Campos, Fábricas e Oficinas: Capítulo V - As Possibilidades da Agricultura (continuação)
O Capítulo V prolonga a discussão agrícola deslocando o olhar dos campos de trigo, das batatas e dos prados irrigados para a horticultura intensiva e a fruticultura, duas formas de cultivo que, segundo Kropotkin, deixavam de pertencer a alguns jardins pequenos e passavam a ocupar superfícies cada vez maiores, com rapidez capaz de modificar a própria ideia de produção rural, pois a lavoura de mercado, já apresentada antes em seus casos parisienses, mostrava agora expansão em escala nacional e internacional, apoiada por trabalho minucioso, transporte regular e adaptação local constante.
Na Inglaterra, a área dedicada a jardins comerciais havia mais que dobrado entre 1879 e 1894, alcançando oitenta e oito mil duzentos e dez acres e continuando a crescer depois disso, embora Kropotkin destacasse França, Bélgica e América como os territórios onde esse ramo da cultura avançava com vigor especial, criando uma paisagem agrícola em que habilidade manual, proteção climática, escolha de variedades e transporte rápido valiam tanto quanto a posse de grandes extensões de terra, e muitas vezes decidiam melhor o resultado da colheita vendida nas cidades próximas consumidoras.
A França aparecia com números especialmente expressivos, pois um milhão e setenta e cinco mil acres já eram destinados à horticultura de mercado e à fruticultura intensiva, e o rendimento médio de cada acre nessas culturas fora estimado em trinta e três libras e dez xelins, valor que não servia apenas como cifra de renda, já que indicava a transformação de pequenos espaços em unidades densas de trabalho, técnica, colheita escalonada e circulação de alimentos frescos para cidades próximas ou distantes, dentro de um sistema agrícola muito mais ativo e atento.
Roscoff, na Bretanha, oferecia um dos exemplos mais vivos dessa transformação, pois uma região de vinte e seis milhas de diâmetro estava quase inteira dedicada a batatas que se conservavam até o fim do verão e a diversas hortaliças enviadas à Inglaterra, com aluguéis que alcançavam e superavam cinco libras por acre, enquanto quase trezentos vapores passavam pelo porto para embarcar batatas, cebolas e outros produtos rumo a Londres, a outros portos ingleses e até Newcastle, convertendo uma costa agrícola em ponto permanente de abastecimento urbano estrangeiro regular durante a estação.
O mesmo centro bretão enviava ainda quatro mil toneladas anuais de hortaliças para Paris, e a qualidade natural de seu clima quente era reforçada por uma construção paciente do ambiente, pois pequenos muros de pedra eram erguidos por toda parte e juncos cresciam sobre eles para oferecer proteção e calor adicionais às plantas, mostrando que, para Kropotkin, melhorar a terra também significava melhorar o clima imediato que envolve a cultura, em vez de esperar passivamente pela estação favorável, como se o agricultor nada pudesse acrescentar ao lugar cultivado diariamente com cuidado.
Nos arredores de Cherbourg, a melhor produção vinha de terras conquistadas ao mar, com mais de oitocentos acres entregues a batatas exportadas para Londres, quinhentos acres a couve-flor, cento e vinte e cinco a couve-de-bruxelas e outras parcelas a culturas variadas, enquanto batatas sob vidro chegavam ao mercado londrino desde meados de abril, Barfleur enviava volumes próprios, e a pequena Surtainville tirava duas mil e oitocentas libras de cento e oitenta acres de jardins, colhendo repolho em fevereiro, batatas temporãs em seguida e novos cultivos no outono, além de aproveitar cultivos intercalares.
Plougastel aparece em Kropotkin como um lugar que surpreende dentro da Bretanha, pois ali já se cultivavam melões ao ar livre, protegidos da geada de primavera por armações de vidro, enquanto ervilhas verdes cresciam sob a defesa de fileiras de tojo contra os ventos do norte, e essa combinação de clima trabalhado, proteção simples e escolha de plantas preparou uma paisagem na qual campos inteiros acabaram cobertos por morangos, rosas, violetas, cerejas e ameixas até a beira do mar, dando ao litoral uma fisionomia de jardim produtivo permanente e variado.
A transformação não se limitava às terras já estimadas, pois as charnecas eram retomadas para a cultura e se dizia que em poucos anos deixariam de existir nessa região, ao passo que os pântanos do Dol, protegidos do mar por uma muralha e chamados de Holanda da Bretanha, tinham sido convertidos em jardins de mercado cobertos por couve-flor, cebola, rabanete, feijão e outros produtos, com aluguel por acre que alcançava valores antes impensáveis para áreas desse tipo, provando que a conquista agrícola podia avançar sobre terras desprezadas pela rotina antiga.
Nos arredores de Nantes, as ervilhas verdes eram cultivadas em escala vasta e, durante maio e junho, uma multidão de trabalhadores, sobretudo mulheres e crianças, se lançava à colheita, enquanto as estradas que conduziam às grandes fábricas de conserva ficavam tomadas em certas horas por carroças carregadas de ervilhas e cebolas em uma direção e por outras carroças trazendo de volta as vagens vazias destinadas ao esterco, revelando uma circulação contínua entre campo, fábrica, resíduo e adubação futura para novas safras de hortaliças nas mesmas terras intensamente cultivadas a cada ano.
Esse movimento sazonal marcava a vida das famílias camponesas, pois por dois meses as crianças faltavam às escolas e, quando se discutia algum gasto doméstico na vizinhança, a frase habitual mandava esperar pela estação das ervilhas verdes, sinal de que a horticultura de mercado já organizava calendário, renda, trabalho familiar, circulação de matéria orgânica e relação com a indústria de conserva, ligando o campo ao processamento dos alimentos em ritmo intenso e fazendo da colheita uma referência social para toda a comunidade local de produtores, crianças e trabalhadores assalariados rurais.
Ao redor de Paris, a escala se tornava ainda maior, com cinquenta mil acres dedicados ao cultivo de hortaliças em campo aberto e vinte e cinco mil acres entregues ao cultivo forçado dessas mesmas plantas, e Kropotkin observa que, sessenta anos antes, os horticultores já pagavam aluguéis anuais de dezoito a vinte e quatro libras por acre, valores que continuaram a crescer juntamente com a receita bruta obtida por quem dominava essa agricultura próxima da cidade, dependente de habilidade, rapidez, adubo constante e venda em mercado exigente diário de alimentos frescos.
Courtois Gérard avaliava a receita dos grandes horticultores em duzentas e quarenta libras por acre, enquanto os menores, que produziam hortaliças temporãs em armações, podiam obter o dobro, e essa diferença introduz o ponto central do capítulo, pois a proximidade urbana, o uso intensivo de vidro, a colheita antecipada e o cuidado contínuo permitiam que pequenas áreas alcançassem resultados muito superiores aos da lavoura extensiva, preparando a passagem para a fruticultura de Montreuil e para os demais centros franceses, onde muros, pomares e solos refeitos ampliam a mesma demonstração prática.
A fruticultura dos arredores de Paris aparece em Kropotkin com força quase teatral, sobretudo em Montreuil, onde setecentos e cinquenta acres pertencentes a quatrocentos jardineiros estavam literalmente cobertos por muros de pedra erguidos para sustentar árvores frutíferas, formando uma extensão total de quatrocentas milhas de paredes produtivas, sobre as quais se espalhavam pessegueiros, pereiras e videiras, capazes de entregar todos os anos cerca de doze milhões de pêssegos, além de grande quantidade das melhores peras e uvas da região, cultivadas com direção cuidadosa dos ramos e do calor acumulado nas pedras.
Nessas condições, cada acre podia render cinquenta e seis libras, e Kropotkin via aí uma demonstração concreta de como se fabricava um clima mais quente antes de a estufa se tornar recurso acessível, pois as paredes absorviam calor, protegiam as plantas e davam aos jardineiros um modo de antecipar e qualificar a produção, enquanto mil duzentos e cinquenta acres próximos de Paris já eram dedicados apenas aos pêssegos, entregando vinte e cinco milhões de frutos por ano aos mercados urbanos que cercavam a capital francesa e seus bairros consumidores próximos.
A mesma vizinhança parisiense possuía extensões cobertas por pereiras que davam de três a cinco toneladas de fruta por acre, vendidas a cinquenta ou sessenta libras, e em Angers, às margens do Loire, onde as peras amadureciam oito dias antes que nos subúrbios de Paris, Baltet conhecia um pomar de cinco acres, plantado com pereiras em forma de pirâmide, que produzia quatrocentas libras por ano, enquanto outra plantação distante trinta e três milhas de Paris rendia vinte e quatro libras por acre depois de descontados embalagem, transporte e venda final.
As ameixeiras completavam esse quadro de abundância próxima da cidade, pois Paris consumia anualmente oitenta mil quintais de ameixas, e essas plantações davam renda de vinte e nove a quarenta e oito libras por acre, sem impedir que peras, ameixas e cerejas chegassem frescas, suculentas e a preço acessível aos pobres, ponto que interessa especialmente a Kropotkin, porque a cultura intensiva aparece como renda elevada para produtores habilidosos e também como modo de ampliar o acesso popular a fruta cultivada em casa, sem longa dependência externa nem luxo exclusivo de mesa.
Em Anjou, a argila pesada foi corrigida com areia retirada do Loire e com esterco até formar, perto de Angers e sobretudo em Saint Laud, um solo capaz de pagar aluguéis de duas libras e dez xelins a cinco libras por acre e de produzir frutas exportadas para a América, enquanto Bennecour, pequena aldeia de oitocentos e cinquenta habitantes perto de Paris, transformou encostas antes usadas para extrair pedra de calçamento em plantações de damasqueiros, cerejeiras, groselheiras negras, aspargos, ervilhas e outras culturas lucrativas destinadas ao mercado próximo da capital.
A sequência francesa prossegue com Perpignan, onde alcachofras verdes eram cultivadas de outubro a junho em dois mil e quinhentos acres, com receita líquida estimada em trinta e duas libras por acre, com o centro da França, onde a alcachofra ao ar livre podia valer quarenta e oito a cem libras por acre, com o Loiret, onde mil e quinhentos jardineiros e milhares de trabalhadores produziam centenas de milhares de libras em hortaliças e gastavam sessenta mil libras anuais em esterco, e com Lyon, Amiens e Orléans, cujos arredores abasteciam cidades industriais e até enviavam árvores jovens à América.
Kropotkin afirma que seria preciso um volume inteiro para descrever os principais centros franceses de horticultura de mercado e fruticultura, e por isso escolhe ainda uma região onde legumes e frutas caminham juntos, nas margens do Rhône, perto de Vienne, em uma faixa estreita de terra parcialmente formada por rochas graníticas que, depois de mudanças forçadas pela destruição dos vinhedos pela filoxera, tornou-se um jardim de riqueza impressionante, no qual a aldeia de Ampuis ganhou fama pelos damascos e deu sinal de nova orientação agrícola para todo o vale cultivado.
Ao longo de cem milhas do Rhône e dos vales laterais do Ardèche e do Drôme, a paisagem descrita por Ardouin Dumazet aparece como pomar contínuo, exportando frutas em valores elevados e alcançando preço de venda da terra entre trezentas e vinte e cinco e quatrocentas libras por acre, enquanto pequenos lotes eram recuperados para a cultura em cada rochedo, com damasqueiros e cerejeiras às margens das estradas e, entre suas fileiras, feijões temporãos, ervilhas, morangos e toda sorte de hortaliças precoces destinadas às cidades industriais próximas do vale e das estradas.
