Campos, Fábricas e Oficinas: Capítulo II - A Descentralização das Indústrias (continuação)
O crescimento industrial, que no capítulo anterior aparecia avançando para leste, também descia para o sudeste e para o sul, levando Áustria e Hungria a uma disputa cada vez mais viva por peso fabril, até o ponto em que a própria aliança política com a Alemanha sentia a pressão dos fabricantes austríacos interessados em defender seus mercados contra a concorrência germânica, enquanto a monarquia dupla via suas duas partes discutirem tarifas como quem já possuía interesses produtivos bastante maduros para transformar uma fronteira alfandegária em problema interno de Estado.
As indústrias austríacas pertenciam a uma formação recente e já ocupavam mais de quatro milhões de pessoas, ao passo que a Boêmia, em poucas décadas, se tornara região industrial de importância real, e a excelência das máquinas usadas nos moinhos húngaros reformados indicava uma força nova, capaz de concorrer com as velhas irmãs fabris e de acrescentar conhecimento próprio ao uso das forças naturais, sinal que a Finlândia oferecia em escala menor e que os baixos volumes de manufaturas importadas tornavam ainda mais expressivo.
A mesma marcha alcançava as penínsulas do sul, pois em 1859 pouca gente falaria de manufaturas italianas como realidade de peso, e a Exposição de Turim de 1884 já mostrava uma Itália instalada entre os países fabricantes, com um observador francês escrevendo no Temps que por toda parte se percebia esforço industrial e mercantil considerável, animado pela palavra de ordem de fazer o país viver por si mesmo e de libertar cada produtor, nos negócios grandes e nos pequenos, da tutela estrangeira.
Os melhores modelos franceses e ingleses eram copiados, corrigidos e marcados por gênio local e tradição artística, e, embora as estatísticas completas faltassem, os indícios bastavam: a importação de carvão subira de 779.000 toneladas em 1871 para 9.339.000 em 1910, a mineração triplicara sua produção entre 1870 e 1885, a produção de aço e máquinas alcançara 4.800.000 libras em 1900, e o país, mesmo pobre em combustível e minerais próprios, exibia uma metalurgia sólida, enquanto a expansão dos ramos de algodão e de outros panos confirmava que satisfazer necessidades nacionais com manufaturas próprias já se tornara prática regular.
A Espanha mereceria exame mais demorado, pois seus ramos têxteis, mineiros e metalúrgicos cresciam depressa, embora aqui seja preciso passar logo aos países que, durante muito tempo, foram tratados como compradores eternos das manufaturas da Europa ocidental, e o caso do Brasil fere essa doutrina no ponto sensível, já que os teóricos da riqueza destinavam o país ao cultivo do algodão, à venda da fibra em estado bruto e à compra posterior de artigos fabricados fora, como se a natureza e o comércio internacional tivessem assinado de antemão uma função fixa para cada povo.
Em 1870, o Brasil possuía apenas nove fábricas de algodão, com um conjunto miserável de 385 fusos, e em 1887 já havia quarenta e seis fábricas, cinco delas com quarenta mil fusos cada uma, enquanto quase dez mil teares lançavam todos os anos no mercado brasileiro mais de trinta e três milhões de jardas de artigos de algodão, até que, em 1912, cento e sessenta e uma fábricas reuniam um milhão e meio de fusos, cinquenta mil teares e mais de cem mil trabalhadores, escala suficiente para transformar uma antiga previsão de dependência em documento de cegueira doutrinária.
O México repetia o movimento por outro caminho, pois Vera Cruz, protegida por funcionários alfandegários, começara a fabricar algodões e, em 1887, já apresentava 40.200 fusos, 287.700 peças de pano de algodão e 212.000 libras de fio, ao passo que, em 1894, o vice-cônsul Chapman relatava que algumas das melhores máquinas podiam ser vistas nas fiações de Orizaba, cujas chitas saíam tão boas quanto as importadas, quando superiores, e em 1910 trinta e dois mil trabalhadores operavam em cento e quarenta e cinco fábricas, com 703.000 fusos e vinte e cinco mil teares mecânicos.
