Campos, Fábricas e Oficinas: Capítulo IV - As Possibilidades da Agricultura (continuação)
Poucos livros exerceram influência tão danosa sobre o desenvolvimento geral do pensamento sobre a vida material quanto o Ensaio sobre o princípio da população, de Malthus, durante três gerações consecutivas, e Kropotkin insiste que a obra apareceu no momento certo para tornar respeitáveis ideias já presentes na minoria possuidora de riqueza, justamente quando as ideias de igualdade e liberdade despertadas pelas revoluções francesa e americana ainda agitavam os pobres, enquanto as classes abastadas se cansavam de suas excursões amadoras pelos mesmos territórios morais e políticos da reforma social europeia moderna.
Malthus respondeu a Godwin afirmando que a igualdade era impossível, que a pobreza das multidões não vinha das instituições e que a população crescia rápido demais para encontrar lugar no banquete da natureza, transformando uma ordem social em lei natural e oferecendo aos ricos um argumento com aparência científica contra as promessas igualitárias, pois todo domínio se apoia na força, mas essa força começa a vacilar quando perde a crença firme em seu próprio direito de mandar sobre os pobres sem culpa pública perante a sociedade inteira organizada moderna europeia.
Para as classes pobres, que sempre sentem a influência das ideias circulantes entre os grupos ricos, essa doutrina retirou até a esperança de melhora, tornou suspeitas as promessas dos reformadores sociais e continuou pesando sobre os espíritos avançados, que ainda hesitavam diante da possibilidade de satisfazer as necessidades de todos caso essas necessidades fossem reclamadas de maneira aberta e caso um bem-estar temporário dos trabalhadores resultasse em aumento rápido da população pobre nas cidades industriais em crescimento acelerado e nas aldeias operárias dependentes do salário semanal instável diário urbano.
A ciência permanecia, aos olhos de Kropotkin, impregnada pelo ensino malthusiano, pois a ciência da riqueza seguia raciocinando a partir da admissão tácita de que as forças produtivas de uma nação não poderiam crescer rapidamente o bastante para satisfazer todos os desejos, e esse postulado não discutido ficava ao fundo de teorias sobre valor de troca, salários, venda da força de trabalho, renda da terra, troca e consumo, sempre apoiadas na hipótese de uma provisão limitada e insuficiente dos meios necessários à vida comum digna para todos os habitantes do país.
O mesmo princípio penetrava teorias socialistas e até a biologia ligada à sociologia, na medida em que a variabilidade das espécies recebera apoio inesperado ao ser associada por Darwin e Wallace à ideia malthusiana de que os recursos naturais falhariam inevitavelmente diante da multiplicação rápida de animais e plantas, e Kropotkin resume esse percurso dizendo que a teoria de Malthus deu forma pseudocientífica aos desejos secretos das classes possuidoras, convertendo-se em fundamento de uma filosofia prática que agia tanto sobre pessoas instruídas quanto sobre pessoas sem instrução formal nas cidades.
Essa filosofia prática voltava depois sobre a teoria do próprio século, pois acostumava todos a enxergar carência onde havia organização deficiente, limite físico onde havia propriedade excludente e ameaça populacional onde poderia haver novos braços, novos saberes e novas formas de cooperação, de modo que o Capítulo IV retoma a agricultura para atacar o último reduto dessa crença, já estremecida no campo industrial pelo crescimento da força produtiva desde o domínio do vapor e da eletricidade moderna aplicada ao trabalho humano associado em larga escala social produtiva mundial contemporânea ampla.
O crescimento formidável das forças produtivas humanas no domínio industrial abalara parcialmente a doutrina de Malthus, porque a riqueza industrial havia aumentado em ritmo que nenhuma expansão populacional plausível poderia acompanhar e ainda podia crescer com velocidade maior, mas a agricultura continuava sendo tratada como fortaleza da pseudofilosofia malthusiana, em parte porque as conquistas recentes da lavoura e da horticultura eram pouco conhecidas e em parte porque teóricos da riqueza continuavam presos à ideia de superfície limitada e produtividade fixa do solo agrícola disponível para cultivo regular intensivo moderno conhecido.
Kropotkin contrapõe a essa imagem os jardineiros capazes de desafiar clima e latitude, aclimatar plantas subtropicais, obter várias colheitas anuais em vez de uma só e fabricar a terra adequada a cada cultura especial, enquanto os mesmos autores continuavam repetindo que uma população dobrada a cada trinta anos logo encontraria falta de meios de vida, como se a criatividade técnica aplicada à agricultura não pudesse alterar as condições materiais da produção com a mesma força que já transformara oficinas, minas, fábricas e transportes modernos em poucas décadas de invenção industrial.
Alguns dados já haviam aparecido no capítulo anterior, mas Kropotkin afirma que o aprofundamento no assunto faz surgir fatos novos e impressionantes que tornam infundados os temores malthusianos, começando pelo trigo cultivado em campo aberto, pois justamente quando se repetia que o trigo não compensava e a Inglaterra reduzia de ano em ano a área de seus trigais, os camponeses franceses aumentavam de modo constante a superfície dedicada a essa cultura, com o maior avanço vindo das famílias que cultivavam a própria terra herdada por gerações sucessivas de trabalho rural.
Ao longo do século XIX, essas famílias quase dobraram a área francesa sob trigo e também quase dobraram o rendimento por acre, elevando a produção total de trigo a quase quatro vezes o volume inicial, enquanto a população crescia apenas quarenta e um por cento, de modo que a taxa de aumento da colheita foi seis vezes superior à taxa de crescimento populacional, apesar de impostos, serviço militar, pobreza camponesa e proibição severa, até 1884, de muitas formas de associação entre agricultores franceses das aldeias rurais comuns do interior nacional.