Na primavera, o perfume das flores de damasco se espalhava por todo o vale, e logo se sucediam morangos, cerejas, damascos, pêssegos e uvas, ao mesmo tempo que carroças carregadas de feijões, saladas, repolhos, alhos-porós e batatas seguiam para as cidades industriais da região, numa abundância cuja quantidade e valor Kropotkin considera impossível estimar com precisão, bastando lembrar que a pequena comuna de Saint Désirat exportava, durante a visita de Dumazet, cerca de dois mil quintais de cerejas por dia em plena estação de colheita madura e abundante do vale.
Os resultados gerais desse desenvolvimento francês aparecem em seguida por meio de uma investigação de 1906 feita por professores de agricultura, na qual a exportação anual de flores frescas dos Alpes Marítimos chegava a quatrocentas mil libras, enquanto as flores usadas na produção de perfumes acrescentavam de duzentas e oitenta mil a trezentas e vinte mil libras, e o departamento do Var exportava, em 1902, três mil quatrocentas e setenta e cinco toneladas de flores avaliadas entre cento e sessenta mil e duzentas mil libras anuais em vendas externas de alto valor.
Kropotkin passa então para a Bélgica, onde a exportação de hortaliças havia duplicado nos últimos vinte anos do século XIX e regiões inteiras, como Flandres, reivindicavam o papel de jardim de mercado da Inglaterra, a ponto de uma sociedade hortícola distribuir gratuitamente sementes das hortaliças preferidas pelos consumidores ingleses para ampliar as vendas externas, enquanto terras boas, areias das Ardenas, turfeiras e grandes planícies irrigadas eram orientadas para o mesmo fim por escolas, fazendas experimentais, estações pequenas, aulas noturnas, comunas, sociedades privadas e Estado nacional belga organizado para apoiar a horticultura.
Os exemplos belgas completam a demonstração com comunas que exportavam milhares de toneladas de batata e milhares de libras em peras para Stratford e a Escócia, mantinham linhas próprias de vapores, abasteciam o norte da França e as províncias renanas com morangos, enviavam parte da produção a Covent Garden, aumentavam a renda com cenouras temporãs cultivadas entre linho, cevada e papoulas brancas, pagavam aluguéis altos por cebolas e até dispensavam solo natural nas armações, preferindo fabricar a própria terra com serragem, resíduos de curtume, pó de cânhamo e compostos diversos.
O segundo país que Kropotkin apresenta aos horticultores é a América, porque a abundância de frutas recebidas dos portos americanos podia levar o leitor europeu a imaginar uma fertilidade espontânea, entregue ao clima belo, ao solo virgem e à vastidão disponível, quando a realidade observada pelo autor era outra e exigia atenção prática: a horticultura, tomada ao mesmo tempo como jardinagem de mercado e cultivo de frutas, tinha alcançado ali um grau alto de aperfeiçoamento, feito de observação, seleção, transporte organizado, adaptação regional e métodos que convertiam a distância em parte do processo produtivo.
A prova escolhida vem de Norfolk, na Virgínia, onde Baltet, jardineiro formado na tradição dos marais de Troyes, descreveu as truck farms como propriedades-modelo, elogio que tinha peso por vir de alguém habituado desde a infância a medir o trabalho real da horta contra qualquer fantasia de maçãs de ouro brotando por encanto, e essa imagem interessa a Kropotkin porque desloca a discussão para o terreno concreto: por trás das cargas que chegavam ao mercado havia disciplina de cultivo, preparo de solo, escolha de variedades, ritmo de colheita e ligação calculada com navios e ferrovias.
O caso canadense reforça o mesmo ponto no cultivo de maçãs, pois os produtores recebiam ajuda das fazendas experimentais, testavam variedades, difundiam informação técnica e organizavam meios amplos para entregar árvores frutíferas novas aos agricultores, numa escala que Kropotkin contrapunha à explicação preguiçosa segundo a qual a vantagem americana nasceria da mão de alguma fada agrícola, e o contraste servia para advertir a Inglaterra: uma pequena parte daquele apoio, se aplicada com seriedade, já teria bastado para impedir que a fruta inglesa fosse empurrada para fora de seu próprio mercado.
A extensão desse movimento era enorme e não se limitava a exemplos isolados, porque as truck farms dos Estados Unidos, isto é, as propriedades voltadas ao envio por trem ou vapor, cobriam em 1892 cerca de quatrocentos mil acres, e até às portas de Chicago uma única fazenda de jardinagem de mercado ocupava quinhentos acres, dos quais cento e cinquenta eram destinados aos pepinos e cinquenta às ervilhas tempranas, revelando uma combinação de escala, especialização temporária e circulação rápida que fazia da horta intensiva uma força urbana e regional ao mesmo tempo.
Durante a Exposição de Chicago, um trem especial de morangos formado por trinta vagões levava todos os dias trezentos e vinte e quatro mil quartos da fruta recém-colhida, e Nova York chegava a receber, em certos dias, mais de dez mil bushels de morangos, três quartos deles vindos das truck farms da Virgínia por vapor, quadro que Kropotkin usa para mostrar a potência de uma agricultura associada a meios técnicos de transporte, conservação relativa, informação de mercado, pontualidade comercial e coordenação de entregas em escala impossível para a pequena horta isolada.
O argumento final desse bloco é que a jardinagem americana não devia ser lida como milagre natural nem como simples triunfo da terra vasta, e sim como resultado de uma associação inteligente entre agricultura e indústria, capaz de ligar conhecimento experimental, produção intensiva, redes de envio e consumo urbano em um só movimento, razão pela qual Kropotkin via ali uma tendência com futuro ainda maior: o cultivo próximo ao mercado podia crescer quando aceitava a ajuda da técnica e da organização coletiva, preservando a delicadeza da horta enquanto ganhava alcance de sistema produtivo moderno.
Depois das hortas americanas, Kropotkin passa a uma conquista que muda a própria dependência do cultivo em relação ao clima: a produção de frutas e legumes sob vidro, nascida de antigas estufas aristocráticas e transferida aos poucos para a horta comercial, onde a proteção transparente deixava de servir apenas ao luxo das mansões e começava a abrigar produtos comuns, destinados ao consumo amplo, com uma regularidade que a estação ao ar livre raramente podia oferecer aos mercados urbanos em meses frios, úmidos ou instáveis, quando preço, frescor e continuidade pesavam sobre a mesa popular.
O ponto decisivo estava no progresso dos ofícios e das máquinas, porque o vidro mais barato, as armações cortadas em série, as barras ajustadas com precisão e a carpintaria feita por meios modernos permitiram construir casas de cultivo fora do padrão dispendioso das coleções senhoriais, preservando as estufas ricas para frutas raras e flores delicadas, enquanto ao lado delas surgia uma estufa popular, aquecida apenas por alguns meses de inverno ou mantida fria como grande abrigo de vidro para legumes ordinários, com gastos menores e manejo ao alcance do produtor atento.
Nessas casas frias, a batata, a cenoura, o feijão-verde, a ervilha e outras plantas de cozinha recebiam o calor solar que passava pelo vidro e ficava retido no interior durante a primavera e o começo do verão, formando um ambiente muito superior ao campo aberto, e daí nascia uma jardinagem de mercado sob vidro que avançava depressa, sem depender de artifício raro, pois usava o próprio abrigo físico como multiplicador de luz, calor e antecipação da colheita, aproximando produto fresco, demanda cotidiana e renda estável para o cultivador cuidadoso local.
Kropotkin atribui origem britânica, talvez escocesa, a essa estufa comercial, lembrando que Rivers já publicara em 1851 um livro sobre casas de pomar e árvores frutíferas em vasos sob vidro, e recolhe de Thomson a notícia de uvas vendidas no norte da Inglaterra, muitos anos antes, a vinte e cinco xelins por libra em fevereiro, parte delas enviada depois a Paris para a mesa de Napoleão Terceiro, onde alcançavam cinquenta xelins por libra, preço que revelava a raridade inicial do processo e a distância entre experimento caro e prática corrente consolidada.
O contraste com o tempo de Kropotkin era forte, pois as mesmas uvas já custavam a décima ou vigésima parte daqueles preços, prova condensada na frase do próprio Thomson, carvão barato, uvas baratas, e a paisagem inglesa confirmava a mudança: vinhedos sob vidro e grandes casas de flores existiam havia tempo, enquanto campos inteiros eram cobertos em Cheshunt, Broxburn, Finchley, Bexley, Swanley e Whetstone, além de numerosos estabelecimentos escoceses que ampliavam a oferta, estabilizavam o calendário de venda, treinavam mão de obra especializada e reduziam a distância entre luxo e abastecimento comum.
Worthing aparecia como centro conhecido de uvas e tomates, ao passo que Upper Edmonton, Chelsea, Orpington e outros lugares mantinham reputação mundial em flores e samambaias, e a tendência indicada por Kropotkin tinha duas direções complementares: levar a cultura da uva ao maior refinamento possível e cobrir área após área com vidro para tomates, feijões-verdes e ervilhas, preparação visível para que legumes ainda mais simples entrassem no mesmo regime produtivo e ocupassem o mercado antes reservado a produtos delicados de preço alto, com oferta mais regular e técnicas cada vez mais seguras.
Nas Ilhas do Canal, Kropotkin encontra a forma mais concentrada dessa agricultura sob vidro, porque Jersey e Guernsey haviam convertido pequenas extensões de terra em oficinas vegetais de rendimento intenso, ligadas ao mercado inglês por transporte rápido e por um calendário de colheitas antecipadas, e a visita ao estabelecimento de Bashford, em Jersey, permitia medir com números a passagem da estufa de luxo para a produção corrente de uvas, tomates, ervilhas, melões, batatas novas e flores comerciais, todos colocados no mesmo raciocínio de abastecimento popular e cultivo intensivo regular durante o ano.
O estabelecimento de Bashford cobria, segundo a descrição recolhida por Kropotkin, quatrocentos e noventa mil pés quadrados de vidro, cerca de treze acres, enquanto outras sete acres eram ocupadas ao ar livre por morangos e batatas, e a maior casa media novecentos pés de comprimento por quarenta e seis de largura, quase um acre coberto, apoiado por muros de granito, pilares de ferro, barras fortes, ventilação cuidadosa e vidro espesso bastante para receber o granizo sem se partir a cada tempestade, detalhe que mostra uma construção sólida e comercialmente calculada.
A surpresa do autor está menos no tamanho do empreendimento que no custo de construção, pois aquela casa principal teria ficado abaixo de um xelim por pé quadrado de superfície coberta, enquanto casas comuns podiam ser levantadas em Jersey por cinco a nove pence o pé, preço que explicava a multiplicação das estruturas frias ou levemente aquecidas e tornava compreensível a entrada de produtores de menor capital em um ramo antes reservado ao ornamento caro das residências ricas e às coleções particulares de prestígio social rural entre proprietários abastados locais.
