Capitulo 11 BRIGAS E UM BOM ATENDIMENTO
CAPÍTULO ONZE: BRIGAS E UM BOM ATENDIMENTO
Ângela e Camila já não brigavam como em outros tempos. A mudança foi sentida até por Rafael, que não acreditava que a namorada não implicava mais com a colega. A relação das duas, mesmo que se resumisse a sexo apenas, era a grande responsável por essa mudança, já não era incomum para ambas sorrirem nas breves trocas de olhares quando se encontravam.
— Que tal irmos àquele restaurante novamente? Fomos apenas uma vez e depois só voltamos a sair para ir ao cinema. — Rafael falava deitado na cama com a namorada. Eles estavam passando o dia juntos e, obviamente, fizeram mais do que conversar.
— Temos o TCC para fazer. Você devia se preocupar mais com isso. — Ângela levantou.
— O TCC não é uma preocupação para mim. Além do mais, podemos dar um jeitinho de conseguir o diploma com grana. — Ele levantou-se e seguiu para o banheiro.
— Não acredito que disse isso. Como pretende ser médico agindo assim? —
— Nós estudamos muito durante anos, eu sei tudo que preciso saber e o que não sei vou aprender quando começar a residir. Por que preciso fazer mais um teste para provar isso? —
— Você... é inacreditável.
— Que foi? Eu não estou afirmando que vou comprar o diploma, é só para descontrair. — Abraçou a namorada por trás e beijou seu ombro.
— Para, eu não quero. — Ângela afasta o rapaz.
— Vem cá e eu te deixo com vontade rapidinho. — Puxou a menina para um beijo novamente. Ângela o empurrava com força, mas o rapaz insistia em prosseguir.
— Rafael, para! — Gritou, irritada com a insistência. — Eu já disse que não quero, droga! —
— Está bem. — Rafael pegou a toalha e cobriu a parte de baixo. — Eu já vou embora. — Abriu o box para sair.
Ângela ficou parada e suspirou frustrada com a atitude do namorado. Por mais que fosse um idiota, não queria magoá-lo e por isso o seguiu de volta ao quarto. Da porta do banheiro, a jovem via o rapaz vestindo suas roupas. Não pôde deixar de comparar novamente os corpos do namorado e da amante. Enquanto Camila possuía músculos visíveis e atraentes, uma pele morena e macia, o rapaz era claro e não possuía músculos tão desenvolvidos. Sua pele, apesar de bem cuidada, não tinha a mesma maciez. As pintas por todo o corpo até eram fofas no início, mas com o passar do tempo se tornaram chatas. Além desses detalhes, o rapaz ainda possuía uma marca de nascença na escápula direita, herança genética de seu pai. A marca era um círculo no meio das costas, quase como uma lua cheia, não era particularmente bonito, mas era um charme no início do namoro.
— Sabe que não precisa ir embora, não é? — Comentou.
— Acontece que eu não vou ficar onde não me querem por perto. — Ele vestiu a camisa branca e colocou o relógio.
— Eu não disse que não queria você aqui. — Ângela armentou sem muita vontade.
— Você recusou um beijo do seu namorado, precisa dizer algo depois disso? — Virou para encarar a jovem. — Quando você estiver afim de ser uma boa namorada, me chama. — Rafael pegou sua carteira e saiu porta afora.
— Babaca! — Voltou para o banheiro para um longo banho.
Ainda em seu apartamento, Ângela estava com uma pilha de livros para ler. Estava exausta e com a mente cheia de informações, havia praticamente apagado a pequena discussão com Rafael, pois não considerava importante. A lua já dominava o céu noturno quando ela largou os livros. Olhou o relógio de pulso e concluiu que sairia para jantar fora. O local ela já tinha em mente qual seria.
Arrumou-se como se estivesse indo para um jantar de gala, um vestido vermelho que valorizava suas curvas e com um decote que valorizava seus seios, maquiagem impecável, pôs o perfume mais caro que tinha, uma pulseira de prata e um colar longo que terminava nos seios, o pingente era um beija-flor. Estava se sentindo mais linda do que sempre se achara. Certamente queria chamar a atenção de uma pessoa em particular.