Esses números interessam por uma razão maior que a simples contabilidade da produção, pois mostram que a divisão do mundo entre regiões fabricantes e regiões destinadas a fornecer matéria-prima perdia força ao contato com a vida, uma vez que, onde havia mercado interno, tarifas, habilidade manual, máquinas compradas e capital procurando rendimento, a manufatura nascia contra as previsões de obediência comercial, e Brasil e México entravam, por essa porta, no mesmo processo que já havia deslocado a indústria dentro da Europa.
A Índia oferecia a refutação mais direta da doutrina exportadora, pois durante décadas fora considerada a compradora segura dos algodões britânicos e absorvia parcela enorme das exportações inglesas, recebendo, entre 1880 e 1890, de dezessete a vinte e dois milhões de libras em mercadorias de algodão dentro de um total britânico próximo de setenta e cinco milhões, até que a proporção começou a mudar e, entre 1904 e 1907, as vendas para a Índia ficaram entre 21.680.000 e 25.680.000 libras, dentro de um total que já alcançava 110.440.000, enquanto as manufaturas indianas, frágeis no começo por causas ainda mal explicadas, fincavam raízes de modo súbito.
Em 1860, as fábricas indianas consumiam apenas vinte e três milhões de libras de algodão bruto, em 1877 já consumiam quase quatro vezes esse volume, nos dez anos seguintes a cifra triplicou e chegou a 283.000.000 de libras em 1887 e 1888, enquanto o número de fábricas passava de quarenta, em 1887, para cento e quarenta e sete em 1895, com fusos subindo de 886.100 para 3.844.300 e trabalhadores indo de 57.188 para 146.240, até que, em 1909 e 1910, duzentas e trinta e sete fábricas reuniam 6.136.000 fusos, oitenta mil teares e 231.850 trabalhadores.
A qualidade dessas fábricas recebia elogios oficiais, câmaras de comércio alemãs diziam que as melhores fiações de Bombaim já se aproximavam das melhores da Alemanha, e dois conhecedores do algodão, James Platt e Henry Lee, reconheciam nos operários indianos uma inclinação natural rara para esse ramo, enquanto as exportações de fio de algodão mais que dobravam entre 1882 e 1887, a parcela importada recuava nos tipos grossos e médios, e a Índia, mesmo comprando da Grã-Bretanha grande volume de artigos e fios, lançava mercados externos seus próprios algodões em padrões de Lancashire.
Em 1887, a Índia exportava 3.635.510 libras em artigos próprios e trinta e três milhões de jardas de panos crus produzidos por trabalhadores indianos, e em 1910 e 1911 artigos em peça e fios exportados atingiam 7.943.700 libras, ao passo que as fábricas de juta cresciam com velocidade ainda maior, contribuindo para o declínio do antigo ramo de Dundee ao lado das tarifas continentais, fábricas de lã começavam a surgir, e o ferro avançava desde que se encontraram meios de alimentar fornos com carvão local, a ponto de especialistas preverem autonomia indiana nesse setor em poucos anos.
O deslocamento nada tinha de misterioso, pois o capital procura rendimento onde o encontra, e salários indianos muito menores que os ingleses atraíam investimentos, mesmo quando essa mudança significava fome para Lancashire e Dundee, enquanto o conhecimento técnico também viaja, já que a distância só torna difíceis os primeiros passos, e ninguém que conhecesse o trabalhador hindu poderia negar sua capacidade, certamente não inferior à de milhares de crianças e jovens empregados nas manufaturas têxteis britânicas.
Vinte anos pesam pouco na vida dos povos, e ainda dentro desse intervalo outro concorrente poderoso se levantara no Oriente, pois em outubro de 1888 o Textile Recorder registrava em poucas linhas que a produção anual de fios nas fábricas japonesas de algodão já chegava a 9.498.500 libras, enquanto quinze novas fábricas, destinadas a reunir 156.100 fusos, estavam em construção, e dois anos depois o Japão fiava 27.000.000 de libras, reduzindo depressa a dependência externa que, em 1887 e 1888, fizera o país importar cinco ou seis vezes mais fio do que produzia em casa.
A partir desse ponto, a produção cresceu com regularidade impressionante, subindo de 6.435.000 libras em 1886 para 91.950.000 em 1893, alcançando 153.444.000 em 1895 e chegando a 413.800.000 em 1909, enquanto o anuário financeiro publicado em Tóquio para 1910 e 1911 informava a existência de 3.756 fábricas têxteis, 1.785.700 fusos, 51.185 teares mecânicos e 783.155 teares manuais, conjunto que tornava o Japão concorrente sério das grandes nações industriais nos mercados do leste da Ásia, em especial nos algodões e nos panos em geral.
