Campos, Fábricas e Oficinas: Capítulo VII - Pequenas Indústrias e Aldeias Industriais (continuação) Campos, Fábricas e Oficinas: Tradução Literunico · Capítulo 8 de 35
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Campos, Fábricas e Oficinas: Capítulo VII - Pequenas Indústrias e Aldeias Industriais (continuação)

A entrada no capítulo sobre a Alemanha muda o foco geográfico sem abandonar a questão central, pois Kropotkin observa que as indústrias conservadas como pequenos ofícios e trabalhos domésticos tinham recebido investigações numerosas, feitas por autores como Thun, Issaieff, Emanuel Hans Sax, Paul Voigt e muitos outros, alguns ligados à comissão russa dos pequenos ofícios, de modo que o assunto já possuía literatura vasta, descrições tiradas da vida real, retratos sugestivos de regiões, profissões, oficinas, crises locais, relações entre compradores e produtores, hábitos de vila, salários baixos e dificuldades técnicas.

Essa abundância quase o tentava a resumir os quadros vivos apresentados pelos pesquisadores alemães, mas ele preferia outro caminho, porque repetir tais descrições obrigaria a refazer muito do que já havia sido dito sobre França e Reino Unido, e interessaria mais ao leitor conhecer as conclusões extraídas desses estudos e as lições fornecidas pelos três censos industriais alemães, realizados em 1882, 1895 e 1907, nos quais a distribuição entre oficinas pequenas, médias e grandes podia ser examinada com apoio num levantamento mais amplo, comparável e menos dependente de impressões isoladas.

A discussão alemã não se desenvolvia em clima sereno, e Kropotkin registra que ela assumira muitas vezes tom apaixonado e agressivo, pois os elementos ultraconservadores da política alemã haviam tentado transformar os pequenos ofícios e as indústrias domésticas em instrumento para defender uma volta aos bons tempos antigos, chegando a apoiar uma lei destinada a preparar a reintrodução de corporações fechadas, patriarcais e submetidas à tutela direta do Estado, contra a força crescente da social-democracia, suas organizações urbanas, suas reivindicações públicas, sua imprensa, seus clubes e sua presença eleitoral.

Essa tentativa conservadora enxergava nas antigas corporações um meio de conter a social-democracia, e por isso ligava a defesa dos pequenos ofícios a uma política de disciplina, vigilância e retorno institucional, sem encarar a vida concreta dos trabalhadores, suas técnicas ou suas necessidades de associação livre, ponto que tornava o debate confuso desde a origem, pois misturava a sobrevivência real de muitas oficinas com um projeto político interessado em restaurar formas autoritárias de controle sobre o trabalho, a aprendizagem, a venda, a circulação profissional urbana e a conduta associativa.

Do outro lado, os social-democratas rejeitavam com razão tais medidas, mas, segundo Kropotkin, tendiam a adotar visão abstrata demais das questões industriais e atacavam com dureza qualquer pessoa que não repetisse as fórmulas sobre decadência inevitável dos pequenos ofícios, desaparecimento desejável das oficinas antigas e substituição delas pela centralização capitalista, considerada no próprio credo socialista alemão como etapa destinada a preparar sua ruína futura e a reorganização posterior da produção coletiva, sem exame paciente das oficinas vivas, de seus mercados, de sua técnica e da escolha concreta dos trabalhadores.

Nessa rejeição dos pequenos ofícios, os social-democratas terminavam próximos dos autores liberais que combatiam em muitos outros pontos, e o resultado era um debate pouco produtivo, no qual conservadores idealizavam formas velhas de tutela e adversários da tutela aceitavam, em nome da centralização, a perda de práticas que ainda tinham vitalidade técnica, variedade produtiva e valor humano, tornando necessário separar as estatísticas, os estudos de campo e as condições reais dos trabalhadores das palavras de ordem usadas por cada partido, escola política, jornal militante, tribuna parlamentar e programa oficial.

Sob essas condições, afirma Kropotkin, a polêmica alemã sobre pequenos ofícios e indústrias domésticas ficava condenada a pouca fecundidade, pois cada campo político usava o tema para confirmar posições prévias, e havia motivo para reconhecer a existência de um volume considerável de investigação séria, feita com atenção às oficinas, aos salários, às encomendas, às relações com compradores, aos instrumentos empregados, à organização local, às crises recorrentes, à vida concreta dos trabalhadores, à preferência por certas formas de independência contra o emprego fabril, à resistência das aldeias e aos limites da miséria.

