Leia agora
Romanceiro

Universo da obra

Romanceiro

Capítulo 61 · Romanceiro

Deuses

61 de 62 ≈ 19 min de leitura

Quando o sacerdote accendeu, com a centelha solar, o lume d'ara, vibraram, em doce accento, as lyras ás mãos dos mystas e o povo, em atropellado tumulto, vendo o esplendor da chamma reflectido em rebrilhos roseos nas paredes de finos marmores polidos, entoou o grande hymno heroico, glorificando o deus radiante, regulador da vida e dispensador equitativo da Justiça e dos bens.

Todas as almas voltaram-se ao altar augusto, onde resplandecia a imagem perfeita do divino Ephebo ; só um velho, nascido nos remotos confins das terras asiaticas, á beira d'um grande rio, pasmou d'aquelle culto estranho, não comprehendendo que as orações passassem além do lume vivo que ardia e coruscava irrequieto, lampejante e alegre como a propria alma que reina nos corações, centelha do sol divino que fulgura no ceu.

Livro das illusões «Pois é crivel que o deus dos nossos ancestraes, a viva e loura imagem de Indra, o lume superior e eterno, fique reduzido á triste condição de servo, prestando-se a glorificar um novo deus ?

Que faz aquella figura impassivel que semelha um adolescente ? que faz naquella rigida immobilidade, para que assim a honrem e venerem ?

O lume rebrilha e illumina, o lume aquece e vivificamanifesta-se visivel, sensivelmente é Agni, a hypostase de Indra, e ha de ser o serviçal humilde da figura de pedra ? E' então assim que se respeitam as crenças ?

Não foi o lume que nos veio guiando através das solidões nunca trilhadas, afugentando as féras, desvendando os horizontes até as terras fecundas em que espalhamos os nossos rebanhos, levantamos as nossas cabanas de pelles, sulcamos o solo, abrindo o leito para a sementeira ? Não foi o lume que nos deu a victoria sobre as gentes grosseiras e crueis das cavernas ? Não foi elle que nos illuminou a derrota nos mares e não é elle ainda que nos aquece quando as nevoas se condensam e cahem em floccos, que desfolham as arvores e tornam os caminhos lividos ? Por que hão de os homens ingratos humilhal-o, fazendo do vivo deus terreal o escravo de uma imagem morta ? E' isto a nova religião ? E' esta a nova crença ? Eis porque os soffrimentos recrescem. E como não querem os homens ingratos que a peste os dizime e as seccas lhes Livro das illusões façam mirrar a sementeira se desadoram o deus verdadeiro e curvam-se diante da figura de um homem ?>> E o velho arya, sacudindo as abarcas, deixou o templo onde, no fervor do culto, todas as lyras soavam acompanhando gloriosamente o pæan glorioso.

Livro das iltusões Napéas e egypans cornigeros fugiram, as humidas nymphas mergulharam nos rios ou esconderam-se, pallidas, entre os juncaes das fontes e as hamadryadas tremeram dentro dos grandes cedros quando viram apparecer na floresta os homens fortes, derrubadores d'arvores.

Zephyro, como se tambem se arreceiasse, foi escapando aligero e as frondes ficaram immoveis, cessou de todo o ruido, nem mesmo os insectos ousaram esvoaçar brincando nos raios de sol que scindiam a folhagem.

Raro em raro, no recesso mais fundo, as versas farfalhavam sob os ligeiros passos d'algum fauno arisco, ou as aguas borbulhavam ao mergulho d'uma nayade assustada, e os homens caminhavam lentamente, cabeça alta, olhando, examinando as arvores, discutinLivro das illusões do e, de tronco a tronco, passavam commentarios timidos das nymphas : <<São lenhadores: trazem o machado mortal. Vão, talvez, edificar uma nova cidade, talvez erigir um novo templo e querem-nos para as construcções. Vamos deixar a nossa folhagem - nunca mais nos toucaremos de flores e, mortas, longe da terra nativa, ficaremos apertadas entre pedra e argamassa. Mas quem sabe ? Talvez não seja para edificios ! O inverno ahi vem : os ventos sopram bravios, as noites toldam-se de brumas que gelam ... é, sem duvida, para lume que nos querem. Ai ! de nós, dentro em pouco não seremos mais que cinzas dispersas » .

E os homens olhavam, examinavam as arvores, palpavam-nas e, dentro d'ellas, estarrecidas, as hamadryadas tremiam. Um, que parecia ser o chefe, disse, por fim, aos companheiros, parando junto d'um grande cedro : -Esta parece-me uma arvore magnifica, o artista ha de ficar contente. E todos concordaram.