Esse resultado ainda subestima a transformação real, porque durante o mesmo século, e especialmente nos cinquenta anos anteriores à edição revista, a horticultura comercial, a fruticultura e as culturas industriais se desenvolveram imensamente na França, permitindo dizer sem exagero que o país extraía então de seu solo seis ou sete vezes acima do que obtinha cem anos antes, enquanto os meios de existência retirados da terra haviam crescido cerca de quinze vezes mais depressa do que a população nacional em seu conjunto social amplo e diverso regional francês moderno rural.
A comparação serve a Kropotkin como abertura de prova, pois desloca a questão do tamanho abstrato da superfície para o padrão concreto de cultivo, mostrando que aquilo considerado bom em uma época se torna medíocre na seguinte, que o rendimento exigido sobe com a prática, a seleção, o adubo, a drenagem, a cooperação e a técnica, e que o limite agrícola usado por Malthus era menos uma lei natural do que retrato momentâneo de uma agricultura subdesenvolvida em relação às suas possibilidades reais de produção organizada coletiva futura próxima concreta.
O progresso agrícola aparece com nitidez ainda maior quando se observa a elevação do próprio padrão de exigência, pois uma colheita francesa de vinte e dois bushels por acre, considerada excelente trinta anos antes, deixara de bastar para o julgamento moderno, que já exigia pelo menos trinta e três bushels no mesmo solo, reservando o nome de boa colheita, nas melhores terras, para quarenta e três, quarenta e oito ou até cinquenta e cinco bushels, sinal de que a medida do possível mudava junto com a prática e com a confiança técnica dos cultivadores.
Essa elevação não era fantasia de laboratório, pois regiões inteiras como Hesse só se declaravam satisfeitas quando a média alcançava trinta e sete bushels, enquanto a Dinamarca chegava a quarenta e um bushels por acre no triênio mencionado, com quarenta e quatro em 1910, e as fazendas experimentais do centro da França produziam, ano após ano e em grandes áreas, quarenta e um bushels, ao mesmo tempo que muitas propriedades do norte francês davam regularmente cinquenta e cinco a sessenta e oito bushels por acre em condições ordinárias de exploração.
Em parcelas limitadas e sob cuidado especial, chegava-se por vezes a oitenta bushels por acre, e Grandeau considerava provado que a combinação de seleção de sementes, semeadura em linhas, adubação adequada e operações coordenadas poderia elevar bastante as melhores médias existentes, reduzindo ao mesmo tempo o custo de produção pela metade com máquinas baratas, sem contar instrumentos mais caros, como escavadoras a vapor e pulverizadores capazes de preparar a terra própria a cada cultura especial, segundo uma lógica de precisão até então rara no campo comum do pequeno produtor.
Essas máquinas ainda apareciam de modo ocasional, aqui e ali, mas Kropotkin via nelas uma antecipação do uso geral que viria quando a humanidade sentisse a necessidade de aumentar amplamente a produção agrícola, pois a questão central passava pela falta de pressão social organizada para aplicar ao campo o mesmo espírito de invenção que já havia transformado a indústria, substituindo a resignação diante do rendimento baixo por intervenção direta na semente, no solo, na ferramenta, na água, na força motriz, na rotação e no calendário de trabalho rural cotidiano sazonal.
Mesmo antes dessa aplicação mais ampla, a França já registrava progresso considerável com máquinas poupadoras de trabalho durante os vinte e cinco anos anteriores, pois em 1908 havia vinte e cinco mil ceifadeiras e mil e duzentas atadeiras em uso, contra apenas cento e oitenta ceifadeiras e sessenta atadeiras em 1882, embora se calculasse que a lavoura francesa ainda necessitasse de centenas de milhares de ceifadeiras e segadoras adicionais para atender às suas exigências reais em todas as regiões cultivadas do país e libertar braços para outros cuidados técnicos finos.
A mesma conclusão valia para adubos artificiais, irrigação, bombas e outros instrumentos de cultivo, cujo uso revelava um campo imenso de melhoramento ainda não explorado, e por isso Kropotkin recomenda cautela diante de qualquer juízo pessimista sobre a agricultura em geral, pois o mundo rural vivia sob condições desfavoráveis, pesado por rendas, impostos, intermediários, ignorância forçada e falta de apoio técnico, de maneira que os avanços obtidos em lugares privilegiados já mostravam possibilidades muito superiores à média corrente das estatísticas nacionais oficiais da época agrícola europeia tardia disponível então ao público.
Ao procurar exemplos concretos, Kropotkin começa pelo distrito de Saffelare, na Flandres Oriental, onde uma população camponesa de trinta mil habitantes vivia, trinta anos antes, em trinta e sete mil acres, encontrando ali seu próprio alimento, mantendo mais de dez mil cabeças de gado bovino, milhares de ovelhas, cavalos e porcos, cultivando linho e exportando produtos agrícolas variados, e ainda aumentando de forma constante essas exportações ao longo das décadas seguintes, sem abandonar a base familiar da lavoura intensiva local nem o equilíbrio animal das propriedades camponesas flamengas vizinhas próximas.
O caso importava porque mostrava uma densidade rural elevada sem miséria necessária, desde que a terra fosse trabalhada com intensidade e que o tributo cobrado sobre o agricultor não esmagasse toda possibilidade de progresso, pois Kropotkin não buscava exceções miraculosas, e sim lugares onde a prática comum ainda podia respirar, acumular experiência, reinvestir esforço e provar que a mesma superfície sustentava população, animais, fibras e excedentes quando as condições sociais não sufocavam o cultivador nem arrancavam sua poupança anual em rendas improdutivas e cobranças parasitárias locais permanentes anuais abusivas sucessivas.
Outro exemplo vinha das Ilhas do Canal, cujos habitantes, segundo Kropotkin, haviam escapado em parte às bênçãos do direito romano e do senhorio fundiário, conservando costumes normandos e formas de posse diferentes, e a pequena Jersey, com oito milhas de comprimento e menos de seis de largura, continuava sendo terra de cultura em campo aberto, sustentando cerca de dois habitantes por acre, ou mil e trezentos por milha quadrada, sem que os observadores agrícolas deixassem de elogiar o bem-estar dos camponeses e a qualidade das pequenas propriedades cultivadas ali.