— Céu e Mar, me aguarde. — Disse, após se olhar no espelho e ver o quão bonita estava.
Ao chegar no restaurante Céu e Mar, encontrou uma fila relativamente grande. Precisou esperar um pouco, mas conseguiu uma mesa e entrou para ser atendida. Sentou-se à mesa com elegância e pegou a bolsa para ter certeza de que a maquiagem não estava borrada.
— Linda. — Falou após confirmar que tudo estava perfeito.
Após guardar o espelho, viu de longe uma figura já conhecida. A morena de braços fortes, cabelos cacheados curtos e olhos castanhos estava a alguns metros de distância com um bloco nas mãos. A morena parou em seu lugar, olhando a loira em sua mesa. Sua boca estava levemente aberta e sua respiração estava descompassada. Não era pela surpresa, mas sim pela visão em si, Ângela sorria internamente ao perceber o estado da jovem garçom. Camila balançou a cabeça para sair dos devaneios e seguiu até a mesa.
— Boa noite. Já escolheu o que vai querer essa noite? — Ângela nem sabia que estava sentindo tanta falta daquela voz grossa.
— Vou querer o melhor prato da noite, por favor. — Olhou a morena naquele smoking típico do trabalho, os braços e as pernas apertados pelo decido, os cachos definidos e os lábios... o que poderia dizer deles? Eram tentadores.
— E para acompanhar? —
— Vinho tinto, por favor. —
— Em breve seu pedido estará aqui. — Camila sorriu e voltou para a cozinha.
A troca de palavras, apesar de rápida, foi suficiente para deixar ambas mexidas. Camila, em seu trabalho, não tirava a imagem de Ângela de sua mente. Estava tão linda e elegante que poderia ser confundida com uma divindade, seus gestos delicados a deixavam ainda mais atraente. Ajudou no que pôde na cozinha, mas estava atenta ao pedido da loira, pois queria ser ela quem iria deixar a comida na mesa de Ângela, ver aquela mulher naquele vestido se tornou uma missão.
— Camila, está muito ocupada? — Chamou Carmen, também com o mesmo uniforme.
— Não. — Lançou um olhar para o prato de Ângela que ainda não estava pronto. — O que precisa? — Se aproximou da amiga mais baixa.
— Você viu aquele babaca do Rafael? Ele saiu sem pagar. — Falou a menor.
— Ele saiu mais cedo, disse que pagaria quando voltasse. — A resposta de Camila foi seca, mas satisfatória.
— Você falou com ele? —
— Sim, mas só quando fui entregar a sobremesa. —
— Por que ele saiu sem pagar? —
— Olha, depois falamos disso, agora eu tenho que ir. — Camila falou olhando os cozinheiros
— Por que está com pressa? Se acalma aí. Contratamos mais garçons. —
— É fácil para você falar, seus pais são os donos. — Falou, voltando ao local onde estava para receber o prato de Ângela. Não havia a menor possibilidade de deixar outra pessoa entregar o pedido.
Após poucos minutos de espera, o pedido estava pronto. Camila o colocou na bandeja e estava pronta para levá-lo até a mesa. Seu coração batia rapidamente. A razão daquilo? Queria ela dizer que era por raiva de ter que servir à terceira pessoa que mais odiava no mundo, mas na verdade era desejo de ver novamente a terceira pessoa que mais odiava no mundo e a mais bela que já viu na vida. “É só o vestido, não tem nada demais além dele”, pensou consigo enquanto caminhava em direção à mulher, mas a mente de Camila a traia criando imagens onde suas mãos arrancavam aquele vestido.
— Aqui está o pedido. — Colocou o prato sobre a mesa. Enquanto servia seu olhar se desviou instintivamente para o decote da jovem.
— Obrigada. — Ângela olhava para a moça enquanto era servida.
— Se precisar de mais alguma coisa, é só chamar. — Apesar do nervosismo, a voz de Camila estava firme, firme o bastante para arrancar um suspiro da loira.