Ele distingue, nesse material, monografias que apenas repetiam a miséria dos trabalhadores dos pequenos ofícios e nada explicavam sobre as razões de sua permanência, de estudos mais detalhados, como os de Thun, Emanuel Hans Sax e Paul Voigt sobre marceneiros berlinenses, nos quais apareciam a vida inteira dessas classes, as dificuldades enfrentadas, as condições técnicas do trabalho e elementos suficientes para formar julgamento próprio, em vez de aceitar frases prontas sobre atraso, progresso, ruína inevitável, salvação pela fábrica, superioridade automática da grande empresa, destino mecânico da indústria e valor humano do ofício.

A partir desse exame, Kropotkin admite que certo número de pequenos ofícios já estava destinado a desaparecer, mas sustenta que outros conservavam grande vitalidade e tinham muitas chances de continuar existindo e até se desenvolver por anos, distinção essencial para não confundir ramos arcaicos, sustentados por circunstâncias locais, com ramos nos quais a flexibilidade, a adaptação e a habilidade individual criavam vantagens que a grande fábrica não conseguia absorver sem empobrecer o próprio produto, sua variedade, seu acabamento, sua resposta ao comprador, sua renovação diária, sua utilidade social e seu aprendizado.

Nos panos produzidos por milhões de jardas e mais adequados a maquinário complexo, a concorrência do tear manual contra o tear mecânico era, para ele, uma sobrevivência que poderia manter-se por algum tempo por condições locais, mas terminaria cedendo, e algo semelhante valia para vários ramos do ferro, da ferragem, da olaria e de outras produções nas quais a padronização pesada, a força motriz concentrada, a série longa, o carvão barato, o capital fixo, o transporte, o crédito e os grandes pedidos davam à fábrica uma vantagem técnica mais evidente.

O caso mudava onde a intervenção direta do gosto e da inventividade era exigida, onde novos padrões precisavam aparecer sem cessar para alimentar a demanda, como nos panos de fantasia, ainda que produzidos para públicos numerosos, e também onde a variedade ininterrupta de mercadorias ocupava o centro do negócio, como brinquedos, instrumentos, relógios, bicicletas e artigos semelhantes, dependentes de ajuste rápido, imaginação prática, desenho, ferramenta própria, pequena mudança de forma, reparo próximo, habilidade fina, série curta, acabamento singular, novidade visível, peça variada, cliente atento e escuta constante das mudanças do mercado.

Por fim, onde o sentimento artístico do trabalhador individual formava a melhor parte do produto, como em centenas de pequenos artigos de luxo, Kropotkin via largo campo para pequenos ofícios, oficinas rurais e indústrias domésticas, desde que recebessem mais ar, mais ideias, concepções mais gerais e maior cooperação, pois onde o espírito de iniciativa já fora despertado de algum modo, as pequenas indústrias alemãs podiam ganhar novo desenvolvimento, como ele acabara de mostrar no caso francês, sem precisar repetir a velha tutela corporativa, nem aceitar passivamente a absorção fabril próxima.

Depois de reconhecer a vitalidade possível de certos pequenos ofícios, Kropotkin enfrenta a objeção mais comum levantada na Alemanha contra eles, pois quase todas as descrições insistiam que a posição dos trabalhadores nessas oficinas e indústrias domésticas era miserável, e os admiradores da centralização usavam essa miséria para prever e desejar o fim das sobrevivências medievais, como se a simples chegada da fábrica prometesse, por si mesma, salários melhores, vida mais digna, segurança contínua, alimento regular, moradia salubre, repouso, instrução, higiene, proteção física e libertação imediata da pobreza rural ou urbana.

A resposta de Kropotkin é comparar a situação dos pequenos ofícios com a dos assalariados fabris nas mesmas regiões e nos mesmos ramos, e essa comparação mostra, segundo ele, que miséria semelhante também dominava a fábrica, onde homens recebiam salários de nove a onze xelins por semana, moravam em bairros urbanos degradados, trabalhavam onze horas por dia e ainda sofriam com as crises recorrentes que lançavam insegurança, desemprego, dívida, fome, abatimento, doença, desalento, aluguel atrasado, incerteza diária, medo, desgaste, vergonha e privação sobre famílias já submetidas a uma disciplina pesada.

Apenas depois de longas lutas contra os patrões, alguns grupos fabris conseguiam arrancar em certos ramos um salário de subsistência, e mesmo esse resultado permanecia parcial, localizado e instável, de modo que receber tais sofrimentos com entusiasmo como ação de uma lei natural e passo necessário para a concentração industrial seria absurdo, porque transformaria em fatalidade benéfica aquilo que vinha de relações de força, interesses de poucos, ausência de defesa comum, desamparo legal, repressão sindical, competição entre famintos, moradia ruim, doença crônica e organização injusta da produção e da venda.