As colheitas de 1890 indicavam a produtividade do sistema: uvas cortadas desde o terceiro dia de maio até outubro, dez toneladas de uvas obtidas de quatro acres apenas, ervilhas colhidas em abril e depois substituídas por tomates, vinte mil pés de tomate dando cerca de oitenta toneladas, melões ocupando outro espaço e, fora do vidro, batatas novas e morangos mantendo a rotação, numa sequência que fazia cada metro servir mais de uma vez dentro do mesmo ano de trabalho, sem deixar a superfície parada por longos intervalos improdutivos entre uma safra e outra.
O custo anual também era tratado com a mesma precisão, pois Kropotkin registra cerca de mil toneladas de coque queimadas no estabelecimento, ao preço de dezesseis xelins cada uma, além do emprego de trinta e seis homens e meninos no verão e vinte e quatro no inverno, ou seja, uma força de trabalho pequena diante do volume de alimento e fruta obtido, sinal de que o vidro, o calor regulado e a organização do cultivo multiplicavam o resultado sem exigir latifúndio nem dispersão rural de baixa produtividade permanente nas redondezas.
Rider Haggard acrescentava outro dado ao quadro ao observar vinhedos menores em Jersey, com apenas três quartos de acre sob vidro, capazes de produzir dez toneladas de uvas e tomates, de modo que Kropotkin podia sustentar a conclusão central do capítulo: quando ciência prática, construção barata e proximidade de mercado se juntavam, a terra limitada deixava de ser obstáculo decisivo e passava a ser aproveitada com uma intensidade que o cultivo extensivo sequer imaginava alcançar, convertendo pequena área em fonte estável de produção variada anual para venda imediata nos portos próximos.
Em Guernsey, Kropotkin encontra o laboratório mais claro da simplificação da estufa, porque ali a construção de vidro já não pertencia a alguns empresários isolados, e sim à paisagem ordinária da ilha, espalhada pelos subúrbios de St Peter, pelos campos, pelos declives diante do porto e pelas propriedades pequenas, onde cada agricultor se tornava, em alguma medida, jardineiro prático, inventor de abrigos baratos e participante de uma geração treinada pela necessidade de tirar muito alimento de pouca terra, sem esperar território amplo nem privilégios especiais vindos de fora da própria comunidade local.
A descrição insiste nesse caráter popular da técnica: estufas grandes e pequenas apareciam por toda parte, algumas levantadas atrás de árvores, outras empilhadas nas encostas íngremes que olhavam para o porto, e o valor do exemplo estava em mostrar que o vidro podia deixar de ser peça de ostentação para converter-se em instrumento comum de trabalho, adaptado ao bolso, ao terreno e à habilidade manual de quem precisava produzir para mercados próximos e exigentes, com regularidade suficiente para sustentar famílias e oficinas agrícolas durante toda a temporada de maior procura.
Muitas dessas casas quase não tinham parede dianteira nem traseira, pois os telhados de vidro desciam baixo e a faixa frontal, com dois ou três pés, chegava até o chão, enquanto em outros casos a lâmina inferior era simplesmente mergulhada em uma calha de madeira cheia de areia, solução rústica, direta e reveladora de um meio agrícola que aprendia construindo, corrigindo e reduzindo gasto sem esperar autorização de modelos acadêmicos ou de capitais enormes, preservando somente o que servia ao cultivo diário e à proteção das plantas jovens contra vento e frio.
Havia casas com apenas duas ou três tábuas horizontais no lugar da parede de pedra usual, e Kropotkin observou também construções de uma grande companhia erguidas quase coladas umas às outras, sem divisórias internas, sistema que ele julgava inconveniente, porque a circulação do ar sobre todo o conjunto ficava mal regulada, razão pela qual, em sua revisita de 1903, valorizou mais os longos abrigos de dois telhados, colocados lado a lado e separados por divisões que protegiam cada unidade e permitiam manejo próprio de temperatura, umidade, ventilação, poda e colheita em cada casa.
Na propriedade Grande Maison, as estufas frias extensas eram feitas por uma companhia e alugadas aos jardineiros por tanto a cada cem pés, com material simples de tábua fina e vidro, sistema de um só telhado inclinado, parede posterior de dez pés de altura e laterais de tábuas encaixadas em ranhuras, tudo sustentado por montantes fixados em pilares de concreto, estrutura que custava, segundo a informação recebida, cerca de cinco pence por pé quadrado de chão coberto por vidro, valor baixo para um instrumento produtivo durável, repetível, acessível e comum.
Mesmo essas casas pobres davam resultados excelentes, pois batatas e ervilhas saíam delas com qualidade alta, e em Jersey Kropotkin vira uma fileira de cinco casas de paredes em ferro corrugado, feitas por poupança de material e reconhecidas pelo próprio dono como frias demais no inverno e quentes demais no verão, embora, em menos de um quinto de acre, já tivessem vendido duas mil libras de ervilhas na primeira colheita e mantivessem mil e quinhentos pés de tomate em bom andamento no começo de junho, prontos para novo rendimento antes do verão pleno.
Depois de descrever a construção barata das casas de vidro, Kropotkin passa ao ponto mais difícil de publicar sem trair a confiança dos cultivadores: os retornos em dinheiro, matéria na qual ele lembra duas reservas importantes, primeiro porque muitos agricultores modernos guardavam contas incompletas, como Thorold Rogers já reclamava, e depois porque, quando o autor conhecia números privados em detalhe, não se julgava autorizado a expô-los, prudência que preservava a pessoa concreta por trás do exemplo técnico e impedia transformar confiança de campo em propaganda indiscreta para curiosos distantes ou proprietários atentos.
Mesmo com essa reserva, ele confirma a estimativa de Bear segundo a qual uma estufa fria de quatro mil e cinquenta pés quadrados, bem conduzida, podia produzir retorno bruto de cento e oitenta libras, número que não serve como promessa automática, e sim como medida de possibilidade sob boa direção, pois a casa de vidro exigia vigilância contínua, limpeza, escolha de datas, atenção ao frio noturno, rega correta, circulação de ar e substituição imediata de uma cultura por outra, sem deixar o abrigo ocioso em nenhuma semana útil do calendário produtivo.
A rotina típica dos produtores de Guernsey e Jersey era obter três colheitas anuais em cada casa, começando com batatas plantadas em dezembro, sem aquecimento constante, pois o fogo era aceso apenas quando uma geada forte ameaçava a noite, e essas batatas, chegando a oito ou dez toneladas por acre, ficavam prontas em abril ou maio, antes que a batata cultivada ao ar livre entrasse no mercado e comprimisse o preço da novidade, vantagem que convertia precocidade em renda concreta para o pequeno produtor e garantia saída rápida da primeira safra.
Depois das batatas vinham os tomates, prontos no fim do verão, enquanto pequenas culturas intermediárias de ervilhas, rabanetes, alface e outras hortaliças ocupavam os intervalos, porque a inteligência da estufa estava justamente em impedir que luz, abrigo e solo preparado ficassem sem uso, e outra sequência começava em novembro com melões, prontos em abril, seguidos por tomates conduzidos em vasos ou como vinhas, com uma colheita final em outubro e feijões disponíveis perto do Natal para venda em período escasso e melhor remunerado nas cidades compradoras de inverno frio inglês.
Kropotkin ressalta que cada produtor tinha seu método preferido para usar as casas, e que tudo dependia de habilidade e vigilância, pois as culturas menores passavam a ganhar importância crescente e anunciavam a necessidade de aproximar a produção sob vidro dos métodos dos jardineiros franceses, capazes de arrancar cinco ou seis colheitas anuais da mesma superfície, desde que a busca por quantidade não diminuísse a qualidade alta que dava valor às frutas e verduras das ilhas e sustentava sua reputação nos mercados de Londres e arredores urbanos mais próximos deles.
A escala alcançada por Guernsey já era notável antes dessa intensificação futura, pois a exportação anual fora estimada em quinhentas e duas toneladas de uvas, avaliadas em trinta e sete mil e quinhentas libras, mil toneladas de tomates, cerca de trinta mil libras, batatas novas no valor de vinte mil libras, rabanetes e brócolis, flores cortadas e cogumelos, somando noventa e nove mil novecentas e cinquenta libras, além do consumo local das casas e hotéis que alimentavam quase trinta mil turistas e ampliavam a demanda cotidiana da ilha durante a estação.
O salto seguinte em Guernsey já não está dentro das estufas, e sim no cais, onde Kropotkin mede a força coletiva da horticultura pela quantidade de cestos embarcados em junho de 1896, quando os vapores de Southampton levavam todos os dias entre nove mil e doze mil cestos, às vezes ainda mais, cada um com doze a quatorze libras de uvas, tomates, feijões-verdes ou ervilhas, carga que reunia pequenas casas de cultivo em uma corrente diária de abastecimento metropolitano e dava às hortas da ilha escala visível diante da Inglaterra urbana.
Calculando também os envios feitos por outros caminhos, o autor estimava que, em cada semana de junho, Guernsey exportava de quatrocentas a quinhentas toneladas de tomates, uvas, feijões e ervilhas, avaliadas entre vinte mil e vinte e cinco mil libras, números que mostram uma produção rural organizada como indústria de precisão, dependente de colheita pontual, embalagem rápida, embarque regular e venda concentrada, sem perder o caráter agrícola dos homens que cuidavam das plantas e decidiam o momento exato de cortar cada fruto para viagem antes que calor e demora reduzissem qualidade.
Quando Kropotkin voltou à ilha em 1903, encontrou uma mudança maior que o simples aumento de produção, pois todo o sistema de exportação precisara ser reorganizado, já que em 1896 os mesmos barcos de turistas transportavam frutas e legumes a Southampton, com custo de um xelim por cesto desde Guernsey até o mercado de Covent Garden, valor pesado quando milhares de cestos saíam diariamente e cada penny decidia parte do ganho do produtor depois de meses de cuidado sob vidro e trabalho familiar dentro das casas, entre rega, poda, seleção e embalagem.
Em 1903 já funcionava a Associação dos Produtores de Guernsey, com barcos próprios mantendo, durante o verão, um serviço diário direto da ilha para Londres, armazéns próprios no cais e guindastes capazes de erguer grandes caixas cúbicas, nas quais prateleiras internas acomodavam vinte ou mesmo cem cestos, solução que reduzia manuseio, acelerava carregamento, diminuía perdas e baixava o custo do transporte para quatro pence por cesto, mudança enorme na margem final dos jardineiros que sustentavam as estufas com esforço diário e contas apertadas durante toda a estação de envio intenso para a capital.
A colheita seguia então para Covent Garden e era vendida todas as manhãs a comerciantes londrinos e verdureiros, fato que Kropotkin usa para mostrar a importância do sistema: um vapor especial precisava sair de Guernsey diariamente com sua carga de frutas e legumes, e o pequeno produtor, longe de permanecer isolado em sua horta, passava a integrar uma rede cooperativa de transporte, armazenagem, levantamento mecânico, venda matinal e resposta imediata ao mercado urbano que aguardava produto fresco logo cedo para consumo rápido nas bancas e cozinhas de Londres em plena temporada.
