Campos, Fábricas e Oficinas: Capítulo III - As Possibilidades da Agricultura Campos, Fábricas e Oficinas: Tradução Literunico · Capítulo 4 de 35
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Campos, Fábricas e Oficinas: Capítulo III - As Possibilidades da Agricultura

A história industrial e mercantil dos últimos cinquenta anos fora, para Kropotkin, uma história de descentralização da indústria, e essa mudança não equivalia a simples deslocamento do centro de gravidade do comércio, como ocorrera em outras épocas, quando a hegemonia mercantil passara da Itália para a Espanha, depois para a Holanda e enfim para a Grã-Bretanha, pois o movimento recente possuía significado mais profundo, excluía a própria possibilidade de uma hegemonia industrial ou mercantil duradoura, revelava condições novas e exigia adaptações novas, diante das quais tentar reviver o passado seria esforço inútil.

Haveria, claro, muitas vozes insistindo que a antiga supremacia dos pioneiros precisava ser mantida a qualquer preço, pois pioneiros costumam falar dessa maneira, e seria dito que os primeiros países industriais deveriam alcançar superioridade tamanha em conhecimento técnico e organização que pudessem vencer todos os concorrentes jovens, usando força quando necessário, embora a força volte contra quem a emprega, e, se o deus da guerra acompanha os batalhões mais fortes, esses batalhões tendem a ser aqueles que lutam por direitos novos contra privilégios gastos, não os que defendem vantagens envelhecidas pela rotina.

Quanto ao desejo honesto de maior ensino técnico, Kropotkin o aceita plenamente, desde que seja visto como benefício para a humanidade e não como patrimônio exclusivo de uma nação, porque conhecimento, invenção, ousadia de pensamento, iniciativa, conquistas do gênio e melhorias da organização social tinham se tornado frutos internacionais, impossíveis de reter dentro de fronteiras políticas, pois cruzavam mares, perfuravam montanhas, passavam pelas estepes e já circulavam com a velocidade criada pelo vapor, pela imprensa e pelo estoque comum de saber partilhado entre oficinas, escolas, jornais e viajantes.

Quando um parágrafo de jornal anunciasse que o armazenamento de força, a impressão sem tinta ou a navegação aérea encontrara solução prática em algum país, seria razoável esperar que, em poucas semanas, inventores de diferentes nacionalidades resolvessem o mesmo problema de modo quase igual, como se uma atmosfera comum favorecesse a germinação de certa ideia no mesmo momento, e essa atmosfera já existia, deixando cinquenta anos atrasado quem sonhava monopolizar o gênio técnico para uma só nação ou para uma só escola industrial em regime de privilégio permanente.

O mundo inteiro se tornara o verdadeiro domínio do conhecimento, e as capacidades particulares de cada povo se compensavam e circulavam: a habilidade britânica nas artes mecânicas, a audácia americana nos empreendimentos gigantescos, o espírito sistemático francês e a pedagogia alemã deixavam de ser reservas locais, enquanto Armstrong, ao instalar oficinas na Itália e no Japão, comunicava a italianos e japoneses a capacidade de lidar com grandes massas de ferro cultivada no Tyne, a iniciativa americana penetrava o Velho Mundo, o gosto francês se tornava gosto europeu e a pedagogia alemã chegava à Rússia.

Em vez de tentar manter a vida nos canais antigos, seria melhor observar as novas condições e os deveres que elas impunham, pois as nações manufatureiras da Europa ocidental encontravam dificuldades crescentes para vender artigos fabricados no exterior e obter alimento em troca, e por isso seriam compelidas a produzir comida em casa, confiando em consumidores internos para suas manufaturas e em produtores internos para seus alimentos, direção que deveriam aceitar quanto antes para evitar novas crises de mercado e de subsistência nas cidades industriais e nos distritos rurais.

Duas grandes objeções se levantavam contra essa conclusão: a primeira dizia que os territórios da Europa ocidental estavam cheios demais de habitantes para produzir todo o alimento e toda matéria bruta necessários às populações em crescimento, o que obrigaria a exportar manufaturas e importar comida, enquanto a segunda afirmava que, mesmo quando fosse possível cultivar na Europa ocidental todo o alimento necessário, não haveria vantagem em fazê-lo se a mesma comida pudesse ser obtida mais barata no exterior, lições correntes entre teóricos da riqueza, políticos e opinião comum que Kropotkin pretendia refutar mostrando terra suficiente para alimentar muito mais que a população presente e benefício imenso em fazê-lo.

O caso mais desfavorável era a Grã-Bretanha, cujo solo fornecia alimento para apenas um terço dos habitantes, apesar de possuir 56.000.000 de acres ao todo, incluindo florestas, rochas, pântanos, turfeiras, cidades, ferrovias e campos, dos quais 33.000.000 eram considerados cultiváveis, e a opinião comum dizia que essa terra jamais poderia alimentar 41.000.000 de pessoas com quantidade e variedade adequadas, crença tão enraizada que até homens de ciência, geralmente cautelosos diante de opiniões correntes, a aceitavam sem verificar, até que qualquer busca por argumento a seu favor revelava ausência de base em fatos ou em julgamento apoiado sobre fatos conhecidos.

As estimativas de Lawes sobre colheitas, publicadas todos os anos no Times, davam a pista, pois em 1887 ele lembrava que, nos oito anos de colheitas de 1853 a 1860, quase três quartos do trigo consumido no Reino Unido vinham da produção interna e pouco mais de um quarto vinha de fora, ao passo que, vinte e cinco anos depois, entre 1879 e 1886, pouco mais de um terço era fornecido por colheitas locais e quase dois terços por importações, virada que o aumento de oito milhões de habitantes e a elevação do consumo de trigo em seis décimos de bushel por pessoa não explicavam.

Entre 1853 e 1860 o solo britânico alimentava um habitante para cada dois acres cultivados, e em 1887 precisava de três acres para a mesma tarefa porque a agricultura fora abandonada, com a área de trigo diminuindo 1.590.000 acres e a colheita média de 1883 a 1886 ficando mais de 40.000.000 de bushels abaixo da média anterior, déficit suficiente para alimentar mais de sete milhões de pessoas, enquanto a área de cevada, aveia, feijões e outras culturas de primavera encolhera mais 560.000 acres, quantidade que, numa média baixa de trinta bushels por acre, completaria os cereais necessários aos mesmos sete milhões.

Se em 1887 o Reino Unido importava cereais para dezessete milhões de habitantes, em vez dos dez milhões de 1860, isso ocorria porque mais de dois milhões de acres haviam saído do cultivo, e a resposta habitual de que a agricultura mudara de caráter para produzir carne e leite também caía diante dos números de 1887 comparados aos de 1860, já que a área de batatas fora reduzida em 280.000 acres, a de nabos em 180.000, o total das culturas verdes caíra mais 330.000 acres apesar de algum aumento em beterrabas forrageiras, cenouras e semelhantes, e só pastagens permanentes e gramíneas em rotação haviam crescido sem aumento correspondente do gado.

Depois de 1887, a situação piorou ainda mais, e, tomando apenas a Grã-Bretanha, Kropotkin observa que a área dedicada a todos os cereais era de 8.392.006 acres em 1885, já muito pequena diante do que poderia ser cultivado, e mesmo essa superfície encolheu para 7.400.227 acres em 1895, enquanto o trigo caía de 2.478.318 acres em 1885, contra 3.630.300 em 1874, para 1.417.641 acres em 1895, com os demais cereais subindo apenas de 5.198.026 para 5.462.184 acres, o que significava perda total de quase um milhão de acres em dez anos e obrigava outros cinco milhões de pessoas a buscar alimento fora.

Se a agricultura tivesse apenas mudado de caráter, as culturas verdes teriam crescido na mesma proporção, e ocorreu o oposto, pois essa área recuou quase 500.000 acres, de 3.521.602 em 1885 para 3.225.762 em 1895 e 3.006.000 em 1909 e 1911, enquanto trevos e gramíneas em rotação também diminuíam, passando de 4.654.173 acres em 1885 para 4.164.000 em 1909 e 1911, e, somadas todas as terras sob culturas em rotação, 17.201.490 acres em 1885, 16.166.950 em 1895, 14.795.570 em 1905 e apenas 14.682.550 em 1909 e 1911, via-se que outros dois milhões e meio de acres haviam saído do cultivo em vinte e seis anos, sem compensação produtiva.

Essa terra foi engrossar a enorme superfície de mais de dezessete milhões de acres classificados como pastagem permanente, mais da metade da área cultivável, e mal bastava para alimentar uma vaca a cada três acres, o que derruba a justificativa de que os agricultores britânicos teriam deixado de plantar trigo para se tornar produtores de carne, já que, longe de destinar a terra liberada dos cereais à criação, o país ainda reduziu o gado entre 1885 e 1895, passando de 6.597.964 cabeças de bovinos para 6.354.336, com recuperação posterior para 7.057.520 em 1909 e 1911, enquanto os ovinos caíam de 26.534.600 para 25.792.200 e depois apenas retornavam a uma faixa entre 26.500.000 e 27.610.000.

O número de cavalos crescia em aparência, porque cada açougueiro e cada quitandeiro mantinha um animal para receber encomendas à porta dos clientes, embora, nos cavalos usados na agricultura, sem doma ou mantidos para reprodução, houvesse apenas oscilações pequenas entre 1.408.790 em 1885 e 1.553.000 em 1909, e muitos cavalos fossem importados junto com aveia e parte considerável do feno necessário para alimentá-los, de maneira que o consumo maior de carne vinha da carne barata importada, não da carne produzida nas ilhas, e a conclusão de Kropotkin é severa: a agricultura não mudara de direção, descera em todas as direções, com a terra saindo do cultivo em ritmo perigoso e os avanços recentes de hortas comerciais, fruticultura e criação de aves parecendo mínimos diante do que França, Bélgica e América já realizavam.

