Campos, Fábricas e Oficinas: Capítulo VI - Pequenas Indústrias e Aldeias Industriais
Kropotkin abre o capítulo VI lembrando que agricultura e indústria nem sempre viveram separadas como pareciam viver em seu tempo, pois houve uma época ainda próxima em que aldeias reuniam cultivo, oficina, ferramentas, ofícios domésticos e produção para uso comum, enquanto muitos artesãos das cidades conservavam contato direto com a terra, e inúmeras vilas funcionavam como núcleos produtivos mistos, onde o trabalho rural, a habilidade manual, a necessidade local, a troca de serviços, o aprendizado familiar e a reparação dos instrumentos se reforçavam diariamente em vez de se excluírem mutuamente.
A cidade medieval podia ser o berço de indústrias próximas da arte e voltadas aos grupos ricos, mas a produção rural sustentava as necessidades de milhões de pessoas, como ainda acontecia em larga medida na Rússia, na Alemanha e na França, e esse fato permite ao autor recusar a imagem de uma civilização que teria nascido pronta sob o grande estabelecimento fabril, pois durante séculos a oficina pequena, a família trabalhadora, o campo, o mercado local, a feira regional e a habilidade transmitida por gerações formaram uma combinação resistente e fértil.
A ruptura veio com os motores hidráulicos, o vapor e o desenvolvimento das máquinas, que romperam a ligação antiga entre lavoura e oficina, concentrando estabelecimentos perto do combustível, das matérias-primas e dos pontos de venda, enquanto novas cidades cresciam depressa e os campos perdiam gente, de modo que milhões de trabalhadores, afastados da terra por violência social, buscaram salário urbano e acabaram esquecendo os vínculos concretos que antes ligavam casa, solo, ferramenta, sustento, vizinhança, calendário agrícola, conhecimento manual, cuidado animal, clima, ritmo das colheitas, festas locais e descanso comunitário partilhado.
Fascinada pelos prodígios do sistema fabril, a opinião dominante passou a desprezar as vantagens da forma anterior, na qual o cultivador também conhecia um ofício e o artesão ainda mantinha relação com a terra, condenando à extinção ramos inteiros de trabalho que floresciam em aldeias e bairros, como se tudo que escapasse ao grande estabelecimento mecanizado pertencesse ao atraso, apesar de essas formas menores conservarem saber técnico, flexibilidade, autonomia parcial, memória de processos, aprendizagem rápida, resistência comunitária, iniciativa doméstica, reparos próprios, decisões rápidas e capacidade de adaptar-se às necessidades locais.
Kropotkin reconhece que a nova organização aumentou muito a potência produtiva humana, ainda que seus resultados sociais tenham sido terríveis para milhões de pessoas lançadas na miséria urbana e obrigadas a viver de ocupações precárias, e por isso a mudança nas relações entre trabalho e capital precisaria vir acompanhada de uma remodelação industrial profunda, capaz de obrigar as nações fabris a retornar à agricultura, combinar campo e oficina, reorganizar a moradia popular, reduzir a dependência das grandes cidades, recuperar vínculos territoriais duradouros e enfrentar essa tarefa comum sem demora histórica.
Para examinar se tal combinação era possível e desejável, o autor propõe estudar as indústrias rurais, domésticas e pequenas por dentro de sua própria vida, observando lutas, derrotas, adaptações e êxitos, em lugar de julgá-las apenas por teorias que as tratavam como relíquias destinadas ao desaparecimento, pois só essa investigação concreta poderia revelar se havia, no presente industrial, elementos reais para uma reorganização capaz de aproximar novamente produção, território, técnica, comunidade, ensino prático, liberdade de trabalho, dignidade material, cooperação local, segurança cotidiana, futuro comum, vida plena compartilhada e ofício livre.
Kropotkin passa então a mostrar que as pequenas indústrias formam um mundo muito mais variado do que supõem aqueles que as observam de longe, pois a primeira grande divisão separa os ofícios exercidos nas aldeias em ligação direta com a agricultura daqueles que se desenvolvem em cidades ou vilas sem vínculo vivo com a terra, onde os trabalhadores dependem apenas do ganho industrial e perdem a proteção relativa dada por um pomar, uma horta, uma vaca, um cavalo, um direito de pastagem, reservas domésticas ou um pequeno campo cultivado pela família.
Na Rússia, na França, na Alemanha, na Áustria e em muitos outros lugares, milhões de trabalhadores pertenciam ao primeiro grupo, ocupando ou possuindo pedaços de terra, cuidando de vacas, cavalos, hortas, pomares e campos, enquanto tratavam o ofício manual como ocupação complementar, especialmente nas regiões de inverno longo, quando a lavoura descansava durante meses e a casa rural podia transformar tempo parado em objetos úteis, reparos, utensílios, peças de madeira, artigos de metal, panos, brinquedos, pequenas ferramentas, artigos simples de uso cotidiano, artigos de feira ou produtos de venda regional.
A Inglaterra aparecia a Kropotkin como extremo oposto, pois poucas pequenas indústrias haviam sobrevivido ali ligadas ao cultivo, enquanto centenas de ofícios modestos se comprimiam nos subúrbios e bairros pobres das grandes cidades, com Sheffield, Birmingham e outros centros sustentando grande parte da população por uma multiplicidade de tarefas miúdas, muitas vezes afastadas da terra, da horta e do campo comum, embora continuassem a revelar uma capacidade técnica que o grande estabelecimento fabril jamais absorvera por completo nem conseguira eliminar das práticas populares, dos quintais, das cozinhas e das oficinas escondidas.
Entre esses polos existia uma massa de formas intermediárias, com grandes aldeias e pequenas cidades povoadas por trabalhadores que exerciam ofícios variados e ainda conservavam algum jardim, pomar, campo ou direito de pastagem, enquanto outros viviam apenas do salário industrial, e essa gradação impedia qualquer classificação rígida, porque a realidade misturava graus de autonomia, dependência, vínculo rural, trabalho familiar e subordinação comercial, criando uma zona móvel entre a oficina camponesa, o bairro artesanal, o emprego urbano precário, a encomenda sazonal, o serviço auxiliar, a banca familiar e a pequena produção semi-independente.
A venda dos produtos também apresentava dois caminhos principais, já que alguns trabalhadores entregavam diretamente suas mercadorias ao atacadista, como marceneiros, tecelões de panos e fabricantes de brinquedos, enquanto outros trabalhavam para um mestre que vendia a produção ou servia de intermediário para uma empresa maior, e nesse segundo caminho aparecia o sistema de exploração por encomenda, que prendia alfaiates, mulheres que costuravam partes de calçados, bordadeiras e várias categorias domésticas a uma cadeia de ordens, descontos, prazos, inspeções, rejeições, espera, dependência, cansaço, pressa, medo, silêncio, dívida e pagamentos estreitos.
Do ponto de vista técnico, a variedade continuava ampla, pois havia ofícios inteiramente domésticos executados com a família, pequenas oficinas junto à casa do mestre, oficinas separadas com força motriz alugada, grupos que mantinham ou alugavam juntos um espaço de trabalho, grandes salas de roupas prontas em que mulheres pagavam pelo uso de máquina e gás, e pequenas oficinas com três a dez assalariados, formando uma sequência complexa que ia da casa produtiva à pequena fábrica sem perder contato com o universo dos ofícios menores, seus arranjos locais e suas dependências comerciais.
No ramo têxtil, Kropotkin mostra uma organização ainda mais complexa, pois a tecelagem podia ser feita pela família, por um mestre que empregava apenas um rapaz ou por vários tecelões reunidos em torno de poucos teares, enquanto o fio vinha de um grande contratante, o desenho era indicado por outro agente e um trabalhador habilidoso preparava o tear para padrões por vezes difíceis, recebendo depois por peça segundo uma escala de salários tão minuciosa que revelava o poder do comércio sobre cada gesto produtivo, cada cor escolhida e cada hora de atenção.
Essa forma permanecia viva sobretudo nas lãs e sedas, convivendo com grandes fábricas que empregavam dezenas, centenas ou milhares de pessoas diante de máquinas pertencentes aos patrões, e a coexistência das duas formas impedia a conclusão simples de que a grande fábrica havia vencido em todos os lugares, pois a mesma indústria podia manter oficinas domésticas, pequenos mestres, força motriz alugada, produção familiar e estabelecimentos de grande porte numa mesma região, ligados por encomendas, padrões, prazos, preços decididos de fora, alterações repentinas do gosto, relações locais persistentes e hábitos antigos.
Kropotkin insiste que as pequenas indústrias constituem um mundo inteiro, de ofícios, vínculos rurais, dependências comerciais, invenções locais e arranjos técnicos, mundo que continuava a existir mesmo nos países mais industrializados ao lado das grandes fábricas, e por isso seria enganoso julgá-lo por uma única imagem, já que nele cabiam miséria extrema, relativa independência, habilidade elevada, exploração brutal, resistência familiar, associação, crédito comum, adaptação mecânica, orgulho profissional, saber de oficina, redes de vizinhança, memória técnica, disciplina própria e formas de trabalho impossíveis de reduzir ao esquema único do assalariado fabril.
O autor reconhece a precariedade de muitos desses ofícios, sobretudo nos ramos afastados da agricultura, onde o ganho era baixo, a ocupação incerta, a jornada ultrapassava em duas, três ou quatro horas a das fábricas melhor organizadas, e certas estações impunham dias quase inacreditáveis, mas ele recusa transformar essa miséria em regra universal, porque a diversidade concreta das pequenas indústrias incluía casos em que a vida material e moral dos trabalhadores era superior à de milhões de operários presos ao grande estabelecimento e submetidos a crises igualmente cruéis e súbitas.
O exemplo dos relojoeiros suíços aparece como contraste decisivo, pois quem conhecesse sua vida familiar perceberia condições muito melhores, inclusive durante a crise de 1876 a 1880, do que aquelas enfrentadas pelos trabalhadores de algodão ou lã quando as fábricas paravam, e os próprios relojoeiros sabiam disso, valorizando a autonomia relativa da casa-oficina, o vínculo com a família, a possibilidade de reorganizar tarefas, o uso do tempo doméstico, a continuidade do aprendizado, a cooperação entre vizinhos e a dignidade de um ofício que não dependia apenas do relógio da fábrica.
A cada crise, diz Kropotkin, surgiam escritores prontos a anunciar o desaparecimento desses ofícios, como ocorreu entre os relojoeiros suíços em 1877 e na seda de Lyon em 1882, mas as previsões sombrias falhavam repetidamente, pois a pequena indústria não desaparecia por inteiro, certas partes sobreviviam em trabalhos de alta qualidade, novos ramos ligados aos antigos nasciam, e alguns ofícios assumiam formas renovadas ao usar motor mecânico, mostrando uma vitalidade que não permitia tratá-los como restos mortos de outro tempo nem como simples atraso histórico condenado à extinção próxima inevitável.
Nos ramos de panos, justamente onde o trabalho de mulheres e crianças parecia dar maior vantagem ao sistema fabril, Kropotkin encontra o tear manual ainda disputando espaço com o tear movido por força mecânica, e essa permanência altera o modo de ler a época, pois a fábrica podia dominar certas fases, concentrar capital, impor ritmos e reunir máquinas numerosas, enquanto a casa, a pequena oficina e o mestre local conservavam encomendas, gestos especializados, clientelas conhecidas, ajustes rápidos, relações de bairro e uma elasticidade que a grande instalação perdia quando ficava presa aos seus próprios custos.
A passagem dos pequenos ofícios para a grande indústria avançava com lentidão capaz de surpreender até os defensores mais convictos da concentração, e em certos momentos aparecia um movimento inverso, temporário e limitado, no qual o trabalho doméstico recuperava terreno porque se adaptava a encomendas irregulares, séries menores, mudanças de gosto, capital escasso, riscos de crise e períodos em que manter máquinas caras paradas custava menos ao patrão do que acionar todo o estabelecimento para uma produção incerta, sujeita a perdas rápidas e a mercados caprichosos, controlados por intermediários cautelosos e compradores instáveis.
A lembrança de Verviers dá corpo concreto a essa análise, pois o autor recorda enormes fábricas de lã silenciosas, alinhadas nas ruas como casernas com centenas de janelas, enquanto máquinas caras enferrujavam e os panos continuavam a sair dos teares instalados nas casas dos próprios trabalhadores, por encomenda dos donos daqueles prédios fabris, situação que parecia paradoxal apenas para quem imaginava a história industrial como uma marcha reta da oficina para a máquina centralizada, sem recuos, pausas, desvios e acomodações impostas pela instabilidade do comércio e pela oscilação diária das encomendas.
Kropotkin explica que esse caso tinha caráter passageiro, ligado ao curso irregular dos negócios e às perdas pesadas sofridas pelos proprietários quando seus moinhos deixavam de funcionar durante parte do ano, e o episódio revelava obstáculos reais à absorção completa dos pequenos ofícios, porque cada máquina fixa exigia continuidade, cada prédio grande cobrava despesas mesmo em repouso, cada estoque dependia de compradores distantes e cada crise empurrava o empresário para formas flexíveis de contratação que sobreviviam fora da imagem triunfal da fábrica sempre cheia, mesmo sem derrubar a força geral do sistema fabril.
A seda oferece outro sinal dessa vitalidade dispersa, pois o ramo continuava a espalhar-se pela Europa em forma rural, com famílias, aldeias e pequenas oficinas recebendo partes da produção, enquanto centenas de novos ofícios surgiam ano após ano e, quando faltava gente disposta a praticá-los nos vilarejos, buscavam abrigo nos subúrbios das grandes cidades, onde a investigação sobre o sistema de suor havia mostrado uma população de trabalhadores invisíveis, dependentes de encomendas miúdas, jornadas extensas, intermediários severos e habilidades que a contabilidade das grandes fábricas raramente registrava, além de preços apertados.
O autor reconhece que a grande fábrica possui vantagens evidentes, especialmente na poupança de esforço, na compra barata de matéria-prima e na facilidade de venda, e por isso a persistência dos pequenos ofícios precisa ser explicada por causas que escapam à simples conta em xelins e pence, causas ligadas à família, ao saber manual, ao risco dividido, à proximidade do freguês, à adaptação imediata, ao uso parcial de motores, à permanência de hábitos locais, à reputação do mestre, ao pedido sob medida e à capacidade de recomeçar em torno de necessidades novas.