O resultado global confirma o alcance desse método, pois as exportações totais de flores frescas, plantas, arbustos, frutas e legumes, incluindo quinhentas e cinquenta e cinco mil duzentas e setenta e cinco libras em batatas, chegaram a um milhão cento e quinze mil seiscentas e cinquenta libras em 1910, tudo obtido em uma ilha de dezesseis mil acres, com rochedos e altos pobres incluídos, menos de dez mil acres cultivados, cinco mil cento e oitenta e nove dedicados a culturas verdes e prados, além de cavalos, bois e ovelhas sustentados ali.
A comparação com Guernsey leva Kropotkin imediatamente à Bélgica, onde o avanço do cultivo sob vidro parecia ainda mais eloquente por ter crescido em prazo curto, partindo de cerca de duzentos e cinquenta acres cobertos trinta anos antes para mais de oitocentos acres no tempo em que ele revia sua obra, expansão que transformava aldeias inteiras em centros especializados, com casas de vidro, carvão, transporte e conhecimento de jardineiro trabalhando juntos para antecipar colheitas, reduzir a distância entre clima do norte e abundância de frutas, e criar uma paisagem produtiva nova.
O exemplo escolhido é Hoeilaert, aldeia erguida sobre uma colina pedregosa e, por isso mesmo, perfeita para contrariar a ideia de que somente planícies naturalmente generosas sustentariam horticultura intensa, pois ali quase duzentos acres ficavam sob vidro e eram dedicados ao cultivo da uva, enquanto um único estabelecimento, segundo a observação de Baltet, mantinha duzentas estufas e consumia mil e quinhentas toneladas de carvão para aquecer as vinhas, número que revela uma agricultura unida a fornecimento regular de energia, cálculo, investimento, mercado urbano próximo, saber local persistente e disciplina de produção.
O editor do Journal of Horticulture resumira a lógica em fórmula direta, carvão barato, uvas baratas, e Kropotkin aproveita essa frase porque ela mostra a estufa como parte de uma organização material completa: minas, transporte, vidro, construção, jardineiros treinados, mercados urbanos e compradores próximos, tudo se combinava para que uvas belgas chegassem ao consumidor em época na qual, sem abrigo e calor regulado, a videira do norte ainda estaria longe de produzir frutos maduros, doces e vendáveis em grande quantidade para mesas comuns de Bruxelas e Londres durante a estação difícil.
O preço confirma a tese, pois as uvas em Bruxelas, no começo do verão, não eram mais caras que as uvas vendidas na Suíça em outubro, e mesmo em março as uvas belgas podiam aparecer em Covent Garden entre quatro e seis pence por libra, valor que Kropotkin considera prova suficiente de que a soma de trabalho exigida pelo cultivo da uva em latitudes setentrionais diminuía muito quando o vidro e o carvão eram manejados com perícia, disciplina, experiência acumulada nas aldeias produtoras, rotina bem conduzida e transporte comercial confiável.
Daí nasce sua comparação mais provocadora: custava menos trabalho produzir uvas na Bélgica sob vidro do que produzi-las nas margens do lago Lemano, onde a natureza parecia favorecer mais a videira, conclusão que desloca o problema da fertilidade natural para a organização do esforço humano, pois clima, solo e tradição continuavam importantes, enquanto a técnica prática, o calor barato e a cooperação com os mercados podiam alterar profundamente o rendimento de um mesmo território, ampliar sua estação produtiva, baratear o fruto, desafiar velhas certezas agrícolas e ampliar acesso popular constante.
Ao encerrar essa parte, Kropotkin anuncia que ainda precisa olhar para o progresso britânico desde a primeira edição de 1898, tanto na fruticultura quanto na cultura de flores e no cultivo sob vidro, além das tentativas recentes de introduzir em várias regiões da Inglaterra a jardinagem francesa de mercado, e a passagem é importante porque recoloca todo o capítulo em seu eixo principal: o futuro agrícola não dependia de terras imensas, e sim de trabalho aplicado com inteligência, continuidade, associação prática, observação diária, liberdade para experimentar, coragem produtiva e aprendizagem comum.
Ao mesmo tempo em que os pomares cresciam, Kropotkin nota o avanço notável das frutas pequenas, com groselhas, framboesas, groselhas-vermelhas e sobretudo morangos tomando espaço novo nas regiões produtoras, e chama atenção para Mid Kent e South Kent, onde quantidades enormes de morangos eram cultivadas em ligação direta com grandes fábricas de geleia, formando uma associação prática entre campo e transformação industrial que dava saída ao excesso de safra, reduzia o desperdício, convertia uma fruta delicada em produto estável para mercados distantes e prendia trabalhadores locais a uma temporada produtiva mais longa.
Um dos exemplos citados era uma fábrica conectada a grandes fazendas frutíferas que cobriam dois mil acres em Swanley, com produção anual de três mil e quinhentas toneladas de geleia, oitocentas e cinquenta toneladas de cascas cristalizadas e mais de cem mil garrafas de frutas conservadas, escala que mostra como a cultura de frutas pequenas já deixara de depender apenas da venda fresca na banca local e passara a alimentar uma cadeia de colheita, preparo, cozimento, embalagem e distribuição, sustentada pela regularidade das plantações próximas e pela compra previsível da fábrica.
Cambridgeshire oferece outro caso do mesmo movimento, pois dali parte da fruta seguia fresca para Londres e Manchester, enquanto outra parte era transformada no local pela fábrica de geleia de Histon, onde pelo menos duzentos e cinquenta trabalhadores estavam empregados na época da visita de Rider Haggard em 1900, e de onde saíram sete mil e seiscentas toneladas, com o resultado mais interessante de atrair ao redor da fábrica numerosos pequenos agricultores, arrendando de três a vinte acres cada um e ajustando suas lavouras à demanda constante do processamento, sem perder o vínculo direto com a terra.
Rider Haggard resumiu esse crescimento dizendo que, por volta de 1901, quatro a cinco mil acres nas vizinhanças de Wisbech já se dedicavam a esse comércio, com ameixas, maçãs, peras, frutas pequenas, couves-flores, aspargos, ruibarbo, narcisos, amores-perfeitos e outras flores cultivados em grande escala, e a intensidade do movimento aparecia no despacho de cento e trinta a cento e quarenta toneladas de groselhas, junto de sessenta a setenta toneladas de morangos, em um único dia de embarque para os mercados consumidores das cidades próximas e distantes em plena estação de venda.
O efeito local dessa indústria também é registrado por Haggard, pois a população de Wisbech e o número de casas na pequena cidade aumentaram rapidamente, a terra ganhou valor considerável em vinte anos, e lotes escolhidos para fruticultura chegaram a duzentas libras por acre, ponto que Kropotkin lê com sua ironia social habitual: o trabalho dos agricultores e a iniciativa inteligente dos industriais elevavam imensamente o preço da terra, e parte decisiva desse ganho acabava voltando aos proprietários que controlavam o solo, mesmo sem terem produzido a nova riqueza agrícola e comercial.
A conclusão de Haggard interessa ainda mais porque vinha de um observador que iniciara a investigação com visão pessimista sobre a agricultura sem proteção, e ele reconhecia que, nas regiões de grandes fazendas dedicadas sobretudo ao cereal, havia pouca prosperidade, enquanto nas áreas de pequenas propriedades apoiadas por pastos ou fruticultura proprietários e arrendatários iam razoavelmente bem, observação que prepara a passagem seguinte de Kropotkin para Essex, Hampshire, Worcestershire e especialmente Evesham, onde pequenas áreas, costumes locais e jardinagem comercial mostravam nova vitalidade rural com força própria e base produtiva verificável.
Depois de Wisbech, Kropotkin acrescenta Essex, onde a fruticultura tomara desenvolvimento notável, Hampshire, cujo terreno dedicado a frutas triplicara desde 1880 segundo o autor do artigo da Britannica já citado, e Worcestershire, sobretudo o distrito de Evesham, apresentado como região especialmente instrutiva porque ali a agricultura intensiva surgia de uma combinação verificável entre solo, costume agrário, pequenas posses, trabalho persistente, acesso ferroviário e mercados capazes de receber legumes, frutas e flores em ritmo regular durante a estação produtiva, mostrando ao leitor que o mesmo princípio podia aparecer em condados diferentes.
Em Evesham, certas qualidades do solo tornavam muito lucrativo o cultivo de aspargos e ameixeiras, e Kropotkin liga essa vantagem material a uma regra social antiga que dava segurança ao cultivador, pois o costume local fazia o arrendatário que entrava pagar ao arrendatário que saía pelas melhorias agrícolas feitas na terra, em vez de entregar esse valor ao proprietário, protegendo drenagem, plantio, adubação, preparo do terreno e todos os gastos que davam valor produtivo ao lote cultivado, com continuidade prática entre uma ocupação e outra ao longo de várias estações sucessivas.
A manutenção desse costume até tempos recentes ajudou a desenvolver, em grande escala, o sistema de pequenas propriedades e o cultivo de legumes e frutas, com resultado concreto: de uma área rural de dez mil acres, sete mil já tinham sido tomados por pequenas explorações de menos de cinquenta acres cada, e a procura continuava aumentando, tanto que em 1911 ainda havia quase quatrocentos agricultores esperando dois mil acres, sinal de que a pequena posse aparecia ali como forma desejada de trabalho produtivo, planejamento familiar e entrada real no mercado.
A vitalidade de Evesham também se via na cidade nova que crescera ao redor desse movimento, com população de oito mil trezentas e quarenta pessoas composta quase inteiramente por jardineiros e trabalhadores de jardineiros, mercados realizados duas vezes por semana e uma aparência que lembrava feiras do sul da França, enquanto o tráfego de exportação nas ferrovias irradiadas da pequena cidade era tão animado que Kropotkin o comparava ao de um lugar industrial ocupado, embora sua base fosse a terra cultivada, colhida, classificada e despachada sem demora em movimento cotidiano de carroças, caixas e vagões.
O ponto forte do exemplo está em mostrar que a nova força rural vinha da junção entre peculiaridades do solo, segurança dada aos melhoramentos, divisão em áreas manejáveis, proximidade entre lavoura e mercado, saber dos jardineiros e intensidade do trabalho aplicado semana após semana, fatores que transformavam uma paisagem rural comum em centro ativo de produção, venda e aumento populacional, sem abandonar a agricultura como base nem separar o pequeno cultivador da responsabilidade direta por sua parcela, suas escolhas de cultura e seu resultado anual, perceptível nos mercados e na procura por lotes.
Por isso Evesham prepara o passo seguinte do argumento: ao ler as páginas de Rider Haggard sobre Bewdley e Evesham, Kropotkin vê nelas uma prova do que ainda se podia obter do solo inglês quando trabalho organizado fosse realmente aplicado, e passa a examinar sociedades de pequenas propriedades, terras pobres ou pedregosas convertidas em terrenos férteis, fruticultura combinada com vacas leiteiras, pomares conduzidos com cuidado e antigos trabalhadores industriais que encontravam na agricultura uma nova forma de sustento independente, antes de qualquer discussão geral sobre reforma rural baseada em esforço regular e posse bem usada.
Ao entrar nas páginas de Rider Haggard sobre Bewdley e Evesham, Kropotkin encontra nelas uma demonstração concreta do que o solo inglês ainda podia oferecer quando trabalho fosse aplicado com continuidade, e insiste que a nação, se realmente se preocupasse com seu bem-estar, teria de aprender a obter da terra aquilo que ela estava pronta a dar, desde que recebesse braços, cuidado, adubação, escolha correta das culturas e uma organização rural capaz de aproximar o pequeno produtor dos mercados que pagavam pela colheita no momento certo, sem deixar a fertilidade local abandonada.