Nos últimos anos examinados por Kropotkin havia pequena melhora, com a área de todos os cereais oscilando em torno de sete milhões de acres e algum aumento do trigo, que chegava a 1.906.000 acres em 1911 contra 1.625.450 em 1907, enquanto cevada e aveia diminuíam levemente, embora o quadro geral continuasse grave, pois a superfície cerealífera permanecia quase um milhão e meio de acres abaixo da de 1885 e quase dois milhões e meio abaixo da de 1874, diferença que representava o alimento de pão de dez milhões de pessoas e bastava para mostrar que a recuperação recente não anulava o abandono anterior.

A causa do movimento descendente estava, para ele, no abandono da terra, pois cada cultura que exigia trabalho humano tivera sua área reduzida, e quase metade dos trabalhadores agrícolas fora enviada desde 1861 para reforçar as fileiras dos desempregados urbanos, de modo que os campos britânicos, longe de estarem cheios demais de gente, sofriam fome de trabalho humano, na expressão de James Caird, enquanto a nação britânica não trabalhava seu solo porque era impedida de fazê-lo, e os pretensos teóricos da riqueza reclamavam que o solo não alimentava seus habitantes.

Kropotkin lembra uma caminhada de mochila, saindo de Londres por Sussex, depois de ter lido Léonce de Lavergne e esperado encontrar terra ativamente cultivada, mas perto da capital e ainda mais ao sul quase não viu homens nos campos, e no Weald podia andar vinte milhas cruzando apenas charnecas ou bosques alugados como terrenos de caça para senhores londrinos, como diziam os trabalhadores, até que uma fazenda isolada numa encruzilhada mostrava a mesma terra carregada de boa colheita e fazia surgir a lembrança do provérbio francês segundo o qual a terra se parece com seu senhor.

Mais tarde, nos campos ricos dos condados centrais, ele se espantou por não encontrar o trabalho humano ativo que admirava nos campos belgas e franceses, e deixou de se surpreender quando soube que apenas 1.383.000 homens e mulheres na Inglaterra e no País de Gales trabalhavam nos campos, enquanto mais de dezesseis milhões pertenciam à classe profissional, doméstica, indefinida e improdutiva dos estatísticos, pois um milhão de pessoas não pode cultivar produtivamente 33.000.000 de acres, a menos que recorra aos métodos das grandes fazendas mecanizadas de tipo Bonanza, e esse vazio humano explicava mais que qualquer suposta incapacidade natural do solo.

Tomando Harrow como centro de excursões, Kropotkin podia caminhar cinco milhas em direção a Londres ou na direção oposta e ver quase somente prados que mal davam duas toneladas de feno por acre, quantia insuficiente para manter uma vaca leiteira a cada dois acres, com o homem ausente desses campos, aparecendo na primavera para passar o rolo, espalhando algum esterco a cada dois ou três anos e desaparecendo até a época do feno, e tudo isso ocorria a menos de dez milhas de Charing Cross, perto de uma cidade de cinco milhões de habitantes abastecida por batatas flamengas e de Jersey, saladas francesas e maçãs canadenses, enquanto horticultores parisienses, em mil acres à mesma distância, empregariam pelo menos duas mil pessoas e tirariam de cinquenta a trezentas libras por acre em verduras, provando que, nas mãos humanas, pântanos, areias e montanhas pedregosas podem se tornar terras férteis.

O fato mais forte, para Kropotkin, era que algumas regiões indiscutivelmente férteis estavam em condição ainda pior, e seu coração doía ao ver o estado das terras em South Devon e ao compreender o que significava pastagem permanente: campo após campo coberto apenas por grama de três polegadas e cardos em abundância, vinte ou trinta campos visíveis de uma só colina, milhares de acres nesse estado apesar do trabalho formidável que os avós da geração presente haviam dedicado a tirar pedras, cercar, drenar de modo rude e preparar o solo para uso produtivo.

Por toda parte ele via cabanas abandonadas e pomares em ruína, sinal de uma população inteira desaparecida e de vestígios que também desapareceriam se as coisas continuassem no mesmo rumo, e tudo isso ocorria numa parte do país dotada de solo fértil e clima mais favorável que o de Jersey na primavera e no início do verão, onde até os moradores mais pobres conseguiam cultivar batatas já na primeira metade de maio, de modo que a pergunta decisiva era como cultivar aquela terra se não havia quem a cultivasse, situação resumida por um velho trabalhador ao dizer que havia campos, homens passavam por eles, sem entrar.

Essas eram as impressões de Kropotkin sobre a agricultura britânica vinte anos antes, e os dados oficiais, junto com muitos testemunhos privados publicados depois, indicavam pouca melhora nas condições gerais, embora experiências bem-sucedidas em novas direções tivessem surgido em várias partes do país e merecessem menção posterior, justamente por mostrarem quanto um solo mediano das ilhas podia render quando tratado de modo adequado, enquanto, em grandes áreas, especialmente nos condados do sul, a situação geral parecia ainda pior que duas décadas antes e a depressão agrícola iniciada nos anos setenta e oitenta do século XIX possuía causas mais fundas que a queda do preço do trigo causada pela concorrência americana.

Na Escócia, as condições eram igualmente ruins, com a população classificada como rural em queda contínua, abaixo de 800.000 em 1911, e o número de trabalhadores agrícolas descendo de 135.970 para 93.600 entre 1881 e 1901, enquanto a terra saía do cultivo e as florestas de cervos, isto é, áreas de caça estabelecidas sobre antigas terras aráveis para divertimento dos ricos, aumentavam em ritmo assustador, ao mesmo tempo em que a população escocesa emigrava e o país se despovoava com rapidez, compondo outro caso em que a falta de braços no campo era produzida socialmente, sem resultar de excesso natural de gente sobre o solo.

O propósito principal de Kropotkin, nesse ponto, era mostrar o que pode e deve ser obtido da terra quando ela recebe tratamento inteligente, e por isso ele assinala uma fraqueza central dos métodos agrícolas britânicos: proprietários e fazendeiros passaram a perseguir objetivos diferentes de extrair da terra a maior quantidade possível de produtos, e, quando a questão da produtividade máxima se impôs às nações europeias, exigindo modificação completa dos métodos de cultivo, essa mudança não se realizou na Grã-Bretanha, enquanto agricultores franceses, belgas, alemães e dinamarqueses enfrentavam a concorrência americana intensificando o cultivo em todas as direções e o país continuava reduzindo a área de cereais e entregando terras ao pasto, quando o problema do dia era tornar a cultura cada vez mais intensiva.

Muitas causas se combinaram para produzir o resultado indesejável descrito por Kropotkin, começando pela concentração da propriedade da terra nas mãos de grandes donos, pelos lucros elevados obtidos antes, pelo desenvolvimento de uma classe de proprietários e fazendeiros que dependiam sobretudo de rendas alheias ao campo e para quem a lavoura se tornara ocupação agradável ou esporte, e pela rápida expansão de reservas de caça para esportistas britânicos e estrangeiros, instaladas sobre terras que poderiam receber cultivo útil, empregar trabalhadores locais, alimentar mercados próximos e sustentar uma vida rural menos esvaziada.

A isso se somavam a ausência de homens de iniciativa capazes de mostrar ao país a necessidade de novo caminho, a falta de desejo de conquistar o conhecimento necessário, a falta de instituições que espalhassem amplamente saber agrícola prático e introduzissem sementes e mudas melhores, como as fazendas experimentais dos Estados Unidos e do Canadá faziam, e a resistência ao espírito de cooperação agrícola ao qual os camponeses dinamarqueses deviam grande parte de seus sucessos, resistência que isolava agricultores, enfraquecia compras coletivas, atrasava métodos e impedia circulação regular de experiências.

Todos esses obstáculos se levantavam diante de uma mudança inevitável nos métodos de cultivo e produziam os resultados denunciados pelos autores britânicos que escreviam sobre agricultura, pois competir com países onde máquinas eram usadas em larga escala e métodos novos se incorporavam ao campo, incluindo o tratamento industrial dos produtos rurais em usinas de açúcar, fábricas de amido e secagem de legumes, exigia abandonar práticas antigas que já não respondiam às condições do tempo, sobretudo quando alimento, indústria rural e transporte começavam a formar uma só cadeia produtiva.

A dificuldade se tornava ainda maior quando o fazendeiro precisava pagar vinte, quarenta e às vezes cinquenta xelins por acre em terras de trigo, pois uma renda dessa altura só poderia ser sustentada por cultivo inteligente, intensivo e tecnicamente renovado, enquanto o costume britânico continuava empurrando a terra para pastagens extensas e uso esportivo, em vez de formar instituições, métodos e hábitos de trabalho capazes de multiplicar a produção local, reduzir desperdícios, treinar trabalhadores e manter no campo a população necessária ao próprio cultivo, com ganhos reais para aldeias, oficinas e consumidores próximos.

Poderia ser dito que essa opinião contrastava estranhamente com a conhecida superioridade da agricultura britânica, pois as colheitas médias de trigo chegavam a vinte e oito ou trinta bushels por acre, enquanto na França ficavam em dezessete ou vinte, e todos os almanaques repetiam que os campos britânicos forneciam a cada ano duzentos milhões de libras esterlinas em produtos animais, como leite, queijo, carne e lã, dados verdadeiros que Kropotkin não descarta, já que em vários aspectos a agricultura britânica era superior à de outros países e oferecia exemplos notáveis de técnica local.

Na obtenção da maior quantidade de produto com a menor quantidade de trabalho, a Grã-Bretanha tinha liderado até ser ultrapassada pelas grandes fazendas americanas de tipo Bonanza, e também havia muito a aprender com suas raças finas de gado, com o estado esplêndido de certos prados e com resultados obtidos em fazendas isoladas, ainda que uma observação mais próxima da agricultura britânica tomada por inteiro revelasse traços sérios de inferioridade escondidos sob os exemplos brilhantes, porque a excelência de pontos selecionados não descreve o uso real do território.