Para ele, sustentar que a pauperização dos trabalhadores e a destruição das indústrias de aldeia fossem etapa necessária para uma forma superior de organização industrial significava afirmar além do que o conhecimento disponível permitia e demonstrava falta completa de compreensão do sentido das leis naturais e sociais, pois quem examinasse a formação das grandes indústrias por seus próprios méritos tenderia a concordar com Thorold Rogers, para quem os sofrimentos impostos às classes trabalhadoras não tinham necessidade real e serviam aos interesses momentâneos de poucos grupos dominantes, proprietários, banqueiros e negociantes.

Kropotkin acrescenta que a fábrica moderna também dependia amplamente do trabalho de crianças e moças, inclusive nos países de desenvolvimento industrial mais avançado, e esse fato não era acidente fácil de remover, como pretendiam alguns defensores do sistema fabril, já que os salários baixos pagos a crianças e jovens se haviam tornado elemento da barateza dos panos feitos em fábrica e, por consequência, da concorrência exercida pela fábrica contra as pequenas oficinas, a produção doméstica, o trabalho adulto, a renda camponesa e as famílias que buscavam renda fora do campo.

Ele recorda ainda os efeitos das indústrias concentradas sobre a vida das aldeias e as imagens sombrias das moças reunidas nas fábricas, para concluir que idealizar a fábrica moderna com o objetivo de depreciar as formas chamadas medievais da pequena indústria era tão irracional quanto idealizar estas últimas e tentar reconduzir a humanidade à fiação e à produção doméstica isolada em cada casa camponesa, pois o problema real exigia organização melhor, associação livre, força de venda própria, defesa dos trabalhadores, instrução técnica, crédito comum e julgamento concreto das condições de trabalho.

Um fato domina as investigações sobre as pequenas indústrias na Alemanha, na França e na Rússia: em grande número de ofícios, a oficina menor não cede à fábrica por inferioridade técnica, nem por gastar demais na força motriz, e sim porque a grande firma compra matéria-prima em condições melhores, vende sua mercadoria por canais mais seguros, obtém crédito com facilidade e alcança intermediários que o artífice isolado quase nunca consegue alcançar, quando sua habilidade, sua ferramenta, sua disciplina de serviço e sua relação direta com a peça bastam para produzir com boa qualidade e com gasto moderado.

Sempre que essa dificuldade comercial foi vencida por associação, por encomenda estável ou por saída garantida para as peças prontas, Kropotkin observa uma melhora rápida na vida dos artífices, seguida por avanço técnico real, com peças aperfeiçoadas, ferramentas novas, motores adotados em escala pequena, organização mais racional do serviço e redução de gastos, pois o obstáculo principal estava menos na bancada e mais na posição fraca do produtor diante do comprador, do fornecedor, do credor local e das casas que controlavam o acesso aos mercados distantes por meio de contratos e fretes.

Quando o produtor isolado permanece nas mãos do comprador por atacado, este pode combinar preços com outros negociantes e empurrar a remuneração para perto da fome, de modo que a resistência do trabalhador nasce apenas do desejo de conservar certa independência e do conhecimento amargo do que a fábrica traria à aldeia, com muitos homens sem serviço, crianças e moças chamadas para o galpão, velhos ofícios sem aprendiz, roças abandonadas em parte e antigas ocupações locais desfeitas por uma disciplina externa que nada resolve para a família camponesa durante anos difíceis.

A objeção fundada na diferença entre um motor de cem cavalos e cem motores pequenos perde força quando se olha para Sheffield, Paris e outros centros em que salas alugadas recebiam potência de uma máquina central, ou quando se acompanha a transmissão elétrica defendida pelo professor Unwin, pois a força podia chegar a oficinas numerosas sem exigir que os trabalhadores fossem encerrados numa única construção, e esse fato retirava da grande fábrica uma parte do prestígio que a teoria lhe atribuía por necessidade técnica, abrindo espaço para oficinas com ferramenta precisa, aluguel menor e comando direto do trabalho.

Restava à grande firma uma vantagem de outra espécie: ela se livrava do negociante de matéria-prima, tratava diretamente com compradores por atacado e exportadores, reunia etapas separadas da fabricação, comprava ferro, carvão ou algodão em escala favorável e vendia inclusive mercadoria inferior quando possuía volume bastante para abastecer regiões distantes, razão pela qual o lucro maior vinha da posição comercial e financeira, não de uma superioridade natural da máquina reunida sob um único teto, e essa diferença explicava a dureza sofrida por oficinas boas que ficavam presas ao intermediário.

