Capitulo 21 PARTIDA
CAPÍTULO VINTE E UM: PARTIDA
— Amor, o que aconteceu? — perguntou preocupada enquanto Letícia estava dirigindo.
“Minha mãe... ela teve um... um ataque respiratório e... amor... ela morreu.” A voz de Camila estava desesperada, até mesmo Letícia conseguia notar seu choro.
— Meu Deus! Amor, a gente está chegando aí. Fica comigo, tá? — Ângela respirava rapidamente e Letícia acelerou, pois ela já imaginava o que havia acontecido.
Letícia dirigia o máximo que podia para não ser parada pela polícia. Cada sinal vermelho era seguido por um xingamento diferente. Chegou a tal ponto que a jovem estudante de medicina e a estilista já haviam criado ao menos 30 novos xingamentos. Os veículos à frente pareciam estar mais lentos do que o habitual, contribuindo para o estresse de Ângela.
A loira não largava o celular e nem parava de repetir palavras de conforto para sua amada. Ela maldizia o momento em que desejou falar com seus pais e deixou sua amada sozinha no hospital, amaldiçoou Rafael por ser a causa de tanta desgraça. O carro parou em frente ao hospital e Ângela nem esperou Letícia estacionar, ela saiu do veículo e correu para o interior do hospital, onde encontrou Camila que correu em sua direção buscando o conforto de seu abraço.
Camila estava com o rosto inchado, seus olhos estavam vermelhos e de sua boca não saía mais do que algumas sílabas confusas. Ângela a abraçava com força, tentando transmitir todo seu carinho. Era um gesto que dizia que ela estava a seu lado e não sairia mais dele. Letícia chegou alguns minutos depois e, de longe, ela observou as meninas abraçadas. Ela deixou as lágrimas rolarem, mesmo sem ter amizade, ela estava compadecida pela perda de Camila.
De acordo com os médicos que estavam cuidando de Marília, a mulher teve uma crise respiratória seguida de tosse severa, com a fraqueza gerada pelo resfriado, a morte foi inevitável. Embora o risco de morte já fosse previsto no momento em que os remédios não fizeram efeito, nenhum dos envolvidos esperava que as coisas fossem tão rápidas como haviam ocorrido.
O corpo de Marília só seria liberado em dois dias, então as duas jovens poderiam voltar para suas casas, mas a morena se recusava a sair, ela agarrava-se a uma insana esperança de ter acontecido algum erro e de que algum médico apareceria dizendo que sua mãe estava viva. Horas se passaram, Ângela avisou Carmen e Leandro do ocorrido, pois Camila não conseguia falar. A tarde passou e a esperança de notícias deixava aos poucos a morena, mas as lembranças da mãe doíam demais para que ela parasse de acreditar.
— Amor, temos que ir. — Ângela acariciava o rosto estático da morena enquanto seus amigos estavam parados no corredor em silêncio, nenhum sabia o que dizer ou se deveria dizer algo.
Camila nada disse, ela apenas virou o rosto para Ângela e, antes de conseguir formular algum motivo para não ir embora, seus olhos se encheram de lágrimas. Ângela compartilhou os sentimentos de sua amada com um abraço de lado, conseguia entender a dor que estava sentindo e estava lá para ajuda-la.
— Vem, vamos voltar para casa. — Ela segurou as mãos de Camila, auxiliando-a a levantar.
As mãos de Camila estavam frias, mas ela apertava a mão de Ângela como se precisasse dela para se manter de pé. Os outros três seguiram as duas para o estacionamento onde os carros estavam. Letícia se ofereceu para levar o casal e Carmen se ofereceu para levar o carro de Ângela, pois Leandro ainda não tinha carteira e ela estava cuidando da morena.
As duas estavam no banco de trás do carro de Letícia. Camila ainda chorava com as lembranças da mãe, sabia que ao chegar em casa não seria recebida pela mulher que sempre esteve a seu lado. O tempo pareceu voar e, como se tivesse apenas piscado os olhos, Camila se viu em frente à pequena e bela casa pintada de laranja com ladrilhos na entrada. Pela primeira vez, ela tentou segurar as lágrimas enquanto todos a ajudavam como podiam.