Um prado, por mais belo que fosse, continuava sendo prado, muito inferior em produtividade a um campo de cereais, e as raças finas de gado pareciam pobres quando cada boi precisava de três acres para se alimentar, enquanto as colheitas de vinte e oito ou trinta bushels por acre perdiam brilho quando se lembrava que apenas 1.600.000 a 1.900.000 acres, dentro dos 33.000.000 cultiváveis, recebiam esse trigo, o que equivalia a concentrar todo o esterco e todo o cuidado numa pequena fração da propriedade.

A própria referência de Rothamsted alterava a leitura dos números, pois numa mesma parcela de terra, sem esterco e apenas com boa cultura, obtiveram-se quatorze bushels por acre durante quarenta anos consecutivos, enquanto Prout, em sua fazenda perto de Sawbridgeworth, sobre argila fria e pesada, colhia desde 1861 de trinta a trinta e oito bushels de trigo ano após ano sem estrume de fazenda, usando boa aração a vapor e adubo artificial, e, no sistema de allotments, as colheitas chegavam a quarenta bushels, com algumas fazendas alcançando cinquenta e até cinquenta e sete por acre, cifras que apontavam para possibilidades muito maiores que a média oficial.

Para avaliar corretamente a agricultura britânica, Kropotkin propõe abandonar os exemplos escolhidos e olhar o território inteiro, pois, de cada mil acres de Inglaterra, País de Gales e Escócia, 435 ficavam sob bosques, talhadias, charnecas, construções e usos semelhantes, divisão que dependia muito de causas naturais e podia ser aceita, enquanto os 565 acres cultiváveis restantes, equivalentes a 32.145.930 acres em 1910, eram divididos de modo revelador: 308 acres de cada mil permaneciam em pastagem permanente, quase sempre sem cultivo efetivo, e apenas 257 acres entravam em cultura.

Desses 257 acres cultivados, 124 iam para cereais, vinte e um para batatas, cinquenta e três para culturas verdes, e setenta e três para trevos e gramíneas em rotação, enquanto, dentro dos 124 acres de cereais, os melhores trinta e três, e em certos anos apenas vinte e cinco, eram escolhidos para o trigo, bem cultivados, bem adubados e usados para sustentar a reputação mundial da agricultura britânica, embora representassem apenas uma parte diminuta do território e uma fração pequena da área cultivável.

O resultado líquido era que, em quase 33.000.000 de acres cultiváveis, produzia-se alimento para apenas um terço da população, com mais de dois terços do consumo vindo de fora, e, embora quase dois terços do território fossem cultiváveis, a agricultura britânica oferecia alimento interno para apenas 125 ou 135 habitantes por milha quadrada, de um total de 466, o que significava, em outras palavras, quase três acres cultiváveis para alimentar cada pessoa antes mesmo de comparar esse desempenho com o da França e da Bélgica.

Se a comparação ficasse restrita à média de trinta bushels de trigo por acre na Grã-Bretanha contra dezenove ou vinte na França, as ilhas pareceriam superiores, embora tais médias valessem pouco porque os sistemas eram inteiramente diferentes, pois o agricultor francês também possuía seus vinte e cinco ou trinta acres escolhidos e fortemente adubados no norte e na Ilha de França, dos quais tirava médias de trinta a trinta e três bushels, enquanto semeava trigo também no Planalto Central e no sul, em terras que davam dez, oito e até seis bushels por acre sem irrigação, reduzindo a média nacional.

A França cultivava muito do que a Grã-Bretanha deixava como pastagem permanente, e essa era justamente a prática apontada como inferioridade francesa, apesar de a proporção entre área cultivável e território total ser muito parecida nos dois países, com 624 acres por mil acres na França, e de a área francesa dedicada ao trigo ser proporcionalmente quase seis vezes maior que a britânica, 182 acres contra vinte e cinco ou trinta em cada mil, além de os cereais cobrirem quase dois quintos da área cultivável e grandes superfícies irem para culturas verdes, plantas industriais, vinha, frutas e legumes.

Considerando tudo, o agricultor francês mantinha menos gado e, sobretudo, menos ovelhas que o britânico, e ainda obtinha do solo quase todo o alimento consumido por ele e pelos animais, importando em ano médio apenas um décimo do consumo nacional e exportando para a Grã-Bretanha quantidades consideráveis de produtos alimentares, especialmente manteiga e legumes da Bretanha, frutas e verduras dos arredores de Paris, de modo que a França, embora também tratasse um terço de seu território como incultivável, alimentava com seu solo 170 habitantes por milha quadrada, quarenta a mais que a Grã-Bretanha, tornando a comparação muito menos favorável aos britânicos do que se costumava dizer.

A comparação com a Bélgica era ainda mais forte, justamente porque os dois sistemas de cultivo se pareciam mais entre si do que os sistemas francês e britânico, e logo no começo aparecia um dado incômodo para a reputação inglesa: a Bélgica também obtinha colheita média acima de trinta bushels de trigo por acre, embora a área dedicada ao trigo fosse cinco vezes maior que a britânica em relação à superfície cultivável, e os cereais cobrissem dois quintos da terra disponível para cultivo, o que transformava a boa média belga em resultado territorial amplo, não em vitrine limitada a poucos campos escolhidos.

A terra belga era cultivada com tamanha intensidade que, nos anos de 1890 a 1899, deixando fora a safra muito ruim de 1891, as colheitas médias iam de vinte e seis e meio a vinte e oito e meio bushels por acre para o trigo de inverno, alcançavam trinta e três e meio em 1900 a 1904, passavam de cinquenta e quatro bushels na aveia, contra trinta e cinco a quarenta e um e meio na Grã-Bretanha, e davam de quarenta a quarenta e três e meio bushels na cevada de inverno, enquanto em 475.000 acres se obtinham culturas intercalares de nabos suecos, cenouras, luzerna e outras gramíneas.

Quando entravam em cena colheitas extraordinárias, Seebohm Rowntree mencionava o trigo da comuna de Oirbeck, perto de Louvain, com cinquenta e sete bushels por acre em 1906, quando a média de todo o país era de trinta e quatro, e citava também a aveia de Neuve-Eglise, com cento e onze bushels e meio por acre diante de média belga de cinquenta e quatro, além de comunas em que as médias de alguns cereais excediam em setenta e três por cento a média nacional e as raízes ultrapassavam a média em proporções de cento e seis a cento e cinquenta e três por cento.

Tomada em conjunto, a Bélgica produzia mais de setenta e seis milhões de bushels de cereais, o equivalente a quinze vírgula sete bushels por acre cultivável, enquanto a cifra correspondente da Grã-Bretanha era de apenas oito e meio, e ainda mantinha quase o dobro de gado por acre cultivável, dado que destrói a explicação cômoda segundo a qual produção cerealífera elevada exigiria sacrificar necessariamente a criação, pois a mesma terra, quando trabalhada com método mais intenso, sustentava tanto grãos quanto animais.

A Bélgica ainda exportava gado e cavalos, e até 1890 mandava para fora de trinta e seis mil a noventa e quatro mil cabeças de bovinos, de quarenta e duas mil a setenta mil ovelhas e de sessenta mil a 108.600 suínos, exportações que cessaram de repente naquele ano, provavelmente por proibição alemã, enquanto os cavalos continuaram saindo em torno de vinte e cinco mil animais por ano, e grandes porções de terra também eram destinadas a plantas industriais, batatas para álcool, beterrabas para açúcar e outros cultivos ligados diretamente à transformação produtiva e ao aproveitamento integral do campo.

Seria erro imaginar que esse rendimento viesse de fertilidade natural superior, pois Laveleye afirmava que apenas metade, ou menos, do território belga oferecia condições naturalmente favoráveis à agricultura, enquanto o restante era composto por cascalhos ou areias cuja esterilidade só podia ser vencida por adubação pesada, e foi o trabalho humano, não a natureza, que deu ao solo belga sua produtividade presente, permitindo a esse país fornecer quase todo o alimento de uma população mais densa que a da Inglaterra e do País de Gales, com 589 habitantes por milha quadrada.

Ao considerar exportações e importações agrícolas, Kropotkin pergunta se as conclusões de Laveleye ainda permaneciam válidas, pois nos anos de 1880 a 1885 o solo belga alimentava com produção própria nada menos que 490 habitantes por milha quadrada e ainda deixava excedente para exportar, com mais de um milhão de libras por ano em produtos agrícolas enviados à Grã-Bretanha, embora as mudanças posteriores na forma de declarar cereais importados dificultassem saber com certeza quanta parte das importações era realmente consumida dentro do país e quanta voltava ao exterior.

Por isso era mais seguro observar a produção anual de cereais informada pelo Annuaire oficial, e os números de 1911 mostravam que, em 1909, as propriedades belgas acima de dois acres e meio tinham obtido 2.290.300.000 libras de trigo, centeio e mistura de trigo com centeio, além de 219.200.000 libras de cevada, 1.393.000.000 de libras de aveia e quantidade considerável de grãos oleaginosos, o que, diante de uma população de sete milhões e de um consumo médio aceito de 502 libras de cereais por pessoa, indicava que a Bélgica produzia ao menos dois terços dos cereais necessários a uma população de quase seiscentas pessoas por milha quadrada.

O cálculo ainda ficaria mais alto se incluísse outros cereais, legumes, verduras e as pequenas propriedades com menos de dois acres e meio, excluídas das estatísticas oficiais apesar de somarem 554.041 unidades em 1895 e sustentarem quase dois milhões de pessoas, muitas delas cultivando algum cereal junto com verduras e forragem para o gado, prova de que a produção belga não se limitava às grandes contas oficiais e de que o cultivo intensivo, espalhado por pequenas posses, ampliava a base alimentar do país em escala que os quadros gerais deixavam subestimada.

Mesmo produzindo cereais para mais de dois terços de sua população densa, a Bélgica exportava todos os anos quantidades consideráveis de produtos do solo, e em 1910 mandava para fora 254.730 toneladas de legumes, contra 187.000 importadas, quarenta mil toneladas de frutas, trinta e quatro mil toneladas de plantas e flores, quase três milhões de libras nesse grupo, além de 256.000 toneladas de grãos oleaginosos, 18.500 toneladas de lã e quase sessenta mil toneladas de linho, sem contar manteiga, coelhos, peles, açúcar, óleos vegetais e álcool, porque parte importante de beterrabas e batatas também era importada.