A interação entre as duas foi curta, mas suficiente para alegrar ambas, as interações se tornavam cada vez mais agradáveis. Após o jantar, Ângela pagou a conta, deixando uma boa gorjeta, e saiu para pegar seu carro. Não foi embora como pretendia, ficou do lado de fora até ver Camila sair, o que aconteceu um pouco depois a meia noite.
— Ei! — Chamou quando viu a morena. — Quer uma carona? — Falo, deixando seu rosto a vista.
— Você ficou me esperando esse tempo todo? — Camila olhou para os lados.
— Não... eu só estava aqui falando com umas pessoas e você acabou aparecendo. — Explicou rapidamente.
— Que pessoas? Ninguém aqui está falando com você. — Apontou para todo o local em volta.
— Elas foram embora. Olha, eu só ofereci uma carona, se você não quer, então eu vou embora. — A loira segurou o volante com força.
— Está bem. Ir com você é melhor do que ter que pegar ônibus até em casa. — Camila falou após ponderar que seria melhor e mais econômico aceitar a carona, sem falar que poderia desfrutar mais um pouco da bela visão da loira em seu vestido.
A jovem entrou no veículo e sentou ao lado da colega que ligou o carro e dirigiu pela cidade. Ângela dirigia a uma velocidade abaixo do limite. Queria desfrutar da companhia. Sabia que estava gostosa e queria ser admirada por mais tempo. Camila, discretamente lançava olhares para a colega. O vestido tinha uma abertura que deixava a perna de Ângela à vista.
— Por que deixou aquela gorjeta? — Questionou Camila, olhando as ruas pela janela do carro.
— É normal deixar gorjetas quando se é bem atendido. — Ângela fez uma curva à esquerda. — E você tem me servido muito bem. — Seu comentário fez Camila virar o rosto rapidamente para olhá-la.
— O que fazemos no seu apartamento não devia ser levado para o meu trabalho. —
— Mas eu não levei, eu estava falando da qualidade do seu serviço. — Rebateu, deixando Camila ainda mais sem jeito. — Parece que é você quem está levando nossos momentos para o trabalho. — Provocou com um sorriso de canto.
— Eu não... levo isso para lugar nenhum. —
— Tem certeza? Eu notei seus olhares, não tão discretos, para minha coxa enquanto eu dirijo. — Diminuiu a velocidade.
— Eu não... —
— Chegamos. — Ângela interrompeu e virou o rosto para encarar Camila. Seu sorriso convencido não saía de seus lábios e isso deixava a morena irada.
— Eu não estava olhando para sua... para você. — Camila apontou o dedo na cara da loira.
— Não precisa mentir. — Inclinou o corpo em direção a Camila, o movimento deixou seus seios bem visíveis para a morena que lutava para desviar o olhar. — Eu sei que estou gostosa. — Falou em um sussurro provocador.
— Sua... puta mal comida. —
— Se eu sou mal comida, meu bem, é por sua culpa. — Sorriu para provocar ainda mais a menor.
— Ah, quer saber?! — Segurou o rosto da loira com uma só mão. — você só está provocando para eu te agarrar. — Elas estavam bem próximas uma da outra. — Mas essa noite você dorme com vontade. — Abriu a porta do carro e saiu, deixando Ângela frustrada.
Camila abriu o portão de sua casa e entrou. A casa era pequena, tinha algumas plantas na janela que davam à casa um tom mais aconchegante. A mulher fechou a porta e se escorou para recuperar o fôlego. Não podia negar que queria beijar a loira, remover o vestido e fazê-la gozar dentro do carro mesmo. Teria feito isso se Ângela não tivesse a irritado com sua arrogância.
— Já está tão cedo em casa? — Uma voz chamou, saindo de um dos quartos.
— Sim. —
— Pegou carona com alguma amiga? —
— Ah... isso. Uma amiga me deu uma carona. — Explicou, desconcertada. — Volta para o quarto que eu cuido do resto. —
Camila saiu em direção à cozinha para ver o que havia para fazer antes de ir dormir. Enquanto ela lavava o restante da louça, não tirava a loira de sua cabeça. Os olhos, o cabelo loiro, a pele macia, as pernas longas e elegantes, o decote que deixava seus seios mais volumosos e atraentes, o cheiro suave de flores silvestres.
