Universo da obra
Universo da obra
Em verdade, irmão Chrispo, o mundo tem os seus regalos. Não ha nada mais doce do que sahir com a aragem da manhan, quando o céu se vai distingindo da noite, e passear entre as frescas hervas, ouvindo os passaros do Senhor, sentindo o aroma das rosas.
Eu, que tudo plantei nesta leira, desde a arvore que nos abraça com a sua sombra até as alfaces que nos deram o caldo, tenho por ella tal amor que já me tem levado a commetter crimes bem negros.
Lembro-me de haver passado toda uma manhan de guarda áquella figueira, a sacudir um ramo para afugentar os gulosos passarinhos e ainda cumpro a penitencia que me impuz por haver esmagado aos pés, com furia, uma lagarta que me roia as alfaces.
São animaes do bom Deus, têm tanto direito á vida como nós e, se vamos ao bosque detorar as arvores para que nos dêem lume, se recolhemos a verdura Livro das illusões que nasce, se tomamos na celha a agua que corre, por que nos havemos de revoltar, com tanta ferocidade, contra os que vivem como nós vivemos ? Mas a gente apéga-se a estas coisas precarias como o avarento se aferra ao seu thesouro de moedas. E' quasi o mesmo peccado. --Tambem eu tenho culpas, irmão Honorio, culpas e grandes que me fazem tremer. A vinha que plantei no meu terreno cresceu, alastrou com viço tão prodigioso que cheguei a pensar em um milagre, e mais d'uma vez, de pura alegria, olhando aquelles sarmentos e aquelles pampanos, ajoelhei-me louvando o Senhor que nem esquece a planta na sua misericordia.
No tempo da carga é um gosto vel-a, toda verde, com os seus cachos pyramidaes oscillando e vergando a cepa, tão doces que o assucar se vai crystallisando nos engaços, á medida que o caldo escorre ; e as abelhas põem-lhes tal cerco e os passarinhos dão-lhes em cima com tanta gana que eu tambem, como tu, meu irmão, por mais de uma vez tenho interrompido a oração para sahir, aos brados, sacudindo varas, a enxotar os bichinhos.
Mas o que mais me torturaporque ainda não me julgo limpo de tamanha culpa-é o arranco que tive no anno passado, anno rico, de fartura e de sabor: os melhores fructos que tenho provado neste refugio e os melhores legumes foram os que elle nos deu...
Livro das illusões -Anno de muito peccado, irmão. -Nesse anno funesto tive eu o primeiro assomo de ira e não estou longe de o attribuir a traças subtis com que o demonio nos arrasta ao peccado.
Estava eu a folhear uns manuscriptos que me foram legados pelo beato Angelo, quando ouvi o piar d'um passaro, lá para os lados da vinha. Logo, assustado, levantei os olhos e descobri o furtador, que saltava por entre as folhas, lépido e cantando. Bradei, um grande brado que atroou - o passarinho bateu azas, assustado. Tornei á leitura, mas o meu espirito estava longe, a rondar a vinha, e, assim, não lhe foi difficil descobrir o esperto passarinho que tornara. De novo bradei, mas as uvas eram tão doces, a folhagem era tão espessa, que o animalzinho lá se deixou ficar.
Levantei-me de rebentina, tomei um calháo e, tão desastradamente o lancei, que a ave, colhendo as azas, rolou por entre as folhas e cahio no chão palpitando, com um fio de sangue a escorrer-lhe do biquinho aberto, e alli expirou, a meus olhos. Ah ! meu irmão, a dôr que eu tive !
A' tarde, indo á cisterna, junto a qual ha uma grande arvore, ouvi tão triste piar entre os ramos que levantei a cabeça e, guiado pelos queixumes, descobri um ninho e logo um presentimento me disse que as avesitas que alli choravam eram filhas da que eu matára. Para convencer-me deixei-me ficar sob a ramada, a ver se chegavam os paes dos pobresinhos.
Livro das illusões Desenrolaram-se no ar calado as nevoas finas da tarde, a brisa refrescou e as estrellas nasceram annunciando a noite e, entre os ramos, cresceń , mais afflicto, o lamento dos passarinhos. Então, apezar da minha fraqueza, difficilmente e com risco, me fui guindando pelos galhos até que alcancei o ninho e, como se colhe um fructo delicado, assim o desprendi do ramo .
Recolhi com elle-no fundo, entre molles achegas, tres implumes piavam, escancaravam os bicos, com os cotos das azas tremendo.
