Capitulo 19 TUDO INDO BEM ATÉ DEMAIS
(aviso de gatilho no final do capítulo, a partir de agora irei abordar temas sensíveis.)
CAPÍTULO DEZENOVE: TUDO INDO BEM ATÉ DEMAIS
— Bom dia. — Camila falou com a voz rouca.
— Bom dia. Dormiu bem? — Ela acariciou o abdômen de Camila.
— Eu quem devia perguntar isso. — A morena sorriu. — Conseguiu dormir nessa cama minúscula? —
— Claro que sim. Como não dormia há muito tempo. — Deitou a cabeça no ombro da morena. — Você tem que levantar agora? — Ela fazia pequenos círculos na barriga da menor.
— Ainda tenho alguns minutos. Por quê? — A jogadora observava o movimento dos dedos em sua pele.
— Tenho umas ideias para você. — Ângela estava acariciando a barriga de Camila, seu olhar sugestivo para a jovem deixava claro suas intenções.
— Não podemos. Minha mãe não demora a acordar. — O sorriso de Camila era envergonhado.
— Não é como se ela não tivesse ouvido a gente ontem. — Deu um selinho na morena e jogou uma perna por cima da menor.
— Claro que não. Ela estava dormindo. — Camila ficou por cima de Ângela e a beijou.
— Camila vem, lo... meu Deus! — Marília abriu a porta sem bater. Ela não esperava encontrar a filha em tal situação.
— Mãe, não é nada– — Camila escondeu o corpo cheia de receio.
— Não precisa dizer nada. — A mulher cobria os olhos de vergonha. — Eu vou... depois nós falamos. —
A mulher fechou a porta e saiu sem olhar para trás. Camila deitou na cama, mortificada de vergonha, e Ângela tinha o rosto completamente vermelho. As mulheres levaram alguns minutos para se recompor. Foram longos minutos até a cor natural voltar a seus rostos e Após um banho, elas sentaram à mesa para tomar café com Marília. A vergonha consumia as três mulheres por igual, mas nenhuma tinha coragem de falar.
— Mãe, não precisava fazer o café. — Camila comentou.
— Você estava demorando para sair do quarto... — A mulher não olhava para as jovens. — Então eu decidi fazer para facilitar seu trabalho. —
— Eu já vou. — Ângela falou, suas bochechas estavam novamente vermelhas como maçãs maduras. — Preciso... pegar algumas coisas e... — Ela olhou Marília, mas não manteve o olhar por mais de dois segundos. — Eu já vou. — Ela levantou para sair. — Obrigada pelo café, dona Marília. Desculpe o incômodo. — Ela saiu da mesa em direção a porta.
Camila acompanhou a amiga o mais rápido que suas pernas tremulas conseguiam. Elas se despediram com um beijo repleto de amor e a morena assistiu com um sorriso bobo enquanto o carro fazia uma curva à direita e sumia na cidade. A jovem voltou para dentro de casa, onde encontrou sua mãe ainda tomando café. A mais velha tentava conter um sorriso, mas era difícil fazê-lo diante das circunstâncias.
— Então... vocês estão namorando? — Marília perguntou para a filha.
— Não exatamente. Ela está lidando com alguns problemas, então não quer firmar um compromisso sem antes resolver tudo. — Camila olhava a xícara de café, contemplando seu próprio reflexo. — Acha que eu devo esperar? — Camila estava pensando na promessa que fez na madrugada, ela estava disposta a esperar, porém, ao pensar melhor na situação, percebeu que poderia se arrepender da decisão.
— Geralmente, eu acho que isso sempre é um sinal de que a pessoa não está disposta a algo sério, mas aquela jovem parece se importar com você de verdade. Eu não sei quais problemas ela está passando, não posso dizer se eles são ou não o suficiente para fazer alguém esperar, mas você a conhece, então eu confio no que você disser. — A mulher olhava a filha com ternura, ela sempre confiou no julgamento da filha, pois sabia que a tinha educado bem. — Você a ama? —
— Eu... acho que sim. —
— Então espere, mas se por um instante você duvidar dela, nesse momento você já terá a resposta para suas perguntas. — A mulher segurou a mão da filha.