Ao passar para o Reino Unido, Kropotkin começa por uma advertência metodológica, pois o país que servia de modelo ao industrialismo europeu carecia dos censos periódicos existentes na França e na Alemanha, capazes de contar fábricas, oficinas, trabalhadores, contramestres e empregados em um mesmo dia, e essa lacuna havia permitido que muitos autores falassem da concentração industrial e do desaparecimento inevitável dos pequenos ofícios a partir de impressões pessoais, visitas parciais, exemplos famosos e ramos muito visíveis, sem uma base numérica ampla que medisse a variedade real dos estabelecimentos britânicos.
A mudança veio com a inspeção fabril ligada à lei de 1895 e com os relatórios publicados a partir de 1900, nos quais os inspetores reuniram informações suficientes para formar uma ideia geral da distribuição dos trabalhadores por tamanhos de estabelecimento, ainda incompleta em vários pontos, e decisiva para corrigir a imagem simplificada de uma Inglaterra composta somente por enormes fábricas, máquinas centrais e multidões assalariadas, já que os próprios registros oficiais revelavam uma paisagem produtiva muito espalhada, cheia de oficinas pequenas, casas de trabalho e unidades com poucos operários.
A tabela de 1897, tomada por Kropotkin como ponto de partida, registra 10.883 fábricas de panos com 1.051.564 operários e média de noventa e sete pessoas por estabelecimento, 79.059 fábricas fora dos panos com 2.755.460 operários e média de trinta e cinco, além de 88.814 oficinas diversas com 676.776 pessoas e média de oito, compondo um total de 178.756 estabelecimentos industriais, 4.483.800 trabalhadores e uma média geral de apenas vinte e cinco pessoas por local de produção registrada oficialmente.
A definição usada pelos inspetores ajuda a compreender o alcance desses números, porque oficina era todo estabelecimento industrial sem força motriz mecânica, enquanto fábrica era todo estabelecimento servido por vapor, gás, água ou eletricidade, distinção voltada ao tipo de energia disponível e também reveladora de quantas unidades produtivas continuavam funcionando em escala reduzida, com poucos braços, ferramentas simples, divisão limitada das tarefas, vínculos familiares ou locais, capacidade de adaptação e uma presença muito maior do que a teoria da grande concentração costumava admitir em ruas, fundos de quintal e cômodos domésticos.
Mesmo esse quadro ficava incompleto, pois as oficinas registradas incluíam sobretudo aquelas em que trabalhavam mulheres e crianças, além das padarias, enquanto muitas outras permaneciam fora da inspeção, e Kropotkin tenta aproximar o número real comparando proporções de homens e mulheres nas fábricas, partindo de 356.098 mulheres e meninas e 320.678 homens e meninos nas oficinas anotadas, para estimar algo como 820.000 trabalhadores masculinos, 1.176.000 pessoas de ambos os sexos e 147.000 oficinas em escala provável no país inteiro, com margem prudente de erro.
Desse cálculo nasce a conclusão forte do trecho, pois quase um quarto dos trabalhadores industriais britânicos estaria ocupado em oficinas com menos de oito a dez pessoas por estabelecimento, dentro de um total aproximado de 4.983.000 pessoas empregadas na indústria fora das minas, e essa proporção torna impossível ler a Inglaterra apenas pelo brilho das grandes usinas, pois ao lado delas persistia uma multidão de locais menores, capazes de sustentar famílias, absorver encomendas, conservar ofícios, adaptar-se a mercados variáveis e renovar a vida produtiva em escala próxima e persistente.
Depois de estimar a força das oficinas, Kropotkin chama atenção para a composição humana do trabalho registrado, pois, entre as quatro milhões e quatrocentas e oitenta e três mil e oitocentas pessoas listadas pelos inspetores, quase sessenta mil eram crianças que trabalhavam apenas meio turno, quatrocentas e uma mil eram meninas com menos de dezoito anos, quatrocentos e sessenta e três mil eram rapazes de treze a dezoito anos submetidos a jornadas completas, e um milhão e setenta e sete mil cento e quinze eram mulheres adultas classificadas separadamente nos relatórios oficiais.
Essa divisão muda o peso aparente da potência industrial britânica, pois um quinto de todos os trabalhadores inscritos era formado por meninas e rapazes, mais de dois quintos reuniam mulheres ou crianças, e toda a produção industrial do Reino Unido, com suas exportações enormes e sua fama mundial, dava ocupação a menos de três milhões de homens adultos, precisamente dois milhões novecentos e oitenta e três mil em uma população de quarenta e dois milhões, aos quais Kropotkin acrescenta novecentos e setenta e dois mil e duzentos mineiros empregados fora desse quadro.
No ramo dos panos, que fornecia quase metade das exportações inglesas, o contraste ficava ainda mais claro, porque havia menos de trezentos mil homens adultos empregados, enquanto o restante do trabalho recaía sobre crianças, rapazes, meninas e mulheres, fato que reduz o mito de uma virilidade fabril autossuficiente e expõe a dependência cotidiana de braços juvenis e femininos, empregados em tarefas de preparação, fiação, acabamento, transporte interno, vigilância de máquinas e operações repetidas que sustentavam o prestígio dos grandes centros de produção diante do mundo e dos compradores estrangeiros de longo alcance.
Outro dado impressiona o autor: as um milhão e cinquenta e uma mil quinhentas e sessenta e quatro pessoas que trabalhavam em panos em 1897 estavam distribuídas por dez mil oitocentas e oitenta e três fábricas, o que produzia a média de noventa e três pessoas por unidade, apesar de a concentração ter avançado justamente nesse ramo e de nele existirem fábricas com cinco ou seis mil pessoas, sinal de que muitas unidades pequenas continuavam misturadas às grandes dentro da mesma atividade, da mesma região e do mesmo circuito comercial.
Kropotkin reconhece que a contagem dos inspetores separava cada ramo de uma empresa como estabelecimento próprio, de modo que fiação, tecelagem e acabamento podiam aparecer como três fábricas, e considera essa separação útil para medir a concentração real de cada fase produtiva, pois em Manchester e em outros centros do algodão era comum que cada etapa pertencesse a donos diferentes, enviando materiais de uma casa a outra, enquanto as empresas que reuniam toda a sequência sob uma direção única eram exceções dentro do ramo e dependiam de capital incomum e administração estável.
A conclusão ganha força quando ele passa aos ramos fora dos panos e às oficinas, pois duas milhões setecentas e cinquenta e cinco mil quatrocentas e sessenta pessoas estavam espalhadas por setenta e nove mil e cinquenta e nove fábricas, média de trinta e cinco por local, enquanto seiscentas e setenta e seis mil setecentas e setenta e seis pessoas ocupavam oitenta e oito mil oitocentas e quatorze oficinas sem força motriz, média de oito por oficina, números que derrubavam a lenda da absorção geral pelos grandes estabelecimentos industriais britânicos.
Kropotkin prossegue observando que, se o Reino Unido possuísse listas completas de todas as fábricas com o número de pessoas empregadas em cada uma, como ocorria nos levantamentos franceses e alemães, seria fácil contar com precisão os estabelecimentos acima de mil, quinhentas, cem ou cinquenta pessoas, e esse tipo de tabela existia apenas para a mineração, deixando a maior parte da vida manufatureira envolta em médias gerais, aproximações oficiais e cálculos indiretos que exigiam leitura paciente dos relatórios disponíveis, comparação cuidadosa entre ramos e prudência diante das generalizações correntes sobre progresso fabril.
Os relatórios dos inspetores não traziam essa tabulação por tamanho, talvez por falta de tempo ou de autorização administrativa, e o relatório de Whitelegge para 1897 tornou-se valioso justamente por fornecer o número de fábricas de panos, fábricas fora dos panos e oficinas em cada um dos cento e dezenove condados do Reino Unido, além de quase cem subdivisões de ramos produtivos e mais de dez mil cruzamentos entre território, atividade e quantidade de trabalhadores, permitindo a Kropotkin calcular médias por ramo, por condado e por forma técnica de estabelecimento.
Whitelegge também lhe enviou dois dados especiais, o número de fábricas com mais de mil trabalhadores e o número daquelas com menos de dez, e Kropotkin usa esse apoio para abrir a análise pelos ramos de panos, reunindo algodão, lã, seda, linho, juta, cânhamo, renda feita à máquina e malharia mecânica, pois muitos leitores ficariam surpresos ao descobrir que mesmo no algodão, símbolo máximo da fábrica moderna, uma quantidade expressiva de unidades pequenas continuava viva, seguia recebendo encomendas locais, alugava máquinas, comprava insumos regionais e disputava lugar com estruturas maiores.
No distrito de West Riding, segundo apenas a Lancashire pela presença de moinhos de algodão, havia quase um terço de todas as pessoas empregadas nesse ramo, duzentas e trinta e sete mil quatrocentas e quarenta e quatro pessoas, distribuídas por três mil duzentas e dez fábricas, o que dava média de apenas setenta e três por unidade, número incompatível com a fantasia de uma produção concentrada exclusivamente em colossos fabris e muito revelador da persistência de casas menores em meio a centros famosos, rotas comerciais antigas, mercados ativos e mão de obra treinada.
Mesmo Lancashire, com quase metade das pessoas empregadas nos panos, reunia quatrocentos e trinta e quatro mil seiscentos e nove homens, mulheres e crianças em três mil cento e trinta e duas fábricas, média de cento e trinta e nove por estabelecimento, e esse número fica ainda mais expressivo quando lembramos que nele estavam incluídas fábricas de duas mil a seis mil pessoas, pois a presença desses gigantes só torna maior a quantidade necessária de unidades abaixo de cem trabalhadores para produzir tal média, manter tal dispersão e abastecer pedidos menores.
Nottinghamshire confirma a mesma direção no centro de renda mecânica e malharia, pois seus dezoito mil quatrocentos e trinta e quatro trabalhadores estavam, em sua maioria, em fábricas pequenas, com média de quarenta e oito pessoas nos trezentos e oitenta e seis estabelecimentos do condado, conclusão que leva Kropotkin a insistir na distância entre a imagem doutrinária da absorção completa e o quadro efetivo de muitos ramos têxteis, onde o grande moinho convivia com oficinas, unidades médias, fábricas modestas, mestres acostumados à produção variável, bairros especializados, encomendas pequenas e clientelas especializadas.
A distribuição dos ramos têxteis nos demais condados do Reino Unido reforça a interpretação de Kropotkin, pois quase duas mil fábricas de panos apareciam espalhadas por quarenta e nove condados, e cada uma delas reunia muito menos de cem pessoas, com grande quantidade entre quarenta e cinquenta, entre dez e vinte, e até abaixo de dez trabalhadores, mostrando uma vida produtiva dispersa que os grandes centros famosos escondiam quando a imaginação pública pensava apenas nos imensos moinhos de Lancashire, nas ruas industriais mais conhecidas, nas chaminés mais visíveis e nas narrativas repetidas pela imprensa urbana.
Para o autor, essa variedade seria previsível para qualquer pessoa com experiência prática de oficina, embora escapasse aos teóricos habituados a aprender a indústria por livros, porque em todos os países coexistem grandes fábricas e muitas unidades pequenas, e a força destas últimas vem da variedade dos produtos, da habilidade em acompanhar mudanças de gosto, da rapidez diante de encomendas curtas, da relação direta com compradores conhecidos, da possibilidade de alterar padrões sem prender capital pesado em séries enormes e arriscadas, da memória local dos ofícios e da confiança entre mestres e fregueses.
Essa flexibilidade tinha importância especial nos panos de lã e nas misturas de lã com algodão, ramos em que o gosto, a estação, a qualidade do fio, a cor, o desenho e a escala da encomenda podiam mudar depressa, favorecendo oficinas e fábricas menores capazes de ajustar a produção sem grandes perdas, enquanto a fábrica enorme dependia de continuidade, volume, estoques, disciplina uniforme e compradores suficientes para absorver séries padronizadas, o que a tornava poderosa em certos casos e menos ágil em outros mercados, sobretudo quando a moda se movia depressa.
Kropotkin acrescenta um detalhe técnico decisivo: quando os grandes moinhos de algodão já haviam comprado suas máquinas, os fabricantes de equipamentos de fiação e tecelagem passaram a receber menos encomendas e começaram a oferecer maquinário a preço reduzido e a crédito aos pequenos tecelões, criando uma via material para a permanência das unidades menores, pois três, cinco ou mais trabalhadores podiam associar recursos, comprar máquinas, instalar pequenos moinhos e conservar alguma autonomia dentro da própria região dominada pelo algodão, pelos negociantes do ramo, pelos bancos locais e pela disciplina dos grandes centros.
Por isso havia em Lancashire uma zona inteira na qual muitos pequenos moinhos de algodão continuavam em atividade, sem sinal necessário de desaparecimento próximo, e em certos períodos chegavam a prosperar, fato que desarruma a narrativa de substituição automática pela grande fábrica, pois o mesmo progresso mecânico que parecia favorecer a concentração também podia, em circunstâncias concretas, baratear equipamentos, ampliar o acesso de pequenos grupos ao motor, sustentar associações locais e permitir formas intermediárias entre oficina doméstica e grande estabelecimento comandado por patrões distantes, atentos apenas ao volume e ao giro rápido.
Ao examinar os demais ramos têxteis, Kropotkin aceita que as grandes fábricas dominavam a fiação e a tecelagem de algodão, worsted e linho, bem como a fiação da seda, com médias elevadas em alguns setores, e ainda destaca que lã, shoddy, cânhamo, crina, renda mecânica, malharia mecânica e tecelagem da seda permaneciam majoritariamente no domínio pequeno ou médio, reunindo mais de duzentas e quarenta mil pessoas em estabelecimentos cuja escala real contrariava a ideia de uma vitória geral da fábrica gigantesca, uniforme e destinada a engolir todas as outras formas.
