, faz uns alguns meses e sim, eu traí ele durante todo esse tempo. Você sabe que eu nunca gostei dele, que ele era uma pessoa legal, mas nunca consegui amá-lo. —
— Sim, eu sei, mas pensei que você gostava ao menos o suficiente para respeitá-lo dentro do relacionamento. — Letícia estava desapontada, mas queria ouvir a defesa da amiga.
— Eu também pensei, mas quando comecei a me questionar sobre o que sentia por mulheres, as coisas mudaram. Não foi só comigo, ele também passou a ser mais inconveniente, invasivo e cada vez mais desinteressante. Então eu fiz o trabalho com a Camila e, em uma das nossas sessões de estudo, acabamos nos beijando... não, eu beijei ela. — Ângela colocou as mãos no rosto.
— Eu não gosto de você ter traído ele. Rafael sempre parecia se importar muito com você e mesmo que não fosse assim, você não devia ter traído. — Cada palavra da estilista destruía um pouco mais do coração de Ângela. — Mas eu sou sua amiga e eu não estou aqui para julgar com base em situações que eu não tenho como analisar. —
— Você deve estar me achando uma péssima pessoa, não é? — Olhou a estilista pelo canto do olho.
— Não, mas com certeza você precisa me contar mais coisas da sua vida. — Ela sorriu, tentando descontrair. — Você e Rafael, vocês dois tem muitos segredos.
— Eu... — Ângela estava disposta a contar que pagou para Camila transar com ela, mas lembrou-se de que isso não desrespeitava somente a ela, e Camila poderia se sentir mal se mais alguém soubesse. — Pensei que nunca ia me apaixonar de verdade. — Falou antes que Letícia questionasse.
— É uma coisa no mínimo inesperada. O que ela fez para você se apaixonar por ela? — Empurrou a amiga com o ombro.
— Se eu contar, ela me mata. — Sorriu enquanto lembrava do rosto bravo de Camila.
— Então, ela sabe que você está apaixonada? Quer dizer, eu imagino que sim, mas isso está levemente confuso. —
— Bom, eu nunca disse a ela especificamente que estou apaixonada, mas é bem óbvio que ela sabe. —
— E você acha que ela gosta de você também? — Leticia perguntou, estava ansiosa pela resposta.
— Ela também nunca falou explicitamente o que sente, mas nós duas sabemos que há algo entre nós, sabemos o que cada uma sente, embora nunca tenhamos tido a coragem de falar. — Ângela já pensara sobre isso. Era como se sentia sobre a morena e esperava não estar enganada sobre os sentimentos da outra.
— E quanto ao Rafael? —
— Ele não é mais problema meu. Nunca mais quero ter que trocar palavras com ele. — Ângela notou o olhar cabisbaixo da amiga. — Eu sei que você gostava dele. — Confessou baixinho.
— Eu sou péssima em fingir, né? — Letícia estava vermelha de vergonha. — Eu nunca tentei sabotar vocês. —
— Eu sei, mas não é disso que quero falar. — A loira virou para a amiga. — Olha, você é a minha amiga e eu quero que você seja feliz, mas ele não é a pessoa para fazer isso. Você pode achar que é coisa de ex, mas eu sei que ele não é bom o bastante para uma mulher incrível como você. —
— Eu não quero falar disso, podemos só... sei lá, comprar uma pizza e relaxar? —
— Ah, não posso. Eu vou ao restaurante onde a Camila trabalha para dar uma carona para ela. —
— Você já está buscando ela no trabalho? E vocês nem se declararam ainda? — Letícia riu com as próprias palavras.
— Eu só quero ajudar ela a economizar. — A loira falou rapidamente. — Você quer ir comigo? Seria bom ter uma companhia. Eu posso passar na sua casa antes de deixar a Camila. —
— Eu já estou acostumada a ficar de vela mesmo. — Letícia deu de ombros. — Pelo menos vou comer bem, o céu e mar é muito bom. —
— Você já foi ao céu e mar? —
— Sim, varias vezes, mas é melhor não falar disso. — Letícia cortou o assunto.
Às nove da noite, as amigas estavam na entrada do restaurante esperando sua vez de entrar. Foram conduzidas à sua mesa e esperaram algum garçom vir atendê-las. Não demorou muito para que Camila aparecesse bem vestida e com um sorriso que, aos olhos de Ângela, iluminava todo o local.
— Boa noite. — Cumprimentou, séria, após ver que a loira não estava sozinha. — O que vão querer? —
Ambas as jovens falaram o que desejavam para o jantar, a loira olhava Camila com absoluta atenção enquanto a jovem anotava os pedidos. Após anotar tudo, a morena retornou à cozinha e, poucos minutos depois, voltou com uma garrafa de vinho para as mulheres.
— Esse lugar é muito bonito. — A estilista comentou olhando em volta.
— É sim. Foi a melhor coisa que Rafael me apresentou. —
Os pratos não demoraram a serem servidos e Camila fazia tudo com sua agilidade de sempre. Vez ou outra ela e a loira trocavam olhares e sorrisos, olhares que não passavam despercebidos pela amiga que estava de vela. As amigas jantaram enquanto conversavam sobre a faculdade e o trabalho que Leticia conseguiu em um estúdio de moda. Não tocaram no nome de Camila, pois sabiam que aquele não era o melhor momento. Foi um jantar descontraído entre amigas. Como era de se esperar, a amizade entre Ângela e Letícia era grande e resistiria a qualquer coisa.