A produção total de panos, avaliada em 1.200.000 libras em 1887, subiu rapidamente para 14.270.000 em 1895 e para 22.500.000 em 1909, com algodões representando quase dois quintos desse valor, ao passo que as importações de artigos de algodão vindos da Europa caíam de 1.640.000 libras em 1884 para 849.600 em 1895 e 411.600 em 1910, enquanto as exportações de artigos de seda chegavam perto de 3.000.000 de libras, prova de que em apenas vinte e cinco anos o país havia tomado posição própria no comércio asiático.
Nos ramos do carvão, do ferro e da construção naval, a previsão feita por Kropotkin na primeira edição também se cumprira, pois ele escrevera que os japoneses deixariam em pouco tempo de pagar tributo à Europa por artigos de ferro, lembrando que trezentos engenheiros haviam saído das oficinas de Elswick, de Armstrong, para iniciar a construção de navios no Japão, contratados por cinco anos porque se esperava aprender o bastante nesse prazo, e o resultado posterior confirmava a aposta: o país possuía 1.030 oficinas de ferro e máquinas, construía seus próprios navios de guerra e já mostrava grande avanço nas indústrias ligadas à guerra.
A temida entrada do Oriente nos mercados europeus avançava com rapidez, e, embora a China permanecesse em repouso industrial, Kropotkin afirmava, a partir do que vira no país, que no momento em que os chineses começassem a fabricar com auxílio de máquinas europeias, com os primeiros passos já ensaiados, fariam isso com êxito maior e em escala muito mais vasta que os japoneses.
Os Estados Unidos exigiam exame próprio, pois ninguém podia atribuir sua expansão ao emprego de trabalho muito barato ou ao envio de produtos ruins para a Europa, e ainda que sua grande indústria fosse recente, o país já mandava ao velho continente quantidades crescentes de máquinas, além de iniciar, em 1890, a exportação de ferro obtido a custo muito baixo graças a métodos admiráveis introduzidos na metalurgia.
Entre 1870 e 1890, o número de pessoas empregadas nas manufaturas americanas mais que dobrou e o valor da produção quase triplicou, e nos quinze anos seguintes o número de trabalhadores aumentou novamente em quase cinquenta por cento, enquanto o valor produzido quase dobrava, sequência que revelava uma formação industrial veloz, ampla e apoiada numa base interna capaz de alimentar a expansão sem depender da posição subordinada atribuída aos países jovens pela velha divisão internacional.
O ramo do algodão, equipado com excelente maquinaria feita no próprio país, desenvolvia-se com rapidez, de modo que a produção anual de artigos têxteis alcançou em 1905 o valor de 2.147.441.400 dólares, duas vezes o montante produzido pelo Reino Unido no mesmo ramo, avaliado em cerca de 200.000.000 de libras, enquanto as exportações de algodões fabricados internamente chegavam em 1910 à cifra respeitável de 8.600.000 libras, e a produção anual de ferro-gusa e aço já ultrapassava a britânica.
A organização do ramo metalúrgico americano também era superior, como Berkley assinalara em 1891 diante do Instituto de Engenheiros Civis, e o dado decisivo estava no tempo curto dessa construção, pois quase tudo crescera dentro de trinta ou quarenta anos, com indústrias inteiras criadas desde 1860, o que tornava inevitável perguntar o que seria da indústria americana vinte anos depois, auxiliada por habilidade técnica crescente, escolas excelentes, formação científica ligada à formação prática e espírito de iniciativa sem rival na Europa.
Volumes inteiros foram escritos sobre a crise de 1886 e 1887, crise que, nas palavras da Comissão Parlamentar, durava desde 1875, com apenas um curto período de prosperidade em certos ramos entre 1880 e 1883, e que alcançava os principais países manufatureiros do mundo, de modo que todas as causas possíveis foram examinadas, enquanto a conclusão comum retornava ao mesmo ponto formulado pela comissão: os países fabricantes já não encontravam compradores capazes de lhes permitir lucros elevados, e como o lucro é a base da indústria capitalista, lucros baixos explicavam todas as consequências posteriores.