— Obrigada, mamãe. — A jovem deu um sorriso de orgulho para a mulher.
Mãe e filha terminaram o café e mais nova lavou a louça enquanto Marilia se preparava para fazerem os exercícios pulmonares. Camila ajudou a mãe a realizar os exercícios pra fortalecer os pulmões e logo depois ela deixou a mulher na cama, pois o tempo estava mais frio do que no dia anterior. Uma frente fria estava se aproximando e isso nem sempre era bom para elas.
Em sua casa, Ângela parecia flutuar de tão feliz que estava. Havia dormido com a mulher que amava e não podia está mais satisfeita com a vida. Quando a jovem olhou o celular e encontrou várias mensagens de Rafael em suas redes sociais. A jovem havia bloqueado o rapaz na maioria delas, mas quando ele não enviava mensagens por algum segundo perfil, ele mandava e-mails. As mensagens eram quase sempre sobre o término e como ele queria reatar tudo. Algumas poucas mensagens eram xingando a jovem, chamando-a de “vaca egoísta” entre outras palavras de baixo calão.
A maioria das mensagens ela nem olhou, então acabou deixando passar algumas ameaças de que ela ainda se arrependeria de terminar com ele e que nunca encontraria alguém igual a ele.
“Apenas mensagens de ex-frustrado”, a jovem pensou ao olhar mais um e-mail, onde a primeira linha era dizendo que ela iria se arrepender de algo. Aquele foi o último que recebeu antes de jogar o celular em cima do sofá.
Nenhuma outra coisa aconteceu durante o dia todo, apenas algumas mensagens trocadas com Camila. Ela estava certa de que era ela que queria para sempre em sua vida mas seria paciente para resolver tudo com seus pais antes de pedi-la em namoro. À noite, ela enviou uma mensagem informando que não iria para o restaurante, mas que iria pegar Camila na hora de saírem. Quando questionada sobre o motivo, ela respondeu que iria falar com os pais. Camila desejou boa sorte e voltou a seus afazeres enquanto a loira estacionava em frente à mansão de seus pais.
“Ei, eu estou assustada”, enviou para a morena antes de sair do carro.
“Você consegue. Você já mostrou que é muito corajosa” a morena respondeu após alguns segundos.
“Eles me tiraram de uma vida miserável e me deram tudo que tenho, eu não seria nada sem eles”, a coragem da loira se esvaía aos poucos. “Eu não estaria sendo egoísta com eles?”
“Você não deve nada a eles, você é uma pessoa corajosa, inteligente, forte, teimosa, você é maravilhosa e isso é mérito seu”
“Obrigada.” A loira esperou para enviar, três palavras curtas surgiram em sua mente, uma declaração curta que significaria sua rendição aos sentimentos, mas desistiu e enviou apenas o obrigada.
Ângela entrou na casa e foi até a sala onde os pais estavam, Daniel lia os documentos do hospital enquanto Michelle lia um livro ao lado dele. O casal nem notou que a filha estava na sala até que ela falou, chamando a atenção dos dois.
— Acho que esse é o recorde de visitas que você nos fez. — Michelle sorriu ao ver a filha.
— O que veio fazer hoje? — Daniel não parecia tão feliz quanto a esposa.
— Eu preciso falar com vocês. — Ângela sentou no sofá.
— Você mudou de ideia sobre o casamento com Rafael? — Michelle abriu um sorriso cheio de esperança e Daniel prestou atenção.
— Não, eu não vou voltar atrás na minha decisão. —
— Então, o que quer? — Daniel falou com a voz ríspida.
— Eu... quero falar do motivo de terminar com ele. Eu falei para você que era porque não o amava, porem isso não é tudo. — Ela entrelaçou os dedos. — Acontece que eu conheci uma pessoa e me apaixonei por ela. —
— Filha, aventuras vêm e vão o tempo todo, mas amor verdadeiro fica. Você não pode abrir mão de quem ama por uma aventura qualquer. — Michelle tentava convencer a filha sobre seu ponto.