Leandro abriu a porta e todos entraram. Ângela levou a morena até o banheiro para que ela tomasse um banho. Carmen foi à cozinha fazer um chá para ajudá-la a dormir um pouco, já Letícia apenas ajudava Leandro a arrumar a casa. Enquanto todos arrumavam o local, Ângela estava no banheiro ajudando sua amada. Ela despiu a morena e a colocou embaixo do chuveiro para ensaboá-la. Não havia qualquer desejo carnal no ato, apenas o carinho e o cuidado que todos os amantes reservam apenas para as pessoas que amam.
Enquanto todos ajudavam, Letícia recebeu uma ligação. Assim que viu o nome na tela, ela sabia que precisaria sair para poder conversar. Ela se retirou para o quintal, onde nenhum dos outros iria incomodá-la em sua conversa.
— Alô. —
“Let, achei que você não ia atender” A voz suave de Rafael fez o estômago da jovem revirar, a tranquilidade em seu tom era de tirar qualquer pessoa de sua paz.
— O que você quer? — Perguntou sem rodeios, sabia que ele não iria lhe procurar apenas para bater papo, pois ele nunca o fez, todas as vezes que conversavam ou era por meio de Ângela ou era ele procurando informações sobre ela.
“Ok, eu vou direto ao ponto. Você já deve saber que a Ângela está me acusando de estupro. A delegada do caso me chamou para prestar esclarecimentos e parece que tudo está se resolvendo, mas se as coisas se complicarem, eu espero que você possa me ajudar a sair dessa. Eu garanto que ela me chamou e a gente transou, só isso. Ela só não quer confessar pra amante dela, elas querem acabar com a minha vida com essa falsa acusação.”
— O que exatamente você espera que eu faça para te ajudar? —
“Olha, eu não sei o que ela fez com o corpo dela depois que eu saí, mas eu não toquei um dedo nela, não além do que ela queria, mas ela insiste em dizer que eu bati nela. Deve ter sido aquela sapatão escrota! Eu só quero que você fale a meu favor. Você me conhece desde sempre e sabe que eu nunca faria isso, pode contar todas as mentiras que ela já contou, e você sabe que ela conta muitas mentiras, isso vai fazer o juiz perceber que ela e capaz de mentir por qualquer coisa”.
— Você quer que eu fale do passado dela para desmoralizar o depoimento? —
“Você, mais do que qualquer um, sabe que ela mente para conseguir tudo que quer, e essa mentira vai acabar com a minha vida se você não me ajudar. Você me conhece bem, sabe que eu nunc–
— Tem razão Rafael! — A voz de Letícia estava firme, firme como jamais esteve ao falar com ele. — Eu conheço você, conheço mais do que você possa imaginar. Sei das suas traições, sei das suas mentiras, sobre você comprar notas com o dinheiro do seu pai. Tudo isso muito bem escondido, por trás da sua ponta de bom moço. — Falou sem pensar duas vezes. — É fácil acreditar nas suas palavras, você é um exemplo de homem perfeito enquanto a Ângela tem todos os defeitos. Ela mente, ela pode abandonar as pessoas se estiver se sentindo mal. Como disse: é fácil acreditar em você à primeira vista, mas eu sei que vocês são mais do que aparentam ser. Eu te amava, eu observava cada passo seu esperando que você correspondesse meus sentimentos, mas quanto mais eu te observava, mais eu via por trás da sua mascara, eu conseguia ver as mentiras, as traições, mas eu achava que era porque a Ângela não te amava de verdade e você acabava agindo daquela forma.
— É claro que é por causa dela. — Rafael se apressou em dizer ao ver uma brecha de se livrar da responsabilidade. — Eu sempre soube que ela nunca me amou, isso me deixava louco e eu acabava fazendo coisas erradas, mas isso nunca foi minha culpa, eu só precisava de amor de verdade. De alguém que me entendesse como ela nunca fez. — O rapaz falava com uma doçura que deixava Letícia desnorteada, não pela declaração do rapaz, mas pela audácia em tentar manipula-la.