Então os homens cercaram o grande cedro e, despindo os mellotes, que penduraram aos ramos, empunharam os machados .

Aos primeiros golpes todo o bosque atroou lamentosamente e as divindades, espavoridas, abalsaram-se.

Em manejos regulares, ao som dos cantos, iam os machados sulcando o tronco rijo. Cançaram, porém, os homens e, sentando-se, puzeram-se a conversar.

Livro das illusões -Se o artista for habil, a Venus Urania que sahir d'este cedro será a mais bella das deusas, disse um.

- Que o tronco é admiravel, accrescentou outro. -E perfeito, concluio o chefe. Então, de arvore a arvore por toda a floresta, correu um sussurro alegre : <E' para fazer uma deusa. E' para fazer uma deusa » .

E as hamadryadas disseram : <<Vai ficar num altar e terá culto. Queimar-lhe -ão resinas aromaticas e as sacerdotisas velarão para que se mantenha sempre accesa a sua lampada de oleo fino. Se é para tirar uma Venus, não virão ferir-nos os machados, porque um só tronco basta » .

De novo tornaram os derrubadores á faina, com mais alento, cantando.

Subito o tronco, fundamente vincado, oscillou. Os homens recuaram, espalhando-se, e o grande cedro, talhado, começou a pender estrallando. Com a sua folhagem ia arrasando as franças das outras arvores, escorchava-lhes, de raspão, os troncos e, fragorosamente, talando galhos, esmagando arbustos, estendeu-se no solo : ficou no seu lugar uma grande aberta, logo invadida pelo sol glorioso.

Então os homens acudiram e começaram a detorar as ramagens do cedro, deixando o tronco liso para que, na manhan seguinte, o fossem buscar com os possantes bois do serviço do templo. E partiram.

Recahindo o silencio, desceram do fundo do bosLivro das illusões que os egypans, as nayades emergiram das aguas, as hamadryadas deixaram o amago das arvores e todos, cercando o tronco derrubado, contemplavam-no com piedade, quando uma dryada fallou : -Já que ella vai ser deusa, a loura hamadryada do cedro, peçamos-lhe que nos proteja. Que na sua gloria augusta, não esqueça as suas pobres irmans da floresta. E todas as divindades ajoelharam-se á volta do tronco, que se esvaîa, clamando : « Sê por nós, Venus excelsa ! >>> Então a hamadryada, que agonisava no cedro, falou sumidamente ás suas irmans da floresta : <E< ' para um templo que me vão levar, um templo de fino marmore, com relevos de ouro. Vou ser deusa.

Virão a mim, humilhados, os principes dos homens e gentes de todos os paizes com offerendas preciosas.

Nos dias solemnes sahirei entre hierophantas e sacerdotisas, e o povo, de joelhos, fará alas respeitosas á minha lenta passagem.

Na pedra limpida do meu altar propiciatorio palpitarão pombas alvas feridas pelo cutello aureo das sacrificadoras. Eu serei na terra a imagem da grande Venus.

Quando as tempestades vos estorcerem, quando o raio de Zeus fender os vossos corpos e as enxurradas cavarem a terra expondo as vossas raizes, eu, agazalhada e venerada no ádyto do templo, ouvirei os hymnos entoados ao som das lyras e das flautas lydias. Eu sou a Venus celeste, a immortal Urania » .

Livro das illusões " Um velho egypan, que se achegára ao cedro, sorrio ouvindo a voz enfraquecida da hamadryada e disse ás divindades prosternadas : -Por que haveis de pedir protecção a quem a não póde dar ? Invejais, talvez, o seu destino ... pobre d'ella ! E' melhor ser arvore viva na floresta do que tronco secco no altar. Ella vai ter os perfumes, os cantos, as oblações e as homenagens dos homens ... deixai-a ir, a Venus Urania. Eu prefiro a minha caverna forrada de fétos ao templo de marmore que lhe destinam e, quando os raios estalarem eu, a tremer de medo, louvarei a vida, pensando nos dias tépidos e claros. A vida, a vida, mesmo a tiritar de frio, eu a prefiro a todas as glorias num templo, depois da morte. -Não vale a pena ser deusa por tal preço ... Antes ser arvore e luctar com a furia do vendaval, disse uma hamadryada. -E eu prefiro as aguas do meu rio, mesmo assoberbadas pelo inverno agreste, disse uma nayade. E todas as divindades florestaes, ao lindo raiar d'alvorada, cantaram louvando a vida. Só a hamadryada do cedro, que devia dar o divino corpo de Urania, deusa victoriosa e immortal, não teve voz para cantar, apenas pôde dizer flebilmente : «Não ha grandeza sem martyrio. Mesmo para ser deus é preciso soffrer ... »

E, assim dizendo, expirou.