Lucros baixos levavam os patrões a reduzir salários, dispensar trabalhadores, diminuir os dias de emprego na semana ou recorrer à fabricação de artigos inferiores, pagos em regra de maneira pior que os produtos de qualidade alta, e Adam Smith já indicara que lucros baixos acabam significando redução de salários, salários baixos reduzem o consumo do trabalhador, o consumo do patrão também se estreita, e a grande classe de intermediários formada nos países manufatureiros sente a mesma contração, produzindo nova queda dos lucros patronais.
Um país que fabrica em grande escala para exportação e vive em grande parte dos lucros obtidos no comércio externo fica numa posição semelhante à da Suíça dependente dos estrangeiros que visitam lagos e geleiras, pois uma boa temporada leva de 1.000.000 a 2.000.000 de libras em dinheiro turístico, ao passo que uma temporada ruim tem efeito parecido ao de uma má colheita em país agrícola, com empobrecimento geral, e o mesmo ocorre com uma nação exportadora quando seus artigos deixam de ser vendidos fora por duas vezes o valor que obteriam em casa.
Havia décadas que trigo e manufaturas não ficavam tão baratos quanto em 1883 e 1884, e ainda em 1886 o país sofria crise terrível, atribuída por muitos à superprodução, palavra que só possui sentido quando designa a falta de poder de compra entre trabalhadores necessitados, pois seria absurdo dizer que havia móveis demais nas casas mutiladas pela pobreza, camas e roupas de cama demais nas moradias operárias, lâmpadas demais nas cabanas, pano demais sobre os ombros de quem dormia em Trafalgar Square entre jornais, ou comida demais nas casas de trabalhadores agrícolas de doze xelins por semana e de mulheres pagas com cinco ou seis pence por dia nos ramos de vestuário e pequenas manufaturas das periferias urbanas.
Depois dos anos ruins, veio uma retomada súbita do comércio internacional, e como as exportações britânicas subiram quase vinte e quatro por cento entre 1886 e 1890, muitos passaram a dizer que não havia razão para temer a concorrência estrangeira, que a queda de 1885 a 1887 fora passageira e comum à Europa, e que a Inglaterra conservava, como antes, sua posição dominante no comércio externo, afirmação que parecia aceitável quando se observava apenas o valor monetário das exportações entre 1876 e 1895, pois o quadro exibia oscilações sem declínio permanente.
As exportações britânicas, como o comércio em geral, mostravam certa periodicidade: caíram de 201.000.000 de libras esterlinas em 1876 para 192.000.000 em 1879, subiram a 241.000.000 em 1882, desceram a 213.000.000 em 1886, voltaram a 264.000.000 em 1890 e caíram de novo até 216.000.000 em 1894, com pequena recuperação no ano seguinte, movimento que permitia a Giffen tratar com leveza a concorrência alemã e argumentar que as exportações do Reino Unido não haviam diminuído, permanecendo quase estáveis por habitante até 1904.
O quadro mudava quando as quantidades exportadas eram comparadas aos valores em dinheiro, pois o próprio Giffen precisou reconhecer que os preços de 1883 estavam tão abaixo dos de 1873 que o Reino Unido teria de exportar quatro peças de algodão no lugar de três e oito ou dez toneladas de artigos metálicos no lugar de seis para alcançar o mesmo valor monetário, e a Comissão sobre a Depressão do Comércio indicava que o conjunto do comércio externo britânico, se calculado pelos preços de dez anos antes, teria atingido 861.000.000 de libras em vez de 667.000.000.
Alguém poderia responder que 1873 fora um ano excepcional, aquecido pela demanda posterior à guerra franco-prussiana, ainda que a queda prosseguisse por anos, e os números do Statesman's Year-book mostravam a gravidade do caso: em 1883 o Reino Unido exportava 4.957.000.000 de jardas de artigos em peça, de algodão, lã e linho, além de 316.000.000 de libras de fio, para alcançar 104.000.000 de libras em valor, enquanto em 1895 precisava exportar 5.478.000.000 de jardas dos mesmos artigos e 330.000.000 de libras de fio para obter apenas 99.700.000 libras.