— NÃO, eu não estou trocando amor por aventura nenhuma. — Ela falou alto. — Não existe amor entre eu e Rafael, eu nunca vou amá-lo. —
— Ângela, você o amava até pouco tempo. Esse rapaz que você conheceu é só um caso. —
— Não é um rapaz, mãe. É uma mulher. —
— Como é? Você deixou o casamento que eu planejei desde que você chegou em nossa casa por causa de uma... uma mulher? — Michelle levantou.
— Isso é uma piada? Você acha que eu e sua mãe somos palhaços? — Daniel levantou.
— Não. Eu só vim aqui porque achei que devia a vocês uma explicação e porque... eu quero pedi-la em namoro, mas vocês deviam saber antes. —
— Você nos deve muito mais do que explicações. Eu dei a você um tempo para repensar tudo isso, mas já cansei. — O homem falava com autoridade. — Você vai casar com Rafael e ponto final. —
— Eu já disse que não. Não pode me obrigar. —
— Eu posso sim Nós pegamos você naquele orfanato imundo, é o mínimo que deve fazer para retribuir tudo o que fizemos, todo o dinheiro e tempo que gastamos com você deve ser compensado. — As palavras de Daniel machucaram a menina, mas não a fizeram vacilar em sua escolha.
— Eu já compensei vocês o bastante quando impedi você de ir pra a cadeia. — Apontou o dedo na cara do homem enquanto segurava as lágrimas.
— Como é? — Daniel perguntou entre os dentes.
— Do que está falando? — Michelle perguntou.
— Eu sei que vocês só me adotaram para impedir que você fosse preso por atropelar um homem e seu filho e ainda fugir sem prestar socorro. —
— Como descobriu isso? — Daniel olhou com raiva para a filha.
— Eu conheci a filha daquele homem. Você nunca pensou na família dele, no que sentiram e no que perderam. — Começou a acusá-lo, lembrar de Marília e no quanto aquela mulher deve ter sofrido fazia ela manter a coragem de encarar o pai. — Foi só para se livrar da mídia que iria cair em cima de você na época, eu sei de tudo. Então não, eu não devo nada a vocês. —
— Saia daqui. — Daniel falou, visivelmente irritado. — Você não é mais bem-vinda na minha casa. Já cumpriu tudo que devia e não serve mais para essa família. —
— Querido, não fale coisas sem pensar. — Michelle tentou se aproximar do marido, mas ele não permitiu.
— Ainda está aqui? Você não tem mais nada que fazer na minha casa. — Daniel olho a filha com desprezo.
Ângela nada falou, apenas seguiu em direção à porta enquanto sua mãe a seguia tentando falar com ela. Michelle tentava fazê-la mudar de ideia e pedir desculpas a Daniel e voltar com Rafael. Para a mulher, tudo poderia ser resolvido fazendo as escolhas certas para não irritar o homem. Achava que, se Ângela voltasse atrás, tudo seria como antes. Não passava em sua cabeça o que a filha sentia ou o que ela queria, aquelas coisas não importavam pra ela.
— O seu pai está nervoso. Esse assunto deixa ele irritado e com toda essa história do Rafael... ficou ainda pior. — Ela falava ao lado da filha. — Ele vai voltar ao normal quando você voltar com o Rafael e se desculpar. —
— Acontece que eu não vou fazer isso. Eu não vou me desculpar por falar a verdade e não vou voltar para o Rafael só porque ele está fazendo birra. — Ângela entrou em seu carro. — Mamãe, eu sei que você sempre quis uma família perfeita, uma filha como as bonecas com as quais brincava, mas não dá para fingir ser perfeita para sempre, ainda mais quando isso custa nossa paz. Eu lamento muito e eu sei que você tentou ser a melhor mãe que acreditava ser, mas não está funcionando, na verdade nunca funcionou. Me perdoe por não poder fazer mais parte disso e destruir sua família perfeita, mas eu também quero ser feliz. — Ela abraçou a mãe como se estivesse se despedindo e então entrou no carro.
