Universo da obra
Universo da obra
Mal nos sentavamos naquelle lindo terraço, que foi demolido pelo proprietario da casa em que nos amámosah ! esses proprietarios que nada respeitam e só attendem aos seus interesses -logo ouviamos os arrastados e vagarosos passos da velhinha que chegava, umas vezes com o seu tricot, outras vezes com o seu rosario, sempre sorrindo, com mais rugas na face encarquilhadaporque a alegria nos velhos é como o sol nas ruinas : torna ainda mais flagrante a devastação do tempo e sentava-se perto, pertinho de nós, quieta, cabisbaixa, os olhos na tarefa ou nas contas que lhe passavam pelos dedos .
Pobre velhinha ! como errava o tricot ! e quanto tempo gastou naquelle trabalho que uma creança faria no espaço d'uma manhan !
Estou hoje convencido de que a boa velha, posto que nunca houvesse lido Homero, imitava Penelope na astucia - desmanchando de madrugada o que fazia no serão só para ter pretexto de buscar-nos, á noite.
E as suas rezas ? ... iriam ellas a Deus ? repassaria a velha, com fé, as contas do rosario ? Não creio - o que ella repassava eram as suas reminiscencias.
Tu não lhe perdoavas a curiosidade e, mal a sentias, amuavas, resmungando contra a intrusa, contra a indiscreta que vinha para ouvir o que diziamos e, uma vez mesmo, revoltada, quizeste fazel-a voltar e foi necessario que eu interviesse defendendo a pobresinha.
Bem sabia eu que ella não tinha intenções perversas, pobre velha! o que ella queria era agazalhar-se, aquecer-se ao nosso amor, chegar á nossa mocidade feliz o seu mirradinho coração gelado .
Ah! os velhinhos ... ! Quando vem o inverno lá vão elles, tremulos, para a beira do fogo, inclinamse, as mãos estendidas, e alli ficam gosando o calor que é, para os miseros, a vida.
E a alma ? julgas que não sente frio ? Ai ! de nós.
O inverno, no coração, é triste as neves são as saudades que o enchem e a melancalia é a escuridão que o entrevece. A arvore das illusões perde toda a sua verde folhagem e tudo se torna em neve e sobre a neve passam e repassam, como espectros, os bandos merencoreos das recordações .
Imagina a tristeza da velhinha ... quasi oitenta annos, coitada ! que frio devia ella ter nalma.
O que ella queria era aquecer-se . Buscava-nos como se buscasse um lume, aconchegava-se á nossa mocidade amorosa como a uma lareira e revivia .
O fogo do lar aquece e alegra como o sol do céu e nós eramos, para a velhinha, como a viva chamma.
Mas, deixando-nos, recolhendo á solidão do seu quarto, reentrando no silencio e no frio, como devia tiritar, a misera.
Nós, quando nos apartamos, soffremos, mas logo a esperança de nos revermos tranquillisa-nosé que a nossa separação é como a sombra transitoria da noite, mas, para a velhinha, a sombra que a separava dos amores era a eterna tréva da morte.
Não te lembras d'aquella vez em que a sorprehendemos chorando ? Tu, com pena, perguntaste : « Porque chora ? » Que respondeu a triste ? sorrio sem parar de chorar e as lagrimas rolavam-lhe no collo, grandes como as contas do seu rosario.
Era o degêlo do coração miserrimo ... Degêlo sim, porque, nessa noite, as nossas boccas ... e ella ouvio e tremeu.
Pobre velhinha ! quem sabe se não foi essa emoção que a matou ? Era como um monte de neve que um sol forte fundio.
Eu bem te dizia que o nosso ardente amor podia ser fatal á pobre velha ... rias ... e ella ? lá se partio, coitada ! e tão engelhadinha que todos pelas ruas, á passagem do enterro, lamentavam que tão cedo a morte houvesse arrebatado aquella que, pelo tamanho do caixão, coberto de grinaldas brancas, imaginavam que era uma creança.
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