A conclusão era difícil de contestar: se o solo da Grã-Bretanha fosse cultivado apenas como o solo pouco fértil da Bélgica, apesar dos obstáculos sociais que também pesavam sobre o cultivo intensivo belga, parcela muito maior da população das ilhas obteria alimento da própria terra, e essa comparação se tornava ainda mais forte porque a Bélgica era também país manufatureiro, exportando artigos fabricados localmente em valor elevado por habitante, enquanto a pequena e naturalmente pobre Flandres Ocidental alimentava em 1890 seus 580 habitantes por milha quadrada e ainda exportava produtos agrícolas, embora Laveleye mostrasse que a elevação constante da renda da terra freava melhorias maiores.

A Dinamarca oferecia outro exemplo do que podia ser feito por esforço nacional acompanhado pelas classes instruídas, pois, depois da guerra de 1864 e da perda de uma província, os dinamarqueses se empenharam em espalhar educação entre os camponeses e desenvolver cultivo intensivo do solo, e o resultado era visível: a população rural, em vez de correr para as cidades, cresceu de 1.565.585 para 1.647.350 entre 1906 e 1911, enquanto, de uma população total de 2.775.100 pessoas, 990.900 viviam da agricultura, da produção leiteira e das florestas.

Com solo muito pobre, a Dinamarca mantinha área cultivada pouco abaixo de sete milhões de acres, dos quais 2.773.320 estavam sob cereais, produzia trigo em média de quarenta vírgula seis bushels por acre, avaliava os alimentos de produção interna em quarenta milhões de libras, quase seis libras por acre, e tinha exportações de produtos locais que superavam as importações em 14.483.000 libras, resultado que Kropotkin atribui a educação agrícola desenvolvida, mercados urbanos acessíveis a todos os produtores e, acima de tudo, cooperação, fruto do esforço realizado pelas classes instruídas depois da derrota de 1864.

A manteiga dinamarquesa já regulava os preços no mercado de Londres e alcançava qualidade alta graças a laticínios cooperativos com refrigeração e métodos uniformes, e menos conhecido era que a manteiga siberiana importada em grandes quantidades pela Grã-Bretanha também nascera por influência dos cooperadores dinamarqueses, pois, ao ensinarem cooperação aos camponeses russos das províncias de Tobolsk e Tomsk, encontraram população inteligente numa região fértil e viram os laticínios cooperativos espalharem-se com rapidez espantosa, até que navios carregados de manteiga siberiana passaram a sair semanalmente de portos bálticos rumo a Londres.

Kropotkin afirma que exemplos semelhantes poderiam ser tirados de outros lugares, especialmente da Lombardia, embora os casos já apresentados bastassem para impedir conclusões apressadas sobre a impossibilidade de alimentar quarenta e seis milhões de pessoas em setenta e oito milhões de acres, e deles extraía uma primeira conclusão imediata: se o solo do Reino Unido fosse cultivado apenas como fora quarenta e cinco anos antes, vinte e quatro milhões de pessoas, em vez de dezessete milhões, viveriam de alimento produzido no próprio país, com ocupação para mais 750.000 homens e quase três milhões de consumidores domésticos mais prósperos para as manufaturas britânicas.

A segunda conclusão vinha da comparação com a Bélgica, pois, se a área cultivável do Reino Unido fosse trabalhada na média do solo belga, haveria alimento para pelo menos trinta e sete milhões de habitantes, sem que o país precisasse abandonar a manufatura, e ainda seria possível exportar produtos agrícolas enquanto se atendiam livremente as necessidades de uma população rica, ao passo que a terceira conclusão ia mais longe e indicava que, mesmo com população dobrada, produzir alimento para noventa milhões exigiria cultivar o solo como se cultivava nas melhores fazendas britânicas, na Lombardia e em Flandres, aproveitando também prados quase improdutivos nos moldes da horticultura dos arredores das grandes cidades francesas.

Essas conclusões não eram fantasias nem antecipações de uma agricultura futura, e sim resultados modestos tirados de fatos visíveis ao redor, sem recorrer a descobertas ainda inexistentes, pois, para saber o que a agricultura poderia ser e o que determinada superfície de terra poderia produzir, era preciso consultar regiões de cultivo intenso como Saffelare, na Flandres Oriental, a ilha de Jersey, os prados irrigados da Lombardia, os horticultores próximos de Paris e da Holanda, os truck farms americanos e outras zonas onde o trabalho humano já havia transformado a relação comum entre solo, água, adubo, temperatura e colheita.

Enquanto a ciência dedicava sua atenção principal às atividades industriais, um número limitado de amantes da natureza e uma multidão de trabalhadores anônimos criavam uma agricultura nova, tão superior à lavoura moderna quanto a lavoura moderna era superior ao velho sistema de três campos, e, embora a ciência raramente os guiasse e às vezes os desorientasse, como ocorrera com as teorias de Liebig levadas ao extremo por seguidores que tratavam plantas como recipientes de vidro para drogas químicas, esses trabalhadores avançavam por experiência direta e abriam à fisiologia vegetal um campo novo de pesquisa, do mesmo modo que criadores de gado haviam aberto horizontes para a biologia.

Essa agricultura nova sorria diante do orgulho comum pelo sistema de rotação que permitia tirar uma colheita anual do campo, ou quatro colheitas em três anos, porque sua ambição era obter seis e até nove colheitas da mesma parcela em doze meses, e também evitava prender-se à distinção tradicional entre solos bons e ruins, já que produzia o próprio solo em quantidade tamanha que parte dele precisava ser vendida todos os anos, sob pena de elevar o nível dos jardins em meia polegada a cada temporada.

A meta deixava de ser cortar cinco ou seis toneladas de capim por acre e passava a cinquenta ou cem toneladas de diferentes legumes no mesmo espaço, com mudança proporcional de valor, pois o resultado já não era cinco libras em feno e sim cem libras em verduras comuns, como couves e cenouras, ou mais de duzentas libras quando o tratamento horticultural intensivo era aplicado, e a direção da agricultura moderna aparecia ali, na multiplicação organizada do produto por unidade de solo, trabalho e cuidado.

Kropotkin lembra que a carne era a variedade mais cara dos alimentos básicos, e que os não vegetarianos consumiam em média 225 libras por ano, quase um terço de um boi, enquanto na Grã-Bretanha e na Bélgica eram necessários dois ou três acres para manter uma cabeça de gado, o que obrigaria uma comunidade de um milhão de habitantes a reservar cerca de um milhão de acres apenas para carne, cálculo que mudava quando se observava a fazenda de Goppart, um dos promotores da ensilagem na França, onde um campo drenado e bem adubado produzia em média 120.000 libras de milho forrageiro por acre, ou 30.000 libras de feno seco, alimento de uma cabeça de gado por acre.

A beterraba forrageira levava a comparação ainda mais longe, pois Champion, em Whitby, usando esgoto, conseguiu cem mil libras de beterraba por acre e às vezes cento e cinquenta mil ou duzentas mil, quantidade suficiente para alimentar pelo menos duas ou três cabeças de gado em cada acre, enquanto Gros, em Autun, colhia 600.000 libras de beterrabas e cenouras, produção que permitiria manter quatro cabeças por acre, e colheitas de cem mil libras de beterraba apareciam em grande número nas competições francesas, com êxito dependente de bom cultivo e adubação adequada, mostrando que, onde a lavoura comum exigia dois milhões de acres ou mais para um milhão de cabeças, o dobro do gado poderia ser mantido em metade da área, e densidades maiores ainda reduziriam a superfície necessária.

Os exemplos anteriores já eram fortes, e a horticultura comercial trazia resultados ainda mais impressionantes, sobretudo a cultura maraîchère dos arredores de Paris, na qual cada planta era tratada conforme sua idade, com sementes germinando e mudas desenvolvendo as primeiras folhas em condições especialmente favoráveis de solo e temperatura, depois escolhidas e transplantadas para canteiros de terra fina, sob armação ou ao ar livre, onde as raízes se desenvolviam com liberdade e, reunidas em espaço limitado, recebiam cuidado acima do comum antes de irem para o chão aberto e crescerem até o ponto de colheita.

Nesse sistema, a condição primitiva do solo tinha pouca importância, porque a terra era fabricada a partir de canteiros aquecidos antigos, as sementes eram testadas, as mudas recebiam atenção própria e a seca deixava de ser ameaça central devido à variedade de cultivos, à irrigação abundante com auxílio de motor a vapor e ao estoque permanente de plantas prontas para substituir indivíduos fracos, de maneira que quase cada planta era tratada individualmente e esse cuidado minucioso alterava o sentido da produtividade agrícola, pois o campo deixava de ser superfície passiva e se tornava organismo trabalhado em todas as fases.

Kropotkin corrige ainda um mal-entendido sobre a atração das hortas comerciais pelas grandes cidades, pois se supunha que o principal atrativo fosse o mercado consumidor, e isso tivera importância em outros tempos, embora já valesse apenas em parte, uma vez que muitos maraîchers parisienses, inclusive os que possuíam jardins dentro dos muros da cidade e produziam verduras de estação, exportavam toda a colheita para a Inglaterra, enquanto o atrativo decisivo do espaço urbano era o esterco estável, usado menos para enriquecer o solo, porque uma décima parte bastaria para isso, e muito mais para conservar a terra em temperatura adequada aos produtos precoces.

As verduras mais cedo colhidas pagavam melhor, e para obtê-las era preciso aquecer o ar e o solo, o que se fazia enterrando grandes quantidades de esterco bem misturado, cuja fermentação produzia calor, embora o desenvolvimento das habilidades industriais já permitisse obter o mesmo aquecimento de modo mais prático e barato por tubos de água quente, motivo pelo qual os horticultores franceses começavam a usar tubos portáteis, ou termossifões, instalados provisoriamente nas armações frias, melhoramento que se difundia e produzia excelentes resultados, deixando ao esterco a função principal de fabricar terra fina.