Vistos em conjunto, esses fatos levam Kropotkin a uma conclusão direta: muitas pequenas indústrias europeias não foram vencidas por falhas na produção, nem por incapacidade dos artesãos diante da ferramenta, e sim pela dificuldade de vender sem cair sob o poder do comerciante. A mesma causa aparecera nas cidades medievais, que pouco a pouco aceitaram o jugo material e político da corporação mercantil quando deixaram de sustentar a venda comum de suas manufaturas e quando o comércio com a Ásia e com o Novo Mundo passou das mãos da comunidade para a disputa entre famílias ricas.

O mesmo raciocínio valia para as sociedades cooperativas modernas. Durante muito tempo elas pareceram fracassar como produtoras, embora o motivo principal não estivesse na oficina, na disciplina do serviço ou na qualidade da peça fabricada. Faltava a elas uma rede capaz de vender e exportar o produto sem dependência do intermediário. Quando essa rede de distribuição passou a existir, a produção se tornou possível, porque o mercado já estava organizado antes da fabricação crescer.

Dessas conclusões Kropotkin tira uma consequência para a Alemanha e para os países em situação parecida. Se não forem tomadas medidas para arrancar os camponeses da terra, e se crescer o número de pequenos proprietários rurais, esses trabalhadores buscarão ofícios auxiliares ao lado da agricultura, como já ocorria na França. Cada passo que desperte a vida intelectual nas aldeias, ou que assegure direitos do camponês sobre a terra, favorece necessariamente o crescimento das indústrias locais.

Por isso os números sobre a distribuição alemã entre pequena, média e grande indústria eram importantes, embora Kropotkin remetesse a tabela detalhada para o Apêndice. A questão não era provar que a fábrica grande inexistia, nem negar seu crescimento, e sim mostrar que a pequena oficina persistia como parte viva de uma organização mais ampla, ligada à terra, à venda, à técnica disponível e à capacidade de associação dos produtores.

Pequenos ofícios em outros países

Na Suíça, a vitalidade dos ofícios menores aparecia em muitos ramos, sustentada por três meios principais: a expansão da cooperação, o ensino técnico difundido nas escolas e a introdução de novas produções semiartísticas em diferentes regiões. Somava-se a isso o fornecimento de força barata às casas, por transmissão hidráulica ou elétrica tomada das quedas de água, de modo que a pequena produção podia receber energia sem abandonar a proximidade da lavoura.

Esse caso suíço teria merecido um livro próprio, pois mostrava como os ofícios antigos e novos recebiam impulso de uma fonte barata de potência e como a união entre agricultura e indústria, que Kropotkin chamara em outra passagem de fábrica entre os campos, avançava a olhos vistos. Para o viajante atento, essa mistura já não era tese abstrata, e sim uma realidade visível nas aldeias, onde a oficina, a escola técnica e a terra permaneciam ligadas.

A Bélgica oferecia a Kropotkin um caso de igual interesse, justamente por ser um país de indústria concentrada e de alta produtividade. A produção anual média por trabalhador industrial, contando homens, mulheres e crianças, chegava a pelo menos duzentas e cinquenta libras por cabeça. Havia minas de carvão com mais de mil operários e muitas fábricas têxteis com trezentos a setecentos trabalhadores, de modo que ninguém poderia tomar a Bélgica como exemplo de atraso técnico ou de ausência da grande fábrica.

Mesmo nesse quadro, os números mostravam outra realidade ao lado da concentração. A população industrial belga somava 823.920 pessoas em 1896, ou 1.102.240 quando se incluíam empregados de escritório, viajantes e supervisores. Retirando 116.300 trabalhadores das minas de carvão e quase 165.000 artesãos que atuavam sozinhos ou com ajuda familiar, restavam 565.200 trabalhadores, e quase metade deles, cerca de 270.200 pessoas, estava em estabelecimentos com menos de cinquenta empregados.

Dentro desse grupo, 95.000 pessoas trabalhavam em 54.500 oficinas, o que dava média inferior a três trabalhadores por oficina. Excluídas as minas, mais de um sexto dos trabalhadores industriais belgas estava em pequenas oficinas com menos de três auxiliares, além do mestre. Quatro décimos da força industrial trabalhavam em fábricas e oficinas cuja média ficava abaixo de treze pessoas, dado que desmente qualquer leitura simples de absorção completa pela grande unidade.