No distrito de Bewdley, os esforços de uma sociedade de pequenas propriedades davam oportunidade a numerosos agricultores de transformar terras indiferentes, às vezes muito pobres ou pedregosas, em solo fértil, produtor de colheitas ricas de frutas, e ali a criação de vacas leiteiras se combinava com a fruticultura, de modo que o rendimento do lote vinha de fontes complementares, espalhava melhor o risco da estação e permitia ao cultivador aproveitar pasto, pomar, esterco e trabalho familiar em uma mesma exploração manejável, sem perder a escala do cuidado pessoal e diário.
Haggard também observava que, tanto nas grandes fazendas quanto nas pequenas, a fruticultura podia ser conduzida com conhecimento e cuidado, trazendo proveito substancial para a comunidade e para os agricultores, contraste que o fazia exclamar contra a prática corrente em muitos condados, pois em Norfolk, e Kropotkin acrescenta Devonshire, o pomar comum era composto por árvores de copa desordenada, podadas apenas pelo vento, com madeira morta deixada no lugar e depois usado como desculpa para dizer que fruta de qualidade não compensava o esforço de cultivo metódico e poda regular.
O caso de Catshill acrescenta uma nota social ainda mais forte, pois Haggard descreve ali uma colônia de pessoas chamadas Nailers, antigos fabricantes manuais de pregos que perderam seu ofício quando os pregos feitos por máquinas entraram no mercado, e que se voltaram para a agricultura depois que pessoas sensatas compraram uma fazenda de cento e quarenta acres, dividiram a área em pequenos lotes de dois acres e meio a oito acres e ofereceram essas posses aos trabalhadores deslocados, abrindo uma saída produtiva para uma crise industrial local que poderia ter gerado miséria permanente.
Na época da visita de Haggard, todas as prestações vencidas desses pequenos agricultores tinham sido pagas, e nenhum homem apto ao trabalho recorrera à assistência pública, resultado que para Kropotkin pesava mais que uma tese sobre caridade ou disciplina, porque mostrava trabalhadores arrancados de um ofício antigo reencontrando independência na terra quando a área era pequena, o compromisso era alcançável, a posse dava motivo para melhorar o lote e o cultivo tinha escala humana suficiente para responder ao esforço direto da família ao longo de cada ano agrícola e de cada pagamento assumido.
O vale de Evesham, por sua vez, parecia ainda mais expressivo, bastando notar que, enquanto a população diminuía na maior parte das paróquias rurais, ela subiu nas seis paróquias da Evesham Union de sete mil trezentas e vinte e sete para nove mil e doze habitantes entre 1891 e 1901, sinal raro de crescimento rural ligado à jardinagem comercial, às pequenas propriedades, aos mercados ativos e ao uso intensivo da terra por pessoas que permaneciam no campo em vez de serem expulsas dele para as cidades industriais em busca de salário incerto.
No distrito de Evesham, Kropotkin encontra uma resposta inglesa ao pessimismo agrícola, porque a região, embora sem solo extraordinário e submetida aos mesmos intermediários que pesavam sobre outros cultivadores, enviava em 1900 cerca de vinte mil toneladas de frutas e legumes pelas estações de Evesham, além de grandes quantidades saídas de pequenas estações num raio de dez milhas, prova de que a intensidade do cultivo podia transformar uma área comum em centro vivo de abastecimento, trabalho permanente, comércio ferroviário e emprego rural distribuído por pequenas propriedades familiares produtivas, ligadas umas às outras por prática comum.
O solo era melhorado com quantidades grandes de adubos variados, fuligem, guano de peixe, pó de couro para repolhos e outros insumos experimentados ano após ano, enquanto as variedades de árvores frutíferas e legumes mais vantajosas eram continuamente testadas, e Kropotkin insiste que esse resultado não pertencia a um cientista isolado nem a um proprietário genial, pois nascia da experiência coletiva do distrito, acumulada por muitos jardineiros, arrendatários, famílias e trabalhadores que comparavam êxitos, perdas, estações, preços, formas de plantio e respostas de cada gleba cultivada durante vários ciclos agrícolas sucessivos.
Essa observação também afasta a suspeita de excesso de fruticultura, porque as importações britânicas continuavam enormes e crescentes, com cerca de um milhão de libras em tomates, dois milhões em maçãs, meio milhão em peras e quase setecentas e trinta mil libras em uvas, formando mais de quatro milhões de libras em frutas estrangeiras, valor que mostrava a permanência de uma demanda muito superior à produção interna existente, apesar do avanço das hortas e pomares recentes em diversos condados e perto das grandes cidades consumidoras do país industrial britânico moderno.
Ao lado dessa procura, a terra seguia abandonada em escala escandalosa, convertida a cada ano em reservas de caça para ingleses ricos e estrangeiros endinheirados, e Kropotkin faz dessa contradição um argumento moral e prático: a mesma nação que importava frutas e legumes em volumes crescentes deixava glebas férteis saírem da cultura, expulsava população rural para cidades incertas e aceitava como lazer aristocrático aquilo que poderia ter servido ao alimento, ao trabalho, à renda local, à fixação de famílias no campo e à dignidade comunal cotidiana de povoados inteiros dependentes da terra.
Os exemplos adicionais perto dos Broads de Norfolk e na Irlanda reforçam a mesma tese, pois bastava retirar obstáculos e aplicar trabalho inteligente para que o clima e o solo britânicos produzissem mais comida do que se costumava admitir, e Kropotkin usa esses casos para separar a limitação natural da limitação social, mostrando que a primeira era muitas vezes menor que a segunda, principalmente quando terra, transporte, costume local e conhecimento prático se encontravam em condições de cooperar com liberdade efetiva e segurança para investir em cultivo intensivo permanente local.
A conclusão desse bloco abre a passagem para a jardinagem de mercado, já que desenvolvimento semelhante da fruticultura ocorrera em países civilizados durante as três décadas anteriores, com França, Bélgica e Alemanha avançando até mais depressa que a Inglaterra, e o ponto de Kropotkin não era celebrar uma região contra outra, e sim demonstrar que a agricultura moderna crescia onde recebia liberdade de tentativa, pequenos cultivadores, meios técnicos, associação local e atenção contínua ao que cada pedaço de solo podia oferecer à população em alimento fresco abundante e próximo das cidades.
Depois de registrar o crescimento geral da jardinagem comercial, Kropotkin observa que os dados ainda eram imprecisos e que muitos viajantes interessados na agricultura britânica tinham dado pouca atenção a esse desenvolvimento recente, embora o avanço dos vinte e cinco anos anteriores já fosse bastante visível, com força especial na Irlanda e presença crescente em partes da Inglaterra, da Escócia e do País de Gales, sinal de que a pequena produção intensiva não pertencia apenas a ilhas férteis ou a casos isolados, pois aparecia onde cultivadores encontravam acesso à terra, trabalho experiente e ligação regular com consumidores urbanos.
Entre os exemplos citados surgem as vizinhanças de Penzance, na Cornualha, e de Saint Neots, em Huntingdonshire, seguidas por Scotter, em Lincolnshire, onde Rider Haggard afirmava que a depressão agrícola fora sentida com menor dureza graças à jardinagem comercial, e por Benington, no mesmo condado, lugar de barro rico com subsolo lodoso, apto ao cultivo amplo de legumes, batatas, bulbos de flores e trigo, combinação que mostrava uma agricultura capaz de unir alimento cotidiano, plantas de venda especializada e cereais numa mesma região trabalhada com intensidade, disciplina sazonal e conhecimento local transmitido entre produtores.
Orpington aparece como centro já conhecido tanto pela jardinagem comercial quanto pela fruticultura, com algum crescimento recente do cultivo sob vidro, e Kropotkin lembra que havia muitos outros centros semelhantes nos arredores das grandes cidades, onde a proximidade do comprador tornava cada acre mais ativo e cada estação ferroviária uma peça da produção, até escolher Potton, em Huntingdonshire, como exemplo particularmente expressivo, porque ali a pequena posse não era ornamento rural nem experiência de gabinete, e sim base efetiva de abastecimento regular para Londres, com lavradores acostumados a medir plantio, colheita e venda pelo ritmo urbano.
Segundo Haggard, Potton era uma fortaleza de pequenos cultivadores que plantavam legumes em áreas variando de um a vinte acres, ou até um pouco além, e por isso se tornara centro importante de jardinagem comercial, com cento e vinte vagões de produtos saindo diariamente para Londres durante a estação, além de cinquenta vagões que passavam pela linha Great Northern a partir da estação de Sandy, somados a outras remessas vindas de desvios e estações menores, quadro que revela uma produção parcelada capaz de alcançar escala sem apagar seus cultivadores nem depender de uma grande fazenda única.
A força desse exemplo aumenta porque, a pouca distância daquele centro animado, havia milhares de acres abandonados ou quase abandonados, com casas de fazenda, construções e chalés apodrecendo lentamente, e o ponto mais grave, segundo a citação recolhida por Kropotkin, era que toda aquela terra ainda fora cultivada e produzira colheitas até os anos oitenta, circunstância que desloca a explicação do fracasso rural para a organização social da terra, dos aluguéis, dos incentivos e dos caminhos de venda, em lugar de atribuir a esterilidade ao campo inglês ou aos limites naturais do solo.
Bedfordshire oferece outro núcleo de jardinagem comercial, pois, sendo um condado de pequenas propriedades naturais, formado antes da lei de 1907, tornava-se rapidamente um condado de hortas para venda, conforme F E Green, favorecido pela fertilidade do solo, pela possibilidade de trabalhar a terra em quase qualquer época do ano e por uma raça antiga de jardineiros habilidosos, embora limitado por aluguéis pesados que chegavam a quatro libras por acre perto das estações, onde chegava muito esterco de Londres, enquanto o Conselho do Condado já gastara quarenta mil libras em terras e entregara dois mil setecentos e cinquenta e nove acres a um terço dos candidatos, diante de uma procura total de doze mil trezentos e cinquenta acres feita por mil pessoas.
Mesmo com todos esses avanços, Kropotkin afirma que a jardinagem comercial britânica ainda parecia pequena diante da procura anual por legumes, uma procura destinada a crescer pela simples comparação entre o baixo consumo do Reino Unido e o consumo de produtos cultivados no próprio país observado na Bélgica por Rowntree em Lições da Bélgica, e por isso o resultado concreto era uma importação cada vez maior de verduras e legumes, já superior a oito milhões de libras, sinal de que o mercado interno pedia uma produção doméstica muito mais ampla, regular e próxima dos consumidores.
Essa diferença entre capacidade possível e abastecimento real abre espaço para um ramo da horticultura que crescera enormemente desde a primeira edição do livro, o cultivo de frutas e legumes em estufas, à maneira praticada nas Channel Islands, porque a proteção do vidro, combinada com técnica, calor, transporte e disciplina diária, permitia adiantar colheitas, controlar melhor o ambiente das plantas, prolongar estações úteis e fornecer às cidades produtos frescos quando a lavoura aberta ainda dependia de clima instável, solo frio, risco de geada ou distância excessiva dos centros compradores, especialmente nos meses em que a procura subia e o produto local escasseava.