Ao entrar nas indústrias fora dos panos, Kropotkin encontra uma dupla paisagem: de um lado, inúmeros pequenos ofícios nascidos em torno das grandes atividades e alimentados por elas, de outro, partes importantes de ramos fundamentais que permaneciam em estabelecimentos reduzidos, e essa constatação ganha peso porque três quartos dos trabalhadores industriais britânicos, dois milhões setecentos e cinquenta e cinco mil quatrocentos e sessenta pessoas, estavam nesses ramos, cuja média mal chegava a trinta e cinco trabalhadores por fábrica, mesmo antes de somar as oficinas sem força motriz e os trabalhadores omitidos.
Seguindo a classificação dos inspetores, o autor admite que as usinas de gás pertenciam ao grupo dos estabelecimentos relativamente grandes, com média de setenta e oito pessoas, e que as fábricas de borracha também se aproximavam desse campo, com cento e vinte e cinco trabalhadores em média, enquanto as quatrocentas e cinquenta e seis vidrarias do Reino Unido deviam incluir algumas unidades de porte considerável, embora a média de oitenta e sete pessoas já indicasse uma composição menos colossal do que sugeria a imagem pública da grande indústria vitoriana urbana.
Depois vinham mineração e metalurgia, geralmente praticadas em grande escala, e mesmo ali surgia a presença das formas médias e pequenas, pois nas fundições de ferro Kropotkin vira em Sheffield estabelecimentos com apenas cinco ou seis homens, ao passo que a fabricação de maquinaria pesada possuía obras enormes, como as de Armstrong, Whitworth e as instalações do Estado em Woolwich, convivendo com pequenas casas numerosas o bastante para reduzir a média geral dessa categoria a setenta trabalhadores nos cinco mil trezentos e dezoito estabelecimentos registrados pelos inspetores em todo o quadro.
A construção naval e a fabricação de tubos metálicos pertenciam claramente à grande indústria, com médias de duzentas e quarenta e três e cento e cinquenta e seis pessoas por estabelecimento, e as duas grandes obras metalúrgicas do Estado reuniam juntas vinte e três mil quatrocentos e cinquenta e cinco homens, enquanto nos produtos químicos reaparecia a separação interna, pois álcalis e fósforos tinham poucos estabelecimentos grandes, ao passo que sabões, velas, adubos e muitos outros produtos químicos vinham de quase duas mil fábricas majoritariamente pequenas, com média de vinte e nove pessoas.
As fábricas de móveis, tanto de madeira quanto de ferro, pertenciam de novo em grande parte ao domínio pequeno, e as grandes casas comerciais das cidades funcionavam sobretudo como salas de exposição para móveis feitos em fábricas miúdas e oficinas menores ainda, quadro semelhante ao dos alimentos, onde havia grandes estabelecimentos de açúcar, chocolate e conservas ao lado de numerosos produtores pequenos, responsáveis por quase dois terços dos trabalhadores do ramo, além de duas mil e setenta e seis cervejarias com média de vinte e quatro homens e três mil trezentos e sessenta e cinco casas de águas gasosas com média de onze pessoas.
Na estamparia de algodão, Kropotkin volta a encontrar fábricas grandes e também uma porção considerável de unidades menores, com média geral de cento e quarenta e quatro pessoas, quatorze estabelecimentos de tintura em vermelho turco com média de trezentos e noventa e quatro e mais de cem mil homens em dois mil setecentos e vinte e cinco locais de branqueamento, acabamento e empacotamento, antes de chegar ao vestuário, aos chapéus, ao linho, aos calçados e às luvas, ramos onde fábricas de oitenta a cento e cinquenta pessoas se cercavam de incontáveis oficinas de costura, trabalho por peça e pagamento separado de máquina, força, gás e ferro.
Kropotkin encerra a enumeração do que cabia à grande indústria lembrando as fábricas de pólvora e explosivos, com menos de doze mil trabalhadores, os botões de pano e os guarda-chuvas, que reuniam apenas seis mil empregados nas fábricas principais, e logo observa que, mesmo nesses dois últimos ramos, a tabela das oficinas revelava milhares de pequenos locais ao lado de poucos estabelecimentos maiores, sinal de que a presença da fábrica imponente servia muitas vezes como vitrine parcial de uma produção repartida em numerosos pontos menores, dependentes de encomendas e acabamentos variados.
A informação enviada por Whitelegge torna o contraste ainda mais direto, pois as fábricas com mais de mil pessoas somavam apenas sessenta e cinco nos ramos têxteis, empregando cento e duas mil e seiscentas pessoas, e cento e vinte e oito em todos os ramos fora dos panos, empregando trezentas e cinquenta e cinco mil duzentas e oito, de modo que, depois de percorrer o campo claramente pertencente à grande indústria, Kropotkin podia tratar o restante como domínio quase inteiro do pequeno e do muito pequeno estabelecimento, espalhado por ofícios discretos.
A madeira aparece como exemplo forte dessa outra zona produtiva, já que as fábricas do ramo tinham média de apenas quinze homens por estabelecimento e ainda reuniam mais de cem mil trabalhadores e mais de seis mil empregadores, enquanto curtumes, pequenos objetos de marfim e osso, olarias, tijolarias e cerâmicas, somando duzentas e sessenta mil pessoas e onze mil e duzentos empregadores, pertenciam quase sempre à pequena indústria, salvo exceções localizadas que confirmavam a variedade real do quadro produtivo britânico e suas oficinas espalhadas por distritos, vilas, pátios e subúrbios.
O acabamento de metais, como polimento e esmaltação, também ficava majoritariamente nesse campo, com média de vinte e oito pessoas por fábrica, e o dado que mais impressiona Kropotkin é a força do pequeno e do muito pequeno na fabricação de máquinas agrícolas, ferramentas, agulhas, alfinetes, ferragens, aparelhos sanitários, instrumentos diversos, caldeiras, correntes, cabos e âncoras, pois esses ramos, vistos de longe como filhos naturais da fábrica pesada, apareciam na estatística com médias baixas e muitas tarefas feitas à mão por mulheres em diversos distritos industriais do país inteiro registrado.
Os móveis voltam a confirmar a mesma direção, pois quase sessenta e quatro mil operários estavam concentrados em um ramo que pertencia em mais de três quartos à pequena indústria, com média de vinte e uma pessoas nas mil novecentas e setenta e nove fábricas registradas, sem incluir oficinas, e o mesmo valia para cura de peixe, pastelaria mecânica e trabalhos semelhantes, onde trinta e oito mil e trinta pessoas se distribuíam por mais de duas mil e setecentas fábricas, cada uma com média de quatorze operários e relações produtivas próximas.
Joias, relógios, aparelhos fotográficos e artigos de luxo davam trabalho a cinquenta e quatro mil pessoas e permaneciam ligados ao pequeno e ao muito pequeno estabelecimento, enquanto impressão, litografia, encadernação e papelaria formavam um vasto campo no qual a pequena indústria prosperava ao lado de poucos estabelecimentos muito grandes, empregando mais de cento e vinte mil pessoas em mais de seis mil fábricas antes mesmo de contar as oficinas, e essa sequência de números fazia da pequena produção um fato estrutural, visível, persistente e impossível de reduzir a simples sobrevivência antiquada.
Kropotkin encerra a enumeração das pequenas fábricas não têxteis lembrando um amplo domínio ocupado por selaria, fabricação de escovas, confecção de velas, cestaria e uma infinidade de pequenos objetos de couro, papel, madeira e metal, conjunto que estava longe de ser insignificante, pois reunia mais de quatro mil e trezentos empregadores e quase cento e trinta mil trabalhadores, distribuídos em grande massa de fábricas muito pequenas ao lado de poucas casas enormes, com média de apenas vinte e cinco a trinta e cinco pessoas por estabelecimento registrado nas estatísticas industriais.
O balanço dos inspetores, tomado apenas nas indústrias não têxteis, registrava trinta e duas mil e quarenta e duas fábricas com menos de dez trabalhadores cada uma, e o quadro geral apontava duzentos e setenta mil operários empregados em pequenas fábricas com menos de cinquenta, muitas vezes menos de vinte pessoas, resultado que dava peso estatístico ao argumento de Kropotkin: a indústria muito grande, aquela com mais de mil trabalhadores por fábrica, e a indústria minúscula, abaixo de dez trabalhadores, ocupavam números quase equivalentes de operários ativos no país industrial.
A importância das pequenas indústrias aparece ainda melhor quando Kropotkin passa das fábricas às oficinas, pois o primeiro relatório dos inspetores mencionava oitenta e oito mil oitocentas e quatorze oficinas com seiscentos e setenta e seis mil setecentos e setenta e seis trabalhadores em 1897, incluindo trezentas e cinquenta e seis mil e noventa e oito mulheres, embora esses números fossem incompletos, já que o total provável chegava a cerca de cento e quarenta e sete mil oficinas e perto de um milhão e duzentas mil pessoas ocupadas nesse universo.
Essa classe incluía padeiros, pequenos carpinteiros, alfaiates, sapateiros, carpinteiros de carros e ferreiros de aldeia, além de uma multidão de oficinas pertencentes à indústria propriamente dita, voltadas para o grande mercado comercial, algumas com cinquenta pessoas ou até mais, enquanto a imensa maioria reunia apenas cinco a vinte trabalhadores, e nela Kropotkin encontra estabelecimentos dispersos em vilas e subúrbios que produziam renda, malha, bordado e tecelagem manual, além de curtumes, fabricantes de bicicletas, cutelaria, ferramentas e peças metálicas de uso variado para clientes distantes, encomendas cotidianas locais e lojas urbanas.
Na fabricação de ferramentas, pequenas armas, pregos, parafusos, âncoras e correntes, ele encontra novamente muitos milhares de oficinas pequenas, empregando algo em torno de sessenta mil trabalhadores, sem contar aquelas que não usavam mulheres nem crianças e por isso escapavam aos inspetores de fábricas, e a confecção de roupas fornecia outro exemplo ainda maior, com mais de trezentos e cinquenta mil homens e mulheres distribuídos por quase quarenta e cinco mil oficinas, não como alfaiates isolados, e sim como oficinas que enxameavam Whitechapel e os subúrbios das grandes cidades britânicas.
Nessas casas de costura, cinco a cinquenta pessoas preparavam roupas para alfaiatarias grandes e pequenas, enquanto as lojas tomavam medidas e às vezes cortavam as peças, deixando a costura para oficinas frequentemente situadas no campo, inclusive em encomendas de roupa e linho para o exército, e o mesmo valia para roupa íntima, armarinho, móveis, colchões, almofadas, chapéus, flores artificiais, guarda-chuvas, chinelos e bijuteria barata, pois as grandes lojas conservavam amostras e a fabricação diária se espalhava por milhares de oficinas, fazendo da pequena indústria uma marca britânica tão real quanto as imensas fábricas e siderúrgicas.
Kropotkin passa então da estatística geral para a observação direta das pequenas indústrias britânicas, afirmando que os subúrbios de Londres, Glasgow e outras grandes cidades estavam cheios de pequenas oficinas, e que havia regiões onde os ofícios miúdos alcançavam desenvolvimento comparável ao encontrado na Suíça ou na Alemanha, o que lhe permite deslocar a discussão dos números para a vida concreta do trabalho, mostrando que a pequena produção sobrevivia junto às fábricas gigantes, alimentava mercados extensos, formava trabalhadores especializados, sustentava famílias inteiras e mantinha formas próprias de habilidade artesanal local.
Sheffield surge como exemplo central, pois sua cutelaria, uma das glórias industriais da Inglaterra, era feita sobretudo à mão, e Kropotkin observa que ali existiam firmas capazes de fabricar instrumentos desde a produção do aço até o acabamento das ferramentas, empregando trabalhadores assalariados, embora até essas firmas entregassem parte do serviço aos pequenos mestres, conforme informações reunidas por Edward Carpenter, que ajudara o autor a compreender a organização real daquele ofício, a divisão interna das tarefas e a distância entre a aparência de grande indústria e a prática repartida do trabalho.
A maioria dos cuteleiros, segundo a descrição, trabalhava em casa com parentes ou em pequenas oficinas providas de força motriz por rodas, alugadas por poucos xelins por semana, e grandes pátios eram cobertos por edifícios divididos em numerosos compartimentos de trabalho, alguns com apenas poucos metros quadrados, onde Kropotkin viu ferreiros martelando lâminas de faca durante o dia inteiro, junto ao fogo e à pequena bigorna, às vezes com um ajudante ou dois, numa cena quase aldeã dentro de uma cidade industrial famosa e cheia de reputação técnica própria e antiga.
Nos andares superiores, dezenas de pequenas oficinas recebiam força motriz comum, e em cada uma delas três, quatro ou cinco trabalhadores, acompanhados por um mestre, fabricavam com ajuda ocasional de máquinas simples toda espécie de ferramentas, incluindo limas, serras, lâminas de facas e navalhas, enquanto a afiação e o polimento eram feitos em outras oficinas igualmente pequenas, e até o aço podia ser fundido em uma pequena fundição cujo pessoal inteiro se reduzia a cinco ou seis homens, prova material da fragmentação produtiva e da permanência do trabalho habilidoso manual.
Ao percorrer essas oficinas, Kropotkin imaginava estar em uma aldeia russa de cutelaria, como Pavlovo ou Vorsma, comparação importante porque Sheffield, apesar de sua fama moderna, preservava uma organização antiga do ofício, e esse fato se tornava ainda mais notável porque os ganhos dos cuteleiros eram em geral baixos, muitas vezes reduzidos a poucos xelins por semana, sem que isso bastasse para levá-los facilmente a abandonar a pequena oficina e aceitar a condição comum de assalariados fixos numa casa maior, regulada por patrões, horários alheios, disciplina externa e perda de autonomia.
A preferência desses trabalhadores por vegetar com rendimentos modestos em lugar de entrar como operários assalariados numa grande casa revela, para Kropotkin, a persistência do espírito das antigas organizações de ofício, tão comentadas nos anos sessenta do século dezenove, e mostra que a pequena indústria não era mero resíduo destinado a desaparecer sem luta, pois conservava autonomia, orgulho técnico, relações familiares de trabalho, vínculos de bairro e uma memória prática que continuava viva dentro da própria Inglaterra industrial, lado a lado com oficinas mecanizadas e empresas de maior escala organizada.