Quanto às diferenças de fertilidade, que sempre perturbavam os escritores sobre agricultura, a horticultura comercial mostrava que o solo era feito, qualquer que fosse sua condição inicial, e por isso os contratos de arrendamento dos maraîchers de Paris já costumavam prever que o jardineiro pudesse levar sua terra até certa profundidade quando deixasse a posse, pois ele próprio a fabricava e, ao mudar-se para outra parcela, transportava a terra junto com armações, encanamentos, ferramentas e demais pertences, prova material de que fertilidade podia ser criada, acumulada e deslocada pelo trabalho humano organizado.

Os feitos eram numerosos demais para caberem todos numa enumeração breve, e Kropotkin recorre ao caso de Ponce, autor de obra conhecida sobre a cultura maraîchère, cujo jardim tinha apenas dois acres e sete décimos, exigira investimento de 1.136 libras, incluindo motor a vapor para irrigação, e era cultivado por oito pessoas que levavam verduras ao mercado, mantinham um cavalo, traziam esterco de Paris, pagavam cem libras anuais por esse insumo e outras cem em renda e impostos, enquanto menos de três acres rendiam mais de vinte mil libras de cenouras, mais de vinte mil libras de cebolas, rabanetes e outros legumes vendidos por peso, seis mil repolhos, três mil couves-flores, cinco mil cestos de tomates, cinco mil dúzias de frutas escolhidas, 154.000 pés de salada e, ao todo, 250.000 libras de verduras.

Exemplos semelhantes podiam ser dados às dezenas, e a melhor prova contra qualquer suspeita de exagero estava nas rendas altíssimas pagas pelos horticultores, de dez a quinze libras por acre nos subúrbios de Londres e até trinta e duas libras em torno de Paris, onde 2.125 acres eram cultivados por cinco mil pessoas, abastecendo dois milhões de parisienses e enviando excedentes a Londres, enquanto, mesmo sem armações quentes e campânulas de vidro, trinta e seis jardas de armações para mudas e cultivo ao ar livre bastavam para obter duzentas libras por acre em verduras comuns, valor devido à abundância da colheita e não ao preço alto de produtos precoces de inverno.

Kropotkin recusa transformar o jardineiro parisiense em ideal agrícola, embora reconheça que esse trabalhador abriu uma estrada decisiva na obra dolorosa da civilização, pois a sua prática mostrou que o solo comum podia ser vencido, que o clima podia ser corrigido, que muros, vidros, armações, viveiros e abrigos bastavam para deslocar a estação e fazer dos arredores de Paris uma espécie de jardim meridional, capaz de entregar frutas, uvas, flores e verduras em quantidade crescente, sem atribuir ao sacrifício pessoal valor moral superior ao resultado técnico obtido, medido em horas roubadas ao corpo.

O limite dessa figura aparece no próprio regime de vida que a sustenta, porque o jardineiro trabalha de três da manhã até tarde da noite, com interrupção curta, sem lazer verdadeiro, sem tempo para participar da vida comum e sem espaço interior para uma existência humana mais larga, pois o seu mundo inteiro se concentra no jardim antes de alcançar a família e a cidade, e por isso a meta de uma sociedade melhor precisa ser outra, com produção ainda maior, esforço menor e acesso real às alegrias ordinárias da vida, inclusive estudo, descanso, convívio e criação livre.

Quando são deixadas de lado as culturas de primores, como morangos amadurecidos em janeiro, e se observam apenas os horticultores que cultivam ao ar livre e recorrem às armações durante os primeiros dias da planta, a essência do método fica simples, pois tudo consiste em criar para a muda um solo nutritivo e poroso, carregado de matéria orgânica em decomposição e de compostos minerais úteis, e em manter esse solo e o ar próximo em temperatura e umidade superiores às do campo aberto, antes que a planta enfrente a estação comum.

A arte empírica do maraîcher francês se concentra nesses dois objetivos, e por isso ele gasta inteligência, imaginação e esforço ao combinar adubos de várias origens para que fermentem em velocidade determinada, produzindo ao mesmo tempo alimento para a planta, calor regular e umidade constante ao redor das raízes, com um cuidado que nasceu de longa experiência prática e que a ciência ainda acompanhava de longe, muitas vezes sem compreender a fisiologia real do crescimento vegetal, embora já pudesse formular melhor o princípio oculto da operação em cada fase da nutrição.

Esse duplo objetivo, terreno nutritivo e clima próximo favorável, podia ser alcançado por via menos penosa, porque o solo podia ser melhorado pela mão humana sem precisar ser fabricado pela mão humana, já que máquinas eram capazes de preparar terras de composição desejada, triturar fosforitos, moer granitos dos Vosges, organizar misturas minerais e produzir terra fina em escala, bastando surgir demanda social clara para que oficinas desse gênero fossem montadas como já se montavam fábricas de adubo, motores de moagem e instalações de preparo mineral, sob comando coletivo e finalidade comum.

A preferência do jardineiro pelo trabalho enorme tinha origem compreensível, pois a fraude e a adulteração nos adubos artificiais eram praticadas em larga escala, e a fabricação desses produtos era tratada como operação química isolada, quando deveria ser guiada pela fisiologia da planta viva, de modo que o cultivador preferia gastar força própria a arriscar toda a colheita em drogas de rótulo pomposo e valor incerto, obstáculo nascido da falta de conhecimento e da má organização social, longe de qualquer fatalidade física ou limite natural imposto ao cultivo em qualquer canteiro bem conduzido.

A necessidade de criar calor no solo e no ar durante a primeira vida da planta permaneceria, e Kropotkin recorda que Léonce de Lavergne já previra, décadas antes, que o passo seguinte da cultura agrícola seria aquecer a terra, solução que os tubos de água quente realizavam com resultado semelhante ao dos adubos em fermentação e com gasto humano muito menor, abrindo caminho para uma aplicação em larga escala que multiplicava por mais de cem a potência produtiva de uma área determinada, sem prender o cultivador à pilha fumegante de esterco.

O preço aparente da estufa aquecida resultava em grande parte da ordem capitalista, que fazia pagar por cada objeto três ou quatro vezes o seu valor em trabalho, além de sustentar fortunas de intermediários sobre caixilhos de madeira, vidros e materiais importados, pois, quando a despesa era medida em esforço humano auxiliado por máquinas, um metro quadrado de estufa custava cerca de meio dia de trabalho, e a cultura de um acre sob vidro em Jersey e Guernsey exigia em média apenas três homens durante dez horas diárias, proporção muito diferente da impressão deixada pelas contas de mercado.

A estufa, antes reservada ao luxo, entrava rapidamente no domínio da alta cultura, e podia ser prevista como apêndice necessário do campo, tanto para frutos e verduras que fracassavam ao ar livre em certas latitudes quanto para a preparação inicial de muitas plantas cultivadas, já que manter uma muda sob vidro durante sua juventude era compensado pela superioridade posterior da colheita, pela regularidade do crescimento e pela proteção contra perdas que o clima comum impunha ao lavrador, sobretudo nas regiões onde a primavera instável destruía semanas de trabalho e sementes caras.

A fruta colhida perto de casa era sempre preferível ao produto estrangeiro arrancado antes do ponto, e a comparação do trabalho gasto numa vinha fria dos subúrbios de Londres com o esforço acumulado nos vinhedos do Reno ou do lago Léman revelava outra face do problema, pois terra carregada para encostas pedregosas, muros de pedra, terraços e cuidados anuais representavam quantidade enorme de trabalho, enquanto as vinhas sob vidro de Londres e Bruxelas podiam entregar uvas, além do quadragésimo quinto grau de latitude, com menor despesa humana quando se contava o investimento e a manutenção, e ainda com fruto amadurecido perto de quem o comia.

Convém evitar o exagero sobre a produtividade dos países exportadores, pois os viticultores do sul europeu muitas vezes bebiam uma piquette miserável, Marselha fabricava vinho doméstico a partir de uvas secas vindas da Ásia, e o camponês da Normandia que enviava maçãs a Londres reservava a verdadeira sidra para grandes festas, quadro incapaz de durar para sempre, uma vez que as sociedades industriais acabariam forçadas a procurar em seus próprios recursos muitos produtos que recebiam de fora, quando os produtores externos começassem a consumir melhor aquilo que antes vendiam por necessidade.

Essa volta aos recursos próximos, na leitura de Kropotkin, ampliaria a produção em vez de empobrecê-la, porque a ciência conserva reservas inesgotáveis para alargar o círculo das atividades humanas e cada nova ocupação chama outras ao seu redor, aumentando o poder sobre as forças naturais e tornando impossível fixar de antemão o número máximo de pessoas que poderiam viver de uma área dada ou a variedade de produtos que poderiam ser cultivados com vantagem em qualquer latitude, diante da velocidade com que experiências de ontem passavam a fatos correntes.

Com os métodos já utilizados em grande escala, seiscentas pessoas poderiam viver com facilidade em uma milha quadrada, e mil pessoas sem ociosidade, reunidas sobre mil acres, obteriam alimento vegetal e animal abundante, além de linho, lã, seda e couros necessários ao vestuário, sem espécie alguma de sobrecarga, enquanto os métodos ainda mais aperfeiçoados, conhecidos em parte e ainda pouco testados em escala ampla, aconselhavam prudência nas previsões devido ao caráter inesperado das conquistas recentes da cultura intensiva e da cooperação entre lavoura, oficina e laboratório, aplicada por comunidades bem equipadas.

A falácia da superpopulação cai já no primeiro exame atento, pois somente se assusta com o aumento de um habitante a cada mil segundos quem imagina o ser humano como simples reclamante de uma reserva material já pronta, enquanto Kropotkin vê em cada criança recém-chegada um futuro trabalhador capaz de acrescentar à riqueza comum acima da própria parte, desde que a sociedade lhe ofereça conhecimento, ferramentas, solo, cooperação e participação real na produção, em vez de abandono, ignorância e disputa por migalhas, sem confundir nascimento com ameaça material imediata.