As condições melhoraram depois, com exportações de 1906 semelhantes às de 1873 e ano extraordinário em 1911, quando 7.041.000.000 de jardas de artigos e 307.000.000 de libras de fio foram avaliadas em 163.400.000 libras, embora o preço alto se concentrasse nos fios finos agora exportados, e a conclusão permanecesse firme: o valor total das exportações britânicas, em relação à população crescente, ficava quase inalterado por trinta anos, enquanto os preços altos e os grandes lucros de 1873 a 1880 haviam desaparecido.
Nenhum cálculo aritmético convenceria os fabricantes britânicos de que a situação era outra, pois eles sabiam que o mercado interno ficava continuamente cheio demais, que os melhores mercados estrangeiros escapavam e que a Grã-Bretanha era vendida por baixo nos mercados neutros, consequência inevitável do desenvolvimento das manufaturas pelo mundo inteiro, já que cada novo centro produtivo diminuía a velha vantagem comercial e transformava antigos compradores em concorrentes capazes de disputar preço, técnica e quantidade.
Grandes esperanças haviam sido depositadas na Austrália como mercado para artigos britânicos, embora a Austrália logo fizesse o que o Canadá já fazia: fabricar por conta própria, e as exposições coloniais, ao mostrarem aos colonos aquilo que eram capazes de produzir e os meios para fazê-lo, apenas aceleravam o dia em que cada colônia seguiria seu caminho, enquanto Canadá e Índia já impunham tarifas protetoras contra artigos britânicos e os famosos mercados do Congo, apresentados com promessas de 26.000.000 de libras por ano caso Lancashire vestisse os africanos, pertenciam à mesma família de fantasias comerciais dos gorros chineses que deveriam enriquecer a Inglaterra depois da primeira guerra contra a China.
Os chineses preferiam gorros feitos em casa, e os habitantes do Congo já atraíam a concorrência de pelo menos quatro fornecedores de roupas simples: Grã-Bretanha, Alemanha, Estados Unidos e Índia, quadro que tornava ilusória a esperança de conservar mercados passivos para sempre, da mesma forma que se dissipara o quase monopólio britânico do algodão, pois em 1880 o país possuía apenas cinquenta e cinco por cento dos fusos em funcionamento na Europa, nos Estados Unidos e na Índia, quarenta milhões de setenta e dois milhões, e pouco mais da metade dos teares.
Em 1893, a proporção britânica já caíra para quarenta e nove por cento dos fusos, 45.300.000 de 91.340.000, e depois ficou em apenas quarenta e um por cento, pois o país perdia terreno enquanto outros avançavam, fato natural e previsível, já que não existia razão para a Grã-Bretanha permanecer para sempre a grande fábrica mundial do algodão quando precisava importar algodão bruto como os demais, e era natural que França, Alemanha, Itália, Rússia, Índia, Japão, Estados Unidos, México e Brasil começassem a fiar seus próprios fios e a produzir seus próprios panos.
O aparecimento de uma indústria de algodão, ou de qualquer ramo de panos, tornava-se quase sempre ponto de partida para uma série de outras atividades, pois oficinas químicas e mecânicas, metalurgia e mineração recebiam de imediato o impulso criado por uma necessidade nova, enquanto as indústrias domésticas e a educação técnica precisavam melhorar para responder a essa demanda, de modo que cada fuso instalado movia uma cadeia inteira de ofícios, escolas, máquinas, transportes e saber prático.
O que se passava com os algodões também ocorria em outros ramos, pois a Grã-Bretanha, primeira na lista dos países produtores de ferro-gusa em 1880, aparecia em 1904 no terceiro lugar, atrás dos Estados Unidos e da Alemanha, enquanto a Rússia, sétima em 1880, subia para a quarta posição logo depois da Grã-Bretanha, e o mesmo deslocamento atingia a lã, antigo campo em que britânicos e belgas já não guardavam monopólio, pois grandes fábricas de Verviers silenciavam e tecelões belgas afundavam na miséria enquanto a Alemanha aumentava a produção anual e exportava nove vezes mais artigos de lã que a Bélgica.
A Áustria possuía suas lãs e as exportava, Riga, Lodz e Moscou abasteciam a Rússia com bons panos de lã, e o crescimento do ramo em cada um desses países chamava à existência centenas de atividades ligadas, mostrando que a descentralização industrial raramente se limita a um produto isolado, pois o fio pede máquina, a máquina pede metal, o tingimento pede química, o transporte pede oficina, e a formação de trabalhadores acompanha cada nova exigência material.