As propriedades de Jersey, muitas vezes entre cinco e vinte acres e por vezes menores que cinco, obtinham resultados admiráveis por cultura racional e intensiva, apesar de o solo, formado por granito decomposto, não possuir fertilidade orgânica extraordinária e de o clima, embora mais ensolarado que o das ilhas britânicas maiores, sofrer com pouco calor de verão e ventos frios na primavera, condições que lembram ao leitor que o êxito recente da ilha não nasceu de natureza indulgente nem de vantagem física irresistível concedida ao lugar insular pequeno atlântico frio.
No começo do século XIX, os habitantes de Jersey viviam em grande parte de alimento importado, e os êxitos posteriores decorreram da quantidade de trabalho aplicada por uma população densa, de regras próprias de posse, transmissão e herança da terra, da ausência de tributação estatal pesada e da permanência de instituições comunais, junto de hábitos de auxílio mútuo que sobreviveram até tempos recentes e mantiveram viva uma solidariedade prática entre pequenos produtores em suas relações diárias de cultivo, venda, transporte, troca, compra comum e ajuda mútua constante local entre vizinhos.
A fertilidade do solo era fabricada em parte por algas recolhidas gratuitamente na costa, e sobretudo por adubos artificiais preparados em Blaydon-on-Tyne a partir de resíduos variados, inclusive ossos vindos de Plevna e múmias de gatos embarcadas do Egito, detalhe quase grotesco que Kropotkin usa para mostrar como a terra produtiva resulta de circulação material, engenho, costume comum e compra organizada de nutrientes, não de uma dádiva natural estática colocada de uma vez para sempre sob os pés do agricultor individual isolado da comunidade local produtiva organizada próxima.
Durante trinta anos, camponeses e agricultores de Jersey cultivaram batatas temporãs em grande escala, visando retirá-las do solo o mais cedo possível, quando podiam alcançar dezessete ou vinte libras por tonelada na balança da ilha, e por isso a colheita começava nos lugares mais abrigados já nos primeiros dias de maio ou no fim de abril, apoiada por um sistema completo de cultura que ia da escolha dos tubérculos à germinação, à seleção de parcelas protegidas, ao adubo, à caixa e ao transporte imediato para o cais local marítimo.
Esse sistema não pertencia a um inventor isolado, pois fora elaborado pela inteligência coletiva dos camponeses da ilha, que combinaram escolha de esterco, posição do terreno, proteção contra vento, germinação antecipada e múltiplas utilidades da caixa de plantio, de modo que, nas últimas semanas de maio e em junho, quando a exportação atingia o auge, oito a dez vapores entravam diariamente em Saint Helier, carregavam em vinte e quatro horas e partiam para Londres, Southampton, Liverpool, Newcastle e Escócia com produto recém-colhido para venda rápida nas cidades consumidoras inglesas.
Entre cinquenta e sessenta mil toneladas de batatas, avaliadas conforme o ano em duzentas e sessenta mil a quinhentas mil libras, eram exportadas a cada verão, e, somado o consumo local, a produção total alcançava pelo menos sessenta a setenta mil toneladas, embora apenas seis mil e quinhentos a sete mil e quinhentos acres fossem destinados a todas as batatas, temporãs e tardias, fazendo a média de dez a onze toneladas por acre superar largamente a média britânica de seis toneladas por acre em cultura ordinária aberta comum local geral.
Logo que as batatas saíam, sem perder um dia, semeava-se a segunda cultura de mangold ou de trigo de três meses, variedade de crescimento rápido, e até um campo de um ou dois acres podia ser dividido em quatro partes, com três semeadas em intervalos de cinco ou seis dias enquanto a quarta ainda era cavada, prática que revela uma agricultura sem intervalo morto, capaz de tratar o pequeno espaço como sequência de operações precisas e não como superfície entregue a uma única safra anual imóvel e lenta por costume.
As pastagens e prados das Ilhas do Canal apresentavam condição igualmente admirável, pois Jersey reservava menos de onze mil acres a culturas verdes, gramíneas em rotação e pastos permanentes, tanto para feno quanto para pastoreio, e ainda mantinha mais de doze mil e trezentas cabeças de gado e mais de dois mil e trezentos cavalos usados na agricultura e na criação, exportando anualmente touros, vacas e novilhas, além de leite, manteiga, peras protegidas individualmente nas árvores, frutas e verduras de estufa para mercados exigentes de qualidade urbana elevada constante inglesa.
Kropotkin resume esse conjunto afirmando que a ilha obtinha, em toda a sua superfície, cerca de cinquenta libras de produto agrícola por acre, resultado bastante alto e ainda longe de qualquer limite final, pois experiências posteriores com batatas mostravam trinta ou mais toneladas por acre em casos excepcionais, e os trabalhos de Aimé Girard, feitos com centenas de cultivadores franceses sob instruções precisas, obtiveram médias muito acima das três toneladas costumeiras, chegando a quatorze toneladas e meia por acre em cento e dez experiências acompanhadas de perto por correspondência técnica.
A exigência de colheitas ainda mais pesadas entra aqui pela porta da indústria, pois Kropotkin recorda que, na Alemanha e na Bélgica, a batata servia largamente às destilarias, e os proprietários dessas casas passaram a procurar, em cada acre, a maior quantidade possível de fécula, levando a ensaios extensos nos quais as variedades fracas deram nove toneladas por acre, as melhores chegaram a catorze toneladas e os tipos superiores alcançaram trinta e duas toneladas e quatro décimos, revelando que a fronteira prática da produção podia deslocar-se com enorme rapidez quando a planta era tomada como matéria de estudo, seleção e manejo preciso.