Ela saiu sem ouvir o que a mãe teria a dizer. Seja lá o que fosse, seria algo que ela não queria lidar. Enquanto dirigia, finalmente deixou as lágrimas saírem, seus olhos eram como cachoeiras cujo fluxo era forte e contínuo. Ela dirigiu pela cidade até seu apartamento, mas antes mandou uma mensagem informando tudo a Camila e reforçando que iria buscá-la assim que tomasse um banho.
“Você está bem? Não precisa vir me buscar se estiver se sentindo mal”. A mensagem de Camila estava carregada de preocupação.
“Eu não estou bem, mas ver você fará eu me sentir melhor. Vou apenas tomar um banho e apareço aí para te pegar”, Ângela olhou a mensagem e, para descontrair, escreveu mais uma provocação. “De muitas formas”. Sorriu ao imaginar a cara da morena.
“Para com isso!” Camila pediu envergonhada. “Eu tenho uma surpresa pra você, mas só vou dizer o que é mais tarde.”
“Tá bem, logo eu vou te buscar.” A jovem do outro lado sorriu e a ligação foi encerrada.
Antes de voltar ao apartamento Ângela parou em uma loja para comprar lasanha congelada e comer rapidinho antes de ir buscar a morena que sempre tornava seu dia mais feliz. A loira seguiu para casa rapidamente para jantar.
A jovem entrou em seu prédio e o estacionamento estava escuro, não havia ninguém além dela no local. Não era a primeira vez que ela encontrava o estacionamento às escuras, mas ele parecia mais desconfortável do que nos outros dias. Ela ignorou e seguiu para o elevador, estava ansiosa para entrar e tomar seu banho, sua cabeça doía devido ao choro, mas já estava mais calma e certamente ficaria melhor ao encontrar sua amada.
Antes de entrar, ela recebeu uma mensagem de Letícia dizendo que passaria em sua casa, pois queria uma carona. A jovem estilista estava trabalhando em um estúdio próximo ao prédio da amiga, obviamente a loira aceitou dar uma carona a estilista. Estava feliz por ter a companhia da amiga nesse dia, pelo menos por alguns minutos.
Entrou em seu apartamento, a porta estava aberta, ela estranhou, mas não era a primeira vez que deixava a porta aberta então apenas deixou passar. Sempre confiou no porteiro, então nunca precisou se preocupar. Assim que entrou, ligou as luzes e, ela colocou a lasanha no micro-ondas e foi direto para o quarto. Foi naquele local que sua cabeça começou a latejar. Ali, sentado em sua cama, estava Rafael em silêncio. Ela não queria mais estresse do que já havia passado e apenas pediu para ele ir embora.
— Não saio daqui sem que você aceite voltar comigo. — Ele tinha as mãos fechadas com força.
— Eu não vou voltar com você, isso já está mais do que decidido. Só desapareça da minha vida. — Ela virou as costas, esperando que ele saísse logo, como sempre fez ao ficar frustrado.
— Quem você pensa que é para me rejeitar assim? — Ele levantou e segurou o braço da loira com força suficiente para marcar sua pele branca.
— Está ficando louco? Me solta! — Ângela puxava o braço, mas o homem era muito mais forte. — Já disse para me soltar. — Ordenou entre os dentes.
— Você acha que pode me largar assim? — Ele empurrou a loira, fazendo-a cair na cama e ficando por cima dela. — Eu disse que iria se arrepender de fazer isso comigo. — O homem segurava os braços da garota.
— Me larga! Soc- — Rafael deu um soco no rosto de Ângela a impedindo de gritar.
— Você vai aprender a ficar quieta e não me humilhar nunca mais. —
Os olhos de Ângela estavam cheios de lágrimas e seus pensamentos se voltaram para Camila e Letícia, implorando aos céus para que alguma das duas aparecesse em seu quarto para salvá-la, mas não era possível.