Ao redor de Londres, segundo John Weathers na edição então recente da Encyclopaedia Britannica, a cultura em casas aquecidas tomara grande desenvolvimento, e ao longo das ferrovias que irradiavam da capital em todas as direções as estufas já se tinham tornado presença familiar na paisagem, imagem que interessa a Kropotkin porque mostra a horticultura moderna sob forma de produção prática, ligada ao trilho, ao mercado urbano, ao trabalho especializado, ao abastecimento diário, à venda previsível, à organização intensiva de pequenas superfícies e à disciplina cotidiana de equipes pequenas e persistentes.
As quantidades cultivadas eram expressivas, com uvas, tomates, figos e todo tipo de legumes temporãos produzidos em Worthing, onde oitenta e dois acres já estavam cobertos por estufas, e também na paróquia de Cheshunt, em Hertfordshire, onde a área sob casas aquecidas alcançava cento e trinta acres, enquanto uma estimativa cuidadosa de 1908 calculava em cerca de mil e duzentos acres a extensão das estufas individuais na Inglaterra, número que dava dimensão material a um setor capaz de multiplicar colheitas onde antes se esperaria apenas produção sazonal comum, com regularidade para mercados metropolitanos exigentes.
Os elementos dessa cultura haviam sido desenvolvidos pela experiência dos produtores das Channel Islands e pela grande expansão que as estufas destinadas a flores já possuíam havia muito tempo no país, de modo que a técnica não chegava como invenção sem solo local, pois encontrava trabalhadores acostumados a manejar calor, vidro, ventilação, água, adubos e calendários apertados, transferindo para alimentos parte de uma perícia antes concentrada no comércio de flores, com ganhos visíveis para abastecimento, renda rural, treinamento de jardineiros e continuidade do emprego hortícola para famílias que dependiam dessas tarefas durante todo o ano.
Diante das provas reunidas, Kropotkin conclui que essa forma de cultivo encontrava recompensa e já estava firmemente estabelecida, conclusão importante porque desloca a discussão da possibilidade abstrata para a prática comprovada, mostrando que o problema agrícola britânico residia menos na incapacidade da terra ou do clima do que na extensão insuficiente das experiências bem-sucedidas, na dificuldade de acesso à terra, nos custos, na distância entre pequenos cultivadores e meios técnicos, e na lentidão com que exemplos produtivos eram convertidos em política rural ampla, comum, duradoura e capaz de orientar investimentos, crédito e legislação.
Kropotkin passa então da cultura em estufas, já firmemente estabelecida, para a jardinagem comercial francesa que começava a ser introduzida na Inglaterra, e sua cautela inicial é deliberada: muitas tentativas tinham sido feitas em diferentes partes do país, com graus variados de sucesso, enquanto os resultados permaneciam pouco conhecidos, de modo que ele evita transformar entusiasmo em prova definitiva e apresenta o caso de Evesham como experiência importante, promissora e ainda sujeita às dificuldades próprias de transplantar um método altamente especializado para um ambiente novo, com hábitos rurais, custos e expectativas diferentes.
O experimento de Evesham nasceu do interesse de alguns jardineiros locais pelos resultados notáveis obtidos na França, pois, depois de lerem sobre esse sistema intensivo, eles foram a Paris com a intenção de aprender diretamente com os maraichers parisienses, e, ao encontrarem obstáculos para adquirir ali a prática desejada, recorreram a outro caminho: convidaram um jardineiro francês para trabalhar em Evesham, entregaram-lhe três quartos de acre e criaram ao redor dele uma situação de observação contínua, na qual colegas ingleses acompanhariam o método pelo trabalho executado diante de seus olhos.
O francês chegou trazendo de seu marais parisiense as campânulas de vidro, as armações, as luzes e, acima de tudo, o saber prático que não cabia em simples descrição escrita, e começou a cultivar sob o olhar atento dos jardineiros de Evesham, que podiam ver a ordem dos canteiros, a preparação da terra, o manejo de coberturas, a rega, o uso do calor dos adubos, a proteção das plantas jovens e a sucessão de operações miúdas que formavam a verdadeira força dessa horticultura de alta intensidade, feita de gestos repetidos no momento certo.
A anedota recolhida por Kropotkin é reveladora, pois o jardineiro disse a um entrevistador que se considerava feliz por não falar inglês, já que, se dominasse a língua, teria passado o tempo todo explicando em vez de trabalhar, e por isso mostrava suas calças pretas aos observadores, indicando por sinais que começassem fazendo a terra ficar tão escura quanto elas, depois tudo iria bem, frase simples que concentrava uma técnica inteira de adubação, preparo profundo, umidade, calor, paciência, coordenação de canteiros, sequência diária de tarefas e observação cotidiana do solo.
Essa prática exigia despesas pesadas, porque, para ser lucrativa, precisava de imensas quantidades de esterco de estábulo, grande número de campânulas e armações de vidro, gasto considerável em instalação, muita água e capacidade aguda de observação para adaptar a nova especialidade a condições diferentes das de Paris, o que impedia tratar a jardinagem francesa como receita barata ou milagre pronto, já que sua produtividade dependia da união entre capital inicial, atenção técnica, trabalho persistente, coordenação dos canteiros, resposta rápida ao clima, reposição de plantas frágeis e aprendizagem paciente local observada.
Quanto aos resultados obtidos em Evesham, Kropotkin afirma que era difícil falar com segurança, tanto mais porque os ganhos monetários anunciados por alguns jornais no primeiro ano, uma renda bruta de setecentas e cinquenta libras em três quartos de acre, pareciam exagerados para uma colheita inicial e acabaram despertando ceticismo contra essa forma de cultivo, episódio que reforça o tom prudente do autor: o método podia ser poderoso, embora sua avaliação exigisse tempo, contas limpas, observação continuada, comparação entre safras e separação entre propaganda momentânea e experiência agrícola real documentada.
Kropotkin apresenta em seguida a experiência de Mayland, em Essex, comprada por Joseph Fels para promover a pequena agricultura na Inglaterra, e começa por frisar a dificuldade do terreno, pois aquela parte do país possuía clima frio e úmido, além de uma argila pesada que representava uma das piores condições para o cultivo de enxada, sobretudo quando comparada ao barro leve preferido pela jardinagem intensiva ou a lugares como Jersey, onde um solo granítico pobre podia ser rapidamente enriquecido com algas marinhas, trabalho paciente, circulação de materiais locais e adubação bem dirigida durante muitas estações.
A importância de Mayland, portanto, não estava em oferecer o cenário ideal para provar a jardinagem francesa, e sim em testar até onde uma técnica exigente podia ensinar, corrigir hábitos e formar novos cultivadores mesmo num ambiente ingrato, pois Fels tinha objetivo principalmente educativo, e nesse ponto Kropotkin considera que o resultado foi alcançado, já que Thomas Smith, gerente da fazenda, produziu três obras práticas capazes de apresentar ao futuro jardineiro os elementos essenciais do chamado French Gardening, com orientação concreta em lugar de entusiasmo vago, propaganda rural ou promessa fácil de rendimento imediato.
Para realizar o ensaio, convidou-se um maraicher francês, e a propriedade comprou, a custo elevado, duas mil e quinhentas campânulas de vidro, mil luzes para armações, uma bomba de vento e outros equipamentos necessários, deixando claro que o método não dependia apenas de boa vontade, porque exigia ferramentas, proteção, água, calor, material de cobertura e organização cuidadosa das parcelas, recursos que deviam ser reunidos antes que a habilidade do cultivador pudesse aparecer plenamente em colheitas sucessivas, plantios escalonados e cuidados precisos com mudas frágeis em canteiros protegidos ao longo de toda a estação experimental.
O trabalho do jardineiro francês em dois acres foi acompanhado dia a dia por Thomas Smith, que depois o descreveu e ilustrou com fotografias para uso de quem desejasse experimentar o mesmo sistema, detalhe que aproxima Mayland de uma escola agrícola prática, na qual cada operação observada podia ser convertida em manual, cada erro podia virar advertência e cada êxito podia ser registrado sem depender de tradição oral difícil de transmitir entre regiões, climas, solos e grupos de trabalhadores ainda pouco familiarizados com o método intensivo vindo dos arredores de Paris.
Kropotkin prevê a pergunta que seus leitores fariam imediatamente, a respeito dos resultados em dinheiro, e responde com prudência, pois seria tolice esperar que uma primeira experiência corresse com a regularidade alcançada nas Channel Islands, onde muitos anos de prática por toda uma população haviam depurado os melhores procedimentos de cultivo, criado costumes coletivos e preparado trabalhadores, fornecedores e compradores para uma horticultura intensiva já integrada à vida local, bem diferente de um ensaio inicial em solo pesado, com instalações recentes, equipe em aprendizagem e suprimentos ainda sujeitos a atraso.
Essa ressalva é decisiva para compreender a argumentação, porque Mayland não serve como espetáculo de rendimento instantâneo, e sim como prova organizada de aprendizagem, mostrando que a introdução de um método estrangeiro exige tempo, equipamento, gente treinada, observação minuciosa e capacidade de adaptar princípios gerais a um lugar particular, enquanto os números de produção só fazem sentido quando lidos dentro dessas condições, sem transformar um primeiro ano cheio de atrasos e ajustes em julgamento final contra a jardinagem francesa na Inglaterra ou contra a pequena cultura intensiva em solo difícil.
A primeira pergunta que Kropotkin antecipa diante da experiência de Mayland é a dos resultados em dinheiro, pois o leitor habituado a julgar a terra pela conta imediata desejaria saber quanto rendeu a tentativa de levar o cultivo francês para um solo inglês pesado, frio e úmido, embora fosse sem prudência esperar que a primeira campanha corresse com a regularidade já alcançada nas ilhas do Canal, onde uma população inteira, durante anos de prática comum, havia depurado instrumentos, ritmos, observações, compras, calendários, manejo da água, seleção de mudas e modos de plantio.
O atraso na chegada das armações impediu que os melões fossem obtidos cedo, e esse ponto pesou muito no resultado, já que a colheita de Mayland foi excelente e rendeu cento e oitenta e oito libras no primeiro ano, quantia respeitável para uma experiência ainda em formação, embora o ganho pudesse ter sido bastante superior se os caixilhos e vidros tivessem chegado a tempo de pôr os frutos no mercado em meados de junho, quando o preço recompensaria melhor o cuidado acumulado no canteiro e a pressa do consumidor urbano.
Mesmo com essa falha inicial, Smith apresentou números fortes para um jardim de um acre, calculando que o preparo exigiria cerca de quatrocentas e noventa e quatro libras, arredondadas para quinhentas e cinquenta, em campânulas de vidro, luzes, armações, esteiras, abastecimento de água, galpão de embalagem, cerca, carro, cavalo e arreios, além de quatrocentas e treze libras, arredondadas para quatrocentas e cinquenta, em esterco, aluguel, taxas, água, salários e direção do trabalho agrícola, conta pesada para quem começa sem oficina rural já formada e precisa comprar quase tudo de uma vez.