— Maldita. Como aquela puta pode me deixar assim? — Falou enquanto lavava uma panela. — Mil vezes maldita. Não bastava me humilhar por dinheiro, ainda precisa me provocar todo dia? — Ela deslizava a palha de aço com tanta violência que acabou escorrendo e molhando todo seu rosto com a água acumulada na pia. — Inferno! — Sussurrou para não acordar ninguém. — Até quando esse inferno vai durar? — Indagou a qualquer deus que estivesse lhe ouvindo.
A morena continuou tentando remover a loira de seus pensamentos, esforçou-se para não pensar no quão linda ela estava e no que poderia ter feito naquele carro, carro que, naquele momento, estava longe de sua casa fazendo uma curva à direita. O veículo de Ângela parou no estacionamento de seu prédio e ela voltou ao seu apartamento. Um banho foi necessário para acalmar sua excitação, mas não foi suficiente para impedir os sonhos mais excitantes de visitá-la durante a madrugada.
A jovem acordou antes mesmo de seu despertador tocar. Já estava fazendo isso há alguns dias para poder estudar um pouco mais e conseguir mais tempo para si durante a tarde. As duas da tarde, já havia arrumado tudo e, após um banho, sentou-se novamente para escrever seu TCC. As primeiras duas horas de estudo foram exaustivas, sua cabeça doía, seus olhos estavam cansados e ela se forçava a não pensar na morena de cabelos cacheados que havia tomado seus pensamentos desde a primeira transa.
— Talvez Rafael esteja certo. Talvez eu devesse deixar os estudos só um pouco. — Refletiu enquanto bebia um copo de água. — Vamos parar por hoje. — Ângela pegou o celular e procurou o número de Camila, a foto que ela não mudou desde que a adicionou aos contatos. — Talvez ela esteja fazendo o TCC. — Bloqueou a tela, deitando no sofá. O que faria? Não sabia ao certo, queria a companhia da morena, mas sabia que estava fora do combinado. — Não custa perguntar. — Falou, pegando o celular novamente.
“Está ocupada agora?”, enviou a mensagem e aguardou a resposta por alguns segundos.
“Por quê?”
“Pode vir me ver?”
“Precisa ser agora?”
“Pode ser mais tarde, mas quero que venha” Ângela segurava o celular esperando a resposta.
“Vou tentar chegar antes das duas”.
A troca de mensagens parou e Ângela voltou para seu descanso no sofá. Entre as mensagens não respondidas, havia uma de seu pai. Ao lê-la, descobriu que sairiam para jantar com os pais de Daniel e o casal deveria estar junto. Não era um convite, não era uma pergunta educada, era uma intimação para que ela fosse e sem direito a recusa. Irritação não era a palavra que definia o que Ângela estava sentindo, raiva talvez, mas frustração estava mais perto, não somente por saber que vai ter que ouvir sobre seu casamento, mas por sequer ser questionada se tinha ou não um compromisso, ou se ao menos queria ir. Era uma frustração por saber que suas opiniões e desejos nunca eram respeitados, suas vontades e necessidades nunca eram levadas em conta. Nada poderia aliviar a frustração que sentia, mas então duas batidas na porta a tiraram de seu transe.
— Entra. —
— Você tem muita confiança nas pessoas para alguém que mente tanto. — Camila falou, fechando a porta atrás de si.
— O prédio é seguro o bastante para eu não ter medo e o porteiro só deixa entrar quem ele viu comigo pelo menos quatro vezes. — Comentou — Mas vamos evitar visitas indesejadas. — Passou pela morena e trancou a porta.
— É uma boa medida, mas ainda é arriscado. Seus vizinhos podem não ser de confiança. — Camila tirou a jaqueta.
— Está preocupada comigo? — Ângela passou por Camila, seu andar era provocativo.
— Não. Eu só preciso de você para ter o dinheiro. — Olhou a loira de cima a baixo.