Durante muitos anos a França conservara quase monopólio da seda, favorecida pela criação do bicho-da-seda no sul do país, e Lyon se tornara centro natural de manufatura, com fiação, trabalho doméstico de teares e oficinas de tintura amplamente desenvolvidos, até que o próprio êxito do ramo tornou insuficiente o suprimento local de seda bruta, levando à importação vinda da Itália, Espanha, sul da Áustria, Ásia Menor, Cáucaso e Japão, em valores de nove a onze milhões de libras nos anos de 1875 e 1876, enquanto a França possuía apenas 800.000 libras de seda própria.
Milhares de rapazes e moças camponeses foram atraídos por salários altos para Lyon e arredores, e a indústria prosperava, até que novos centros surgiram em Basileia e nas casas camponesas em torno de Zurique, levados por emigrantes franceses e fortalecidos depois da guerra civil de 1871, ao mesmo tempo em que a administração do Cáucaso convidava operários e operárias de Lyon e Marselha para ensinar georgianos e russos a criar o bicho-da-seda e a dominar todo o ramo, fazendo de Stavropol um novo centro de teares de seda, enquanto Áustria e Estados Unidos seguiam caminho semelhante.
Entre 1872 e 1881, a Suíça mais que dobrou o produto de sua indústria da seda, Itália e Alemanha aumentaram um terço, a região de Lyon, antes produtora de 454 milhões de francos por ano, registrou em 1887 apenas 378 milhões, e as exportações lionesas, que tinham média de 425 milhões de francos em 1855 a 1859 e de 460 milhões em 1870 a 1874, caíram para 233 milhões em 1887, enquanto especialistas franceses calculavam que um terço dos artigos de seda usados na França vinha de Zurique, Crefeld e Barmen.
A Itália, com 191.000 pessoas no ramo, enviava suas sedas à França e concorria com Lyon, e os fabricantes franceses podiam clamar por proteção ou recorrer a artigos mais baratos e inferiores, vendendo 3.250.000 quilogramas pelo preço que antes obtinham por 2.500.000, sem jamais recuperar a posição antiga, pois Itália, Suíça, Alemanha, Estados Unidos e Rússia possuíam fábricas próprias, importariam de Lyon apenas as qualidades mais altas, e os artigos simples já vinham de ofícios domésticos do Cáucaso setentrional por preços que arruinariam os tecelões lioneses.
Exemplos semelhantes poderiam ser multiplicados às dezenas, pois Greenock já não abastecia a Rússia com açúcar, uma vez que a própria Rússia possuía açúcar em quantidade e ao mesmo preço de venda inglês, e o ramo dos relógios deixara de ser especialidade suíça, já que relógios eram produzidos em muitos lugares, enquanto a Índia extraía de suas noventa minas de carvão dois terços do consumo anual e diminuía, por meios próprios, uma dependência que antes parecia natural aos olhos dos países vendedores, sobretudo quando a metrópole imaginava conservar por hábito os mercados que a técnica local começava a disputar.
O ramo químico formado nas margens do Clyde e do Tyne, favorecido por vantagens especiais para a importação de pirita espanhola e pela concentração de indústrias variadas nos dois estuários, também entrava em decadência, pois a Espanha, com auxílio de capital inglês, começava a utilizar suas próprias piritas em benefício próprio, enquanto a Alemanha se tornava grande centro de fabricação de ácido sulfúrico e soda, chegando ao ponto de queixar-se de produção excessiva em ramos que antes pareciam ligados de modo duradouro às margens britânicas, por causa de portos, capitais acumulados e costumes industriais já estabelecidos.
Kropotkin interrompe a enumeração porque todos os números diante dele contam a mesma história, e a conclusão, para qualquer espírito sem preconceito, aparece com nitidez: indústrias de todos os tipos se descentralizam e se espalham pelo globo, e por toda parte cresce uma variedade articulada de ofícios no lugar da antiga especialização rígida, traço dominante do período em que cada nação, uma após outra, passa a ser nação fabricante e retira dos velhos centros a certeza de vender sem enfrentar produção rival.