Uma população densa aparece, nessa análise, como condição necessária para aumentar a potência produtiva do trabalho, já que homens espalhados em pequenos grupos por territórios imensos dificilmente combinam esforços para obras superiores de civilização, enquanto a concentração torna possível unir máquinas, saber técnico e cultura intensiva, reduzindo o esforço exigido para produzir alimento, fiar, fabricar panos e organizar uma vida material mais rica do que aquela obtida pelo isolamento rural disperso, preso a ferramentas pobres e a jornadas repetidas sem melhora por gerações inteiras nas mesmas aldeias e nos mesmos caminhos.

A imagem do trigo brotando sozinho nas estepes russas pertence à fantasia, pois quem conhecia o esforço do camponês na chamada região fértil da terra preta desejava antes que o aumento da população permitisse levar escavadoras a vapor, métodos de jardinagem e instrumentos melhores para aquelas planícies, a fim de erguer os lavradores que serviam como bestas de carga da humanidade e lhes devolver a postura de homens livres, com costas erguidas e tempo para uma vida digna, fora da servidão silenciosa do arado primitivo durante todo o cultivo anual.

Alguns teóricos da riqueza admitiam que a Europa ocidental podia produzir alimento em quantidade muito maior, embora deixassem de enxergar necessidade ou vantagem nessa direção enquanto houvesse outros povos dispostos a fornecer trigo, carne e gêneros agrícolas em troca de manufaturas, e Kropotkin propõe então examinar a correção dessa tese sem aceitar a palavra preço como juiz cego, porque afirmar que o trigo de Riga chega mais barato que o trigo de Lincolnshire resolve o debate apenas na aparência, antes de perguntar quem recebe, quem paga e quem fica no meio.

A comparação entre a França, que cultivava internamente grande parte dos próprios alimentos, e a Grã-Bretanha, dependente de importações, enfraquecia a crença no barateamento automático trazido pelo comércio distante, pois fora de Paris os produtos locais franceses eram mais baratos que os ingleses e os preços diminuíam ainda mais para leste do continente, ao passo que o país importador sustentava uma classe enorme de intermediários entre o produtor de fora ou de dentro e o consumidor final, classe que crescia justamente onde o alimento percorria distâncias maiores, acumulando lucro sobre cada passagem.

Essa intermediação aparecia nas queixas públicas sobre a parcela desproporcional do preço retida pelo comércio, no caso do clérigo do East End que se fez açougueiro para defender seus paroquianos, nos agricultores dos condados centrais que recebiam nove pence por uma libra de manteiga vendida ao consumidor por dezoito ou vinte pence, no leite de Cheshire comprado ao produtor por cerca de dois pence e revendido adulterado por quatro ou puro por cinco, e nas verduras de Covent Garden, pelas quais o comprador pagava de seis a doze pence para cada penny recebido pelo cultivador, diferença que fazia do atravancamento comercial uma renda constante.

Em país alimentado por importação, esse resultado se tornava estrutural, porque o cultivador que vendia diretamente sua produção desaparecia do mercado e era substituído pelo intermediário, enquanto Bélgica, Alemanha e Rússia exibiam custo de vida progressivamente menor, até chegar ao caso russo, onde o trigo custava metade ou dois terços do preço londrino e a carne era vendida nas províncias por cerca de dez farthings a libra, prova insuficiente para sustentar que viver de alimento importado fosse mais barato do que produzir perto de casa, principalmente para quem dependia do salário semanal.

A análise do preço tornava a desvantagem ainda mais visível, pois se dizia que cem libras de trigo custavam no Reino Unido oito xelins e sete pence para serem produzidas, enquanto na Rússia ficavam entre três xelins e seis pence e quatro xelins e nove pence, diferença enorme mesmo admitindo algum exagero na primeira cifra, e a pergunta decisiva passava a ser por que essa distância existia, ponto que conduz ao exame dos salários, da fertilidade real, do transporte e da renda da terra, todos ocultos quando se compara apenas a cifra final no porto ou no mercado.

Ao desmontar a palavra preço, Kropotkin separa aquilo que o mercado reúne de maneira enganosa, pois o quintal de trigo custava no Reino Unido, segundo os cálculos então citados, oito xelins e sete pence para ser produzido, enquanto na Rússia ficava entre três xelins e seis pence e quatro xelins e nove pence, diferença enorme mesmo depois de admitido exagero parcial na cifra britânica, e a pergunta necessária deixava de ser qual trigo aparecia barato no porto para se tornar qual parcela desse valor correspondia a trabalho, renda, transporte, organização e apropriação fundiária.

Os salários monetários russos eram bem menores, sem que isso bastasse para explicar o contraste, porque o salário semanal de doze xelins do trabalhador agrícola britânico representava, dentro da Grã-Bretanha, quantidade de trigo próxima à que seis xelins entregavam ao trabalhador russo em seu próprio país, e a suposta fertilidade milagrosa das pradarias russas também caía diante dos números, pois colheitas de dezesseis a vinte e três bushels por acre eram consideradas boas, enquanto a média mal alcançava treze mesmo nas regiões exportadoras de cereal, nos próprios termos da subsistência local.

A produção russa pedia, além disso, esforço material maior, realizada com arados pobres, cavalos miseráveis, ausência de debulhadoras, caminhos ruins e transporte difícil, de modo que a quantidade de trabalho necessária para obter a mesma massa de trigo superava aquela exigida no oeste europeu, e a comparação desmentia a ideia confortável de que o pão vindo de longe nascesse quase sem custo humano, como presente de planícies naturalmente generosas e de camponeses satisfeitos com qualquer pagamento, longe dos celeiros e dos portos que recebiam sua colheita, em jornadas longas e penosas.

Quando chegava ao mercado londrino, o trigo russo era vendido, em 1887, a trinta e um xelins o quarter, enquanto os cálculos do periódico Mark Lane Express indicavam que o quarter britânico dificilmente podia ser produzido por menos de trinta e seis xelins e oito pence, mesmo contando a venda da palha, e Kropotkin mostra que a diferença da renda da terra entre os dois países já bastava para explicar quase todo o afastamento entre as cifras apresentadas ao público consumidor, sem recorrer a lendas agronômicas em termos de custo.

Na faixa trigueira russa, onde a renda média ficava em torno de doze xelins por acre e a colheita variava de quinze a vinte bushels, a renda entrava no custo de cada quarter em proporção muito menor, enquanto na Grã-Bretanha a soma de renda e impostos era estimada em quarenta xelins por acre de trigo, com trinta bushels de colheita, fazendo dez xelins de cada quarter seguir para o proprietário e o Estado antes que se medisse qualquer superioridade real do agricultor estrangeiro no trabalho agrícola de cada safra.

Mesmo reduzindo a renda britânica a trinta xelins por acre e tomando vinte e oito bushels como média, ainda restavam oito xelins e oito pence do preço de venda de cada quarter destinados ao senhorio e ao fisco, e daí vinha a conclusão de Kropotkin, segundo a qual a vantagem russa no dinheiro do mercado não provinha de maior fertilidade ou de menor trabalho humano, pois sua raiz estava na altura extraordinária das rendas fundiárias alcançadas entre 1860 e 1880, alimentadas pelos lucros obtidos com manufaturas vendidas fora do país.

A competição russa nascia, portanto, da falsa condição da vida rural britânica, e o problema aparecia como efeito de uma estrutura social que cobrava caro pelo acesso à terra, drenava renda antes que a produção fosse avaliada e deslocava para o agricultor a responsabilidade por uma desvantagem criada fora do campo, no arranjo entre propriedade, comércio externo, impostos e lucros industriais que haviam encarecido o solo cultivado além de qualquer medida agrícola razoável, apesar da capacidade técnica existente nas próprias ilhas e do saber acumulado no cultivo moderno disponível ali.

Vinte e cinco anos depois de haver escrito essa análise, Kropotkin reconhece que a crise provocada pelo trigo americano barato alcançara naquele tempo seu auge, e conserva o trecho anterior sem apagar a conclusão, embora registre que uma adaptação às novas condições deveria ter ocorrido durante o quarto de século seguinte por meio de cultura intensiva, melhor uso da terra, fruticultura, horticultura comercial, cultivo sob vidro, jardinagem francesa, criação de aves, transporte melhor, cooperação entre agricultores e desenvolvimento das pequenas propriedades, com energia suficiente para mudar a rotina rural nacional.

A tristeza do balanço britânico vinha do fato de que, mesmo contando esses avanços parciais, o movimento regressivo iniciado nos anos 1870 continuava, com antigas áreas de arado saindo de cultura sem aumento correspondente do gado, enquanto livros e artigos de revista reconheciam a necessidade de uma reforma profunda no caráter geral da agricultura britânica e admitiam, ao mesmo tempo, que apenas alguns passos haviam sido dados na direção correta, quase todos fracos demais para alterar o rumo do campo, abandonado à espera de providências externas e investimento técnico público.

A sociedade ampla permanecia indiferente às necessidades agrícolas da Grã-Bretanha, e essa indiferença pesava tanto quanto a concorrência externa, pois a queda do preço do trigo americano causara estragos também na agricultura de muitos países europeus, especialmente França e Bélgica, sem produzir ali a mesma paralisia duradoura, já que nesses dois países as adaptações necessárias para resistir ao choque haviam sido realizadas em extensão considerável e mudaram a fisionomia da produção rural, desde as aldeias até os circuitos de venda, em poucas décadas de reorganização consciente e persistente local.

Na Bélgica, onde se aboliram os direitos de importação sobre o trigo justamente quando a concorrência americana começava a pesar, entre 1870 e 1880, o impulso empurrou o agricultor para uso mais intensivo do solo, cooperação em várias direções, criação de gado, produtos de horta, adubos artificiais e confiança crescente na ajuda da ciência, quadro que Rowntree descreveu como passagem penosa no começo e logo convertida em reorganização prática das forças agrícolas disponíveis, sustentada por hábitos coletivos, associações locais persistentes, crédito rural e aprendizado técnico nas comunidades de cultivo belgas.