— Eu pensava assim, achava que você iria mudar se fosse amado por mim. — Ela deu um suspiro cansado. — Mas depois do que você fez não como acreditar nisso. Você é um covarde, estuprador, manipuladora e eu nem sei mais o que. — Letícia falava como se estivesse colocando para fora dores de uma vida inteira. — E se você estiver gravando isso para editar e mostrar para a delegada, saiba que eu também estou gravando. Você não vai se safar dessa. —
Letícia encerrou a ligação sem ao menos dar a chance do rapaz lhe responder. Ela enxugou uma lágrima que se formava, mas ela não se permitiria chorar por alguém que fez algo tão nojento. A estilista se recompôs e voltou para dentro da casa, onde encontrou o casal conversando sobre seus trabalhos, enquanto no quarto Ângela ajudava sua amada.
Após o banho, Camila deitou na cama e Carmen lhe trouxe o chá. Ângela agradeceu a ajuda de todos e deixou sua amada na cama para dormir. Sem poder ajudar em mais nada, Leandro e Carmen se despediram para voltar para suas casas, deixando apenas Letícia e Ângela juntas pois a estilista pediu para falar a sós com sua amiga.
— Escuta, eu sei que esse não é o melhor momento, mas preciso te contar uma coisa. — Letícia estava sentada no sofá ao lado da amiga. — O Rafael me procurou, ele pediu para eu depor a favor dele caso as investigações continuem. —
— O que ele te falou? —
— Disse que você inventou tudo, que você chamou ele e que transaram. Ele também pediu para que, no meu futuro depoimento, eu diga que você sempre mentiu e que não é de confiança. Eu neguei o pedido, claro, mas com certeza essa vai ser a defesa dele. — Letícia estava no sofá segurando as mãos entrelaçadas.
Ângela pôs as mãos sobre o rosto, já imaginando a dificuldade que enfrentaria para que ele fosse preso.
— Esse maldito canalha. Eu já devia ter imaginado isso. Obrigada por me avisar. — Olhou a amiga com um olhar agradecido. — Você... eu sei que você gostava dele, imagino que esteja sendo difícil pra você também, ter que lidar com isso. —
— Eu realmente gostava dele, mas agora eu sei que eu não sinto nada mais nada, a pessoa que eu gostava não é essa que ele é. Eu até achei que poderia ser coisa de momento, mas depois do que ele fez com você… — Apertou os punhos com força. — Não posso sequer vê-lo. Não há como amar alguém que faz algo assim. —
— Ele conseguiu destruir duas pessoas ao mesmo tempo, não é? —
— Não, nós somos mais fortes. Eu e você, nós vamos superar isso, ele não vai nos destruir. — A estilista olhou a amiga com determinação, aquele era um dos momentos que ela precisava mostrar força.
— Você é tão forte. — Ângela falou enxugando uma lagrima.
— Eu sei. — Letícia sorriu. — Bom, eu já vou, já está anoitecendo. —
Ângela levantou-se para acompanhar a amiga até a saída, a loira sabia que falar sobre seus sentimentos a respeito de Rafael devia ter deixado a amiga desconfortável, por mais que ela demonstrasse força, então não insistiu. Ela entrou em casa e sentou no sofá, finalmente havia parado para refletir sobre tudo que aconteceu.
As lágrimas não saíam de seus olhos, apenas sentia o peso de todos os acontecimentos recentes, seu corpo estava cansado, mas parar não era uma opção, então ela continuava procurando coisas para fazer. De minuto em minuto, ela ia até o quarto para ver sua amada. Ela estava colocando a roupa para lavar quando sentiu seu celular vibrando em seu bolso. O nome na tela era de sua mãe e, por um instante, ela cogitou não atender, mas mudou de ideia.
— Alô. — Sua voz estava desanimada.
“Filha, estou tão feliz em falar com você”, a voz de Michelle era de alguém que estava aliviada.
— O que quer falar? —
“Eu quero saber onde você está, estive no seu apartamento e você não estava”.
— Eu vim para a casa da Camila, ela deixou eu ficar na casa dela. —
“Por que não me chamou? Se não queria vir para cá, poderia ir para qualquer outro apartamento”.