O ramo têxtil reforçava a mesma conclusão. Apesar da concentração elevada de parte dessa indústria, ainda havia 1.867 pequenas oficinas com um a quatro auxiliares empregados pelo mestre, número que havia sido 2.293 em 1880. Nas máquinas e nos artigos de metal, oficinas em que o mestre trabalhava com dois a quatro assistentes eram muito numerosas, passando de 13.300, e o ofício das armas permanecia pequeno por excelência.

A fabricação de móveis, que se desenvolvera recentemente, completava o quadro belga. Um país com grande concentração industrial, alta produtividade e exportação expressiva conservava, ao mesmo tempo, desenvolvimento intenso dos ofícios domésticos e das pequenas indústrias. Para Kropotkin, a Bélgica demonstrava que grande fábrica e pequena oficina podiam crescer no mesmo território, cada uma sustentada por necessidades diferentes de técnica, venda, escala e organização local.

Depois da Bélgica, Kropotkin observa que Áustria, Hungria, Itália e até os Estados Unidos também davam lugar importante aos pequenos ofícios, em alguns casos com peso maior que na França, na Bélgica ou na Alemanha. A Rússia, por sua vez, permitia ver melhor a importância das indústrias rurais e o dano inútil que seria causado se o Estado aceitasse a política defendida por proprietários de terra e donos de fábrica, empurrando os camponeses para a miséria e destruindo artificialmente os ofícios locais para fabricar uma grande indústria centralizada.

As investigações russas eram, segundo ele, as mais completas já realizadas sobre o estado presente, o crescimento, o aperfeiçoamento técnico e as dificuldades dessas indústrias. Levantamentos feitos casa por casa alcançaram perto de um milhão de lares camponeses em várias províncias, e seus resultados já enchiam quatrocentos e cinquenta volumes impressos pelos conselhos locais. A isso se juntavam publicações do Comitê dos Pequenos Ofícios, do Comitê Estatístico de Moscou e de muitas assembleias provinciais.

Esses documentos registravam nome por nome os trabalhadores, a extensão e a condição de seus campos, seu gado, o valor de sua produção agrícola e industrial, seus ganhos nas duas fontes e seu orçamento anual. Centenas de ofícios separados também haviam recebido monografias próprias, examinadas do ponto de vista técnico, material e sanitário. Por isso Kropotkin tratava a Rússia como um laboratório imenso, não como uma coleção de impressões soltas sobre aldeias pobres.

Os resultados eram imponentes. De uma população de oitenta a noventa milhões na Rússia europeia, nada menos que 7.500.000 pessoas trabalhavam nos ofícios domésticos. A produção anual alcançava, na estimativa mais baixa, mais de cento e cinquenta milhões de libras, e provavelmente chegava a duzentos milhões de libras, ou dois bilhões de rublos. Esse valor ultrapassava a produção total da grande indústria.

A comparação com Moscou tornava o argumento ainda mais forte. Mesmo naquela província, principal região manufatureira russa e responsável por mais de um quinto do valor industrial agregado da Rússia europeia, a renda da população obtida nas indústrias domésticas era três vezes maior que a soma dos salários pagos pelas fábricas. O traço mais notável era que o arranque repentino das fábricas russas não prejudicara esses ofícios, pois lhes dera novo impulso e eles cresceram justamente nas regiões onde as fábricas avançavam com maior rapidez.

Outro traço sugestivo era que as indústrias domésticas modernas não nasciam apenas nas províncias pobres da Rússia Central, onde os pequenos ofícios existiam desde tempos antigos. Elas também surgiam em regiões favorecidas pelo solo e pelo clima. No governo de Stavropol, no Cáucaso do Norte, camponeses com terra fértil passaram de repente a trabalhar com seda em suas próprias casas, e essa produção se tornou ampla o bastante para abastecer o mercado russo com sedas baratas, expulsando as sedas lisas que antes vinham da França.

Orenburg e a região do mar Negro ofereciam exemplo semelhante com a fabricação camponesa de máquinas agrícolas, surgida em data recente. Para Kropotkin, esses casos mostravam que o ofício rural não era simples sobrevivência do atraso, pois podia nascer em áreas férteis, adotar ramos novos e responder rapidamente a demandas práticas. A capacidade dos trabalhadores domésticos russos para se organizar em forma cooperativa mereceria, segundo ele, estudo próprio, porque aparecia como força viva onde a miséria não destruía a possibilidade de associação.

A barateza dos produtos feitos nas aldeias também precisava ser lida com cuidado. Ela não se explicava apenas por jornadas longas e ganhos de fome, pois excesso de serviço e salários baixos existiam nas fábricas russas. Pesava também a condição do camponês que cultivava parte de seu alimento, sofria falta constante de dinheiro e vendia o resultado de seu trabalho industrial por qualquer preço. Por isso quase todos os bens manufaturados usados pelos camponeses russos, com exceção dos algodões estampados, vinham de fabricantes rurais.

