Universo da obra
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Affirmam sabios : « A retina do morto guarda a visão derradeira. No assassinado os olhos, se fitaram o rosto do assassino, conservam-no estampado na pupilla vitrea. » Assim os livros asseveram e a experiencia demonstrou-me quando, em dezembro, Alda morreu.
Na camara em que expirou, um após outro, entraram todos os clinicos notaveis sem que um só conseguisse descobrir o mal que ia, aos poucos, consumindo a minha amada e, um a um, com desanimo e sorpreza, abandonaram o leito, todos com as mesmas palavras : « Singular, estranha molestia ! Que se ha de fazer contra o mysterio ?! »
E bem falaram os clinicos ... Alda morreu sem um gemido, sem ancia, tranquillamente, como se apenas houvesse adormecido.
Morta, vieram, de novo, os clinicos, um após ouVisões e sonhos tro, constatar a morte e ... como se desencontraram as opiniões !
Tal disse que fôra o coração o algoz, outro que fôra uma febre má ; um accusou os frageis pulmões da pobresinha. Velho medico, porem, vendo-a tão linda e nada desfigurada, quiz, de mais perto, examinal-a, lastimando que, tão cêdo, a Morte desfolhasse flor tão delicada.
E, lento, paciente, apaixonado, como se analysasse uma obra d'Arte, tomou-lhe as mãos pequenas, vio-lhe a fronte, a bocca, os olhos. Examinava-os ; de repente, voltando-se, interrogou-me : -De onde veio esta linda moça ?
De uma pobre aldeia. Trouxe-a eu para que se não perdesse nos montes tão formosa creatura. -De uma aldeia, bem vejo. E, falando, o velho medico inclinava-se para melhor analysar os olhos da finada. Uma pobre aldeia que um corrego atravessa.
A egreja branca avulta em um outeiro, em torno ha choças. E eu, pasmado de ouvilo, tinha os olhos nelle fitos.
- Conhece a aldeia, doutor ?
- Não, mas vejo-a na pupilla da morta. Pode vel-a, aqui está.
Curvando-me, então, junto do medico, sobre os olhos parados da defuncta, vi a linda aldeia de onde Alda fugira nos meus braços reproduzida nos olhos como na miniatura de um esmalte antigo.
Visões e sonhos -E' exactamente a aldeia, doutor. E o medico repetiu sentenciosamente as palavras dos livros. «A retina do morto guarda a visão derradeira. No assassinado os olhos, se fitaram o rosto do assassino, conservam-no estampado. >> Quer o doutor dizer que fci a aldeia que a matou ? -A nostalgia d'essas aguas, d'esse arvoredo , d'essas cabanas, d'esses prados. Foi a nostalgia que a matou. E, tomando d'uma larga folha de papel, o velho medico, com lagrimas de piedade, attestou a verdadeira molestia emquanto eu cerrava as palpebras de minha amada sobre os lindos olhos evocadores, cheios de recordações, como dois escrinios de saudades.
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