— Vai mesmo tentar negar que tem algo além do dinheiro te motivando a vir aqui? — Ângela segurou a mão de Camila e a guiou até sua cintura.
— Não há nada além da minha raiva por você. — Camila mantinha sua expressão séria, apesar de seu coração bater cada vez mais rápido.
— Você mente muito mal, mas não ligo para isso. — Ângela puxou a parceira e a beijou, puxando seu corpo para mais perto. — No momento, a única coisa que me interessa é ter seus dedos dentro de mim e sua língua me lambendo. — Sussurrou perto do ouvido de Camila.
A pele da morena ficou arrepiada e suas mãos apertaram a cintura da loira com mais força. Quando voltaram a se olhar, era possível ver a chama do desejo queimando em cada uma. Por mais que Camila tentasse negar, seu corpo ainda lhe traía. Seus lábios se tocavam como uma dança perfeitamente sincronizada e ensaiada mil vezes. Mesmo com o desejo ardendo à flor da pele, o ritmo se mantinha e era acompanhado pelo ritmo igualmente sincronizado dos dedos.
O toque suave da língua de Camila era tão reconfortante que Ângela poderia desfrutar dele por horas. Cada movimento lhe causava um suspiro diferente, uma sensação única que não experimentou com nenhuma outra pessoa. As carícias de seus dedos eram como seda, tão delicadas e aconchegantes, tão gostosas e, ao mesmo tempo, firmes e quentes.
Suas sensações eram tão únicas quando estava com Camila que, por um instante, desejou não haver mais nada além delas no mundo. Queria abraçá-la e sentir mais do que apenas prazer sexual. Os cachos de Camila receberam um forte puxão quando Ângela chegou ao seu orgasmo, os sons que saíam de sua boca eram mais suaves, mais calmos e pareciam até uma confissão.
— Você bagunçou meus cachos. — Camila saiu do meio das pernas da parceira.
— Ah? — A loira mal conseguia raciocinar direito.
— Como eu vou explicar isso? —
— Explicar para quem? — Ângela estava se recuperando.
— Não é da sua conta. — Camila sentou na cama.
— Por que você é sempre tão intensa? —
— Você que é peso pena. — Rio Camila.
— Idiota. — A loira falou, engolindo em seco. — Eu preciso de água. —
Camila olhou de soslaio e saiu do quarto. Ângela se ajeitou na cama, já sabendo que não veria a parceira tão cedo. Ela estava pronta para levantar quando ouviu a porta abrindo e Camila entrando com um copo de água.
— Você me trouxe água. Que cavalheirismo. — Pegou o copo e bebeu um pouco.
— Não é nada demais. Não vou morrer se pegar água para você. —
— É, mas você nunca fez isso antes. — Olhou a morena com um sorriso largo.
— Você nunca disse que queria. —
— Hm. Então é só pedir e você faz com todo gosto? Bom saber. — Bebeu mais um pouco e sorriu debochada.
— Você é uma vaca. — Camila balançou a cabeça, mas seu tom era risonho.
— O que está olhando? — Perguntou Ângela, notando que a colega olhava um ponto específico.
— Por que seus pais pintavam seu cabelo quando era criança? — Ângela então percebeu que os olhos de Camila estavam fixados na foto que tirou com os pais quando foi adotada.
— Não estava pintado aí, meu cabelo era escuro quando... — Se interrompeu.
— Quando o quê? —
— Ah... quando eu era criança. — Sentiu seu coração dar uma leve acelerada.
— Acho que você ficaria bem de cabelo preto. — Camila comentou, olhando a loira. — É, ficaria sim. —
— Talvez um dia eu volte ao preto. — Ângela olhou a foto. Ela sentia vontade de voltar à cor natural de seus cabelos, mas não era algo simples de fazer.
— Eu já vou. Nós nos vemos depois. — Camila levantou e saiu do quarto.
Dessa vez, Ângela tinha certeza de que não veria a morena tão cedo. Sentiu-se triste com tal pensamento. Estava de fato aproveitando a companhia.