Com esses dados, a distância entre o cultivo pobre e o cultivo levado a sério deixa de ser uma diferença pequena de rendimento e passa a aparecer como uma margem enorme, situada entre três toneladas por acre, quando se aceita a prática costumeira sem muito cuidado, e uma produção superior a trinta toneladas por acre, quando a variedade, o preparo e o trato da planta recebem atenção metódica, de modo que o antigo limite agrícola passa a parecer resultado de hábitos recebidos, falta de recursos e abandono técnico, em vez de sentença inscrita no solo.
A pergunta que nasce dessa comparação toca o centro do argumento, pois a mesma massa de trinta toneladas pode ser arrancada de dez acres trabalhados de modo frouxo, ou de um acre ou dois acres cultivados com concentração maior de semente, esterco, escolha da variedade, preparo do solo, plantio, capina e retirada, ficando aberta a questão decisiva sobre qual forma consome menos força humana e menos meios materiais, desde o primeiro sulco até o transporte final dos sacos, quando se conta a lavoura como processo inteiro e não como simples extensão ocupada.
Quando o trabalho do camponês quase nada conta aos olhos do cálculo dominante, enquanto cada moeda entregue por semente ou esterco pesa com dureza sobre uma família rural pobre, a opção extensiva parece inevitável, pois ela espalha o risco sobre uma área maior e troca cuidado por superfície, embora essa escolha nasça de uma condição social amarga, na qual o esforço vivo é tratado como se fosse inesgotável, e a prudência da família se torna obediência forçada a uma pobreza que mede o dinheiro gasto antes de medir o corpo gasto.
Kropotkin desloca a pergunta para outro terreno, perguntando se tal escolha merece ser tomada como a forma racional da lavoura, já que o gasto verdadeiro envolve dias de corpo curvado, passos entre sulcos, transporte de esterco, seleção de tubérculos, uso de ferramentas, perda de tempo em parcelas afastadas e a repetição de operações que, concentradas sobre área menor, talvez dessem a mesma produção com menor desgaste total, maior domínio sobre a cultura e uma margem de tempo capaz de servir ao descanso, ao estudo e às demais tarefas de uma vida rural completa.
Por esse motivo, a batata industrial funciona como prova concreta contra a resignação agrícola, pois mostra que a terra pobre em resultado costuma estar presa a métodos pobres, a sementes fracas e a uma organização social que força o cultivador a escolher o caminho menos exigente em dinheiro imediato, embora esse caminho gaste área, tempo e força humana que uma cultura intensa poderia libertar para outras necessidades da vida comum, preparando a passagem seguinte, na qual a irrigação amplia o mesmo argumento e mostra outra vez a fertilidade como obra de organização consciente.
O novo exemplo que Kropotkin apresenta nasce da mesma pergunta sobre a capacidade real da terra cultivada, pois, depois de lembrar que em Saffelare e em Jersey já se conseguia sustentar uma cabeça de gado bovino por acre de lavouras verdes, prados e pastagens, enquanto em outros lugares duas ou três vezes essa área eram necessárias para o mesmo resultado, ele aponta a irrigação como uma técnica capaz de levar ainda adiante essa densidade produtiva, retirando a discussão do campo da opinião geral e colocando-a diante de números agrícolas verificáveis.
A irrigação, feita com água de esgoto ou com água limpa, aparece nessa passagem como uma correção direta contra a passividade agrícola, porque ela mostra que a fertilidade não depende somente da qualidade recebida do solo, da chuva casual ou do costume herdado, e pode ser criada por obras simples, contínuas e coletivas, capazes de transformar o prado em uma fábrica viva de forragem para os animais, desde que a água seja conduzida com constância e a população rural tenha meios para sustentar a obra comum ao longo de muitas estações.
Na Inglaterra, segundo a comparação usada por Kropotkin, muitos agricultores se davam por satisfeitos com uma tonelada e meia ou duas toneladas de feno por acre, e no trecho de Flandres mencionado antes duas toneladas e meia já eram tidas como colheita honesta, ao passo que, nos campos irrigados dos Vosges, do Vaucluse e de outras regiões francesas, seis toneladas de feno seco se tornavam regra mesmo sobre terra pouco generosa, provando que a limitação aceita em um país podia ser superada em outro por disciplina técnica e atenção coletiva.
Esse número muda a escala inteira do raciocínio, porque seis toneladas de feno seco representam alimento anual superior ao necessário para uma vaca leiteira, estimado por Kropotkin em pouco menos de cinco toneladas, e desse modo cada acre irrigado pode carregar, dentro de sua própria produção, a manutenção de um animal que em sistemas comuns exigiria área maior e deixaria o cultivador preso ao velho cálculo da escassez, no qual o rebanho cresce somente quando novas terras são tomadas ou compradas por quem já possui recursos e crédito disponível próprio.
Os resultados franceses, reunidos entre 1862 e 1882, dão ao argumento uma proporção nacional, pois nada menos que um milhão trezentos e cinquenta e cinco mil acres de prados foram irrigados, acrescentando ao rendimento anual do país alimento de origem animal suficiente para pelo menos um milhão e meio de pessoas adultas, produzido em casa e sem a dependência de importações que os defensores da resignação costumavam tratar como inevitáveis, embora a própria experiência mostrasse que boa parte dessa necessidade podia ser atendida por obra interna bem distribuída entre regiões.
A valorização da terra confirma a mesma força prática, já que no vale do Sena o preço do solo dobrou depois da irrigação, no vale do Saône subiu cinco vezes e em certas charnecas da Bretanha chegou a dez vezes o valor anterior, indicando que a obra humana organizada podia converter áreas desprezadas em riqueza agrícola contínua e preparar o terreno para exemplos ainda mais contundentes, como a Campine belga e os prados irrigados de Milão, onde Kropotkin encontrará novas provas contra a ideia de uma fertilidade fixa e pobre.