— Por que eu não queria falar sobre isso com vocês. —
“Filha, o seu pai está muito atordoado com tudo isso, as coisas que ele disse foram sem querer, ele apenas se recusa a acreditar que o rapaz que viu crescer fez algo tão asqueroso”.
— E ele pode acreditar que a filha dele mentiria sobre isso? — Ângela parou o que fazia e se encostou na parede.
“É diferente, filha...”.
— Diferente por quê? Por que eu sou adotada? — A voz de Ângela soou presunçosa e ao mesmo tempo magoada, mesmo ciente de sua condição, ela nunca pensou que estava tão abaixo na vida de seu, até então, pai.
“Não é isso, ele apenas...”
— É sim, ele não me vê como filha, mas como investimento, um investimento que saiu melhor do que ele havia planejado, mas que no fim ainda o decepcionou. —
“A ideia não veio dele...”, Michelle confessou, não conseguia mais deixar a filha achando que seu pai era o único responsável. “Daniel estava com medo de ser preso, ele fez de tudo para que a polícia não o pegasse, ele havia conseguido comprar a polícia, mas os repórteres enxeridos poderiam atrapalhar tudo, então eu dei a ideia de adotar uma criança para dar à mídia outro assunto para falar”.
Ângela ficou em silêncio por alguns segundos, assimilando a ideia. Pelo menos uma parte do que lhe contaram era verdade, uma verdade entre muitas mentiras.
— Isso não torna as coisas melhores, ao contrário, só torna as atitudes dele piores. —
“Filha, eu não quero que se afaste. Eu sei que não fui a melhor das mães, mas, do meu jeito, eu sempre te amei e fiz o máximo para que você tivesse o melhor”.
— Vocês me deram o melhor, as melhores escolas, as melhores roupas, as melhores festas, os melhores computadores, cursos, viagens, tudo... mas você também é a responsável por todo esse inferno, se você não tivesse insistido nessa relação desde que eu era criança, nada disso teria acontecido. —
“Você está certa, mas eu sempre quis planejar o casamento de uma filha, eu fiz o que pude para que você tivesse a vida de uma princesa. Eu fiz o que pude, filha”.
— Não, você podia muito mais, mas optou por fazer o que era agradável para você. Se quer mesmo meu bem, faça o possível para aquele maldito ser preso. Agora eu tenho que colocar roupas para lavar, tchau. —
Ângela encerrou a ligação sem esperar uma última palavra de Michelle. A loira largou o celular e terminou o que estava fazendo e só depois ela voltou ao quarto. Sentada na cama, ela observava a morena dormir, a respiração estava pesada e seu rosto tinha uma expressão de sofrimento.
A cama era pequena para ela, mas mesmo assim ela deitou de frente para sua amada de pele escura e cabelos cacheados. Ela deu um suave beijo em seu nariz e fechou os olhos para descansar. Mesmo com seus olhos fechados, ela conseguia perceber que a respiração dela ficava aos poucos mais suave, sentiu seu coração aliviar por saber que ela estava mais calma com sua presença.
A jovem se deixou levar pelo conforto de estar ao lado de quem amava e adormeceu ali. Os próximos dias vieram e o tempo passava dolorosamente devagar, e para Camila tudo aquilo era ainda mais difícil. O corpo de Marília estava liberado para o enterro dois dias depois. Não havia muita gente no enterro. Leandro, Carmen, Letícia, Ângela, os pais de Carmen e os de Leandro estavam presentes para prestar homenagens à mulher que conheciam e que acompanharam por tanto tempo.
Após o enterro de Marília, todos os presentes se despediram de Camila e Ângela, deixando ambas sozinhas com suas dores. Camila ainda estava abalada com a perda repentina de sua mãe, mas estava aceitando tudo aos poucos, porém os momentos comuns do cotidiano vinham como um tornado para reforçar a ausência dela.
— Eu vou arrumar o quarto. — Camila levantou.
— Não, deixa que eu arrumo. — Ângela segurou a mão da morena. — Pode preparar o almoço, quando terminar eu te ajudo. — Seu pedido não era apenas um capricho, ela apenas não queria que sua amada encarasse o quarto vazio da mãe tão rapidamente.