À noite, Ângela estava exausta com a interação entre seus pais e os pais de seu namorado. Eles falavam sobre seus negócios, sobre suas viagens e Rafael, com seu sorriso largo, a deixava mais irritada.
— E como foi a estreia do seu livro, Adão? — Daniel questionou.
— Um sucesso. — O homem loiro sorriu. — A editora já está reabastecendo o estoque devido aos pedidos. — O homem parecia orgulhoso de si.
— Ele não para de falar disso. Todos os dias está vendo os números e sorri a cada pedido ou avaliação. — A esposa de Adão comentou, apontando para o marido.
— Eu sabia que seria um sucesso. — Daniel acrescentou com um sorriso genuíno. Os homens eram amigos muito próximos, era a única pessoa que Daniel considerava um irmão de alma.
— E você, Karen? Como estão as aulas? — A mãe de Rafael olhou para todos. A mulher se sentia um tanto deslocada, mesmo sendo de família tão rica quanto as de Michelle e Daniel. Sentia-se menos importante por optar por dar aulas de artes em uma universidade em vez de se tornar uma artista plástica de sucesso. Era como se sua profissão estivesse no escanteio das profissões do grupo.
— Estão ótimas. Meus alunos estão tirando ótimas notas e tenho certeza de que alguns conseguirão uma exibição em uma grande galeria antes mesmo de se formarem. — A mulher tinha um sorriso largo, estava orgulhosa de seus alunos e de sua boa didática.
— Você acredita muito nos seus alunos, pega muito leve com eles. — Adão comentou, olhando para a esposa. — Já falamos que ela é muito mole. Os alunos precisam passar por mais dificuldade como nós passamos, só assim chegam ao ápice. —
— É verdade. os alunos precisam se dedicar mais para não reprovarem. — Michelle comentou, concordando com o amigo.
— Meus alunos são muito esforçados. Eles tiram boas notas porque estudam e porque eu dou uma ótima aula. — Karen estava séria.
— Como está indo a pesquisa de vocês? — Daniel falou antes que sua esposa ou seu amigo tivessem a chance de revidar as falas de Karen. Não era por carinho a mulher e sim porque não queria causar mais problemas para seu amigo.
— Ah... — Ângela olhou em volta nervosa, sabia que estava sendo usada para evitar uma discussão entre a Karen e os outros dois. — Estou indo bem, mas tenho muito para ler ainda. —
— E você, filho? — Adão olhou para Rafael.
— Sim. Estou estudando muito, todos os dias, para ter uma ótima nota. — O rapaz mentiu descaradamente, mas os demais não se importaram. Apenas Ângela olhou o rapaz como quem perguntava de onde vinha tanta cara de pau.
— É bom assim. Será maravilhoso ter mais um casal de médicos na família. — Michelle comentou, olhando o casal. — Doutor e doutora. — A mulher tinha um sorriso cheio de orgulho.
— Ainda tem um longo caminho, mãe. — Ângela comentou com a voz mais baixa.
— Isso mesmo. O jantar é para ser uma noite divertida em família, vamos parar de pressionar as crianças. — Karen falou, tentando deixar os jovens mais à vontade.
O jantar prosseguiu com uma relativa tranquilidade, algumas pequenas conversas sobre o restaurante, sobre suas vidas e planos de viagem para os próximos meses. Ao final do jantar, os casais se separaram e Ângela teve que aceitar a companhia do namorado para não chatear ou constranger os sogros.
Em seu apartamento, Ângela retirava a maquiagem enquanto Rafael tomava banho. Estava demorando propositadamente para não dividir o chuveiro com o rapaz. Não suportava a ideia de passar mais tempo com ele. Após o banho, o casal deitou para ver um filme até dormir, mas Rafael tinha outros planos para terminar a noite. O rapaz beijava a bochecha da namorada e lentamente descia para o pescoço. Ângela, por sua vez, afastava o rapaz, mas como não queria ser rude acabava não tendo tanta firmeza e sendo confundida com charme.
— Para! Eu não estou afim hoje. — Empurrou o rapaz e virou o rosto para o lado oposto.