Kropotkin passa de Sheffield para Leeds e seus arredores, lembrando que até pouco tempo aquela região também fora sede de extensas indústrias domésticas, especialmente ligadas à lã, pois, quando Edward Baines escreveu em 1857 seu primeiro relato sobre as indústrias de Yorkshire, a maior parte do pano de lã produzido ali ainda saía de trabalho manual, num sistema em que a família produtora, a venda regular e a praça local continuavam sustentando a fabricação antes que a fábrica moderna tomasse conta de quase todo o processo comercial, técnico e disciplinar.
Duas vezes por semana, o pano feito à mão era levado ao Clothiers Hall, e ao meio-dia já estava vendido aos comerciantes, que depois o mandavam preparar em suas fábricas, enquanto moinhos por ações, mantidos por clothiers associados, preparavam e fiavam a lã, deixando a produção final nos teares manuais dos próprios clothiers e de suas famílias, arranjo que combinava cooperação técnica, independência doméstica e ligação direta com o mercado, sem dissolver inteiramente o artesão dentro de um estabelecimento industrial centralizado, comandado de fora e separado da casa produtora familiar.
Doze anos depois, o tear manual já fora substituído em grande medida pelo tear mecânico, mas os clothiers, ansiosos por conservar a independência, recorreram a uma organização peculiar: alugavam uma sala, parte de uma sala e às vezes os próprios teares mecânicos, trabalhando por conta própria numa forma híbrida que Kropotkin vê como ilustração clara do esforço dos pequenos produtores para manter terreno diante da concorrência da fábrica, ainda que o triunfo fabril muitas vezes dependesse de adulteração fraudulenta, redução de qualidade, pressão comercial e trabalho infantil mal pago direto.
No Lake District, a variedade de indústrias domésticas parecia maior do que se esperaria, embora ainda aguardasse observadores cuidadosos, e Kropotkin menciona apenas alguns exemplos: fabricantes de aros, cesteiros, queimadores de carvão, fabricantes de bobinas e pequenas forjas de ferro movidas a carvão vegetal em Backbarrow, para indicar que a Inglaterra continha, fora dos centros famosos, uma geografia de ofícios menores ainda pouco conhecida, na qual aldeias e distritos conservavam trabalhos ligados a matérias locais, encomendas específicas, ferramentas simples, mercados próximos, ritmos rurais e habilidades herdadas, mantidas por gerações locais.
Essa ignorância sobre os pequenos ofícios do país fazia surgir fatos inesperados, pois poucos escritores continentais sobre temas industriais imaginariam que, vinte e cinco anos antes, pregos eram feitos à mão por milhares de homens, mulheres e crianças no Black Country do sul de Staffordshire e também em Derbyshire, ou que parte dessa indústria ainda sobrevivia, enquanto as melhores agulhas continuavam sendo feitas à mão em Redditch, mostrando que a máquina não havia apagado de uma vez os trabalhos minuciosos dependentes de destreza manual, paciência, treino longo e especialização local.
Correntes também eram feitas à mão em Dudley e Cradley, e, apesar de a imprensa voltar periodicamente aos sofrimentos dos fabricantes de correntes, homens e mulheres, o ofício persistia, do mesmo modo que quase sete mil homens ainda estavam ocupados em 1890, em pequenas oficinas, fabricando fechaduras simples em Walsall, Wolverhampton e Willenhall, enquanto as ferragens ligadas aos arreios de cavalos, como freios, esporas e rédeas, eram amplamente produzidas à mão em Walsall, compondo outro mapa de pequenas indústrias resistentes, espalhadas, socialmente duras, locais e familiares, em oficinas de bairro persistentes.
Kropotkin continua o inventário das pequenas indústrias lembrando que os ofícios de armas e rifles de Birmingham pertenciam ao mesmo domínio de produção miúda, já bastante conhecido, e usa essa referência como ponte para outro conjunto de trabalhos espalhados pelo Reino Unido: os ramos ligados ao vestuário, nos quais ainda havia divisões importantes mantidas em escala ampla fora da grande fábrica, com tarefas distribuídas por casas, aldeias, pequenas oficinas e grupos familiares que conservavam habilidade, rotina própria, ferramentas simples, disciplina adquirida, renda complementar, prática regional e ligação indireta com mercados maiores.
Entre esses exemplos, ele menciona as indústrias caseiras da Irlanda e as sobrevivências encontradas nos condados de Buckingham, Oxford e Bedford, mostrando que a produção doméstica não era exceção folclórica nem lembrança isolada, pois continuava presente em regiões diferentes, sustentando trabalhos ligados a roupas, adornos, peças de uso diário e encomendas de firmas urbanas, num arranjo em que a grande cidade comprava, encomendava ou distribuía serviço enquanto muitos braços permaneciam dispersos no interior, nas vilas, em casas de família, em quartos modestos, em cozinhas adaptadas, em anexos simples e em pequenas comunidades.
A malharia aparece como ocupação comum nas aldeias dos condados de Nottingham e Derby, e várias grandes firmas de Londres enviavam pano para ser transformado em roupa nas aldeias de Sussex e Hampshire, fato que mostra como a capital podia depender de trabalho feito longe de seus balcões, oficinas centrais e vitrines, mantendo uma rede silenciosa de produção que ligava comerciantes metropolitanos a famílias rurais, trabalhadores de aldeia e pequenos grupos capazes de executar tarefas repetidas com rapidez, cuidado, regularidade, obediência a prazos, pouca despesa local, remuneração baixa e baixo custo.
A malharia de lã tinha casa própria nas aldeias de Leicester e sobretudo na Escócia, enquanto a palha trançada e a chapelaria eram encontradas em muitas partes do país, compondo um mapa de especializações locais que não coincidia com as grandes chaminés da indústria pesada, pois cada distrito guardava uma aptidão, uma matéria, uma demanda e um modo de organizar o trabalho, frequentemente apoiado em mulheres, jovens e famílias que combinavam tarefas domésticas com encomendas remuneradas em ritmos irregulares, pagamentos baixos, longas jornadas caseiras e prazos impostos por compradores externos.
A sapataria também entrava nesse domínio, pois em Northampton, Leicester, Ipswich e Stafford ela fora, até data recente, ocupação doméstica muito disseminada ou trabalho realizado em pequenas oficinas, e mesmo em Norwich permanecia em parte como ofício miúdo apesar da concorrência das fábricas, sinal de que a concentração fabril não eliminava de imediato as formas menores de produção, especialmente quando havia saber manual, clientela regional, ferramentas simples, tradição de bairro, divisão de tarefas e possibilidade de repartir operações entre vários espaços de trabalho próximos, baratos, familiares, persistentes e reconhecidos no tempo.
Kropotkin acrescenta ainda que o aparecimento recente de grandes fábricas de botas e sapatos aumentara bastante o número de moças e mulheres que costuravam cabedais e bordavam chinelos em suas próprias casas ou em oficinas de intermediários exploradores, enquanto novas pequenas fábricas surgiam para fazer saltos, caixas de papelão e peças auxiliares, mostrando que a grande fábrica, longe de suprimir toda pequena produção, podia multiplicar tarefas periféricas, ampliar dependências e redistribuir parte do trabalho por casas, oficinas subordinadas e estabelecimentos especializados nas margens do grande comércio urbano moderno de calçados.
Kropotkin conclui esse trecho afirmando que os pequenos ofícios continuavam sendo fator importante da vida industrial mesmo na Grã-Bretanha, embora muitos deles tivessem se concentrado nas cidades, e adverte que a menor presença de indústrias rurais britânicas, quando comparada ao continente, não devia ser explicada apenas pela concorrência mais forte das fábricas, porque a causa principal estava no êxodo compulsório das aldeias, processo social que deslocou trabalhadores, quebrou bases locais de ofício, esvaziou muitas formas de produção dispersa, reduziu a autonomia das famílias e enfraqueceu antigas combinações de casa, trabalho, vizinhança, encomenda e aprendizado prático.
A referência a Thorold Rogers serve para reforçar essa leitura histórica, pois o crescimento do sistema fabril inglês aparece ligado ao afastamento forçado da população rural, e Kropotkin lembra que indústrias inteiras, antes prósperas, foram destruídas pela limpeza compulsória das propriedades, o que muda o sentido do debate: a pequena indústria rural perdeu terreno porque comunidades foram arrancadas dos lugares onde combinavam moradia, trabalho, habilidade herdada, acesso a encomendas, relações locais, recursos próximos e sustentação material mínima, ficando sem a base humana que permitia conservar ofícios entre gerações e transmitir técnicas cotidianas.
As oficinas, ainda mais que as fábricas, multiplicavam-se onde encontravam trabalho barato, e a característica específica da Inglaterra, segundo Kropotkin, era que esse trabalho mais barato, isto é, o maior número de pessoas destituídas, concentrava-se nas grandes cidades, produzindo um ambiente em que a pequena indústria deixava de estar espalhada em vilas, como no continente, para se reunir nos subúrbios urbanos, junto à miséria, à instabilidade, aos baixos salários, à concorrência entre pobres, à pressão da fome, à falta de ocupação regular, à moradia precária e à dependência de intermediários comerciais.
A agitação pública em torno das moradias dos pobres, dos desempregados e do sistema de exploração por intermediários revelara essa característica da vida material da Inglaterra e da Escócia, ainda que sem resultado efetivo, e Kropotkin usa essas campanhas para mostrar que a concentração urbana dos pequenos ofícios surgia da massa de trabalhadores empurrada para bairros pobres, onde qualquer encomenda, por mal paga que fosse, podia parecer preferível à ausência completa de renda regular, situação que transformava oficinas pequenas em extensão direta da pobreza metropolitana e de sua insegurança diária.
As pesquisas minuciosas de Charles Booth mostravam que um quarto da população de Londres incluída em seu inquérito, um milhão entre três milhões e oitocentas mil pessoas, ficaria satisfeito se os chefes de família obtivessem rendimentos regulares de cerca de uma libra por semana ao longo de todo o ano, e metade desses pobres aceitaria ainda menos, dado que transforma a discussão sobre pequenas oficinas em diagnóstico severo sobre pobreza urbana, trabalho instável, insegurança cotidiana, privação material, dependência de encomendas ruins, salários mínimos e sobrevivência familiar nos bairros da capital.
Seebohm Rowntree encontrou situação semelhante em York, e dessa comparação Kropotkin extrai a conclusão central do bloco: como havia trabalho barato em enorme quantidade nos subúrbios de todas as grandes cidades britânicas, os ofícios pequenos e domésticos que no continente permaneciam espalhados por aldeias reuniam-se ali nas cidades, por força da expulsão rural, da pobreza urbana e da procura por mão de obra barata, fatores que deslocaram para os centros populosos aquilo que antes poderia viver em comunidades locais, com outra distribuição do trabalho, outra relação com a terra e outra proteção cotidiana.
Kropotkin começa reconhecendo que faltavam números exatos sobre as pequenas indústrias, mas afirma que uma simples caminhada pelos subúrbios de Londres bastaria para revelar a variedade de ofícios miúdos que se acumulavam na metrópole e nas principais aglomerações urbanas, pois ali se encontravam trabalhos dispersos, oficinas menores, encomendas fragmentadas e uma multidão de produtores escondidos atrás da aparência brilhante do comércio central, de modo que a estatística incompleta podia ser corrigida, ao menos em parte, pela observação direta das ruas, dos fundos de loja, dos becos produtivos e dos bairros pobres.
A prova reunida perante o Sweating System Committee mostrava até que ponto os grandes palácios de móveis, as casas de roupas prontas e os bazares londrinos do tipo Bonheur des Dames funcionavam como exposições de amostras ou mercados para vender produtos fabricados pela pequena indústria, em vez de centros reais de fabricação, pois o público via vitrines, salões, balcões e abundância de mercadorias, enquanto o trabalho efetivo ficava deslocado para oficinas apertadas, quartos mal pagos, pequenas casas, dependências improvisadas, porões abafados, escadas escuras e espaços de produção quase invisíveis ao visitante.
Milhares de sweaters abasteciam esses palácios e bazares, alguns possuindo oficinas próprias e outros apenas distribuindo serviço a sub-sweaters, que por sua vez o repassavam entre os destituídos, formando uma cadeia de encomendas cada vez mais distante do comprador final e cada vez mais dura para quem produzia, já que a mercadoria chegava às lojas com aparência ordenada e urbana, enquanto nascia nos cortiços, em quartos congestionados ou em oficinas muito pequenas onde o preço baixo era arrancado da necessidade imediata de famílias sem margem, descanso ou defesa coletiva estável.
Essa estrutura permitia que o comércio parecesse concentrado nos grandes estabelecimentos, enquanto a indústria permanecia espalhada por uma rede de lugares pobres, e Kropotkin insiste justamente nessa diferença: os bazares centralizavam a venda, a vitrine, a encomenda e o lucro, ao passo que a produção continuava nas mãos de trabalhadores invisíveis, intermediários e oficinas subordinadas, de modo que a grandeza aparente da loja escondia a fragmentação real do processo produtivo, a dependência de uma multidão empobrecida e a distância social entre comprador, vendedor, intermediário, cortiço, oficina local e fabricante sem rosto.
Por isso, os palácios de móveis e os bazares desempenhavam papel comparável ao antigo castelo feudal na agricultura, pois reuniam rendas e vantagens sem realizar diretamente o trabalho que sustentava sua riqueza, e essa comparação revela o ponto moral de Kropotkin: a centralização visível do luxo urbano significava concentração dos ganhos, controle comercial e capacidade de submeter muitos pequenos produtores a um centro comprador que aparecia ao público como origem das mercadorias, embora dependesse de trabalho espalhado, anônimo, pobre, silencioso, barato, subordinado, doméstico, frágil, exaustivo, repetido, invisível, explorado e escondido.