Para esse primeiro ano, já descontada a inexperiência própria de uma arte transplantada para condições novas, Smith estimava uma receita bruta de trezentas libras, valor que ganhava sentido quando confrontado com a natureza experimental do empreendimento, com o custo pesado dos apetrechos permanentes e com a necessidade de formar o solo por esterco abundante antes que o jardineiro pudesse trabalhar sobre uma terra de resposta rápida, como acontecia nos lugares onde a horticultura intensiva havia se tornado prática coletiva e saber transmitido pelo costume de muitas famílias e trabalhadores atentos.
No segundo ano, a previsão subia para uma faixa entre quatrocentas e quatrocentas e cinquenta libras, pois o terreno já estaria melhorado, o gasto inicial pesaria menos, a experiência pessoal do cultivador teria crescido e a observação do lugar indicaria com maior precisão que culturas mereciam calor, cobertura, água e espaço, mostrando que a conta real do método precisava ser lida ao longo de várias estações, quando o capital fixo deixasse de dominar cada linha da despesa anual e a rotina passasse a corrigir erros de compra, plantio e venda.
Quando Smith reduzia a escala para uma propriedade de um acre em que só um terço fosse usado como jardim francês, a primeira despesa com campânulas, luzes, cercas, esterco, água, aluguel e taxas ficaria um pouco abaixo de trezentas libras, enquanto o retorno esperado ao fim do primeiro ano rondaria cento e cinquenta libras e depois poderia chegar anualmente a duzentas ou duzentas e cinquenta, números que Kropotkin julgava cautelosos, já que as colheitas vistas em Mayland autorizavam expectativa ainda melhor para mãos experientes e canteiros bem conduzidos durante toda a estação.
Kropotkin encerra a experiência de Mayland com uma advertência própria dos ensaios pioneiros, pois o jardineiro francês que obtivera aqueles resultados deixou a propriedade depois de um ano de trabalho e foi substituído por dois jovens compatriotas de menor prática, os quais começaram a desfazer parte do que o antecessor havia organizado, preferindo conduzir os canteiros segundo métodos aprendidos noutro ambiente, e por isso o observador já não podia medir com segurança que frutos dariam essas alterações na continuidade da experiência nem separar acaso, método, aprendizado local, disciplina de compra, resposta do solo e habilidade pessoal.
A lição, para Kropotkin, não estava no sucesso integral de uma fazenda isolada nem na autoridade milagrosa de um procedimento importado, e sim na prova concreta de que toda obra pioneira encontra dificuldades imprevistas quando troca de clima, solo, homens, instrumentos, mercado e calendário, pois cada desses elementos pesa sobre a colheita e exige uma inteligência prática que só se firma pela repetição atenta, pela correção paciente dos erros, pela memória comum do trabalho realizado estação após estação, pela escolha firme das rotinas que resistem e pela coragem de abandonar hábitos mal ajustados.
Mesmo aceitando essas incertezas, os fatos disponíveis bastavam para concluir que o clima inglês não impedia a jardinagem francesa, embora a menor quantidade de sol atrasasse o amadurecimento em comparação com os arredores de Paris, onde a luz, o costume local e a proximidade do mercado já haviam criado uma vantagem antiga para os cultivadores que precisavam levar verduras e frutas tenras ao comprador antes que a concorrência de regiões mais quentes derrubasse o preço e tirasse o valor do esforço, da espera, do cuidado diário e da vigilância sobre cada canteiro.
A produção doméstica guardava vantagens fortes sobre os alimentos importados, pois chegava com maior frescor, sofria menos no transporte, permitia escolhas ajustadas ao gosto da população local e preservava no próprio país parte do trabalho gasto em plantar, colher, embalar e vender, ponto importante para um autor que queria mostrar o desperdício causado por uma sociedade capaz de deixar terras próximas sem cultivo enquanto pagava longas viagens, intermediários, perdas, embalagens sucessivas e atrasos para obter aquilo que poderia amadurecer perto das cidades, alimentar a vizinhança e ocupar braços disponíveis em trabalho útil.
Outra dificuldade aparecia no esterco de cavalo, cujo fornecimento tendia a diminuir com a difusão dos automóveis, e Kropotkin lembrava que o problema já era sentido também na França, motivo pelo qual os cultivadores de lá investigavam o aquecimento direto do solo por termossifões, recurso que podia substituir em parte o calor gerado pela matéria orgânica e manter viva a procura por métodos capazes de conservar a intensidade do cultivo quando um insumo urbano começasse a rarear, encarecer, faltar nas épocas críticas e obrigar nova invenção prática nos jardins comerciais.
Dessas observações ele passa para um quadro mais amplo do despertar inglês em favor de melhor uso da terra, com alguns condados e conselhos paroquiais tentando romper a concentração fundiária e abrir espaço aos pequenos agricultores decididos a cultivar, além de esforços ainda tímidos para dar aos lavradores e seus filhos instrução agrícola e hortícola, embora tudo continuasse feito em escala reduzida e sem a vontade firme de aprender com a Europa continental, os Estados Unidos, o Canadá, suas estações experimentais, suas escolas rurais e seus hábitos de divulgação técnica.
Depois de reunir exemplos de hortas francesas, pomares ingleses, estufas belgas, lavouras irrigadas e experiências de cultivo intensivo, Kropotkin afirma que esses dados reduzem a quase nada a velha ameaça da superpopulação, pois a terra mostra maior potência justamente onde há maior adensamento humano, desde que a indústria, a horticultura e a agricultura caminhem juntas, apoiadas por conhecimento prático, transporte, instrumentos, cooperação local, estudo constante, crédito acessível, compra planejada, ensino rural, disciplina de mercado, cuidado diário e vontade de aproveitar cada parcela fértil que costuma permanecer abandonada por costume social ou privilégio fundiário.
O argumento ganha força porque ele recusa tratar a fertilidade como uma quantidade fixa, encerrada de antemão pela natureza, e apresenta a produção agrícola como campo aberto por descobertas sucessivas, algumas já provadas em grande escala e outras ainda ensaiadas em pequenas experiências, de modo que o limite real da população sustentável por uma área cultivável não podia ser previsto com segurança quando cada década trazia novos métodos de preparo, irrigação, seleção, aquecimento, proteção, adubação, transporte refrigerado, venda cooperada, análise do solo, treinamento de trabalhadores, compra comum e circulação dos produtos.
A tendência moderna observada por ele encaminha cada região geográfica para produzir em casa a maior parte das necessidades fundamentais da vida, desde que a terra seja tratada com inteligência e que a indústria local não se separe do campo, pois a mesma população que fabrica instrumentos, transporta mercadorias e organiza oficinas pode devolver força ao cultivo, criar técnicas próprias, adaptar máquinas, aproveitar resíduos urbanos, formar escolas práticas, observar colheitas sucessivas, corrigir desperdícios e deixar de comprar de longe aquilo que seu próprio solo permite obter com menor perda material.
Essa orientação não significava fechar os povos em isolamento comercial, pois Kropotkin admitia que a troca mundial continuaria a crescer em volume e variedade, desde que se limitasse cada vez mais ao que realmente precisava ser trocado entre regiões diferentes, enquanto se ampliaria a circulação de novidades, obras de arte locais ou nacionais, descobertas, invenções, conhecimentos e ideias, bens que enriquecem as relações humanas sem obrigar um país a depender de longas rotas, fretes incertos, armazéns distantes, especulação de mercado e atrasos para o pão, os legumes e as matérias indispensáveis.
Por isso ele não via motivo para alarme diante de uma reorganização apoiada na produção próxima, já que nenhum povo equipado com os recursos agrícolas então existentes estaria condenado a buscar fora de seu território cultivável todos os alimentos e grande parte das matérias-primas de origem rural exigidas por sua população, mesmo que as necessidades populares crescessem, como deveriam crescer, com melhor alimentação, habitação, vestuário, descanso, higiene, instrução, vida pública, tempo livre, conforto doméstico e acesso a formas de existência menos miseráveis do que aquelas impostas pelo trabalho mal distribuído.
O ponto decisivo do capítulo está nessa inversão de perspectiva, pois a pergunta já não deve ser quantas bocas cabem numa superfície pobremente explorada, e sim que abundância uma sociedade conseguiria retirar de seu território quando deixasse de entregar a terra ao abandono, aos intermediários e às formas rotineiras de exploração, passando a combinar ciência prática, trabalho associado, indústria próxima, experiência camponesa, ferramentas adequadas, liberdade de uso do solo, abastecimento local, aprendizado coletivo, planejamento comunal solidário e uma escolha política voltada para alimentar todos antes de preservar privilégios herdados intactos.
Kropotkin leva a conclusão do capítulo para uma escala numérica deliberadamente concreta, afirmando que, com o domínio humano já existente sobre a terra e sobre as forças naturais, dois ou três habitantes por acre cultivável ainda estariam dentro de uma capacidade razoável, e essa afirmação lhe permite inverter o medo corrente da população densa, pois nem a Grã-Bretanha nem a Bélgica haviam chegado a tal relação entre pessoas e solo aproveitável, apesar de serem países lembrados justamente como exemplos de adensamento moderno, cidades extensas, oficinas numerosas, forte pressão alimentar e intensa vida urbana.
No caso britânico, ele calcula de modo aproximado que havia um acre cultivável para cada habitante, proporção suficiente para imaginar uma experiência mental simples, na qual cada pessoa precisasse viver do produto da própria terra nacional, desde que a primeira condição política fosse aceita sem reserva, isto é, considerar o território como herança comum e organizar seu uso em benefício de todos, sem deixar que títulos, rendas ou privilégios decidissem o destino das colheitas, dos pastos, dos pomares, das águas disponíveis, dos caminhos de acesso e da fertilidade acumulada por gerações.
Depois dessa condição, viria o trabalho agrícola propriamente dito, conduzido sem extravagância técnica nem fantasia de laboratório, pois bastaria aplicar em grande escala os métodos que já haviam passado pela prova da experiência em milhares de acres na Europa e na América, generalizando práticas conhecidas de cultivo, irrigação, adubação, rotação, proteção e transporte, com a paciência de quem aprende com resultados confirmados e recusa tratar a fome como fatalidade natural ou como sentença imposta por uma terra incapaz de sustentar seus moradores quando recebe cuidado competente, ferramentas adequadas e atenção constante.
A consequência seria uma poupança imensa de trabalho hoje gasto na compra de comida estrangeira e no pagamento de todos os intermediários que vivem dessa circulação, pois uma cultura racional permitiria obter do solo as necessidades e os confortos que dependem da terra com menos esforço humano do que aquele consumido em importar, armazenar, revender, proteger preços, sustentar fretes longos, financiar armazéns distantes, manter escritórios de intermediação e conservar uma cadeia de ganhos entre o cultivador distante, o negociante, o transportador, o especulador, o atacadista e a mesa popular cotidiana.
Kropotkin lembra que já havia feito cálculos aproximados em A Conquista do Pão, e acrescenta que os dados reunidos neste livro bastavam para qualquer leitor testar a tese por si mesmo, comparando as massas de produtos obtidas sob cultivo racional com o trabalho exigido por práticas irracionais, pela coleta em lugares remotos, pelo transporte prolongado e pela manutenção de multidões de intermediários que nada acrescentam à fertilidade da terra nem ao alimento final, embora retirem tempo, força, atenção, recursos, clareza, energia, iniciativa, confiança, descanso, estudo, convivência e autonomia da sociedade.