A França sentiu também a queda, pois o hectolitro de trigo, quase três bushels, vendido a dezoito xelins e dez pence entre 1871 e 1875, caiu para quinze xelins e cinco pence entre 1881 e 1885 e para doze xelins e seis pence em 1893, e a resposta veio pelo avanço das máquinas entre os camponeses, pelo uso maior de adubos químicos, pelo crescimento súbito dos sindicatos agrícolas desde 1884, pela cooperação e por uma organização de transporte adequada a frutas e flores em vagões refrigerados ou aquecidos, levando produtos frágeis a mercados distantes.

Ao lado dessas medidas, desenvolveram-se culturas industriais especiais, a jardinagem do sul da França e a horticultura comercial do norte, com tal extensão que Kropotkin considerou inevitável reconhecer na crise um efeito renovador sobre a agricultura francesa tomada em seu conjunto, pois a pressão externa, em vez de condenar o país à dependência passiva, estimulou técnicas novas, formas de associação e uso mais cuidadoso da terra por agricultores pequenos e médios, capazes de responder sem abandonar o solo nacional, nas feiras e nos mercados urbanos próximos do país inteiro.

O contraste reforça a acusação contra a Grã-Bretanha, porque a concorrência estrangeira não agia como destino absoluto sobre todos os países, e seus danos dependiam da capacidade social de reorganizar a produção, distribuir conhecimento, aliviar o peso da propriedade fundiária, melhorar transporte e apoiar o cultivador, condições que Bélgica e França haviam buscado de modo incompleto e real, enquanto a ordem britânica se mantinha presa a rendas altas, abandono rural e confiança excessiva no alimento comprado longe, como se o campo pudesse ser tratado como resto dispensável de governo.

Kropotkin se detém então na concorrência americana, remetendo aos estudos de Schaeffle, aos relatórios do Conselho de Agricultura dos Estados Unidos e às observações posteriores de Dodge para mostrar que a fertilidade natural do solo americano havia sido grosseiramente exagerada, pois as massas de trigo enviadas à Europa pelas fazendas do noroeste cresciam em terras cuja fertilidade natural muitas vezes ficava abaixo da média europeia sem adubo, e a fazenda de Casselton, em Dakota, com vinte bushels por acre, aparecia como exceção antes que regra geral da produção regular comum.

Nas principais regiões trigueiras do oeste americano, a média ficava entre onze e doze bushels por acre, e as colheitas de trinta a quarenta bushels pertenciam aos antigos Estados orientais, onde a terra havia sido feita pela mão humana, quadro semelhante ao da carne, porque Schaeffle já observara que a grande massa de gado registrada nos censos não era criada nas pradarias livres, e sim nos estábulos das fazendas, ao modo europeu, restando às pradarias apenas fração limitada do gado bovino, das ovelhas e dos porcos domésticos mantidos nas propriedades.

Se a fertilidade natural não explicava o resultado, restavam causas sociais, com terra barata e produção bem organizada nos Estados do oeste, e avanço rápido da alta cultura intensiva nos Estados orientais, pois nas vastas pradarias onde um acre podia ser comprado por oito a quarenta xelins, e onde blocos de cem a cento e cinquenta milhas quadradas eram entregues ao trigo, aplicava-se método especial, próprio de terras abundantes, máquinas poderosas, cavalos mobilizados por estação e trabalho reunido apenas no momento da colheita anual, por poucos meses sucessivos de campanha.

No outono, grandes grupos de cavalos eram trazidos para lavrar e semear com arados e semeadoras formidáveis, depois enviados de volta às pastagens de montanha, enquanto os homens eram dispensados e um ou poucos trabalhadores passavam o inverno na propriedade, até que, na primavera, agentes percorressem hospedarias por centenas de milhas, recrutando operários e andarilhos fornecidos em abundância pela Europa, para formar batalhões de colheita acampados nos trigais durante as semanas decisivas, sob disciplina temporária e pagamento ajustado à pressa da safra, antes do retorno à dispersão anual dos trabalhadores.

A colheita era então cortada, debulhada, joeirada, ensacada por máquinas inventadas para essa escala e remetida ao elevador mais próximo ou diretamente aos navios destinados à Europa, e o resultado impressionava porque trezentos dias de trabalho de um homem podiam produzir de duzentos a trezentos quarters de trigo, enquanto, somado o trabalho posterior, calculava-se que trezentos homens em um único dia entregavam em Chicago a farinha necessária à alimentação anual de duzentas e cinquenta pessoas, número que parecia milagroso quando se esquecia a terra quase gratuita em planície distante.

Esse método era adequado às condições especiais do Far West e serviu para aumentar rapidamente o abastecimento de trigo quando territórios enormes foram abertos à empresa, embora não pudesse durar indefinidamente, pois o solo logo se esgotava, a produção caía e a cultura intensiva acabava necessária, como ocorreu em Iowa em 1878, quando a antiga região trigueira de grandes fazendas perdeu quase toda a safra esperada, ficou com oito a dez bushels de trigo ruim por acre e precisou dividir fazendas gigantescas em propriedades menores, capazes de cuidado mais contínuo.

Depois de uma crise breve e severa, os agricultores de Iowa adotaram cultura mais intensiva, aproximaram-se do nível francês, passaram a obter média de dezesseis bushels e meio por acre em mais de dois milhões de acres e competiram com as fazendas gigantes do oeste por meio de adubo e métodos melhores, caso que confirmava a tese sustentada por Schaeffle, Semler, Oetken e outros autores, segundo a qual a força da concorrência americana residia menos nas fazendas imensas do que em inúmeras pequenas e médias propriedades, apoiadas por organização comercial superior.

A viagem de Kropotkin pelas pradarias de Manitoba em 1897 e por Ohio em 1901 confirmou esse juízo, pois os quinze a vinte milhões de bushels exportados anualmente por Manitoba vinham quase todos de fazendas de cento e sessenta a trezentos e vinte acres, onde a lavoura era feita de modo comum, as ceifadeiras e atadeiras eram compradas em associação por grupos de quatro agricultores, a debulhadora era alugada por um ou dois dias e o trigo seguia ao elevador nos próprios cavalos do produtor, mostrando que a propriedade média, mesmo em concorrência dura, vencera a velha fazenda gigantesca.

A Europa, observa Kropotkin, mal percebia o que Estados Unidos e Canadá faziam em benefício da agricultura, porque em cada Estado americano e em cada região canadense distinta existia uma fazenda experimental encarregada de realizar, sob condições científicas, o trabalho preliminar que o agricultor europeu precisava executar quase sozinho, desde ensaios de novas variedades de trigo, aveia, cevada, forragem e frutas até provas em pequena escala seguidas por aplicações maiores, nas quais o risco da tentativa individual era substituído por investigação comum, documentada e repetida diante de muitos produtores reunidos em torno dos mesmos problemas.

Os resultados dessas pesquisas não ficavam guardados para quem os procurasse por iniciativa própria, pois eram levados ao conhecimento do agricultor por todos os meios possíveis, com boletins das estações distribuídos em centenas de milhares de exemplares, visitas organizadas para que milhares de produtores examinassem as fazendas a cada ano e especialistas apresentando diretamente, no campo, o que fora obtido com novas plantas ou novos métodos de tratamento do solo, das sementes e das culturas, sempre ligados a problemas práticos da colheita, da alimentação animal e da venda local próxima.

A correspondência com os agricultores alcançava escala imensa, e a fazenda experimental de Ottawa enviava anualmente cem mil cartas e pacotes, além de fornecer gratuitamente, sem cobrança postal, cinco libras de semente de qualquer variedade de cereal, quantidade suficiente para que o cultivador obtivesse no ano seguinte a semente necessária a vários acres, recurso simples que transformava a descoberta científica em matéria concreta de plantio, multiplicada pela prática cotidiana dos próprios lavradores, sem exigir capital elevado nem dependência pessoal de negociantes de sementes comerciais distantes e pouco confiáveis no interior.

Em cada pequena localidade remota, reuniões de agricultores punham essa circulação de conhecimento em movimento oral, com conferencistas enviados pelas fazendas experimentais ou por sociedades agrícolas locais para discutir de maneira informal os resultados dos ensaios do ano anterior e as descobertas relativas a cada ramo da lavoura, da horticultura, da criação de gado, da produção leiteira e da cooperação agrícola, fazendo do saber técnico uma conversa pública e recorrente, em vez de privilégio distante de gabinete, livro caro ou escola inacessível para quem vivia do campo e dependia da próxima estação.

Essa rede de fazendas, boletins, sementes, visitas e reuniões revela a força real da concorrência americana, porque o produtor não aparecia isolado diante de um solo generoso, e sim cercado por instituições que reduziam o erro, encurtavam a aprendizagem, distribuíam variedades testadas e davam prestígio social ao aperfeiçoamento agrícola, enquanto a Europa deixava o camponês resolver sozinho problemas que pertenciam ao conjunto da sociedade e depois atribuía seus limites pessoais a defeitos da terra ou do caráter rural, num julgamento cômodo para proprietários, governos e intermediários urbanos interessados em sua fraqueza.

O ponto decisivo, para Kropotkin, está nessa passagem do experimento privado para o experimento socializado, pois o agricultor que antes gastaria anos selecionando uma variedade, corrigindo uma doença ou entendendo um tratamento podia receber em poucas páginas e em poucas sementes o resultado de milhares de observações, e a produtividade americana surgia como produto de comunicação organizada, disciplina prática e ajuda contínua, muito antes de depender de qualquer privilégio natural da pradaria ou de alguma superioridade misteriosa do agricultor estrangeiro em relação ao europeu comum abandonado à própria sorte rural.

A agricultura americana oferecia, segundo Kropotkin, um espetáculo imponente, não nos campos de trigo do Far West, que logo pertenceriam ao passado, e sim no desenvolvimento de uma agricultura racional e das forças que a promoviam, pois a descrição de uma feira estadual em pequena cidade de Iowa, com setenta mil agricultores acampados em tendas junto de suas famílias durante uma semana inteira, estudando, aprendendo, comprando, vendendo e gozando a vida, mostrava uma festa nacional construída em torno do respeito pelo trabalho rural e pela inteligência aplicada ao solo cultivado.