Ao mesmo tempo, as aldeias produziam artigos de luxo, principalmente ao redor de Moscou, sem abandonar por completo a lavoura. Chapéus de seda vendidos nas melhores lojas de Moscou, com marca francesa, eram feitos por camponeses moscovitas. O mesmo ocorria com móveis anunciados como vienenses, destinados inclusive a palácios. O ponto notável não era apenas a habilidade dos camponeses, já que o trabalho agrícola não impedia a aprendizagem industrial, e sim a rapidez com que bens finos se espalharam por aldeias antes dedicadas a artigos grosseiros.

A documentação reunida pelos estatísticos russos levava Kropotkin a outra conclusão: os ofícios domésticos, longe de prejudicar a agricultura, eram um dos melhores meios de fortalecê-la, principalmente porque o camponês russo passava vários meses sem serviço nos campos. A lavoura era abandonada apenas onde se tornara inviável por lotes muito pequenos, terra ruim, falta de pastagens, empobrecimento geral, impostos altos e encargos pesados pela redenção da terra.

Onde os lotes eram razoáveis e a tributação pesava menos, os camponeses continuavam cultivando, conservavam melhor seus campos e possuíam maior número médio de animais quando uniam agricultura e ofícios domésticos. Mesmo com lotes pequenos, podiam arrendar mais terra quando obtinham renda de seu trabalho industrial. O bem-estar relativo ficava, portanto, do lado das aldeias que combinavam os dois tipos de atividade, como mostrava a comparação entre Vorsma e Pavlovo, aldeias de cutelaria em condições diferentes.

Kropotkin acrescenta que muito ainda poderia ser dito sobre a facilidade com que camponeses se associavam para comprar máquinas novas ou escapar do intermediário na compra de matéria-prima, desde que a miséria não bloqueasse a própria associação. Bélgica e Suíça dariam exemplos semelhantes. O essencial, para ele, era reconhecer a importância, a vitalidade e a capacidade de aperfeiçoamento das indústrias rurais antes de passar às conclusões gerais do capítulo.

Conclusões

Os fatos examinados por Kropotkin mostram os benefícios que poderiam nascer da combinação entre agricultura e indústria, desde que a indústria chegasse à aldeia sob outra forma. Ela não deveria aparecer como fábrica capitalista, separada da vida rural e movida pela exploração, e sim como produção industrial organizada socialmente, com uso pleno de máquinas e conhecimento técnico.

O traço decisivo dos pequenos ofícios era que o bem-estar relativo só aparecia onde eles permaneciam unidos à lavoura. Enquanto o trabalhador conservava a posse de sua terra e seguia cultivando, podia resistir melhor à concorrência da fábrica. Isso valia até para os trabalhadores do tear na França ou em Moscou. Quando impostos altos ou uma crise obrigavam o trabalhador doméstico a entregar o último pedaço de terra ao usurário, a miséria entrava em sua casa. O intermediário passava a dominar tudo, o excesso de trabalho se agravava e o próprio ofício podia cair em decadência.

A tendência recente das fábricas a se deslocarem para aldeias, vista também no movimento das Garden Cities, reforçava a conclusão. Kropotkin não defendia um retorno geral ao estágio artesanal. Onde uma máquina poupa trabalho humano, ela deve ser acolhida. Poucos ramos da produção deixariam de ganhar com máquinas em alguma etapa de fabricação. A anomalia de fazer pregos, canivetes baratos ou panos simples à mão não duraria muito, pois a máquina substituiria o esforço manual nesses bens comuns.

Ao mesmo tempo, o acabamento artístico feito à mão provavelmente ampliaria seu campo em muitos objetos hoje produzidos por inteiro na fábrica, e continuaria decisivo no nascimento de ofícios novos. A pergunta central era por que algodões, panos de lã e sedas feitos nas aldeias não poderiam ser produzidos ali por máquinas, mantendo vínculo com o trabalho nos campos. Centenas de ofícios domésticos também poderiam recorrer a máquinas poupadoras de esforço, como já ocorria na malharia e em outros ramos.

Para isso, o motor pequeno teria de se espalhar muito mais, sempre que uma grande fábrica fosse desnecessária. A aldeia poderia ter sua pequena fábrica quando o trabalho fabril fosse preferível, como já ocorria em certas aldeias francesas. Nada impedia ainda que a fábrica, com sua força motriz e suas máquinas, pertencesse à comunidade, como acontecia com a força motriz em oficinas e pequenas fábricas do Jura francês.