O tempo já se aproximava em que cada país da Europa, os Estados Unidos e até nações mais atrasadas da Ásia e da América fabricariam quase tudo de que necessitavam, e guerras ou acidentes poderiam retardar por algum tempo essa dispersão das indústrias, sem conseguir detê-la, pois para cada recém-chegado apenas os primeiros passos são difíceis, e, uma vez enraizada qualquer indústria, ela convoca centenas de ofícios associados e passa a crescer com velocidade crescente depois que os primeiros obstáculos foram vencidos, formando máquinas, oficinas, transportes, escolas práticas e hábitos de produção em torno da necessidade inicial.
Esse fato era tão sentido, ainda que nem sempre compreendido, que a corrida por colônias se tornara marca dos últimos vinte anos, pois cada nação queria possuir suas colônias, embora elas não resolvessem o problema, já que não havia uma segunda Índia no mundo e as velhas condições de dependência comercial não se repetiriam, enquanto algumas colônias britânicas já ameaçavam converter-se em concorrentes sérias da metrópole e outras, como a Austrália, caminhariam pela mesma estrada, fortalecidas pelas exposições que ensinavam a produzir aquilo que antes compravam.
Quanto aos mercados ainda neutros, a China jamais seria grande compradora da Europa, pois podia produzir muito mais barato em casa, e quando sentisse necessidade de artigos com desenho europeu, faria esses artigos por si, motivo pelo qual a Europa estaria em perigo se continuasse apoiada em compradores estrangeiros no dia em que a máquina a vapor invadisse a China, e a miséria dos povos africanos tampouco poderia servir de base ao bem-estar de uma nação que se julgasse civilizada, pois pobreza extrema não sustenta prosperidade alheia por muito tempo.
O progresso precisava ser buscado noutra direção, na produção para uso interno, pois os compradores dos algodões de Lancashire, das facas de Sheffield, das sedas de Lyon e das farinhas húngaras não se encontravam na Índia nem na África, e os verdadeiros consumidores do produto das fábricas deveriam ser as próprias populações, desde que a vida material fosse organizada de modo a retirá-las da destituição em que estavam mergulhadas e convertê-las de mão de obra barata em gente capaz de comprar aquilo que produzia.
Não havia sentido em enviar lojas flutuantes à Nova Guiné com modas britânicas ou alemãs quando existiam compradores possíveis para artigos britânicos nas próprias ilhas e para artigos alemães na própria Alemanha, e, em lugar de gastar inteligência com planos para conquistar consumidores externos, seria mais fecundo perguntar por que o trabalhador britânico tão elogiado nos discursos políticos, o pequeno lavrador escocês e o camponês irlandês tão admirado por criar solo produtivo em turfeiras, permaneciam incapazes de comprar os produtos dos tecelões de Lancashire, dos cuteleiros de Sheffield e dos mineiros de Northumberland e do País de Gales.
A pergunta se repetia em outros países com a mesma força, pois por que os tecelões de Lyon, além de raramente vestirem seda, às vezes não tinham comida nos sótãos em que viviam, por que os camponeses russos vendiam seu trigo e durante quatro, seis ou até oito meses por ano eram obrigados a misturar casca e ervas ásperas a um punhado de farinha para assar pão, e por que a fome aparecia com tanta frequência entre os produtores de trigo e arroz da Índia, se o objetivo declarado da indústria e da agricultura era satisfazer necessidades humanas e dar segurança material às populações trabalhadoras?
Sob as condições presentes de divisão entre capitalistas e trabalhadores, entre proprietários e massas dependentes de salários incertos, a expansão das indústrias para novos campos vinha acompanhada pelos mesmos fatos terríveis de opressão impiedosa, massacre de crianças, pauperismo e insegurança da vida, e os relatórios dos inspetores de fábricas russos, da Câmara de Comércio de Plauen, das investigações italianas e das indústrias crescentes da Índia e do Japão traziam revelações semelhantes às das comissões parlamentares de 1840 a 1842 e às denúncias recentes sobre o sweating system em Whitechapel e Glasgow, a pobreza londrina e o desemprego em York.
O problema entre capital e trabalho, desse modo, se universalizava, e ao mesmo tempo se tornava mais simples, porque a questão decisiva passava a ser o retorno a uma condição em que o trigo fosse cultivado e os artigos fabricados para uso das próprias pessoas que cultivavam e produziam, tarefa que Kropotkin via como uma das grandes questões dos anos seguintes da história europeia, já que cada região deveria tornar-se produtora e consumidora de seus próprios bens manufaturados e organizar a produção a partir das necessidades reais de seus habitantes.