Ai! de mim, irmão Honorio ... que dôr funda me alanceou o coração arrependido ! As lagrimas saltaram-me dos olhos, mas pensando em salvar os pobresinhos que a minha ambição orphanára, corri ao corveiro a ordenhar a cabra e, ajuntando ao leite flor de farinha, fiz uma papa com que fui alimentando os pequenitos.
Durante um mez foi essa a minha penitencia e só me senti alliviado quando os vi voando e chilreando, e com que alegria os segui ao vinhal e os vi debicar as moscateis mais gordas.
Onde andarão elles ? por esses ares, por esses bosques ... talvez tecendo um ninho. Nesse tempo, meu irmão, o meu terror era grande - eu só pensava na morte e, cingindo mais fundamente o cilicio, e pedindo mais frio e dureza ás lages em que me deitava, e minguando, a mais e mais, as minhas rações, eu tremia com a idéa de morrer em peccado e pedia, com ancia, Livro das illusões a vida trabalhosa, não pelo gozo de viver, mas para expurgar-me da culpa infame em que cahira.
Ah ! a morte ... a morte, meu irmão ... ! Deus que me perdõe o pensamento, mas como seria bom se recebessemos um aviso misericordioso prevenindo-nos do dia tremendo. Vagarosamente nos iriamos preparando, para o transe, com orações e jejuns, catando d'alma, uma a uma, todas as culpas, apagando todos os pensamentos máos e, com o espirito puro e leve, bem sacudido dos peccados, deixariamos tranquillamente o mundo, como quem se apercebe para uma longa, difficil e arriscada jornada, dispondo tudo com segurança, acautelando-se contra todas as sorprezas do tempo e dos caminhos agrestes e mal corridos, para vencer a fome e a sêde, os sóes e as neves, as féras e os assaltos dos assassinos.
- Sim, seria, talvez, melhor do que é, mas não commentemos a ordem que Deus poz no mundo : Elle, que assim pensou e decidio, foi porque assim lhe pareceu que estava bem. Chrispo, porém, calando um pensamento, meneou a cabeça toda branca, suspirando como a desopprimir-se.
Já a tarde esfriava nublada quando elle tomou o cajado e partio.
A sua cabana ficava á meia encosta d'um outeirinho, dentro d'um airoso bosque de palmeiras que uma fresca fonte alegrava. Honorio, de tempos a tempos, ia até lá cima resolver alguma duvida theologica, esLivro das illusões clarecer um ponto dos sagrados livros, ou algum dos anachoretas que descera aos mosteiros, de volta ás suas solidões, sorprehendido pela noite, temerosa em tão ermas paragens, batia á cancella pedindo guarida.
Ia o eremita embebido na belleza da paizagem quieta e toda dourada pelos ultimos clarões do sol, louvando intimamente o Senhor, que sempre punha um novo encanto na terra e no ceu, áquella hora de melancholia, quando, já no caminho da cabana, pisando as folhas que forravam a trilha solitaria, avistou um mancebo airoso, de rara belleza, que jazia sentado em uma pedra musgosa.
Um passaro cantava de ramo a ramo e a aguasinha da fonte, derivando em corrego, viva e alegre, fugia, com um murmurio de falas cochichadas, por entre as hervas finas, que se inclinavam, como para ouvil-a.
Chrispo parou um momento, enleado, admirando o estrangeiro, tão entretido a ouvir o canto do passarinho, que não lhe sentira o rumor dos passos na secca e acamada folhagem, que estrallejava como ramalho ao fogo.
De olhos fitos e todo arripiado de emoção, o solitario ficou como de pedra ao descobrir as grandes azas que o peregrino colhera, como para occultar a sua natureza etherea, e lembrou-se da edade de plena graça, das terras abençoadas do paiz chaldeu, quando, ás ultimas luzes da tarde, os pastores sentados á beira Livro das illusões das tendas, calavam-se, tomados de espanto, vendo pousar no cimo dos outeiros entre as ovelhas deitadas, moços alados, que traziam mensagens do ceu aos patriarchas. Então, com immensa e devota humildade, Chrispo inclinou-se e murmurou de mãos postas : -Bemdito seja sempre o santo nome de Deus. E o anjo, voltando-se e illuminando-o com o olhar, mais azul e mais claro do que o ceu de verão, saudou-o docemente : -Seja a paz do Senhor comtigo, Chrispo.
