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Capítulo 29 · Romanceiro

O pântano

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O pantano Na sombra humida d'um bosque densamente fechado pelas altas folhagens e d'uma tão enredada trama de cipoaes e espinhos que as mesmas feras e as mesmas aves não se atreviam a penetral-o, lobrego, entre juncaes mofinos, um pantano alastrava. A sua agua escúra, toldada de folhas mortas, immovel, como adormecida, raro em raro crispava-se ao arisco roçar das azas d'uma libellula ; nuvens de moscas d'ouro e azues enxameavam-no .

Jamais um raio de sol descera furtivamente áquelle atascadeiro, jamais uma restea de luar baixara sobre o tremedal merencoreo que dormia em lugubre silencio, negro , encerrado no bosque trágico.

Uma noite, jazia o pantano na treva quando, apartando-se, a uma rija lufada, as altas franças cerradas, a luz d'uma estrella desceu curiosamente sobre a sua face tristonha. Tanto que o pantano sentio na sua noVisões e sonhos jenta epiderme aquella maravilha retrahio-se e, como a teia d'aranha que, perfidamente, retem a mosca sylvestre, quedou contente e orgulhoso da presa que fizera.

A' hora suave d'alva, quando a estrella recolhia, ás pressas, toda a claridade que espalhára na terra, sentio que lhe faltava uma pequenina scintilla e, olhando anciosamente d'altura, foi descobril-a, a tremer, á tona do pantano selvatico. Reclamoua -o pantano quedou silencioso como se dormisse á sombra do cerrado bosque ; reclamou-a de novo e chorosa, dizendo : «Agua dormente da selva, restitue-me essa luz que me falta. Que será de mim quando o Senhor, que nos visita todas as manhans, descobrir que deixei na terra um pouco do meu esplendor ? Uma centelha que fique numa gotta de orvalho basta para que Elle nos accuse de descuido e nos condemne á vida errante, com uma grilheta de fogo que os galés levam de rasto pelo espaço. Tantos irmãos sydereos peregrinam cumprindo uma dura e irremissivel sentença por haverem esquecido, na pressa das madrugadas de verão, um quasi nada de luz no rócio de uma corolla.

Restitue-me essa parcella astral que não basta para alumiar-te e cuja falta será bastante para que eu perca a confiança de Deus. Restitue-me, devolveme a pequenina centelha e eu fecundarei o lodo do teu seio, fazendo que d'elle nasça uma estrella mais branca do que as que brilham no ceu.>> Visões e sonhos Acceitou o pantano a proposta mas, como era astuto, exigio, para dar liberdade á luz captiva, que logo se cumprisse .

Como já se dourava o oriente poz-se a estrella a chorar, temendo o sol que vinha, em chammas.

Ouvio-a um anjo que rondava o espaço e, acudindo ao seu pranto, interrogou-a. Disse-lhe a estrella a sua desventura e concluio lastimosa : <Como poderei eu apresentar-me ao Senhor com um rasgão na tunica ? No meu desespero prometti ao pantano inclemente dar-lhe, em troca da luz, uma estrella em tudo igual ás que brilham no ceu ... mas, como poderei eu cumprir promessa tão imprudente ?

Ai ! de mim ... »

Teve o anjo piedade do astro, que ainda era novo, e disse-lhe : <<Não te afflijas, será cumprido o que prometteste ... » E, lançando da altura um dôce olhar ao pantano, fez emergir d'agua lobrega o lyrio com as suas petalas, em tudo iguaes aos raios estellares, dando-lhe, a mais, o arôma que, assim como a luz é a alma dos astros, é o espirito delicioso e delicado das flores.

E foi assim que, voltando á estrella a luz captiva, appareceu, na noite negra do pantano, uma estrella tão linda como as que brilham no ceu.

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Sinopse

Leia gratuitamente Romanceiro, de Coelho Neto, obra brasileira em domínio público publicada em 1906, com poemas narrativos e páginas líricas organizadas para leitura online por capítulos no Literunico. Esta edição digital foi preparada a partir do exemplar público preservado no Wikimedia Commons/HathiTrust, com capa nova no padrão Literunico, reforçando busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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