O exemplo da Campine belga entra no argumento como uma prova quase escolar da força da irrigação, pois aquela região, descrita por Kropotkin como território de produtividade miserável, era formada por areia marinha soprada em montes irregulares, mantida no lugar apenas pelas raízes da urze, e valia tão pouco que o acre era vendido por cinco a sete xelins, valor que assinalava aos olhos do mercado a aparente inutilidade agrícola daquela extensão, embora a pobreza reconhecida fosse menos destino natural da areia do que ausência de água dirigida, esforço acumulado e confiança técnica.
A transformação dessa paisagem veio do trabalho dos camponeses flamengos combinado ao uso regular da água, e a mesma terra antes tratada como areia sem futuro passou a produzir alimento suficiente para uma vaca leiteira por acre, enquanto o esterco do animal retornava ao solo como instrumento de melhora progressiva, fechando um circuito produtivo no qual criação, prado e fertilidade se reforçavam em vez de permanecerem separados, e cada ano de cultivo acrescentava alguma coisa ao ano seguinte por meio de uma organização paciente da matéria disponível sem depender de capitais distantes.
Os prados irrigados ao redor de Milão oferecem outra medida da mesma possibilidade, já que perto de vinte e dois mil acres recebiam água proveniente dos esgotos da cidade e entregavam, como regra, de oito a dez toneladas de feno, chegando em alguns campos isolados a dezoito toneladas por acre, quantidade suficiente para alimentar quase quatro vacas no mesmo espaço onde uma pradaria comum mal sustentaria uma fração desse resultado, e convertendo um resíduo urbano em força rural capaz de sustentar alimento, animais e renda local durante a estação inteira.
Kropotkin insiste que o leitor inglês não precisava viajar até Milão para verificar o efeito das águas servidas sobre a produção de forragem, pois os ensaios de Lawes e, sobretudo, o caso de Craigentinny, perto de Edimburgo, mostravam em território britânico o crescimento do azevém acelerado a ponto de completar em um ano o desenvolvimento que antes exigia três ou quatro anos, com primeiro corte no outono e cortes mensais na primavera seguinte, prova próxima o bastante para impedir que o exemplo italiano fosse tratado como curiosidade distante por qualquer agricultor atento.
Essa produtividade acumulada chegava, segundo o resumo citado por Kropotkin, a mais de cinquenta e seis toneladas de forragem verde por acre em catorze meses, enquanto Lodge Farm produzia de quarenta a cinquenta e duas toneladas de plantas verdes depois dos cereais sem nova adubação, Aldershot entregava boas colheitas de batata e Romford registrava, pelas experiências do coronel Hope, resultados extraordinários em raízes e batatas entre 1871 e 1872, compondo uma série de observações que afastava a suspeita de caso único ou de exagero local em diferentes pontos do país.
A conclusão é direta e abre caminho para o próximo passo do capítulo, pois, se em muitos lugares ainda se destinavam dois ou três acres para manter uma cabeça de gado, a irrigação bem feita já mostrava a possibilidade de sustentar duas ou três vezes esse número em partes do território, e as colheitas pesadas de raízes, como setenta e cinco a cento e dez toneladas de beterraba por acre, ampliavam o rebanho sem reduzir a terra reservada aos cereais, ponto decisivo para a crítica contra a suposta falta inevitável de alimento.
Depois da irrigação e das raízes pesadas, Kropotkin apresenta uma nova partida da agricultura, cheia de promessas e capaz de abalar muitas ideias correntes, que é o tratamento quase hortícola dos cereais, prática já difundida no Extremo Oriente e começando a chamar atenção na Europa ocidental, pois o trigo, a cevada e outros grãos deixavam de ser vistos somente como plantas lançadas em massa ao campo e passavam a ser tratados como indivíduos vivos que podiam receber espaço, escolha e cuidado, com uma atenção semelhante àquela dada às plantas de horta.
O ponto de entrada desse novo caminho é Major Hallett, de Manor House, Brighton, que na Primeira Exposição Internacional de 1851 apresentou uma série de mostras descritas por ele como cereais de pedigree, resultado de escolher as melhores plantas de seus campos e submeter seus descendentes, ano após ano, a seleção cuidadosa, até obter variedades de trigo e cevada muito mais prolíficas que as formas comuns aceitas pelos agricultores, dando ao cereal o mesmo tipo de aperfeiçoamento aplicado aos animais domésticos por criadores atentos durante gerações sucessivas de observação metódica.
A diferença indicada por Kropotkin era enorme, pois cada grão desses cereais selecionados, em lugar de produzir apenas duas a quatro espigas, média usual de um campo comum, podia produzir de dez a vinte e cinco espigas, enquanto as melhores espigas, em lugar de carregar sessenta a sessenta e oito grãos, aproximavam-se do dobro desse número, revelando que a capacidade da planta estava longe de ter sido esgotada pela rotina agrícola e pela pressa de semear densamente, como se a quantidade lançada compensasse a falta de desenvolvimento de cada haste.
Para alcançar variedades tão fecundas, Hallett não podia lançar seus grãos escolhidos a lanço sobre o campo, e por isso os plantava separadamente, em linhas, a dez ou doze polegadas uns dos outros, permitindo que cada planta tivesse espaço para perfilhar plenamente, isto é, para multiplicar hastes e espigas sem ser sufocada pelas vizinhas, condição que mudava por completo a relação entre uma semente e a área que ela ocupava, além de tornar observável a força própria de cada planta durante todo o crescimento até a maturação plena da colheita.
Nessas condições, cada grão separado podia dar dez, quinze, vinte e cinco, noventa ou até cem espigas, conforme o caso, e como cada espiga continha de sessenta a cento e vinte grãos, a colheita passava a variar de quinhentos a dois mil e quinhentos grãos, ou até mais, para cada semente plantada à distância conveniente, número que tornava visível a força escondida pela semeadura apertada dos campos usuais e pela concorrência prematura entre plantas vizinhas por luz, ar, seiva, alimento mineral, umidade, calor e espaço vital ao redor da raiz.
