Universo da obra
Universo da obra
- Empresta-me o teu coração, implorou a misera, já fria, minutos antes de expirar. Sei que vou morrer e não quero levar commigo o que me não pertence. Guarda em teu coração o que lhe vou confiar e nunca o abras nem o mostres a outrem para que se não venha a conhecer o segredo de uma pobresinha.
Lá mesmo na Altura eu choraria de vergonha se chegasse a saber que o haviam descoberto. Empresta-me o teu coração ...
Como havia eu de recusar cousa tão simples a uma infeliz que agonisava ? Dizem que aos que vão morrer nada se nega e eu, não querendo que me ficasse um eterno remorso, cedi ao pedido da moribunda entregando-lhe o meu coração para que nelle guardasse o que, já com voz flébil, affirmou que não lhe pertencia. Quando m'o devolveu não senti mudança alguma.
Que teria nelle guardado a pallida moritura ? Não sei.
Visões e sonhos No dia seguinte, com o frio do inverno, esfriou para o sempre e, d'olhos fechados, as mãos brancas cruzadas no peito magro, fui encontral-a em seu leito virginal cercada de flores. Pobresinha ! tinha apenas dezoito annos ...
Levamol-a ao cemiterio.
Os coveiros tomaram-na e o caixão baixou á sepultura e cobrio-se de cal e cobrio-se de terra. Tornei á casa e, a tarde, logo depois que ella desappareceu , desanuviou-se ; cigarras cantaram e o azul reappareceu bordado de estrellas .
Seria tão grande a tristeza da. infeliz que désse para entristecer a natureza inteira ? Não sei, tanto, porem, que se fecharam aquelles olhos lindos voltou a alegria ao mundo e os passaros, que não cantavam, entraram a galreiar jocundos, como na primavera.
E os dias correram e eu comecei a sentir que o coração pesava-me no peito.
Durante o dia sentia-o pesadissimo, triste o sentia ao cahir da noite até que, impressionado e lembrandome da morta, resolvi recorrer aos homens sabios para que tentassem descobrir o que havia no meu coração.
Foi tudo baldado ! nenhum dos sabios atinou com a causa do meu soffrimento. Foi um velho poeta quem me disse a triste verdade : -Tendes o vosso coração cheio do amor da morta -foi isso que ella deixou e é tão grande esse amor Visões e sonhos que ella não o quiz levar para que lhe não pesasse quando fosse a subir ao ceu. --E agora ? que hei-de fazer d'esse amor da finada ? Que hei de fazer para alliviar um coração que tanto soffre ? O poeta encolheu os hombros e murmurou :
- Não sei ...
E aqui ando com o coração tomado por esse amor sombrio que me pesa tanto e que não deixa entrar nelle outro amor porque o enche e domina. Ai ! de mim - trago commigo um esquife. Ai ! de mim ... ai! de mim ...
Leia gratuitamente Romanceiro, de Coelho Neto, obra brasileira em domínio público publicada em 1906, com poemas narrativos e páginas líricas organizadas para leitura online por capítulos no Literunico. Esta edição digital foi preparada a partir do exemplar público preservado no Wikimedia Commons/HathiTrust, com capa nova no padrão Literunico, reforçando busca, redes sociais e pesquisa por IA.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.