O argumento, nesse ponto, também corrige a ilusão de que as pequenas indústrias sobrevivessem apenas como restos atrasados, pois elas estavam incorporadas ao funcionamento cotidiano dos grandes bazares, fornecendo móveis, roupas e outros artigos que pareciam pertencer à grande casa comercial, quando na realidade dependiam de cortiços, oficinas minúsculas, intermediários e trabalho doméstico mal remunerado, e a cidade moderna, longe de abolir esse mundo subterrâneo de produção, apoiava parte de seu brilho exatamente na dispersão dessas tarefas, na pobreza de quem as executava diariamente e na invisibilidade dos lugares onde eram feitas.
Para Kropotkin, a presença dos pequenos ofícios ao lado das grandes fábricas deixa de parecer anomalia quando se observa o movimento real da produção, pois ela responde a uma necessidade material do próprio sistema industrial: oficinas menores continuam surgindo onde há encomendas fracionadas, reparos, peças, acabamentos e serviços auxiliares, enquanto a absorção de muitos ateliês por firmas maiores, já notada nos anos quarenta do século passado nas manufaturas têxteis, seguia visível em outros ramos e se tornava ainda mais marcada nos grandes estabelecimentos ligados aos metais e aos suprimentos militares dos Estados.
Ao mesmo tempo, outro processo avançava em paralelo e tinha igual importância no argumento: a criação contínua de indústrias novas, quase sempre iniciadas em escala reduzida, porque cada fábrica, ao se instalar, chamava ao redor de si uma constelação de oficinas menores, umas destinadas a fornecer peças, materiais de uso cotidiano, contratos, sobras pequenas e medidas variáveis, outras ocupadas em transformar ainda mais o produto já saído do estabelecimento principal, e dessa combinação nascia uma rede de trabalho miúdo que a grande fábrica precisava alimentar para completar sua própria atividade.
O exemplo das fiações de algodão torna esse ponto muito concreto, já que elas abriram enorme procura por bobinas e carretéis de madeira, levando milhares de trabalhadores no Lake District a fabricá-los primeiro à mão e depois com auxílio de máquinas simples, até que, só após anos de invenções, ajustes, testes, destreza local e aperfeiçoamentos, parte dessa produção começou a passar para fábricas maiores, o que mostra como uma exigência criada pela indústria mecanizada podia gerar, antes de qualquer concentração ampla, um campo inteiro de pequenas oficinas e aprendizados práticos.
Mesmo nessa etapa posterior, a passagem para a fábrica permanecia incompleta, pois as máquinas eram caras, muitas bobinas continuavam a ser feitas em oficinas pequenas com pouca ajuda mecânica, os próprios estabelecimentos fabris desse ramo conservavam tamanho modesto e raramente reuniam mais de cinquenta operários, em grande parte crianças, enquanto os carretéis de formato irregular seguiam feitos à mão ou com instrumentos pequenos, frequentemente inventados pelos próprios trabalhadores conforme a peça exigia precisão, adaptação, paciência manual, madeira bem escolhida, cortes atentos, medidas calibradas repetidas e soluções nascidas da experiência diária.
Desse modo, Kropotkin descreve uma renovação constante: novas indústrias surgem para substituir antigas, cada uma passa por uma fase preliminar em escala miúda antes de alcançar a organização fabril, e quanto mais ativa é a capacidade inventiva de um povo, maior se torna o número desses ramos nascentes, como se via nas numerosas oficinas de bicicletas que haviam aparecido recentemente em pequenas salas de trabalho, abastecidas por peças já prontas das fábricas maiores e dedicadas a montar, adaptar, reparar e experimentar melhoramentos rápidos em torno de um produto ainda em transformação.
A fabricação doméstica e oficinal de caixas de fósforos, botas, chapéus, doces, artigos de mercearia e tantos outros objetos comuns reforça a mesma lição, pois a grande fábrica estimula novos desejos, barateia algodões, lãs, papel e latão, oferece materiais a preços menores e acaba gerando centenas de atividades menores em torno deles, de tal maneira que muitas coisas presentes nas casas modernas, mesmo quando mais tarde saem aos milhões de uma linha fabril, passaram primeiro por bancadas estreitas, quartos de trabalho, ferramentas simples, ensaios baratos e experiências pacientes de pequenos produtores.
Kropotkin fecha essa parte do argumento extraindo uma consequência direta dos exemplos anteriores: quanto maior for o número de invenções, maior tende a ser também o número de pequenas indústrias, e quanto mais numerosas forem essas oficinas iniciais, mais fértil se torna a capacidade inventiva de um povo, pois a novidade técnica nasce muitas vezes em espaços estreitos, entre ferramentas simples, reparos cotidianos, encomendas particulares, adaptações feitas por trabalhadores práticos, observações acumuladas no ofício e soluções que aparecem antes da forma fabril amadurecida, quando cada ajuste ainda depende da mão que conhece o material.
Daí vem também seu lamento pela saída de tantos pequenos ofícios das aldeias inglesas, causada pelas más condições de posse da terra, já que essa migração empobrecia a agricultura e arrancava da vida rural atividades que poderiam ter mantido juntas a lavoura e a oficina, criando vilarejos mais vivos, com renda variada, saber manual distribuído, famílias menos dependentes do salário urbano e uma circulação local de capacidades que a cidade absorvia em bairros pobres, oficinas congestionadas, aluguel caro, trabalho instável, jornadas gastas longe do campo e perda de cooperação cotidiana.
Na Inglaterra, como em outros lugares, as pequenas indústrias permaneciam fator decisivo da vida produtiva, principalmente pela enorme variedade de ofícios que aproveitavam produtos semimanufaturados das grandes indústrias, transformavam sobras, peças, materiais e artigos intermediários, e preparavam os rudimentos de ramos que depois poderiam crescer, pois o trabalho pequeno não ficava restrito à repetição do passado, ele também servia como laboratório manual para demandas futuras, ajustes técnicos, usos novos de materiais já disponíveis, ferramentas adaptadas, tentativas locais persistentes e ensaios concretos que uma grande firma só adotaria depois de testados.
As oficinas de bicicletas ofereciam um exemplo vivo dessa formação inicial, porque nelas centenas de pequenos melhoramentos haviam sido testados sob os olhos do público, em montagens, reparos, encaixes, rodas, correntes, guidões, freios, selins e pequenas adaptações que não exigiam ainda uma indústria monumental, e Kropotkin as vê como células primárias das grandes indústrias posteriores do automóvel e do aeroplano, nascidas de experiências modestas, insistentes, espalhadas por muitos trabalhadores, ligadas a necessidades práticas muito imediatas, discutidas entre usuários, revistas nas lojas e corrigidas peça por peça no uso diário prático.
O mesmo vale para os fabricantes de geleia das aldeias, apresentados como precursores das grandes fábricas de conservas que já empregavam centenas de trabalhadores, pois ali também se observa uma passagem gradual entre a produção local e a organização maior: primeiro vêm frutas, receitas, panelas, clientes próximos, pequenas remessas, aproveitamento de colheitas, embalagens simples, relações de vizinhança, venda repetida em mercados próximos e aperfeiçoamentos pacientes, depois aparecem instalações mais amplas, máquinas, mercados distantes e uma escala que parece nova apenas porque esquece a oficina ou a cozinha produtiva que a preparou.
Por isso, afirmar que as pequenas indústrias estavam condenadas a desaparecer era, para Kropotkin, repetir uma generalização apressada feita por observadores do início do século dezenove, impressionados pela absorção do trabalho manual nas fábricas de algodão, embora os estudos de indústrias grandes e pequenas, os censos de fábricas e oficinas e o fornecimento municipal de energia elétrica em cidades como Manchester mostrassem outra direção: o pequeno fabricante podia obter força motriz barata na medida exata de sua necessidade, ligar máquinas sem comprar um grande motor e pagar apenas pelo consumo real.
Ao abrir o quadro francês, Kropotkin muda de escala sem abandonar o mesmo princípio: as pequenas indústrias aparecem na França com enorme variedade e formam uma parte essencial da vida produtiva nacional, pois metade da população vivia da agricultura, um terço da indústria, e esse terço se dividia de modo bastante equilibrado entre grandes estabelecimentos e ofícios menores, deixando cerca de um milhão seiscentos e cinquenta mil trabalhadores diretamente ocupados nesse segundo campo e sustentando, por meio deles, quatro a cinco milhões de pessoas, espalhadas entre cidades, vilas, oficinas domésticas, aldeias e distritos rurais.
Esse número ainda ficaria incompleto se fossem esquecidos muitos camponeses que recorriam a atividades industriais sem abandonar a terra, pois em diversas regiões francesas o rendimento adicional vindo do ofício rural era justamente o que permitia conservar a pequena propriedade, pagar encargos, enfrentar anos difíceis e permanecer no campo, de modo que a oficina doméstica, a banca de trabalho, o tear, a costura, a ferramenta simples ou a encomenda de temporada funcionavam como defesa material contra a queda definitiva no salário urbano, na moradia alugada e na dependência diária da fábrica.
Kropotkin insiste que esses pequenos proprietários sabiam o que os esperava caso se tornassem operários de fábrica na cidade, e por isso se apegavam à combinação entre indústria e agricultura enquanto não perdiam suas terras, suas casas, os direitos de uso sobre pastagens comunais ou o acesso às matas do vilarejo, pois cada um desses elementos reforçava uma independência frágil, feita de lavoura, ofício, ajuda local, moradia própria, costumes compartilhados, reserva de lenha, alimento produzido em casa e margem mínima para resistir ao endividamento ao longo de várias estações difíceis.
Mesmo onde faltavam cavalos para arar, a vida camponesa encontrava arranjos práticos bastante difundidos entre pequenos proprietários franceses, inclusive em distritos puramente rurais, como o costume de um morador que possuía arado e parelha preparar por turnos as terras dos demais, e essa cooperação simples reduzia custos, mantinha parcelas cultivadas, prolongava vínculos de vizinhança, evitava que famílias sem animais abandonassem o campo e mostrava que a pequena produção sobrevivia graças a acordos concretos entre famílias, instrumentos, animais, tempo disponível, memória de vizinhança, estação curta de trabalho e confiança local recíproca.
Ao lado disso, a permanência de um espírito comunal oferecia outros apoios: pastor comum, prensa de vinho comum e várias formas de auxílio entre camponeses, e onde essa vida de aldeia se mantinha, as pequenas indústrias persistiam com mais força, pois a comunidade dava ao trabalhador rural algum amparo diante das oscilações da encomenda, permitia conservar pequenas parcelas sob cultivo mais intenso e favorecia a união entre ofício, hortas, pomares, criação, ferramentas partilhadas, tarefas de estação, hábitos de ajuda mútua, vínculos familiares práticos e trabalho distribuído ao longo do ano.
Por essa razão, Kropotkin associa a prosperidade de solos pouco generosos à combinação entre horticultura de mercado, fruticultura e pequenos ofícios, vendo nesse encontro uma das chaves da vitalidade rural francesa, já que as pequenas indústrias conseguiam adaptar-se a novas necessidades, mudar de ramo quando uma fábrica pressionava demais, transformar procedimentos, aceitar aperfeiçoamentos técnicos e, quando preciso, empurrar os artesãos para formas intensivas de cultivo enquanto outra atividade local nascia, preservando a aldeia como lugar de trabalho variado, aprendizagem prática, renda complementar e não apenas de fuga para a cidade.
Kropotkin passa então ao setor têxtil francês, onde a substituição do tear manual pelo tear mecânico parecia mais visível e onde a fábrica já havia ocupado, ou estava ocupando, o lugar da indústria doméstica, pois algodões, linhos comuns e rendas feitas por máquina eram vendidos a preços tão baixos que o trabalho manual no tear se tornava cada vez menos viável nas mercadorias simples, destinadas ao consumo amplo, à repetição rápida, ao acabamento uniforme, aos pedidos numerosos, ao comércio barato, às lojas urbanas e à concorrência direta com o equipamento fabril.
A própria estatística mostrava a pressão dessa mudança: em 1876 ainda existiam na França trezentos e vinte e oito mil e trezentos teares manuais contra cento e vinte e um mil trezentos e quarenta teares mecânicos, e Kropotkin admite que o número dos primeiros deve ter diminuído bastante nas duas décadas seguintes, embora destaque a lentidão do processo como uma das características mais notáveis da organização têxtil francesa, justamente porque a velha oficina rural cedia terreno de forma desigual, gradual, incompleta, regional, familiar, resistente, persistente e enraizada em costumes locais.
Para compreender essa resistência, ele recorre a Reybaud e ao livro Le Coton, escrito em 1863, quando as indústrias de cabana ainda estavam plenamente vivas, e o dado importa porque Reybaud era admirador das grandes fábricas, embora tenha registrado com honestidade a superioridade de bem-estar encontrada nas casas dos trabalhadores rurais do tear quando comparadas à miséria dos operários fabris nas cidades, onde o salário podia estar ligado à máquina sem trazer moradia digna, alimento seguro, vínculo com a terra, respeito doméstico, ar livre, jardim pequeno, cuidado concreto ou estabilidade real.
Naquele tempo, Saint Quentin, Lille, Roubaix e Amiens já eram grandes centros de fiação e manufatura de algodão em fábricas, ao mesmo tempo em que muitos tipos de panos de algodão continuavam a sair de teares manuais nos próprios subúrbios de Saint Quentin e em centenas de aldeias e povoados ao redor, depois vendidos para acabamento na cidade, de modo que a indústria urbana dependia de uma periferia rural ativa, silenciosa, numerosa, tecnicamente treinada, acostumada a prazos, ligada a comerciantes, útil aos acabadores e integrada ao mercado por canais comerciais antigos.
Reybaud observava que as moradias horríveis da cidade e a condição geral dos operários fabris contrastavam de maneira muito forte com o relativo bem-estar dos trabalhadores rurais do tear, em grande parte donos de casa própria e de uma pequena porção de terra que continuavam a cultivar, e essa diferença explica por que tantos preferiam conservar o trabalho doméstico, mesmo com rendimentos modestos, pois ele vinha ligado a horta, campo, família, autonomia diária, alimento produzido em casa, ajuda de parentes, criação pequena, rotina própria, descanso possível e menor exposição à degradação urbana.