Chrispo ficou tolhido de vexame, sentindo toda e sua miseria : a nudez da cabana, a dureza do catre de palha e ripas, o grosseiro cánhamo dos lençóes, tão asperos como as urzes que os sóes reseccam nos cerros; mas o anjo, como se lesse no seu pensamento, a pretexto da friagem da tarde e da fome que trazia, pedio-lhe agasalho e ceia, e adiantando-se graciosamente para a horta, elle mesmo colheu as alfaces mais tenras, rorejou-as na fonte, e encaminhou-se para a cabana. Seguio-o o eremita e, em poucos minutos, ardia um fogo alegre e o caldeirão fumegava com um referver gorgolejante.
A lua subia, grande e pallida, e, de longe, dos areaes desertos, vinha o rebusno dos onagros que cabriolavam.
Depois da ceia, que foi lauta - duas vezes o anjo estendeu a escudella reclamando nova ração de legumes Chrispo, pondo-se de joelhos, agradeceu a graLivro das illusões ça magnifica d'aquella visita e o anjo disse-lhe com serenidade : -E ha que agradecer. Não foi sem motivo que vim ao teu eremiterio amavel : trago-te um recado de Deus e consiste em dizer-te, para tua satisfação, que tens um anno justo de vida.
Não ha meia hora ainda que pensei em tal ...
- Ha meia hora que te espero, sentado sob os ramos da cerejeira, ouvindo cantar um passaro e vendo correr, por entre as hervas, a agua clara da fonte.
D'hoje a um anno, nesta mesma hora da tarde, passarás da vida á morte, sem agonia e sem peccado se te mantiveres em graça diante de Deus. -Ai ! de mim, suspirou o eremita, rojando-se com a face na terra, aos pés do anjo ... Ai ! de mim, que tão pouco tenho feito e tanto recebo de Deus em misericordias , disse ; e as lagrimas rebentaram-lhe dos olhos e, chorando clamava contra os gozos que ainda fruia : aquellas arvores que lhe acenavam com os ramos fartos, aquellas aguas tão puras, aquelle asylo de tanto conforto e , ainda um leito de ramos cheirosos, quando havia pobres, famintos e maltrapilhos que, no rigor das neves, nem achavam um palheiro onde se escondessem ...
Clamava em vozes altas, quando ouvio um forte bater d'azaslevantou a cabeça : a cabana estava deserta-correu á porta, ergueu os olhos e vio, entre as radiantes estrellas, um clarão que fugia aladamente, resplandecendo.
Livro das illusões * * * Nessa mesma noite Chrispo, que sempre resava um longo rosario, mais de uma vez reteve as contas entre os dedos, a pensar nas palavras do anjo. «Ao cabo d'um anno, áquella hora quieta, elle alli estaria hirto, estirado no chão ... » E olhava a sua sombra estendida na terra a tremer com o tremor da lampada, como se a idéa de morte tambem lhe causasse pavor. E elle, que tinha as carnes vincadas das flagellações, que passava magramente a hervas cozidas, que dormia em duro grabato, que tiritava de frio, só; elle que nunca conhecera o gozo, sentia saudade da vida e das dores, mesmo do medo que, muitas vezes, noite alta, o tolhia quando, no zoar do vento, passavam fremitos de feras ou, em torno da fragil cabana, animaes galopavam surdamente ou detinham-se bufando na soleira, arranhando a porta, que ringia .
Não poude conciliar o somno. Sahio ao horto, alvo á luz do luar e nunca lhe pareceu de tanta belleza aquelle retiro e que lindo era o céu e que aroma nos ares puros ! Ficou-se a pensar no recado divino ...
Era preciso forrar-se contra as tentações, preparar-se para o transe, pôr-se em virtude perfeita e cuidando, imaginando, sem sentir as horas, atravessava semanas esquecendo penitencias e orações, errando peLivro das illusões los caminhos, parando attonito á sombra das arvores, contando os dias, marcando-os em entalhes fundos nos troncos das arvores, com os seixos das fontes e com folhas seccas que ia pregando pelas paredes ... E os dias passavam: as penitencias accumulavam-se tão adiadas iam ficando e o horto, abandonado, cobria-se de hervas damninhas.
Uma manhan, em grande desespero, desceu á choça de Honorio : encontrou-o tranquillo, a cantar, limpando a azequia da sua horta. Logo ao dar com elle -tão demudado estava - Honorio estremeceu : o aspecto de Chrispo era o de um energumeno : os olhos queimavam de incendidos, rugas fundas sulcavam-lhe a fronte e as faces, um tremor sacudia-lhe todo o corpo esqueletico.