No regime capitalista, a fábrica era uma maldição para a aldeia, pois trazia sobrecarga às crianças e empobrecimento aos homens adultos. Por isso era natural que trabalhadores a enfrentassem quando ainda conservavam antigas organizações de ofício, como em Sheffield ou Solingen, ou quando não tinham sido reduzidos à miséria extrema, como no Jura. Sob uma organização social mais racional, a fábrica poderia se tornar benefício para a aldeia, e Kropotkin via sinais de que algumas comunidades já caminhavam nessa direção.

As vantagens morais e físicas de dividir o trabalho entre campo e oficina eram, para Kropotkin, claras. A objeção comum vinha da suposta necessidade de centralizar as indústrias modernas. Ele admitia que certos ramos exigem a reunião de centenas ou milhares de trabalhadores no mesmo lugar. Grandes obras de ferro, mineração e navios oceânicos pertenciam a essa categoria. Mas muitas fábricas enormes eram apenas aglomerações, sob uma direção única, de atividades distintas, ou repetições numerosas da mesma máquina, como nos grandes estabelecimentos de fiação e tear.

Quando a manufatura é empreendimento privado, seus donos preferem concentrar todas as etapas sob a própria administração. Com isso, acumulam lucros de cada transformação da matéria-prima e, em uma fábrica com milhares de teares mecânicos, também ampliam seu comando sobre o mercado. Do ponto de vista técnico, essa vantagem era pequena e muitas vezes duvidosa. Até uma indústria centralizada, como a dos algodões, podia repartir suas etapas entre fábricas separadas, como ocorria em Manchester e nas cidades vizinhas. Nos pequenos ofícios, uma divisão ainda maior entre oficinas não trazia prejuízo.

O argumento do custo da força motriz também perdia parte de seu peso. Engenheiros como W. Unwin mostravam que a distribuição hidráulica, e principalmente elétrica, de força a partir de uma estação central podia suprir oficinas menores. Já os cálculos sobre fios de algodão só serviam para ramos que preparam produtos intermediários para novas transformações. Nos incontáveis artigos cujo valor vem principalmente do trabalho habilidoso, a produção podia ocorrer melhor em fábricas menores, com algumas centenas ou poucas dezenas de operários. A famosa concentração era muitas vezes apenas união de capitais para dominar o mercado, não para baratear o processo técnico.

As fábricas gigantes também tinham inconvenientes práticos. Elas não conseguiam reformar rapidamente suas máquinas conforme as demandas variáveis dos consumidores. Novos ramos industriais, como os citados no capítulo anterior, precisavam começar em escala pequena e podiam prosperar tanto em cidades menores quanto em grandes centros, desde que houvesse instituições capazes de estimular gosto artístico e invenção.

O avanço recente na produção de brinquedos, instrumentos matemáticos e ópticos, móveis, artigos de luxo e cerâmica mostrava essa possibilidade. Arte e ciência já não pertenciam apenas às grandes cidades. Para Kropotkin, o progresso futuro tenderia a espalhá-las pelo território, em vez de mantê-las presas a poucos centros enormes.

A distribuição geográfica das indústrias depende em parte das condições naturais. Certos lugares são especialmente adequados a certos ramos. As margens do Clyde e do Tyne, por exemplo, serviam bem aos estaleiros, e estaleiros precisam estar cercados por oficinas e fábricas variadas. Kropotkin reconhecia que as indústrias sempre encontram alguma vantagem em se agrupar segundo traços naturais de cada região.

O problema era que, naquele momento, elas não estavam distribuídas segundo esses traços. Guerras religiosas, rivalidades nacionais e outros fatores históricos haviam pesado muito sobre seu crescimento. Os patrões também tinham seguido facilidades de venda e exportação, critérios que perdiam força com o transporte moderno e perderiam ainda mais quando os produtores produzissem para si, em vez de dependerem de compradores distantes.

Numa sociedade organizada de modo racional, não havia razão para Londres continuar como grande centro de geleias, conservas e guarda-chuvas para quase todo o Reino Unido. Também não havia motivo para os inúmeros pequenos ofícios de Whitechapel permanecerem concentrados ali, quando poderiam se espalhar pelo país. Capas usadas por mulheres inglesas não precisariam ser costuradas em Berlim ou Whitechapel se pudessem ser feitas em Devonshire ou Derbyshire. Paris não precisava refinar açúcar para quase toda a França, nem metade das botas e sapatos dos Estados Unidos precisava sair das oficinas de Massachusetts.