Mesmo em um ramo pressionado pela concorrência fabril, como a fabricação de veludos simples de algodão, o trabalho doméstico no tear ainda se mantinha em 1863 e até em 1878 nas aldeias próximas de Amiens, e somente crises comerciais repetidas, somadas a causas hostis ao pequeno camponês, levaram muitos trabalhadores a abandonar a luta e buscar emprego nas fábricas, enquanto parte deles, por não ter rompido completamente com a terra, já voltava à agricultura, à horticultura de mercado, ao cultivo familiar, aos trabalhos de estação e a formas mais seguras de sustento rural.
Kropotkin amplia o quadro francês passando para a região de Rouen, onde a indústria rural alcançava proporções impressionantes em meados do século dezenove, pois nada menos que cento e dez mil pessoas trabalhavam, em 1863, na produção de algodões destinados às fábricas de acabamento da cidade, formando ao redor do centro urbano uma rede de aldeias ativas, casas produtivas, pequenos estabelecimentos e famílias ocupadas com o tear, de modo que a fábrica urbana aparecia ligada a um vasto campo de trabalho espalhado, disciplinado por encomendas, transporte local, compradores e práticas herdadas.
No vale do Andelle, no departamento de Eure, cada aldeia parecia uma colmeia industrial, e até os menores cursos de água eram aproveitados para pôr em movimento uma pequena fábrica, o que mostrava uma paisagem produtiva muito diferente da imagem de concentração exclusiva em grandes prédios urbanos, pois ali a energia local, a proximidade das casas, a habilidade camponesa, a lavoura mantida ao redor e a presença de pequenas instalações compunham um sistema no qual oficina, família, córrego, campo, aldeia, estação de trabalho e mercado se ligavam de modo prático.
Reybaud descreveu como satisfatória a condição dos camponeses que combinavam agricultura com trabalho na fábrica rural, sobretudo quando comparada à situação dos moradores pobres de Rouen, e chegou a mencionar casos em que fábricas de aldeia pertenciam às próprias comunidades locais, detalhe precioso para Kropotkin, pois indica que a indústria pequena podia nascer dentro de laços coletivos, servir a uma vida camponesa mais estável, reforçar instituições do vilarejo, manter renda próxima da casa, preservar vínculos locais e evitar a separação brutal entre salário fabril, miséria urbana e perda completa da terra.
Dezessete anos mais tarde, Baudrillart ainda descrevia a mesma região em termos muito semelhantes, e embora as fábricas rurais já tivessem cedido bastante diante de estabelecimentos maiores, a produção do campo continuava avaliada em oitenta e cinco milhões de francos por ano, sinal de que a passagem para a grande indústria não havia apagado de uma vez a força regional das aldeias, dos trabalhadores do tear, das oficinas menores, das famílias parcialmente agrícolas e dos vínculos entre lavoura, casa, ferramentas, água corrente, hábitos de ofício e encomendas vindas das cidades.
No presente de Kropotkin, as fábricas certamente haviam avançado ainda mais, mas as descrições de Ardouin Dumazet confirmavam a sobrevivência de uma parte considerável dos trabalhadores rurais do tear e repetiam a observação de que o bem-estar relativo aparecia justamente nas aldeias onde a manufatura permanecia ligada à agricultura, inclusive em ramos novos, como os panos usados em guarda-chuvas e botas femininas, concentrados em Amiens ou ligados a materiais vindos de Roubaix, substituindo ocupações antigas sem expulsar inteiramente a base doméstica, o quintal cultivado, a ajuda familiar e a rotina da aldeia.
A região de Le Thelle, ao sul de Beauvais, fornece outro exemplo dessa vitalidade, com pequenos ofícios cuja importância mal se imaginava à distância: botões de osso, marfim ou madrepérola, escovas, calçadeiras, teclas de piano, dominós, fichas, dados, estojos para óculos, objetos de escrita, cabos de ferramentas, medidas, tacos de bilhar e muitos artigos miúdos, alguns feitos em casas particulares, outros em oficinas especiais que alugavam força motriz, num ambiente de intensa divisão do trabalho, invenção contínua de máquinas-ferramenta, variedade de encomendas, habilidade manual local e atividade quase febril no cotidiano.
Kropotkin encerra esse giro pelo norte francês lembrando que, mesmo depois do avanço das fábricas, ainda se encontrava no Vermandois, no departamento do Aisne, um número considerável de teares manuais, mais de três mil, dedicados a panos mistos de algodão, lã e seda, e esse dado não aparece como curiosidade isolada, pois confirma a sobrevivência de formas domésticas e rurais de trabalho em ramos capazes de combinar materiais variados, encomendas menores, habilidade herdada, casas produtivas, laços locais, ritmos de aldeia, aprendizagem técnica lenta e adaptação gradual diante da pressão fabril.
Ele reconhece que, na faixa industrial do norte francês, onde os algodões eram fabricados em larga escala nas cidades, o trabalho manual no tear das aldeias quase desaparecera, mas insiste que essa perda não bastava para decretar a morte da pequena indústria, já que novos ofícios haviam surgido no lugar dos antigos, e o próprio recuo de uma atividade podia abrir espaço para outra, mais ajustada a mercados próximos, matérias novas, ferramentas acessíveis, famílias camponesas, pequenas oficinas, circulação regional, trabalho sazonal de apoio, renda local e necessidades de renda complementar.
Para mostrar esse movimento, Kropotkin toma a região situada entre Rouen, Orléans, Rennes e Nantes, abrangendo antigas províncias como Normandia, Perche, Maine, parte da Touraine e Anjou, tal como Ardouin Dumazet a observara em 1895, e ali encontra uma variedade de indústrias domésticas e pequenos ofícios tanto em aldeias quanto em cidades, sem uma linha simples de substituição integral pela fábrica, pois cada lugar respondia de maneira própria à perda de um ramo, à chegada de outro, à força persistente da casa produtiva e à memória prática familiar no lar.
Em Laval, onde outrora se faziam coutils de linho em teares manuais, e em Alençon, antigo centro da manufatura doméstica de linho e da renda feita à mão, Dumazet encontrou a indústria do linho em estado de prolongada fraqueza, tanto nas casas quanto nas fábricas, porque o algodão passara à frente, a procura por bens de linho diminuíra muito, as brocas já eram feitas de algodão nas fábricas e os grandes estabelecimentos erguidos para criar uma indústria de linho e cânhamo tiveram de fechar quase por completo em vários distritos.
Restava apenas uma fábrica com duzentos e cinquenta trabalhadores, enquanto quase vinte e três mil pessoas que antes achavam ocupação em Mans, Fresnay e Alençon, nos panos de cânhamo e no linho fino, tiveram de abandonar esse ramo, e o destino delas seguiu a divisão que interessa a Kropotkin: quem estava preso à fábrica migrou para outras cidades, enquanto quem ainda conservava ligação com a agricultura pôde voltar à terra, retomando cultivo, casa, família, animais pequenos, horta, estação rural, autonomia familiar parcial local e sustento menos dependente do salário urbano.
Nessa disputa entre algodão, linho e cânhamo, o algodão venceu, e a renda também mudou de base, pois Calais, Caudry, Saint Quentin e Tarare já produziam quantidades enormes por máquina, deixando em Alençon apenas a renda artística de alto nível e algum trabalho auxiliar nos arredores, enquanto Flers e Ferté Macé ainda mantinham cerca de cinco mil e quatrocentos teares manuais em situação penosa, agravada pela perda dos mercados espanhóis, pela concorrência mecânica, pela fragilidade das encomendas, pelo aperto local e pelo abandono, em 1893, das doze grandes fiações de Condé.
Kropotkin usa a crise de Condé como contraste para introduzir um ramo que seguia forte porque servia ao mercado interno: a fabricação de lenços de linho, atividade relativamente recente e ainda próspera no trabalho doméstico, com Cholet, no Maine e Loire, como centro principal, e essa diferença é decisiva para o argumento, pois mostra que a pequena indústria não dependia apenas de ramos antigos em ruína, ela também podia nascer de demandas novas, estáveis, próximas do consumo cotidiano, distribuídas por muitas casas, sustentadas por compradores regulares e úteis para famílias que precisavam completar a renda agrícola.
Cholet possuía uma fiação e uma fábrica de manufatura, mas ambas empregavam menos pessoas do que o trabalho doméstico espalhado pela região, porque a produção de lenços de linho se estendia por nada menos que duzentas aldeias ao redor, cada uma integrando casas, famílias, encomendas, pequenas remunerações, comerciantes locais e rotinas rurais, de modo que a força do ramo não estava concentrada em um grande prédio, e sim na multiplicação de mãos camponesas que continuavam ligadas à terra, aos quintais, aos parentes, aos ritmos da aldeia e aos circuitos locais de entrega.
Ardouin Dumazet dizia que nem Rouen, nem as cidades industriais do norte francês produziam tantos lenços de linho quanto essa região de teares manuais, e Kropotkin aproveita a observação para reforçar sua tese sobre a vitalidade das formas dispersas de trabalho, pois a grande cidade podia reunir capital, acabamento e comércio, enquanto a aldeia mantinha capacidade produtiva real, adaptada a um artigo de uso comum, vendável, repetido e dependente de habilidade familiar, paciência, coordenação com intermediários, aprendizagem doméstica, encomendas regulares, disciplina caseira e renda suplementar durante períodos de menor atividade agrícola.
Dentro da curva feita pelo Loire ao passar por Orléans, aparecia outro centro doméstico próspero ligado aos algodões, e Dumazet descrevia a faixa de Romorantin a Argenton e Le Blanc como uma imensa oficina em que lenços eram bordados, camisas, punhos, colarinhos e diversos artigos femininos de roupa branca eram costurados ou bordados, com mulheres ocupadas em quase todas as casas, inclusive nos menores povoados, fazendo do trabalho doméstico uma presença cotidiana, visível, regular, socialmente distribuída, passada entre gerações, associada ao lar, apoiada em redes familiares e essencial para a renda local.
Em certas regiões de vinhedos, esse trabalho podia ser apenas passatempo, mas ali se tornara o principal recurso da população, e o contraste com Romorantin é revelador: mesmo na cidade onde quatrocentas mulheres e meninas trabalhavam em uma fábrica, mais de mil mulheres costuravam linho em suas próprias casas, número que mostra a proporção real entre estabelecimento concentrado e atividade doméstica, além de indicar como a fábrica convivia com um campo amplo de tarefas feitas em moradias, mesas familiares, horários flexíveis, trabalho feminino persistente, aprendizagem caseira e redes de encomenda.
O mesmo princípio aparecia nos povoados industriais de trabalhadores de pano perto de Elbœuf, outra cidade normanda, onde Baudrillart, ao visitar a região entre 1878 e 1880, ficou impressionado com as vantagens evidentes da união entre agricultura e indústria, pois casas limpas, roupas limpas e uma marca geral de bem-estar distinguiam essas aldeias, sugerindo que a pequena produção ligada ao campo podia oferecer condições sociais superiores às de muitos bairros fabris urbanos e conservar, ao mesmo tempo, ofício, casa, jardim, lavoura, vizinhança, autonomia parcial, educação prática, regularidade moral e dignidade cotidiana.
Kropotkin passa de Elbœuf para um ponto decisivo de sua análise francesa: a pequena indústria rural não se resumia à produção em tear, pois dezenas de outros ofícios animavam aldeias e burgos, e Fougères, em Ille-et-Vilaine, oferecia um exemplo claro de como a fábrica podia contribuir para o surgimento de atividades menores e domésticas, já que em 1830 a cidade ainda era um grande centro da fabricação caseira dos chamados chaussons de tresse, feitos em casas, oficinas simples, quartos de trabalho, bancadas familiares e arranjos locais ligados à renda rural.
A concorrência do trabalho prisional destruiu essa indústria primitiva, mas a substituição não significou vazio duradouro, porque logo surgiu a fabricação de sapatilhas macias de feltro, ou chaussons de feutre, depois esse ramo também enfraqueceu e abriu caminho para a produção de botas e sapatos, que por sua vez originou trinta e três fábricas em Fougères, empregando oito mil trabalhadores e alcançando uma produção anual aproximada de cinco milhões de pares, num movimento de perda, adaptação, aprendizagem, transferência de habilidade, reorganização local produtiva ampla e criação sucessiva de novos ofícios.
Ao mesmo tempo, as atividades domésticas ganharam novo desenvolvimento, e milhares de mulheres passaram a trabalhar em casa costurando cabedais e bordando sapatos de fantasia, enquanto pequenas oficinas surgiam nas redondezas para fabricar caixas de papelão, saltos de madeira e outros complementos necessários, ao lado de curtumes grandes e pequenos, formando uma cadeia produtiva que não ficava dentro da fábrica principal e que distribuía serviço por moradias, anexos, lojas de bairro, pequenos patrões, famílias, ferramentas próprias, tarefas auxiliares, prazos comerciais, material circulante, acabamento parcial minucioso caseiro e pagamentos de encomenda.
A observação de Ardouin Dumazet era que essas indústrias elevavam de modo perceptível o nível de bem-estar nas aldeias, fato imprevisto no centro de uma região puramente agrícola, e Kropotkin aproveita essa constatação para reforçar uma distinção central: a fábrica podia concentrar parte do processo e ao mesmo tempo provocar uma constelação de ocupações menores em volta dela, permitindo que aldeias conservassem renda, habilidades manuais, vínculos domésticos, pequenas oficinas, circulação comercial, relações de vizinhança, ocupação feminina remunerada, aprendizado familiar constante e alguma estabilidade social em lugar de mera dependência urbana.
Na Bretanha, nas vizinhanças de Quimperlé, outro ramo confirmava a mesma combinação, pois numerosas oficinas pequenas fabricavam, espalhadas pelas aldeias, os chapéus de feltro usados pelos camponeses, e a agricultura melhorava rapidamente junto com esse comércio, de modo que o bem-estar se tornava marca visível desses povoados, não por separação entre campo e trabalho manual, e sim pela presença conjunta de cultivo, oficina, traje local, encomenda regular, habilidade regional, venda próxima, pequenas ferramentas, circulação de dinheiro, melhoria técnica da lavoura, estabilidade familiar concreta visível e melhoria gradual da vida rural.