As demonstrações levadas por Hallett reforçavam a surpresa, pois na reunião de Exeter da Associação Britânica ele exibiu três plantas vindas de um único grão, uma de trigo com noventa e quatro hastes, uma de cevada com cento e dez hastes e uma de aveia com oitenta e sete hastes, e a planta de cevada, sozinha, podia representar algo entre cinco mil e seis mil grãos, enquanto outro exemplar de trigo mostrado em 1876 carregava cento e cinco cabeças sobre uma raiz e mais de oito mil grãos ao mesmo tempo.
Kropotkin insiste que os ensaios de Hallett envolviam dois processos distintos, embora muitas leituras posteriores os tenham misturado, pois havia de um lado a seleção destinada a criar novas variedades de cereais, comparável à formação de novas raças de gado, e havia de outro lado o método de aumentar imensamente a colheita obtida de cada grão e de uma área dada, plantando cada semente separadamente e a grande distância, com espaço suficiente para que a jovem planta chegasse ao seu desenvolvimento inteiro, sem ser julgada apenas pelo rendimento bruto de uma experiência isolada.
A razão dessa distinção era prática, já que nos campos comuns a planta nova costuma ser sufocada pelas vizinhas antes de mostrar sua potência, e por isso o plantio espaçado permitia examinar o que uma semente podia realizar quando recebia luz, ar, umidade, alimento mineral e lugar para perfilhar, enquanto a seleção hereditária tratava de outro problema, que era fixar em linhagens futuras a fecundidade encontrada nas melhores plantas do campo, separando a condição de cultivo da herança transmitida ao grão escolhido para a safra seguinte em terreno comparável conhecido.
O duplo caráter do método de Hallett parece ter passado despercebido por muito tempo, segundo o juízo de Kropotkin, porque muitos agricultores avaliavam o conjunto apenas pelos resultados obtidos com o chamado trigo de Hallett, e quando uma variedade amadurecia tarde demais em certa localidade, ou produzia grão menos perfeito que outro tipo conhecido, o agricultor descartava a experiência inteira, como se o defeito de uma linhagem anulasse a importância do espaçamento e da escolha, reduzindo um problema de adaptação local a uma condenação apressada do método inteiro perante outros cultivadores.
Essa confusão escondia o ponto mais fértil da experiência, pois os sucessos e fracassos de Hallett ao criar esta ou aquela variedade pertenciam a uma questão, enquanto o princípio da seleção e o princípio de plantar o trigo com larga distância pertenciam a outra, e as variedades criadas em Manor Farm, nos campos ventosos de Brighton, podiam servir muito bem a um lugar e falhar em outro sem que por isso se perdesse o valor geral do método, que dependia de adaptação paciente a cada clima, solo e estação de cultivo.
Kropotkin aproxima então a agricultura de uma fisiologia mais precisa, lembrando que as pesquisas recentes davam grande importância à evaporação no amadurecimento dos cereais, de modo que uma variedade adaptada aos ventos secos de Brighton talvez pedisse substituição em regiões onde a evaporação fosse menor, e ele sugeria experiências com trigos diferentes dos ingleses, como o trigo norueguês de crescimento rápido, o trigo de três meses de Jersey e a cevada de Yakutsk, famosa pela maturação veloz mesmo sob condições severas de estação curta e frio persistente nas regiões setentrionais.
A abertura do problema passava, portanto, para mãos mais numerosas, pois horticultores acostumados a cruzar e formar variedades, como Vilmorin, Carter, Sherif, Saunders no Canadá e outros, já se ocupavam dessa matéria, permitindo esperar novos avanços, desde que se mantivesse clara a separação essencial entre criar uma variedade fecunda e plantar, com distância conveniente, sementes de uma variedade apropriada de trigo, diferença que preparava os experimentos de Grandeau e Florimond Dessprez, nos quais a prova deixaria de depender somente das mostras de Hallett em exposições e panfletos agrícolas privados antigos.
O método de plantar sementes escolhidas a distância conveniente deixou de depender apenas das demonstrações de Hallett quando Grandeau, diretor da Estação Agronômica do Leste, e Florimond Dessprez, na estação experimental de Capelle, o submeteram a novos ensaios, e Kropotkin registra que os resultados foram notáveis nos dois casos, porque transportavam a hipótese para uma prática agrícola verificável, sustentada por escolha de sementes, instrumentos adequados, medidas de área e comparação direta entre séries de plantio, oferecendo ao leitor uma prova menos ligada à exibição individual e mais próxima do trabalho comum de uma estação experimental.
Em Capelle foi aplicada uma prática francesa de escolha de sementes que alguns lavradores já conheciam, pela qual o cultivador entra no campo antes do corte, procura as plantas sadias que sustentam duas ou três hastes igualmente fortes, carregadas de espigas compridas e cheias de grãos, recolhe essas espigas e corta com tesoura a ponta e a base de cada uma, conservando apenas a parte média, onde ficam os grãos maiores e mais promissores para a safra seguinte, procedimento simples que transforma a observação do campo em primeiro ato de melhora da colheita.
Com uma dúzia de quartilhos desses grãos selecionados, segundo a descrição de Kropotkin, o lavrador conseguia no ano seguinte a quantidade necessária de sementes de qualidade superior, e esse detalhe é importante porque mostra que o processo podia começar com uma porção pequena, retirada com atenção de dentro da própria colheita, sem exigir que o agricultor comprasse de fora todo o material necessário para modificar sua lavoura, bastando reservar o melhor da planta madura e multiplicá-lo com paciência antes do plantio amplo em escala suficiente para o campo inteiro no ano seguinte.