Essa conclusão arrastava outra consequência necessária, pois uma região que produz e consome seus próprios artigos fabricados também precisa produzir e consumir seus próprios alimentos, e é nesse ponto que Kropotkin encerra o capítulo sobre a descentralização das indústrias para passar ao problema seguinte, a agricultura, não como tema separado da fábrica, e sim como a outra metade da mesma pergunta sobre vida local, trabalho útil e satisfação direta das necessidades, que une alimento, oficina, escola técnica e autonomia regional.
Notas ao Capítulo II
As notas do segundo capítulo reforçam, por séries numéricas, a marcha descrita no texto principal, pois o censo de 1902 registrava na Áustria 1.408.000 estabelecimentos industriais, 1.787.000 cavalos de força e 4.049.300 trabalhadores, enquanto a Hungria reunia 1.128.000 pessoas nas manufaturas, e a Itália mostrava importação líquida de algodão bruto subindo de 1.180.000 quintais em 1885 para 4.120.000 em 1908, fusos crescendo de 880.000 em 1877 para 3.800.000 em 1907, produção de 358.200 toneladas de ferro-gusa e 671.000 toneladas de aço em 1910, além de exportações de sedas, algodões e lãs em alta entre 1905 e 1910.
Os dados latino-americanos também desfazem a ideia de países condenados a comprar manufaturas para sempre, já que a nota sobre Orizaba, tirada de um periódico britânico de 12 de maio de 1894, registra fábricas mexicanas antes dependentes de algodão bruto importado e depois empenhadas em usar algodão local e fio local tanto quanto possível, enquanto o Annuario Estadistico de 1911 apontava no México 34.700 toneladas de algodão consumidas, 13.936.300 peças de artigos de algodão e 554.000 quintais de fio produzidos, e a nota sobre a Índia mostrava a juta passando de 5.633 teares e 95.937 fusos em 1882 para sessenta fábricas, 31.420 teares, 645.700 fusos e 204.000 trabalhadores em 1909 e 1910.
O Japão aparece nas notas como laboratório veloz de mineração, fiação e metalurgia, importando em 1886 39.200.000 libras de fio diante de 6.435.000 libras fiadas no país, mudando em 1889 para 56.633.000 libras importadas contra 26.809.000 fiadas internamente, reduzindo em 1910 as importações de algodões e lãs a 2.650.500 libras, exportando 8.164.800 libras em fio de algodão, shirtings e manufaturas de seda, e levando o cobre de 2.407 toneladas em 1875 para 49.000 em 1909, o carvão de 567.200 para 15.535.000 toneladas e o ferro de 3.447 para 65.000 toneladas.
As notas americanas completam a imagem, pois os trabalhadores das manufaturas dos Estados Unidos passaram de 2.054.000 em 1870 para 4.712.600 em 1890 e 6.723.900 em 1905, com valor produzido subindo de 3.385.861.000 dólares para 16.866.707.000 e produção anual por trabalhador avançando de 1.648 para 2.514 dólares, enquanto o ferro-gusa, situado entre 7.255.076 e 9.811.620 toneladas nos anos de 1890 a 1894, alcançava 27.303.600 toneladas longas em 1910, as usinas de aço e laminação atingiam valor imenso em 1909, um alto-forno americano chegava a 2.000 toneladas semanais diante das 750 britânicas, e as plantas Bessemer possuíam capacidade diária de 45.983 toneladas.
As últimas notas situam a perda de centralidade britânica em duas séries, com a exportação por habitante oscilando em xelins de 121 em 1876 para 201 em 1910, por meio de quedas e retomadas que escondiam a baixa dos preços e a necessidade de vender mais volume por menor retorno, e com a Federação Internacional dos empregadores da indústria algodoeira registrando em 1909 um total de 130.796.000 fusos no velho e no novo mundo, dos quais 53.472.000 estavam no Reino Unido, 27.846.000 nos Estados Unidos, 9.881.000 na Alemanha, 7.829.000 na Rússia, 6.750.000 na França, 5.756.000 na Índia britânica e 19.262.000 em outros países, prova aritmética de que o antigo centro já dividia o campo com muitos concorrentes.