Em Hennebont, na costa sul bretã, mil e quatrocentos trabalhadores produziam latas para conservas em uma grande fábrica, transformando anualmente vinte e duas a vinte e três toneladas de ferro em aço e depois em recipientes enviados a Paris, Bordeaux, Nantes e outros centros, mas essa concentração também criava um pequeno mundo de oficinas em plena região agrícola, com trabalhos em folha de metal, curtumes, olarias e fábricas menores que convertiam escórias em adubo, demonstrando que a grande instalação podia gerar, ao redor, ocupações locais diversificadas, úteis ao campo e ao comércio.
Kropotkin entra então no Jura francês, região em que a relojoaria alcançara alto desenvolvimento e onde ele próprio, ao visitar as aldeias entre a fronteira suíça e Besançon em 1878, ficou impressionado com o grau de bem-estar relativo que via entre os moradores, mesmo conhecendo de perto as aldeias suíças do vale de Saint Imier, pois ali a combinação entre ofício especializado, casa própria, jardim, pequena terra, prados comunais, ferramentas de precisão, encomendas regulares e hábitos cooperativos dava à população trabalhadora uma base social diferente daquela encontrada nos bairros fabris concentrados.
Ele admite que os relógios feitos por máquinas provavelmente haviam produzido crise na relojoaria francesa, como também ocorrera na Suíça, mas destaca que uma parte dos relojoeiros suíços resistira com vigor à necessidade de entrar nas fábricas, e que, enquanto grandes estabelecimentos cresciam em Genebra e outros centros, muitos trabalhadores haviam buscado ramos diversos que continuavam possíveis como trabalho doméstico ou pequena indústria, preservando capacidade técnica, autonomia parcial, ferramentas próprias, saber de precisão, relações comerciais antigas, disciplina manual, paciência de montagem, clientela especializada, reputação local e adaptação inventiva diante da mudança.
No Jura francês, segundo Kropotkin, havia grande número de relojoeiros que eram ao mesmo tempo donos de suas casas e jardins, frequentemente de pequenos pedaços de campo e, de modo especial, de prados comunais, e as fruitières, que funcionavam como queijarias ou cremerias cooperativas para a venda comum de manteiga e queijo, estavam muito difundidas, mostrando que a força daquela indústria pequena vinha tanto do ofício quanto de uma vida rural organizada por propriedade modesta, uso comunal, produção alimentar, vizinhança estável, caixa comum, comércio de laticínios e cooperação local ativa.
Até onde pôde verificar, o desenvolvimento do relógio feito por máquina não destruíra as pequenas indústrias das colinas do Jura, porque os relojoeiros haviam passado a novos ramos e, como na Suíça, criado ocupações variadas, e as viagens de Ardouin Dumazet permitiam observar esse quadro mais recente no sul da região, onde, nos arredores de Nantua e Cluses, a seda era trabalhada em quase todas as aldeias, os camponeses entregavam ao tear as horas livres da agricultura e pequenas oficinas se espalhavam pelos cursos d’água descidos das colinas, próximas das casas e dos campos.
Ao longo do riacho Merloz, dezenas de pequenas serrarias também haviam sido construídas para fabricar toda sorte de objetos delicados de madeira, e esse detalhe amplia o argumento: a região não dependia de um único ramo ameaçado por máquinas, pois sua vitalidade estava na multiplicação de ofícios ligados à água, à madeira, à seda, à habilidade manual, às casas de trabalho, à venda regional e à capacidade de deslocar trabalhadores de uma ocupação para outra sem arrancá-los imediatamente das casas, dos campos, das aldeias e das redes de ajuda cotidiana.
Em Oyonnax, pequena cidade do Ain, Kropotkin encontra outro centro expressivo, a fabricação de pentes, indústria com mais de duzentos anos que ganhara novo impulso depois da última guerra pela invenção do celuloide, reunindo de cem a cento e vinte mestres com dois a quinze trabalhadores cada e mais de mil e duzentas pessoas trabalhando em casa, enquanto a eletricidade distribuída a pequenos motores permitira que trezentos operários deixassem oficinas alugadas e voltassem ao trabalho doméstico, com casas, jardins, espírito associativo, ferramentas próprias, força motriz medida e quatro oficinas para caixas de papelão.
Em Saint-Claude, Kropotkin encontra uma das imagens mais nítidas da cooperação entre grande e pequena oficina, pois a cidade era importante centro de cachimbos de raiz, vendidos em grande quantidade em Londres com marcas inglesas e depois comprados por franceses como lembrança britânica, enquanto oficinas grandes e pequenas, movidas pela força do riacho Tacon, prosperavam lado a lado, empregando mais de quatro mil homens e mulheres nesse ramo e sustentando uma população acostumada a combinar habilidade manual, água motriz, encomenda distante, aprendizagem local e trabalho doméstico ligado à montanha.
Ao redor dos cachimbos cresciam ofícios auxiliares de escala menor, como boquilhas de âmbar e chifre, estojos e peças complementares, e inúmeras oficinas ocupavam as margens dos dois riachos fabricando objetos de madeira, caixas de fósforo, contas, estojos para óculos, pequenos artigos de chifre e muitas outras peças miúdas, sem contar uma fábrica maior, com duzentos trabalhadores, encarregada de medidas métricas vendidas para várias partes do mundo, o que mostrava uma rede produtiva diversificada em torno de materiais simples, força próxima, compradores distantes, demandas precisas e rotinas de encomenda regulares.
Ao mesmo tempo, milhares de pessoas em Saint-Claude, nas aldeias vizinhas e até nos menores povoados de montanha cortavam diamantes, indústria recente naquela região, e outras milhares lapidavam pedras menos preciosas, quase sempre em oficinas muito pequenas abastecidas por força hidráulica, enquanto a extração de gelo nos lagos e a coleta de casca de carvalho para curtumes completavam o quadro dessas aldeias ativas, onde a indústria se unia à agricultura e os instrumentos modernos serviam a unidades pequenas, familiares, enraizadas na paisagem e capazes de conservar autonomia junto aos campos próximos.
Em Besançon, que Kropotkin conhecera em 1878 como centro importante da relojoaria, Dumazet ainda observava em 1901 que os hábitos da classe trabalhadora permaneciam pouco alterados, com relojoeiros trabalhando em casa ou em pequenas oficinas, numa atividade em que a fabricação completa do relógio já se desfazia, pois rodas e outras partes importantes vinham da Suíça ou de diferentes cidades francesas, e exatamente por isso surgiam nas redondezas oficinas secundárias para caixas, ponteiros, ajustes finais, reparos delicados, contratos modestos, relações locais de confiança, prazos e peças menores exigidas pelo acabamento.
Algo semelhante ocorria em Montbéliard, outro centro relojoeiro, onde as manufaturas produziam por máquinas as partes do mecanismo, enquanto diversas oficinas continuavam entregues a peças específicas feitas por trabalhadores qualificados, e essa convivência já gerava novo ramo, a fabricação de ferramentas para tais oficinas e para outros ofícios, ao passo que em Héricourt pequenas indústrias cresciam ao lado das grandes fábricas de ferragens, espalhando pelas aldeias a produção de moinhos de café, moinhos de especiarias, máquinas para triturar grãos de gado, selaria, pequenas ferragens, relógios, habilidade e renda local estável.
Em outras localidades da mesma região, quando as fábricas monopolizavam certas peças de relógio, as oficinas passavam a produzir peças pequenas de bicicletas e depois de automóveis, criando um mundo de indústrias modernas e invenções destinadas a simplificar o trabalho manual, e Kropotkin encerra esse inventário citando, entre muitos exemplos omitidos, chapeleiros do Loire, papelaria da Ardèche, ferragens do Doubs, luveiros de Isère, vassouras e escovas do Oise e malharia doméstica perto de Troyes, antes de abrir a região de Lyon e depois Paris como centros maiores desse mesmo fenômeno.
No começo da seção sobre a região lionesa, Kropotkin descreve um centro industrial que ultrapassa a cidade de Lyon e alcança os departamentos do Rhône, Loire, Drôme, Saône-et-Loire, Ain, a parte meridional do Jura e o oeste da Savoia até Annecy, enquanto a criação do bicho-da-seda se prolonga até os Alpes, as montanhas Cévennes e as cercanias de Mâcon, formando uma área ampla, montanhosa e fértil, na qual a indústria se espalha por vales, aldeias e casas, com circulação contínua de pedidos, matérias-primas e saberes.
Essa região reúne planícies produtivas e extensas zonas de colinas que costumam conservar boa fertilidade, ainda que a neve cubra parte delas durante o inverno, e essa combinação obriga as populações rurais a buscar ocupação industrial além da lavoura, encontrada sobretudo na seda e em pequenas indústrias variadas, de modo que a vida local ganha forma em torno de uma alternância prática entre cultivo, ferramenta, família, mercado próximo, aprendizagem técnica e rendimento complementar durante os meses difíceis, quando a terra reduz o serviço diário e a casa preserva trabalho remunerado.
Para Kropotkin, a região lionesa aparece como centro particular da civilização e da arte francesas, com espírito de pesquisa, descoberta e invenção em direções científicas e industriais, e esse traço se torna visível na Croix Rousse, em Lyon, onde os canuts mantinham seu bairro principal, cobrindo a colina com casas altas de cinco, seis, oito e dez andares, cheias de oficinas domésticas nas quais o ruído dos teares marcava a atividade comum da grande aglomeração urbana e fazia da moradia parte do aparelho produtivo, ligando artesão, instrumento, vizinho e rua.
A eletricidade, introduzida recentemente a serviço dessa indústria doméstica, fornecia força motriz aos teares da Croix Rousse e mostrava que o progresso técnico não precisava concentrar o trabalhador numa fábrica única, enquanto ao sul de Lyon, na cidade de Vienne, ocorria processo diferente, pois o trabalho manual em tear desaparecia diante do shoddy, produto feito com trapos de lã, restos de tapetes, pó de cardagem e fiação vindo das fábricas de lã e algodão do norte da França, acrescido de pequena porção de algodão, sem apagar a escala doméstica do trabalho urbano.
Em Vienne, vinte e oito firmas restavam das cento e vinte existentes trinta anos antes, e o novo pano seguia em grande quantidade para as grandes cidades francesas, chegando a vinte mil jardas por dia destinadas às oficinas de roupas prontas, ao passo que os teares manuais caíam de quatro mil em 1870 para mil e trezentos em 1890, substituídos por grandes fábricas que empregavam mil e oitocentos trabalhadores e produziam também flanelas, chapéus de feltro, crina trabalhada e outros artigos próximos, em ritmo regular voltado ao vestuário barato cotidiano.
Ao mesmo tempo, enquanto a grande fábrica conquistava Vienne, seus subúrbios e arredores imediatos passavam a formar um centro vigoroso de horticultura e fruticultura, especialmente nas margens do Rhône entre Ampuis e Condrieu, uma das partes mais ricas da França por seus viveiros, jardins comerciais, pomares, vinhas e queijos de leite de cabra, e ali as indústrias caseiras conviviam com cultura inteligente do solo, como em Condrieu, conhecida pelos bordados feitos parte à mão e parte por máquina, ligando renda rural, alimento fresco, encomenda urbana, habilidade feminina e venda regional.
No oeste de Lyon, em l’Arbresles, Kropotkin encontra fábricas de seda e veludo já firmadas, e uma parte grande da população continua a trabalhar em casa, diante do tear doméstico, recebendo matéria-prima e pedidos sem abandonar o quadro da aldeia, enquanto Panissières, mais a oeste, aparece como centro de um grupo de povoados nos quais linho e seda passam pelas mãos de famílias camponesas, unindo oficina caseira, terreno pequeno, jardim, gado miúdo, ritmos rurais, pagamento por peça, disciplina familiar, prazo de entrega e ligação constante com os compradores regionais.
Nem cada trabalhador possui casa própria, e muitos dependem de arrendamento ou de um lote reduzido, e aqueles que conservam um pedaço de terra, um jardim ou duas vacas são descritos como relativamente acomodados, com lavouras bem cuidadas e hábitos rurais preservados pela renda industrial, quadro que reforça o argumento de Kropotkin a respeito da força social de uma combinação flexível entre lavoura e ofício sobre a concentração exclusiva em bairros fabris afastados da terra, da criação de animais, da horta familiar, das pequenas garantias materiais e dos períodos de baixa.
O principal centro industrial dessa parte da região lionesa era Tarare, conhecido desde o estudo de Reybaud sobre o algodão como cidade das musselinas, ocupando nessa especialidade posição parecida com a que Leeds tivera no comércio inglês de panos de lã, pois ali ficavam as fiações e as grandes casas de acabamento, enquanto a tecelagem das musselinas e o bordado correspondente seguiam para aldeias vizinhas, sobretudo nas zonas altas de Beaujolais e Forez, onde a casa rural recebia uma função produtiva precisa, regular, ligada ao gosto do mercado e próxima da lavoura.
Nesse período descrito por Reybaud, cada casa camponesa, cada fazenda e cada métairie podia funcionar como pequena oficina, e o observador via um rapaz de vinte anos bordando musselina fina depois de limpar os estábulos, com a delicadeza do trabalho preservada pela variedade das tarefas, pois a finura do bordado, a riqueza dos desenhos e a habilidade adquirida fora da fábrica eram traços distintivos das musselinas de Tarare e explicavam parte de seu êxito comercial em mercados exigentes e sensíveis à aparência do pano leve, diante de encomendas urbanas delicadas.
Mais tarde, a indústria passou por transformação profunda, e ainda sessenta mil pessoas, representando cerca de duzentas e cinquenta mil almas, trabalhavam para Tarare nas zonas de colinas, fazendo musselinas de várias espécies para mercados de muitas partes do mundo e ganhando por ano quatrocentas e oitenta mil libras, enquanto Amplepuis, apesar de suas próprias fábricas de seda e cobertores, continuava como um dos centros locais desse trabalho disperso, sustentado por aldeias, oficinas domésticas, rotas comerciais, hábitos camponeses persistentes e relações de crédito entre negociantes, mestres e famílias da região.