Dessprez repetiu esse procedimento e depois plantou cada semente separadamente, a oito polegadas de distância dentro da fileira, usando uma ferramenta especial semelhante ao abridor de linhas empregado no plantio de batatas, enquanto as fileiras, também afastadas oito polegadas umas das outras, recebiam alternadamente sementes grandes e menores, de modo que a experiência pudesse medir o valor da escolha sem abandonar por completo a comparação entre categorias de grãos, mantendo lado a lado a semente favorecida e a semente menos promissora sob a mesma disposição do terreno cultivado e preparado.
Um quarto de acre foi plantado dessa maneira, com sementes vindas tanto de espigas precoces quanto de espigas tardias, e as colheitas corresponderam a oitenta e três vírgula oito alqueires por acre na primeira série e noventa vírgula quatro na segunda, enquanto até os grãos pequenos deram, nessa experiência, setenta vírgula dois e sessenta e dois alqueires respectivamente, números suficientes para mostrar que a mudança de método dobrava a escala comum da produção e que a distância dada às plantas tinha peso próprio no resultado final obtido pela lavoura experimental.
A conclusão imediata era que a colheita tinha sido duplicada pela escolha das sementes e pelo plantio separado a oito polegadas, correspondendo, nos ensaios de Dessprez, a uma média de seiscentos grãos obtidos de cada grão semeado, e que um décimo ou um décimo primeiro de acre bastaria, nesse caso, para produzir os oito alqueires e meio de trigo exigidos em média pelo alimento anual de pão de uma pessoa cuja dieta dependesse principalmente desse cereal, deslocando de novo a discussão sobre população e alimento para o terreno da cultura intensiva.
Grandeau, que dirigia a Estação Agronômica francesa do Leste, entrou no mesmo caminho desde 1886 e alcançou resultados semelhantes aos de Dessprez, registrando que, em solo apropriado, um único grão de trigo podia dar cinquenta hastes com espigas, e até superar esse número, cobrindo um círculo de treze polegadas de diâmetro, medida que dava corpo visível à tese de Kropotkin sobre a potência escondida de uma semente quando a planta recebia espaço bastante para completar seu desenvolvimento, sem ser abafada por plantas vizinhas nem reduzida pela pressa da lavoura comum.
Sabendo como é difícil convencer pessoas de fatos simples quando esses fatos ferem hábitos antigos, Grandeau publicou fotografias de plantas de trigo cultivadas separadamente em solos diferentes e com adubações diferentes, inclusive areia pura de rio enriquecida por esterco, e concluiu que, sob tratamento apropriado, dois mil e até quatro mil grãos podiam ser obtidos com facilidade de cada grão plantado, resultado que deslocava a discussão do terreno da promessa para o terreno da demonstração material, acessível ao olhar de qualquer leitor disposto a comparar as plantas uma a uma.
As fotografias descritas por Kropotkin mostravam plantas que davam dezessete espigas por grão em solo adubado apenas com adubo químico, vinte e cinco espigas por grão em solo tratado com esterco de estábulo e adubo químico, além de quadrados da estação experimental plantados em três solos distintos, entre eles areia pura e terras aráveis adubadas, com cada grão a doze polegadas de distância, de modo que o leitor pudesse enxergar a ocupação inteira do espaço pelas plantas novas e perceber que a distância não significava vazio desperdiçado no campo sem proveito.
O dado mais contundente vinha da estação de Tomblaine, onde os oito alqueires e meio de trigo necessários ao alimento anual de uma pessoa, calculados para uma população que vivesse principalmente de pão, foram efetivamente produzidos em uma superfície de dois mil duzentos e cinquenta pés quadrados, ou quarenta e sete pés de lado, área muito próxima de um vigésimo de acre, o que tornava concreta a possibilidade de concentrar o alimento cerealífero em fração mínima da terra antes julgada indispensável por cálculos rurais aceitos sem exame crítico direto da experiência.
Daí Kropotkin tirava uma consequência de grande alcance: onde se exigiam três acres para obter certa quantidade de alimento, um acre poderia bastar se o plantio espaçado fosse adotado, e não haveria objeção séria a plantar trigo grão por grão, já que a semeadura em linhas também fora recebida com desconfiança quando substituiu o antigo lançamento a lanço, embora chineses e japoneses a usassem por séculos com tubo de bambu adaptado ao arado, muito antes de a prática ser aceita na Europa agrícola moderna por técnicos e cultivadores rurais atentos.
A objeção de que plantar cada semente exigiria trabalho excessivo repetia, para Kropotkin, a mesma resistência dirigida antes contra a semeadura em linhas, pois todo o arroz cultivado no Japão era plantado e até replantado, e quem comparasse o esforço de arar, gradear, cercar, limpar ervas e adubar três acres com o esforço concentrado em um só acre teria de reconhecer a vantagem do campo menor, sem contar a irrigação e a futura ferramenta de plantio que surgiria tão logo houvesse demanda por ela entre agricultores interessados em poupar trabalho total.
Kropotkin acrescenta que o próprio plantio espaçado ainda podia receber aperfeiçoamento por meio do replantio, pois os cereais, nessas condições, seriam tratados como hortaliças são tratadas na horticultura, com atenção ao desenvolvimento de cada muda, ao espaço oferecido às raízes, à retirada e recolocação da planta quando isso favorecesse sua força, e à possibilidade de conduzir o trigo com o mesmo cuidado que os jardineiros aplicavam a culturas consideradas delicadas e dignas de mão próxima, deslocando o cereal do regime da massa indistinta para o regime da planta acompanhada em seu crescimento.
Essa ideia começava a ganhar corpo na Europa à medida que se conheciam melhor os métodos de cultura cerealífera empregados na China e no Japão, e Kropotkin recorria a esses exemplos para mostrar que práticas vistas como trabalhosas ou improváveis por escritores europeus já tinham longa história em outras civilizações rurais, onde a planta recebia manejo direto, fileiras ordenadas e, no caso do arroz japonês, até replantio sistemático, prova de que a dificuldade alegada muitas vezes vinha do costume local e da falta de imaginação técnica diante de práticas estrangeiras bem-sucedidas.