Quando essa comparação é feita, a conclusão aparece com força prática, pois sob uma cultura bem organizada seriam necessários poucos dias e poucas horas para produzir o alimento humano, e o centro da questão deixa de ser o medo abstrato da população para tornar-se a escolha social entre abandonar o solo a interesses estreitos ou reunir terra, ciência aplicada, trabalho associado e indústria próxima para libertar tempo, reduzir desperdício, alimentar melhor os habitantes, elevar a saúde coletiva, fortalecer os vínculos locais, ampliar a instrução prática e sustentar uma vida comum mais ampla.
Kropotkin se apressa a afastar uma leitura estreita de sua defesa da cultura intensiva, pois a imagem de cada pessoa presa a um pequeno acre isolado não lhe interessava como solução social, já que esse quadro reduziria a força do trabalho associado, empobreceria o uso das máquinas e reproduziria uma vida camponesa sem amplitude, quando o verdadeiro problema era reunir o cuidado minucioso dos jardins, a potência técnica das oficinas, a liberdade coletiva de organizar a terra por necessidades comuns e a possibilidade de repartir tarefas conforme aptidão, idade e estação.
Ele distingue com clareza a pequena cultura dos jardineiros franceses, admirável pelo zelo diário e pela atenção a cada canteiro, do culto romântico ao pequeno lote separado, onde uma família trabalharia só para si, cercada por limites estreitos e condenada a repetir tarefas pesadas sem apoio comum, pois a intensidade produtiva que ele elogia depende de conhecimento partilhado, instrumentos caros usados por muitos, água bem distribuída, compras coletivas, abrigo contra perdas, experimentos repetidos, contabilidade honesta, aprendizagem comum, crédito acessível e venda organizada em escala suficiente para enfrentar mercados hostis externos.
A crítica se volta também contra o outro extremo, representado pelas grandes fazendas de trigo do tipo Bonanza, imensas áreas dirigidas por agentes, lavradas com máquinas possantes e depois quase esvaziadas de gente, onde a terra funciona como fábrica sazonal de cereal e a comunidade humana aparece apenas como mão contratada por alguns dias, sem raízes, sem formação local e sem domínio real sobre o solo que sua força põe em movimento durante a colheita, antes de ser dispersa para outra região sem laço duradouro e sem memória rural própria.
Entre o lote isolado e a fazenda gigantesca, Kropotkin procura uma forma superior de associação, capaz de combinar maquinaria pesada, trabalhos manuais delicados, criação de animais, cultivo de legumes, frutas, cereais e pastagens, reparos mecânicos, transporte próximo e administração comum, pois cada ramo da produção agrícola exige ritmos diferentes e a cooperação permite que uma mesma coletividade distribua esforços ao longo do ano sem desperdiçar pessoas, instrumentos, água, esterco, conhecimento, tempo de aprendizagem, energia acumulada em experiências anteriores, capacidade inventiva local, disciplina de manutenção e prudência nas compras futuras comuns.
A imagem que ele oferece é a de duzentas famílias tratando mil acres como posse comum, ou como arrendamento comum, sem dividir a terra em fragmentos rígidos, pois essa população poderia reservar algumas áreas para cultivo miúdo, outras para cereais, outras para gado, bosques, oficinas, estufas e experimentos, mantendo máquinas de uso coletivo e trabalhadores preparados para alternar entre operações amplas, como arar e colher, e cuidados precisos, como podar, transplantar, regar, selecionar sementes, preparar o solo, acompanhar pragas, registrar resultados, corrigir procedimentos e planejar novas safras coletivas futuras próximas.
Nessa proposta, a abundância viria menos da grandeza abstrata da propriedade e mais da organização livre do trabalho, pois a terra deixaria de ser campo de renda privada ou palco de heroísmo solitário, tornando-se base material de uma comunidade capaz de aplicar ciência prática, experiência rural, ferramentas modernas e inteligência cotidiana para produzir muito, cansar menos, formar pessoas completas, sustentar oficinas vizinhas, cultivar hábitos cooperativos, educar crianças pelo trabalho vivo e devolver à vida comum o tempo que desaparece quando o alimento percorre rotas longas ou quando cada família luta sozinha contra a terra.
A associação imaginada por Kropotkin permitiria reunir, no mesmo território, aquilo que a pequena cultura havia mostrado de melhor e aquilo que a agricultura em larga escala podia oferecer quando deixava de servir à exploração extensiva, pois os mil acres tratados por duzentas famílias poderiam receber melhorias permanentes, drenagem, irrigação, caminhos internos, oficinas de reparo, estábulos, estufas e campos de cereal, sem obrigar cada casa a duplicar instrumentos caros nem a carregar sozinha os riscos de uma estação ruim, de uma compra mal feita, de uma falha técnica ou de uma doença nas plantas.
A primeira tarefa comum seria melhorar de modo sistemático a parte da terra que exigisse intervenção imediata, ampliando a cada ano a área posta em condição perfeita de cultivo, e essa ordem de trabalho teria valor decisivo, pois impediria que o grupo espalhasse sua força em esforços dispersos, permitindo que a fertilidade fosse construída como obra pública da comunidade, com observação regular, registro de resultados, correção de drenagens, escolha de adubos, plantio planejado, manutenção das ferramentas, distribuição de água, controle de pragas, turnos de cuidado e aprendizado compartilhado entre adultos e jovens.
Numa divisão aproximada, trezentos e quarenta acres bastariam para produzir os cereais necessários aos mil habitantes e ao gado, sem recorrer aos métodos mais minuciosos de replantio de trigo, enquanto quatrocentos acres, bem tratados e irrigados quando possível, forneceriam forragens e culturas verdes suficientes para manter vacas leiteiras, animais destinados à carne e a estabilidade cotidiana da alimentação, dando ao grupo leite, manteiga, grãos, raízes, palha, compostos orgânicos, reservas para o inverno, segurança alimentar, trabalho regular, autonomia doméstica, excedentes úteis, adubo renovado, solo vivo e matéria viva para devolver ao solo.
Em apenas vinte acres, dos quais dois ficariam cobertos por vidro, a comunidade poderia colher verduras, frutas e produtos delicados em quantidade superior ao próprio consumo, e ainda restaria espaço para que cada casa tivesse meio acre ligado a prazeres pessoais, aves, flores, experiências particulares ou pequenos cultivos de afeição, sem destruir o princípio comum da organização territorial, já que essas áreas seriam complementos de liberdade doméstica dentro de um sistema agrícola planejado coletivamente, protegido contra desperdícios de trabalho, aberto a iniciativas familiares, útil para educação prática e agradável para descanso.
O trabalho exigido por essa cultura intensiva não seria a fadiga brutal do servo ou do escravo, porque poderia ser partilhado por pessoas fortes e fracas, nascidas na cidade ou no campo, e assumiria até certos atrativos próprios da vida ao ar livre, da variação de tarefas e da ligação visível entre esforço e alimento, além de exigir, no cálculo de Kropotkin, muito menos tempo do que a população gastava indiretamente para obter comida pior por meio de compras distantes, fretes, comércio armado, intermediários, armazéns, perdas, filas, atrasos e especulação.
Daí nasce o cálculo final do capítulo, segundo o qual a produção racional do alimento ocuparia algo próximo de trezentas horas anuais por adulto, deixando lazer suficiente para manufaturas, artes, ciência, estudo e outras formas de atividade, e a conclusão política é clara, pois os obstáculos já não pertencem à técnica agrícola, ao solo ou ao clima, pertencem às instituições herdadas, aos velhos direitos que pesam sobre a terra, à escola desligada do cultivo, ao desprezo pelo trabalho manual e à ignorância social acerca do pão que todos comem diariamente.
Notas ao Capítulo V
As notas do capítulo V mostram que Kropotkin construiu sua defesa da horticultura intensiva sobre uma rede ampla de observadores práticos, estatísticos, viajantes e agrônomos, citando Charles Whitehead, Charles Baltet, Ardouin Dumazet e Baudrillart para sustentar que a fruticultura e a jardinagem comercial francesas haviam atingido valor elevado, diversidade regional e capacidade de adaptação, com áreas antes pouco valorizadas convertidas em fontes de flores, frutas, legumes de estação, produtos conservados, renda local, conhecimento aplicado, emprego familiar, ofícios auxiliares, transporte frequente e mercadorias vendidas a mercados urbanos cada vez mais exigentes.
A sequência de referências sobre Anjou, Alpes Maritimes, exportações de flores, plantas vivas, frutas e legumes reforça a ideia de que o progresso agrícola vinha de trabalho acumulado e não de um milagre do solo, pois os autores citados descrevem especializações locais, técnicas de poda, calendário de colheita, escolha de variedades e circulação comercial, permitindo que Kropotkin tratasse a França rural como laboratório concreto de produtividade, onde pequenas parcelas, quando guiadas por prática fina, organização familiar, aprendizado regional, atenção ao clima e seleção paciente, alcançavam resultados impossíveis para a agricultura extensiva comum.
Nas notas dedicadas às estufas, aos vidros leves, às medições de cobertura e aos exemplos das ilhas do Canal, o ponto central é o barateamento dos meios técnicos, já que a cultura sob vidro deixava de ser luxo de grandes casas para tornar-se ferramenta de agricultores práticos, capazes de improvisar estruturas simples, aproveitar paredes, tábuas, ferro corrugado, areia, divisórias, encaixes baratos, madeira fina, telhados baixos, ventilação cautelosa, reparos rápidos, vigilância diária e calor moderado para alongar a estação, proteger culturas frágeis, colher mais cedo e multiplicar colheitas sucessivas num espaço reduzido.
As referências belgas ampliam o quadro com vinhedos sob vidro, preços obtidos em Londres, produção de uvas de sobremesa e dados enviados por especialistas, mostrando que a horticultura comercial dependia tanto de construção material quanto de redes de informação, pois cada preço, cada frete e cada ajuste de estrutura ajudava os cultivadores a comparar a própria prática com a dos vizinhos, corrigir investimentos, escolher variedades, calcular riscos, prever procura, negociar transporte, observar compradores, medir retornos, organizar remessas e decidir que produtos poderiam competir com vantagem nos mercados consumidores próximos ou estrangeiros.
As notas sobre a Inglaterra, Rural England, F E Green, Lincoln e Spalding aproximam a discussão do problema político da terra, pois tratam de pequenas propriedades, cooperativas, flores de primavera, importações de frutas, batatas e legumes, além do desperdício provocado por reservas de caça e abandono produtivo, fazendo a crítica de Kropotkin repousar sobre sinais concretos de que o país comprava fora uma parte considerável daquilo que poderia produzir perto das próprias cidades, com menor perda, melhor frescor, emprego local, formação técnica, experiência cooperativa, renda distribuída e maior proveito social.
O fechamento das notas remete a Thomas Smith, à experiência de Mayland e ao apêndice sobre eletricidade na agricultura, deixando claro que Kropotkin via a horticultura moderna como campo técnico em movimento, feito de manuais, ensaios, bombas, aquecimento, vidro, irrigação, energia e ensino prático, e por isso a passagem para o capítulo VI se torna natural, pois a pequena indústria, as aldeias produtivas e a combinação entre oficina e campo aparecem como continuação do mesmo argumento sobre produção próxima, vida local organizada, ensino ligado ao trabalho, autonomia comunitária e técnica popular.