Ao lado de Amplepuis, Thizy aparecia como centro de forros, flanelas, serges peruanos, oxfords e outros panos mistos de lã e algodão, produzidos nas montanhas por camponeses, com três mil teares manuais espalhados por vinte e duas aldeias e cerca de seiscentas mil libras anuais em artigos variados, enquanto quinze mil teares mecânicos funcionavam em Thizy e Roanne, preparando o passo seguinte da fonte, no qual a fábrica vence em certos ramos e a indústria doméstica permanece viva em outros, com alcance suficiente para surpreender o observador atento na região.
Em Cours, Kropotkin registra uma vitória quase completa da fábrica no ramo dos cobertores mais baratos, feitos em grande parte para exportação ao Brasil, com peças vendidas por valores muito baixos e fabricadas a partir de trapos, varreduras e restos vindos de oficinas de juta, algodão, linho, cânhamo, lã e seda, numa indústria em que a reunião de resíduos variados, máquinas adequadas, compra em massa, classificação rápida de materiais e mercado distante favorecia a grande instalação e deixava pouco espaço ao trabalhador isolado, ao tear familiar e à oficina rural.
Roanne parecia confirmar essa força da produção concentrada, pois ali a fabricação de panos de algodão alcançava alto grau de perfeição e nove mil teares mecânicos produziam anualmente mais de trinta milhões de jardas, e nesse quadro Kropotkin observa com surpresa que a indústria doméstica seguia viva, entregando mais de dez milhões de jardas por ano, número bastante alto para provar que a máquina grande podia dominar uma parte do ramo sem apagar de imediato a oficina caseira, a encomenda rural, o ganho complementar, a habilidade dispersa e o saber manual local.
Nos arredores de Roanne, a malharia de fantasia havia crescido de modo súbito em três décadas, passando de apenas duas mil mulheres empregadas em 1864 para cerca de vinte mil no tempo observado por Dumazet, e essas trabalhadoras, sem abandonar por completo suas tarefas rurais, usavam pequenas máquinas de tricô para fabricar artigos variados de lã, cuja produção anual atingia trezentas e sessenta mil libras, valor que colocava trabalho feminino, casa camponesa, ferramenta leve, venda especializada, renda suplementar, aprendizagem prática, autonomia parcial e escala doméstica dentro de um circuito industrial moderno.
Kropotkin insiste que os ramos ligados aos panos estavam longe de esgotar a energia produtiva da região, pois dezenas de indústrias rurais seguiam existindo ao lado deles e quase cada uma melhorava seus processos à medida que as antigas formas perdiam lucro, como ocorreu quando a fabricação rural de cadeiras simples deixou de compensar e as aldeias passaram a produzir cadeiras elegantes e artigos de luxo, respondendo com adaptação, desenho novo, acabamento cuidadoso, escolha melhor de madeira, mudança de clientela, capacidade de aprender com a demanda e ferramentas adaptadas locais.
O ponto decisivo, para ele, era que essa parte da França mantinha aparência rural apesar das grandes indústrias e das minas de carvão, permanecendo entre as áreas mais bem cultivadas do país, com campos, jardins, pomares, leiterias e oficinas coexistindo de modo visível, e esse fato tornava insuficiente qualquer leitura que separasse rigidamente progresso industrial e vida agrária, pois a mesma população podia lidar com lavoura intensiva, invenções manuais, pequenas máquinas, encomendas urbanas, agricultura bem cuidada, criação de animais, organização familiar do trabalho e estações de menor atividade rural produtiva.
Daí vem sua admiração principal pela região lionesa, dirigida menos ao crescimento das grandes empresas, muitas vezes internacionais em suas origens, e mais às capacidades criadoras, inventivas e adaptáveis presentes na massa trabalhadora, percebidas a cada passo no campo, no jardim, no pomar, na leiteria, nas artes industriais e nas pequenas invenções práticas, razão pela qual ele entende que a riqueza francesa se apoiava em milhões de iniciativas locais, na ligação entre ofício e solo, na confiança acumulada e na inteligência popular antes de conduzir o leitor ao grande centro parisiense.
Ao entrar em Paris, Kropotkin muda a escala do exemplo francês, pois a capital aparece como o principal centro dos pequenos ofícios no país, reunindo ao lado das grandes fábricas uma variedade imensa de oficinas dedicadas a mercadorias de quase qualquer espécie, feitas tanto para o mercado interno quanto para a exportação, com uma vida industrial que não se limita a massas uniformes de produção e depende de encomendas, gosto urbano, habilidade de acabamento, rapidez de resposta, adaptação constante, contato direto com compradores, circulação diária de novidades e reputação comercial.
Os números citados dão força ao argumento, pois nas noventa e oito mil fábricas e oficinas parisienses a média de trabalhadores era inferior a seis pessoas, enquanto as oficinas com menos de cinco operários reuniam quase o dobro das pessoas empregadas nos estabelecimentos maiores, quadro que fazia da cidade uma formação industrial composta por milhares de unidades pequenas e muito ativas, capazes de coexistir com empresas amplas sem desaparecer de imediato no interior da capital, entre ruas, pátios, andares altos, lojas especializadas, depósitos, salas de encomenda e fundos de moradia.
Paris surge então como uma colmeia de trabalho, onde centenas de milhares de homens e mulheres fabricavam em oficinas estreitas uma quantidade enorme de artigos que exigiam habilidade, gosto e invenção, desde objetos de uso comum até peças destinadas ao luxo ou à exportação, e esse ambiente favorecia a especialização rápida, a circulação de novidades, o aprendizado entre vizinhos, a atenção às preferências do comprador, a capacidade de alterar formas sem esperar ordens de uma grande direção, a busca permanente por acabamento reconhecível e a resposta ágil à moda urbana.
Para Kropotkin, essas oficinas pequenas, louvadas pelo acabamento artístico e pela rapidez do serviço, estimulavam as faculdades mentais dos produtores, e a reputação intelectual do trabalhador parisiense vinha em parte do próprio caráter do trabalho, que exigia gosto artístico, destreza, invenção desperta, criação de novos modelos e aperfeiçoamento constante dos processos técnicos, pois o artesão precisava resolver problemas de forma, ferramenta, material, prazo, preço, apresentação e utilidade dentro do ritmo vivo da cidade, com aprendizagem diária, comparação contínua entre soluções rivais, julgamento direto do cliente e memória profissional bem treinada.
A comparação com Viena e Varsóvia reforça a leitura, já que populações trabalhadoras muito desenvolvidas também pareciam ligadas à presença de indústrias pequenas capazes de estimular invenção e inteligência prática, e a Galeria do Trabalho nas exposições parisienses oferecia uma prova visível dessa diversidade, mostrando, em um só espaço, a variedade dos pequenos ofícios presentes nas cidades francesas e a capacidade inventiva dos trabalhadores que produziam peças delicadas, úteis e bem acabadas, com soluções próprias para cada ramo, cada ferramenta, cada comprador, cada uso esperado, cada material e cada escala.
A pergunta levantada por Kropotkin é direta: essa habilidade e essa inteligência deveriam ser varridas pela fábrica, em vez de se tornarem fonte fértil de progresso sob uma organização melhor da produção, ou a independência inventiva do trabalhador deveria ceder à uniformidade fabril, quando a pequena indústria parisiense ainda lutava por sua manutenção e demonstrava vitalidade por meio de inúmeras ferramentas-máquina inventadas continuamente pelos próprios trabalhadores para melhorar e baratear o produto, preservar margem de ação, responder ao mercado, manter iniciativa técnica, renovar os ofícios e defender sua utilidade.
Depois de apresentar Paris como centro de habilidade manual, Kropotkin observa que a vitalidade dos pequenos ofícios aparecia também nos motores exibidos nas últimas mostras da Galeria do Trabalho, pois a busca de uma força barata para oficinas reduzidas se tornara uma das questões práticas do tempo, e em 1889 já eram apresentados motores de apenas quarenta e cinco libras de peso, incluindo a caldeira, pensados para dar autonomia mecânica ao artesão, ao grupo familiar, à pequena sala de produção, ao estabelecimento urbano de poucos homens e à oficina sem capital volumoso.
Outra resposta vinha dos engenheiros do Jura, antigos relojoeiros formados no trabalho minucioso, que fabricavam em suas próprias oficinas pequenos motores de dois cavalos, solução coerente com a tradição técnica da região e com a necessidade de dividir a força motriz em unidades manejáveis, ao lado de experiências com água, gás e eletricidade, cada uma tentando levar potência regular à bancada, ao tear, à ferramenta de corte, à polidora e à máquina leve sem exigir a concentração completa numa grande fábrica distante do bairro, da clientela e do mestre local.
A transmissão de vapor realizada pela Société des Immeubles industriels para duzentas e trinta pequenas oficinas era citada no mesmo sentido, pois fornecia energia comum a espaços separados e mostrava uma alternativa entre isolamento artesanal e fábrica gigantesca, enquanto engenheiros franceses procuravam novos meios de transmitir e subdividir força por ar comprimido, cabos tele-dinâmicos e eletricidade, recursos que indicavam uma luta técnica concreta da pequena indústria para conservar terreno diante da concorrência fabril, com instrumentos compatíveis com oficinas de escala reduzida, encomendas variáveis, máquinas especializadas e baixo custo local.
Kropotkin passa então do exemplo parisiense à necessidade de dados gerais, afirmando que aquelas eram as pequenas indústrias francesas vistas por observadores no lugar onde viviam, e que seria precioso conhecer sua extensão por números exatos e comparar seu peso com o das grandes empresas, pois a discussão corrente ficava pobre quando se limitava a previsões abstratas sobre desaparecimento inevitável, sem medir a presença real das oficinas menores, dos artesãos independentes, dos grupos familiares de produção, das unidades que misturavam ofício e moradia, das ocupações descontínuas dentro das cidades ativas.
A oportunidade vinha do censo geral das indústrias francesas feito em 1896, cujos resultados completos tinham sido publicados em obra estatística de grande alcance, e Kropotkin destacava no quarto volume a síntese escrita por Lucien March, preferindo remeter parte dos detalhes ao apêndice para evitar repetição do que já dissera sobre a distribuição britânica, já que os dois países revelavam semelhanças fortes na convivência entre grandes unidades, oficinas médias, pequenos estabelecimentos, trabalho independente, emprego instável registrado pela contagem oficial e formas intermediárias de produção pouco visíveis nas médias gerais oficiais.
O primeiro ponto do censo separava os artesãos independentes que trabalhavam sem empregado fixo e os homens e mulheres sem ocupação permanente no dia da contagem, e após descontar os estabelecimentos agrícolas, Kropotkin reunia nessas divisões cerca de quinhentos e vinte mil e setecentos estabelecimentos e um milhão, oitenta e quatro mil e setecentas pessoas, preparando a tabela seguinte sob a rubrica de ausência de operários contratados e abrindo a comparação direta com as fábricas pequenas, médias e grandes da indústria francesa, em termos de casas produtivas e pessoas ocupadas.
A tabela construída a partir do censo francês de 1896 começa pela categoria sem operários contratados, com quinhentos e vinte mil e setecentos estabelecimentos e um milhão, oitenta e quatro mil e setecentas pessoas, e em seguida mostra que a faixa de um a dez empregados reunia quinhentos e trinta e nove mil, quatrocentos e quarenta e nove estabelecimentos e um milhão, cento e trinta e quatro mil e setecentos trabalhadores e empregados administrativos, conjunto decisivo para medir a escala real da pequena indústria francesa, sua base cotidiana e sua força operária.
As faixas seguintes diminuíam rapidamente em número de estabelecimentos, pois entre onze e cinquenta empregados havia vinte e oito mil, seiscentos e vinte e seis casas produtivas e quinhentas e oitenta e cinco mil pessoas, entre cinquenta e um e cem havia três mil, oitocentos e sessenta e cinco estabelecimentos e duzentas e sessenta e oito mil pessoas, e entre cento e um e quinhentos havia três mil, cento e quarenta e cinco estabelecimentos com seiscentas e dezesseis mil pessoas, indicando concentração crescente de mão de obra em casas médias.
Na parte superior da escala, a concentração aparecia com mais nitidez num número muito menor de casas, já que os estabelecimentos de quinhentos e um a mil empregados eram apenas duzentos e noventa e cinco, com cento e noventa e cinco mil pessoas, enquanto aqueles com mais de mil empregados eram cento e quarenta e nove, reunindo trezentas e treze mil pessoas, e o total industrial alcançava um milhão, noventa e seis mil, duzentos e vinte e nove estabelecimentos e quatro milhões, cento e noventa e seis mil e quatrocentas pessoas.
Para Kropotkin, esses números falavam por si mesmos e davam à pequena indústria uma importância imensa na França, pois a soma das unidades sem empregados contratados e das oficinas de um a dez empregados ultrapassava de modo esmagador a contagem dos grandes estabelecimentos, e o detalhamento por ramos, remetido ao apêndice, mostraria a mesma semelhança com o Reino Unido que ele já havia observado, além de preparar a comparação com a Alemanha no capítulo seguinte da obra e reforçar o peso das oficinas menores na produção nacional e urbana francesa.
A comparação histórica era desejável, embora March advertisse que nenhuma estatística anterior a 1896 oferecia conhecimento completo daquela distribuição, e ele ainda trabalhou um inquérito feito entre 1840 e 1845 para os estabelecimentos mais importantes, com mais de cinquenta trabalhadores, encontrando três mil e trezentos deles em 1840, contra sete mil e quatrocentos em 1896, quando já ocupavam mais de cinquenta e cinco por cento do pessoal industrial contabilizado pelo levantamento, sinal de crescimento real das unidades maiores, médias e organizadas por força contratada em ramos centrais do período francês.
March também verificou que os estabelecimentos com mais de quinhentas pessoas, cento e trinta e três em 1840 e responsáveis por seis por cento dos trabalhadores, haviam chegado a quatrocentos e quarenta e quatro em 1896 e reuniam dezesseis por cento do pessoal, e sua conclusão era que ocorrera concentração notável nas grandes casas sem impedir a manutenção de uma massa de pequenas empresas, cuja dimensão média aumentava muito lentamente, ponto que levava Kropotkin a tratar a palavra concentração com cautela crítica, alcance parcial e sentido limitado nos próprios dados.