Essa imagem importa porque transforma a agricultura em fato público de primeira ordem, longe da visão que reduz o lavrador a figura atrasada ou dependente de proteção, e os relatórios das estações experimentais, distribuídos por todo o país, eram lidos e discutidos em incontáveis reuniões de agricultores, enquanto as atas e boletins das sociedades agrícolas, populares antes que aristocráticas, davam continuidade a uma conversa técnica permanente, alimentada por experiências, concursos, estatísticas e observações vindas de muitas regiões diferentes, com linguagem voltada ao uso imediato nas propriedades familiares comuns da região.

Ao lado dessas instituições, grandes empreendimentos de irrigação demonstravam que o cultivo era tratado como força viva, capaz de mobilizar conhecimento, obras materiais e ação coletiva, e Kropotkin conclui que a agricultura americana já não precisava temer as fazendas gigantes nem clamar como criança por proteção, porque sua vitalidade residia no prestígio concedido ao agricultor, no contato contínuo entre ciência e prática, na capacidade de difundir resultados e no hábito de organizar problemas do campo em escala social, antes que se convertessem em ruína privada e abandono da terra cultivada.

Essa forma de apoio mudava o sentido da competição, pois a vantagem dos Estados Unidos não vinha apenas de máquinas e terras extensas, e sim de uma cultura pública que aproximava escola, fazenda experimental, associação, feira, estrada, irrigação e mercado, fazendo a profissão agrícola subir de nível perante a própria população, com famílias inteiras participando dos encontros, jovens vendo o campo como atividade inteligente e produtores pequenos recebendo instrumentos para melhorar sem se submeter a um grande proprietário, a um intermediário dominante ou a um técnico inacessível de fora da região.

Kropotkin via aí uma lição direta para a Europa, onde a terra muitas vezes era tratada como resíduo administrado por senhorios e especialistas distantes, enquanto nos Estados Unidos e no Canadá o agricultor recebia boletins, sementes, correspondência, visitas, conferências e oportunidades de comparação pública, de modo que a inovação circulava de fazenda em fazenda por canais regulares, e a inteligência coletiva do campo se tornava parte da vida nacional, sem esperar salvação por tarifas ou lamentos contra concorrentes externos, nem por decretos tardios vindos da capital distante e indiferente ao cultivo.

O respeito social pela agricultura, reforçado por festas, estações, sociedades e publicações, aparece então como força produtiva concreta, porque dá ao cultivador confiança para experimentar, facilita a adoção de métodos novos, cria vocabulário comum entre especialistas e trabalhadores e impede que cada fracasso seja vivido como desastre solitário, fazendo da vida rural um ambiente de aprendizagem e cooperação, capaz de responder às crises com mudança prática em vez de resignação diante dos preços mundiais e da autoridade dos compradores sobre a colheita vendida no mercado de cada ano agrícola completo.

A agricultura intensiva e a jardinagem já eram, naquele momento, marcas do tratamento do solo na América tanto quanto na Bélgica, e Kropotkin recorda que, ainda em 1880, nove Estados, entre eles Geórgia, Virgínia e as duas Carolinas, compravam milhões de libras em adubos artificiais, enquanto o uso desse recurso se espalhava para o oeste e Iowa, antigo território de fazendas gigantes, adotava gramíneas semeadas recomendadas por institutos agrícolas e jornais locais, com prêmios concedidos às maiores colheitas em áreas pequenas e bem tratadas por métodos novos de cultivo cuidadoso.

Nos concursos agrícolas de Iowa, centenas de agricultores competiam para demonstrar produtividade intensiva, e os dez primeiros prêmios foram entregues a produtores que, em três acres cada um, haviam colhido de duzentos e sessenta e dois a trezentos e quarenta e seis bushels de milho indiano, ou de oitenta e sete a cento e quinze bushels por acre, enquanto em Minnesota já se premiavam colheitas de batatas de trezentos a mil cento e vinte bushels por acre, muito acima da média britânica de seis toneladas por acre em produção comum.

A horticultura comercial expandia-se também em ritmo enorme, e as hortas da Flórida apresentavam colheitas de quatrocentos e quarenta e cinco a seiscentos bushels de cebolas por acre, quatrocentos de tomates e setecentos de batatas-doces, ao passo que as fazendas voltadas ao envio por trem e vapor cobriam centenas de milhares de acres, e os pomares dos arredores de Norfolk, na Virgínia, eram descritos por um horticultor francês de Troyes como modelos de cultura, elogio forte vindo de região célebre por seus próprios jardins e seus maraîchers experientes.

Enquanto Londres continuava a pagar quase o ano todo dois pence por uma alface, muitas vezes importada de Paris, Chicago e Boston mantinham estabelecimentos únicos no mundo, nos quais alfaces cresciam em imensas estufas com auxílio de luz elétrica, e Kropotkin faz questão de lembrar que a descoberta do crescimento acelerado por eletricidade vinha da Europa, ligada a Siemens, embora coubesse à Universidade Cornell demonstrar por uma série de experiências que a luz elétrica ajudava admiravelmente o desenvolvimento das partes verdes da planta, abrindo outro campo de cultivo protegido para verduras.

A conclusão fecha o argumento do capítulo, pois a América, que antes liderara a agricultura extensiva levada à perfeição, passava também a liderar a agricultura intensiva e forçada, não por milagre de solo, clima ou tamanho de propriedade, e sim por adaptabilidade, por capacidade de abandonar métodos esgotados, adotar outros, organizar pesquisa, distribuir conhecimento e premiar resultados concretos, sem transformar uma forma de produção em dogma intocável quando as condições mudavam ao redor dela e exigiam outra técnica de trabalho agrícola coletivo e preciso no campo moderno produtivo organizado localmente.

Nessa adaptabilidade estava a verdadeira força da concorrência americana, e a lição para Kropotkin não era copiar a fazenda gigantesca nem venerar a mecanização isolada, pois a potência vinha do conjunto formado por pequenas e médias propriedades, máquinas compartilhadas, estações experimentais, reuniões, feiras, irrigação, sementes distribuídas, horticultura intensiva, estufas, eletricidade e uma cultura social que tratava a agricultura como inteligência aplicada, capaz de se renovar antes que a crise destruísse de vez o cultivador e sua comunidade local de produção rural organizada em torno da terra cultivada em comum durável.

Notas ao Capítulo III

As notas do Capítulo III reforçam, antes de tudo, a base numérica da crítica de Kropotkin à negligência agrícola britânica, pois a área considerada cultivável da Grã-Bretanha diminuíra entre 1890 e 1911, a superfície dedicada ao trigo caíra em relação ao meio do século anterior, grandes extensões haviam sido retiradas do arado e a própria importação de feno, carne, trigo, farinha, arroz e alimentos para animais mostrava que a dependência externa não era simples efeito de falta de solo, e sim resultado de uma organização rural que deixava terra, trabalho e alimento em uso inferior ao possível.

Algumas notas tornam esse argumento ainda mais concreto ao comparar gado, pastos, cereais e áreas cultivadas, mostrando que milhões de acres poderiam sustentar alimento animal ou cereal se fossem tratados por métodos já existentes, enquanto a população agrícola inglesa e galesa encolhia de modo acentuado ao longo da segunda metade do século XIX, com exemplos pessoais de fazendas grandes mantidas por pouquíssimos trabalhadores e de regiões em que o problema da mão de obra mínima fora resolvido pelo expediente pobre de não cultivar parte considerável da terra disponível ao redor das aldeias.

As referências sobre França e Bélgica servem para contrastar esse abandono, pois reúnem estatísticas de trigo, prados, hortas, criações, produção animal, exportações e pequenas culturas, além de obras como as de Rowntree, Rider Haggard, Fream, Lavergne, Lecouteux, Risler, Grandeau e outros autores usados por Kropotkin para sustentar que a agricultura continental respondia à pressão externa por meio de maior intensidade, associação, adubação, transporte especializado e uso mais fino do solo, enquanto a comparação britânica tendia a esconder renda, impostos e importações de alimento para o gado em suas contas nacionais.

As notas dedicadas à cultura intensiva também completam a discussão técnica, ao registrar experiências com termossifões em Worthing, cálculos alemães sobre aquecimento de solo, tentativas de enriquecer terras por micróbios benéficos, manuais franceses e belgas de horticultura comercial, obras inglesas sobre jardinagem francesa e dados sobre a produtividade de pastagens, trevos, nabos, azevém, beterrabas e milho para silagem, compondo uma imagem de agricultura na qual clima, fertilidade e estação podiam ser modificados por conhecimento acumulado, equipamento simples e trabalho organizado em comum durante a estação decisiva de cada cultivo principal.

Outra linha de notas denuncia os custos sociais da fraude, porque laboratórios públicos na França e na Bélgica encontravam adubos com apenas uma fração dos elementos nutritivos prometidos, produtos inúteis ou prejudiciais vendidos por casas respeitáveis e sementes misturadas com ervas nocivas, areia colorida ou plantas venenosas, prova de que o agricultor precisava de defesa coletiva, análise gratuita e ciência pública tanto quanto de instrução técnica, já que a compra isolada de insumos falsificados podia destruir uma safra inteira, empurrar a família para dívida e fortalecer o credor local da aldeia.

Por fim, as notas sobre preços, Rússia e América sustentam a tese de que a concorrência estrangeira não derivava de solo milagroso, pois os cálculos de produção do trigo, a renda da terra britânica, o uso antigo de guano nos Estados Unidos, os relatórios de Dodge, as observações de Schaeffle, a distribuição canadense de sementes e as fazendas experimentais indicavam causas sociais bem definidas, entre elas terra acessível, apoio científico, associações, transporte e difusão ativa do conhecimento entre agricultores, preparando a passagem para o Capítulo IV sobre possibilidades agrícolas concretas.

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