- Que afflicção assim vos transformou, irmão ? indagou em sobresalto o manso eremita. Chrispo deixouse cahir em um banco rustico e grossas lagrimas subiram-lhe em borbotões aos olhos e foi por entre lagrimas que elle narrou o caso d'aquella tarde de belleza e doçura - a visita do anjo portador do recado divino ....
Ah ! os cuidados em que, desde então, andava : só a pensar naquelle momento espantoso que vinha tão perto e que elle esperava, impotente como um crucificado que visse vir nos ares, faminto, um abutre d'arremettida cruel ao seu corpo indefezo .
Todo o seu pensamento se fixava na morte : tudo esquecera - a herva crescia avassallando a cultura, a Livro das illusões agua da fonte, dantes limpida e corrente, rebalsáva-se em atascadeiros cobertos de folhas que apodreciam e a sua alma ia-se tambem tornando como o campo, bravia e agreste, porque não rezava, não lia, nem mais exercitava as penitencias, tão regulares antigamente. <<E' que eu sei o dia da minha morte e isso, irmão, tolhe-me para tudo mais ... >>> -Que vos disse eu, irmão Chrispo ? Quizeste entrar nos arcanos de Deus e elle vol-os mostrou. Tudo está bem como está não queiramos andar adiante dos minutos, contentemo-nos com os horizontes porque até lá chegam os nossos olhos, não varejemos o que se nos occulta. Eu sou feliz e sei eu, por acaso, se ouvirei, até o fim, o canto d'esta cigarra que nos alegra? não sei ... e morreria docemente com a impressão de o ter ouvido. O melhor da vida é o mysterio e o unico bem da morte é o imprevisto. Tendes o segredo de Deus, fazei-vos agora digno do seu perdão porque, a meu ver, peccaste iniquamente. E é tudo quanto vos posso dizer ... -E' tudo ! -E' tudo ... Chrispo inclinou a cabeça e ficou pensativo a arquejar tão anciadamente que o burel zimbrava no seu peito cavado.
Era o tempo em que os ninhos despedem as novas gerações e, por todos os ramos, vozes ensaiavam-se em pios respondendo aos reclamos gazis que nas frondes altas trinavam.
Livro das illusões Chrispo encaminhou-se vagarosamente para a cancella, abrio-a, sahio ao caminho e foi-se, sem voltar a cabeça, desapparecendo na estrada de saibro, que ardia e faiscava ao sol áquella hora abrazada do meio dia.
Honorio sentio, então, uma intensa piedade pelo companheiro e, ajoelhando-se na terra fofa, preparada para a sementeira, ficou até tarde, orando ao Senhor para que preservasse aquelle espirito de tão entranhada angustia e, durante longos dias e noites seguidas, todas as suas orações foram em favor do solitario.
Ao dealbar d'uma manhan luminosa, Honorio descia á ribeira quando vio uma nuvem de abutres voejando na direcção do palmar airoso que encerrava a cabana de Chrispo e logo um pensamento de morte the passou pelo espirito. Sem demorar um minuto endireitou para o outeiro a passos apressados.
Logo ao passar a cancella travou-se-lhe o coração de pena ao ver tão acceitoso retiro transformado em intonso mattagal e a casa palhiça aberta, em abandono, com herva a cobrir a soleira secca e no colmo, d'azas espalmadas, abutres gozando o sol.
Bradou pelo eremita : tres vezes os échos atroaram ; então, resolvido, passou o limiar e logo os seus olhos, já humidos, fitaram a parede onde se enfileiravam folhas seccas espetadas no adobe com espinhos agudos e, contando-as, achou noventa e cinco que tantos tinham sido os dias atormentados do miserando.
Livro das illusões De novo bradou o nome de Chrispo e, sem resposta, sahio a procural-o. Correu a horta onde os legumes mirravam, passou ao pomar que o corrego, transbordando, transformara em paúl e, ao fundo, pendente do galho d'uma arvore, vio o corpo do eremita oscillando, com abutres pousados sobre os hombros atassalhados, o burel rôto, o rosto em caveira, os ossos nodosos das mãos e dos pés amarellando ao sol.
O desespero levara-o a precipitar a morte, a adiantar-se ao destino e Honorio, sem conter o pranto, ajoelhou-se rezando pelo companheiro e até á tarde alli esteve e á noite, com o luar, cavou uma sepultura e deitou o cadaver. Então, fechando a cabana, desceu vagarosamente, caminho do eremiterio, repassando em silencio as contas do seu rosario, a ouvir as vozes agourentas das aves que voavam dentro da noite e o rebusno dos onágros nos areaes do deserto.
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