O futuro, que Kropotkin esperava próximo, mostraria o valor prático desse modo de tratar os cereais, e ele recusava apoiar todo o argumento em uma promessa distante, porque os fatos reunidos ao longo do capítulo já ofereciam uma base experimental bastante rica para melhorar os métodos de cultura existentes, multiplicar colheitas, reorganizar a relação entre área e alimento e abandonar a velha preguiça intelectual que confundia baixos rendimentos com limite natural da terra, quando na verdade muitos limites vinham de sementes fracas, água mal usada e rotina pouco estudada nos campos.
Sem pretensão de servir como manual agrícola, o livro apresentava essas passagens como indicações destinadas a fazer as pessoas pensarem por conta própria, e bastava o pouco já exposto, da batata cultivada com atenção à irrigação dos prados, dos cereais selecionados ao plantio afastado, para mostrar que a questão da alimentação humana precisava ser colocada em outro plano, menos submisso às estatísticas de carência e mais atento ao poder inventivo do trabalho rural organizado, da experiência paciente e da cooperação aplicada aos processos materiais da lavoura comum em cada região.
A conclusão contra o medo de superpopulação ganha força exatamente nesse ponto, pois os meios de obter do solo aquilo de que a população necessita, sob qualquer clima e sobre qualquer solo, tinham sido aprimorados em ritmo tão rápido que já não era possível prever o limite de produtividade de alguns acres de terra, principalmente quando seleção, água, adubação, instrumentos, observação local e cooperação camponesa passavam a ser reunidos em vez de permanecerem dispersos, presos a tentativas isoladas ou a conhecimentos guardados em pequenas regiões afastadas do debate geral amplo.
O limite recua na proporção em que o assunto é estudado melhor, e cada ano o empurra para mais longe do olhar, de modo que o Capítulo IV termina convertendo a crítica a Malthus em uma confiança fundada na experiência, sem fantasia de abundância automática, pois Kropotkin evita prometer milagre e mostra que a terra responde de maneira muito diferente quando a sociedade deixa de aceitar a pobreza técnica como se fosse uma lei da natureza, encerrando a seção agrícola com uma abertura para novas provas e notas complementares do próprio capítulo.
Notas ao Capítulo IV
As notas de Kropotkin ao Capítulo IV reforçam primeiro o argumento francês, reunindo dados de Tisserand, Augé-Laribé, Risler e Garola para mostrar que a produção de trigo cresceu durante o século XIX em ritmo superior ao da população, com avanço de rendimento por acre, redução posterior da área sem queda proporcional da colheita e aumento ainda maior na batata, cuja produção de 1909 superava amplamente a de 1882, sustentando a tese de que o problema alimentar não podia ser explicado por uma falta fixa de solo, já que o mesmo território respondia de outro modo quando a técnica melhorava.
O caso dinamarquês aparece como apoio complementar, pois, mesmo com grande parte da área cultivável ocupada por cereais, o número de cabeças de gado aumentou muito entre 1871, 1882 e 1910, enquanto as referências à pequena cultura flamenga e à experiência de Jersey insistem no caráter coletivo da melhora agrícola, já que a batata temporã, quando praticada por produtores isolados, ficava abaixo dos resultados alcançados por camponeses que reuniam observação, método comum, proteção do solo e aprendizagem transmitida dentro da própria comunidade rural por anos de prática compartilhada entre famílias.
As notas sobre irrigação ampliam o mesmo ponto com números fortes, mostrando que a Sologne, a Vendée, o Ain e o sul da França obtiveram aumentos consideráveis em feno, trigo e horticultura quando a água foi dirigida de modo regular, enquanto os exemplos do Egito e dos planaltos secos dos Estados Unidos indicavam que a irrigação podia mudar profundamente o destino de terras antes tratadas como pobres, desde que houvesse obra material, gasto inicial e disciplina técnica para manter canais, prados e cultivos em funcionamento contínuo durante as estações produtivas.
Os dados reunidos por Ronna e por outros autores sobre Craigentinny, Lodge Farm, Aldershot, Romford e as culturas de raízes completam a defesa da criação intensiva, pois aparecem colheitas de batata, beterraba, cenoura, couve e forragem verde que permitiam sustentar mais animais por acre e devolver esterco ao campo, formando um circuito em que prado, gado, adubo e lavoura se alimentavam reciprocamente, sem obrigar o agricultor a sacrificar toda a área cerealífera para ampliar o rebanho, ponto decisivo para ligar alimentação animal, adubo estável, força rural e produção local de pão.
As notas sobre Hallett explicam tecnicamente a força do perfilhamento, processo pelo qual a planta jovem lança novas hastes e forma raízes correspondentes, e acrescentam que a superlotação prejudica esse desenvolvimento, pois, em ensaios citados por Garola, muitas sementes lançadas a lanço nem chegavam a produzir plantas, enquanto o plantio em linhas reduzia parte da perda e o plantio separado permitia investigar a capacidade inteira de cada grão, desde que os testes fossem feitos cedo, em campo aberto e com variedade adequada ao clima, sem confundir jardim protegido com lavoura real.
Por fim, as notas de Dessprez, Grandeau e Cambridge prolongam a conclusão do capítulo, registrando colheitas de palha e trigo em plantios espaçados, resultados de nove polegadas entre grãos, fotografias de plantas com dezessete ou vinte e cinco hastes conforme a adubação, tentativas de combinar qualidades de trigos canadenses e britânicos, experiências alemãs com centeio rico em glúten e o envio do leitor aos apêndices, de modo que o capítulo termina apoiado em uma rede de provas, ensaios e indicações práticas em vez de depender de uma afirmação geral sobre fertilidade.