Essas concentrações eram anomalias, e Kropotkin esperava que as indústrias se espalhassem pelo mundo civilizado e, depois, dentro de cada nação. Durante esse movimento, os produtos naturais e as condições geográficas de cada região contariam como fatores importantes. Ainda desse modo, os exemplos mostravam que eles não eram dominantes. A Suíça exportava máquinas a vapor, locomotivas e barcos a vapor sem minério de ferro, carvão ou porto marítimo. A Bélgica exportava uvas, e Manchester se transformara em porto.

Daí vinha a conclusão de que, na distribuição das indústrias, o fator intelectual tinha enorme peso: espírito de invenção, capacidade de adaptação, liberdade política e outras forças semelhantes. A indústria precisava de vizinhança técnica e contato com ramos variados, como os exemplos anteriores já haviam indicado. A agricultura, no trecho seguinte, seria incluída nessa mesma regra.

Toda indústria precisa de vizinhança técnica, e o mesmo vale para a agricultura. Ela não pode se desenvolver sem máquinas, nem generalizar o uso de máquinas aperfeiçoadas sem oficinas mecânicas acessíveis ao cultivador. O ferreiro da aldeia não bastava. Se uma debulhadora ficasse parada por uma semana por causa de uma roda quebrada, e fosse preciso mandar buscar a peça em outra província, a própria máquina deixava de ser viável. Kropotkin vira isso na infância, na Rússia Central, e encontrara relato semelhante em uma autobiografia inglesa da primeira metade do século XIX.

Além disso, em toda a parte norte da zona temperada, quem cultiva a terra precisa de algum emprego industrial durante os longos meses de inverno. Esse fato explicava o grande desenvolvimento das indústrias rurais vistas ao longo do capítulo. A necessidade também aparecia no clima suave das ilhas do Canal, apesar da horticultura sob vidro. Um correspondente de Guernsey perguntara a Kropotkin que indústrias poderiam ser criadas ali.

A agricultura também dependia da ajuda de moradores das cidades durante o verão. Milhares de pobres de Londres iam a Kent e Sussex para fazer feno e colher lúpulo, e só Kent precisava de cerca de oitenta mil homens e mulheres extras para essa colheita. Na França, aldeias inteiras abandonavam temporariamente seus ofícios domésticos e seguiam para regiões férteis. Centenas de milhares de pessoas eram levadas todo verão às pradarias de Manitoba e Dakota. Poloneses se espalhavam por Mecklenburg, Westphalia e até pela França na época da colheita. Na Rússia, milhões de homens deixavam o norte rumo às pradarias do sul, enquanto fábricas de São Petersburgo reduziam a produção porque os operários voltavam às aldeias para cuidar de seus lotes.

O campo precisava de mãos extras no verão, e precisava ainda mais de auxílio temporário para melhorar o solo. Escavação a vapor, drenagem e adubação poderiam tornar as argilas pesadas a noroeste de Londres mais férteis que as pradarias americanas. Para isso, bastava muito trabalho humano simples: cavar, instalar tubos de drenagem, moer fosforitos e tarefas semelhantes. Operários de fábrica fariam esse trabalho com gosto se ele fosse organizado livremente em benefício de toda a sociedade. O solo pedia esse auxílio e o receberia sob uma organização adequada, mesmo que fosse necessário parar muitas fábricas no verão.

Os donos atuais chamariam isso de ruína, já que o capital investido na fábrica espera arrancar dinheiro todos os dias e a cada hora. Essa era a visão do capitalista, não a da comunidade. Quanto aos trabalhadores, que deveriam ser os verdadeiros administradores da indústria, seria saudável não executar o mesmo serviço monótono durante todo o ano. Eles poderiam deixá-lo no verão ou manter a fábrica funcionando por alternância de grupos.

Espalhar as indústrias pelo território, levando a fábrica para perto dos campos e permitindo que a agricultura receba os ganhos de sua união com a indústria, era para Kropotkin o próximo passo quando a reorganização social se tornasse possível. Esse passo já começava aqui e ali. Ele era imposto pela necessidade de produzir para os próprios produtores e pela necessidade de cada homem e mulher saudáveis passarem parte da vida em trabalho manual ao ar livre.

O movimento se tornaria ainda mais necessário quando as transformações sociais abalassem o comércio internacional e obrigassem cada povo a recorrer aos próprios recursos para sua manutenção. A humanidade inteira ganharia com essa mudança, e cada pessoa também. Mas tal mudança exigia alteração profunda da educação. Exigia uma sociedade de homens e mulheres capazes de trabalhar com as mãos e com o cérebro, em mais de uma direção. Kropotkin encerrava o capítulo anunciando que passaria a examinar essa integração das capacidades e a educação integral.

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