— Qual é? Faz tanto tempo que não fazemos um amorzinho. — O rapaz beijou o ombro da namorada. — Você tem estudado tanto que mal sobra tempo para a gente. —
— É, mas hoje não estou afim. — A mulher continua afastando o rapaz. Os lábios do homem estavam frios e faziam sua pele o rejeitar ainda mais.
— Rapidinho você fica afim. — Sua voz estava baixa, levemente rouca e arrastada, para Ângela era mais repulsivo que excitante.
— Eu vou beber água. — Ângela levantou da cama para evitar continuar perto do namorado.
Ela pegou um copo de água e bebeu lentamente entre uma lufada de ar e outra. Suas tentativas de afastar o rapaz estavam cada vez mais cansativas, mas ceder não era uma opção para ela. Não suportava mais a ideia de ter que dormir com ele. Ao retornar para o quarto, viu o Rafael vestido em suas roupas e caminhando em direção à porta.
— Vai embora? Não quer ficar? — Perguntou ela, parando perto do sofá.
— Não. Acho melhor ir para casa. — O rapaz nem a olhou e saiu pela porta.
Ângela não retrucou, apenas revirou os olhos e voltou para o quarto após trancar a porta. Não estava chateada com a infantilidade do rapaz, estava feliz de ter o apartamento só para si e não ter que suportar o namorado lhe proporcionaria uma boa noite. Os dias de Ângela estavam sempre focados no estudo, trocava mensagens periódicas com o namorado, mas seu contato estava restrito à companhia de Letícia. Ela só aceitava a visita da amiga e às vezes dos pais quando estes queriam visitá-la.
Letícia já estava praticamente formada, mas ajudava a amiga nos estudos sempre que podia, sabia que o próximo ano seria difícil com ela tendo que residir em hospitais. Entre os estudos elas conversavam sobre a formatura de Letícia e sobre a relação da jovem com sua mãe, também conversavam sobre o namoro fracassado da loira.
— Você tem passado mais tempo comigo do que com o Rafael. — Letícia comentou, comendo uma pipoca. O estudo havia se encerrado e agora elas estavam vendo um filme.
— Ah, ele não anda muito disposto a me ver. —
— Ele? Tem certeza de que não é você? — Letícia levantou a sobrancelha.
— Dessa vez não. Ele não tem insistido tanto para sairmos e nem aparece mais de surpresa. — Ângela tinha os olhos fixos na cena de perseguição do filme.
— Estranho, ele sempre foi tão atencioso. —
— Talvez tenha achado outra garota. — A loira comentou. Ela estava tranquila com o comentário, mas sua amiga ficou estranhou a ideia.
— Rafael não faria isso, ele não é um traidor, ele te ama. — Letícia estava desconfortável com a ideia de que Rafael pudesse estar com outra garota. Seu desconforto não era apenas por preocupação com a amiga, mas também pela possível frustração de seu amado não ser o que idealizara.
— Não dá para confiar tanto nas pessoas hoje em dia. —
— Mas nem na pessoa com quem você namora? — Letícia estava atenta não apenas à resposta, mas também às expressões da amiga.
— Nem sempre essas pessoas são confiáveis. — Ângela não mudou sua expressão, mesmo sabendo que era ela quem traía, não se intimidou ou incomodou. — Enfim, se eu descobrisse que ele estava me traindo, seria um alívio. —
— Por que você quer um motivo para terminar com ele sem sair como errada? — Letícia voltou a ver o filme.
— Sim. Não teria que ouvir minha mãe e meu pai falando para eu voltar. — Ângela pegou o refrigerante e bebeu. — Se ele fosse um escroto, seria mais fácil me livrar desse compromisso. — Bufou lembrando dos últimos encontros com o rapaz. — Se bem que ele anda muito insistente. —
— Sinto muito que seja tão ruim assim, mas você devia terminar com ele. Não amar alguém já é motivo para você não continuar com um relacionamento. — Letícia suspirou. — Mesmo assim eu não entendo por que você não gosta do Rafael, ele é tão doce, romântico e gentil. —
— Talvez não seja dele que eu não goste... talvez eu só não goste... de homens. —