Livro das illusões :

No antigo templo, sagrado pelos tristonhos padres nazarenos, cujo « naos>> fôra transformado em capella christan, fulguravam cirios pallidos aos lados da imagem d'um Christo macilento, livido e sangrando, a cabeça pendida, os cabellos collados á fronte e ás temporas cavadas, a bocca retorcida e aberta no afflictivo hiato da agonia, estampado na cruz em que luziam os cravos de ferro e no topo, em placa argentea, revolta, a ironica legenda.

Era noite.

No bosque que encerrava o sanctuario, olympico onde, outr'ora, os peregrinos, que vinham consultar o oraculo, levantavam as suas tendas alvas, só a agua de uma fonte, em lento minar, chorava e, por vezes, a uma lufada do vento, os loureiros farfalhavam .

A voz rascante da estryge de Pallas rilhou no esLivro das illusões paço adormecido. Desabotoavam as açucenas e todo o ar era um suave perfume.

A estatua de Apollo, em marmore, que os padres haviam atirado, com desprezo, entre as hervas altas, levantou-se, branca e luminosa, d'uma belleza toda feminina, como uma nayade que sahisse do seu juncal ribeirinho e, com serenidade magestosa, caminhou lentamente para o templo.

Atravessou o peristylo deserto, entrou no pronaos onde os seus passos de pedra resoaram e, chegando ao naos, contemplou, com tristeza, a nudez do recinto As columnas tinham sido despidas das decorações preciosas : as armas luzentes, os concavos escudos de ouro, os pannos attalicos que rebrilhavam. As mezas votivas, dantes sobrecarregadas de offerendas, estavam vasias e descobertas, como se por alli houvesse passado uma horda sacrilega e rapace.

O deus caminhou mais alguns passos e, erguendo os olhos claros, fitou a imagem immota do seu adversario victorioso, o nazareno, que lembrava Marsyas amarrado á arvore affrontosa ; e sorrio : -És tú, então, o deus novo dos homens ? tú, um cadaver ! Que fizeste na vida, se viveste, para que assim te adorem quando já não és mais que um corpo inerte ? Que novos prazeres ensinaste ás gentes insaciaveis de gozo ? Fala, dize : que fizeste para que os homens voluveis vivam a cercar o teu calvario de luzes ?

Vozes soturnas soaram no episthódomo transforLivro das illusões mado em claustro e Apollo, prestando attenção ao côro melancolico, nelle poude apenas distinguir a palavra <Misericordia » , mysteriosa palavra bem soante que, pela primeira vez, chegava aos seus ouvidos. «Deve ser o nome do deus morto » — murmurou.

As vozes approximavam-se e Apollo falou para a imagem da agonia : -Cadaver, que outro nume virá depois de ti ao altar de que me apearam ? Talvez o tirem da mesma pedreira a qué me foram buscar se o não fizerem com a madeira cruel da mesma arvore que deu o poste do teu supplicio. Misericordia é o teu nome. Eu chameime Esplendor e por mim vieram as Artes ao mundo.

Morto, és mais feliz do que eu não soffrerás, como eu soffro, no dia em que te desprezarem. És um corpo apagado, eu era a propria Vida. E que póde trazer um morto ? Calou-se, escondendo-se na sombra porque appareceram, ao fundo, sahindo do antigo episthódomo, em duas filas lentas, os negros monges psalmodiando.

Livro das illusões Nunca mais pudera esquecer o sinistro espectaculo -tinha-o constantemente ante os olhos : aquelle outeiro maldito onde não vingava herva, assombrado pela forca senhorial, sempre com um cadaver a oscillar ao vento, mirrando ao sol ou deventrado pelos corvos que ennegreciam o sitio esvoaçando com um lugubre crocito, tão alto que se ouvia no burgo, onde, ás lufadas da brisa tépida, chegava o cheiro asqueroso dos mortos que apodreciam.

Lá o vira, uma noite, a elle, o marido, hirto, estirando uma sombra immensa na claridade fria do luar.

Que crime commettêra o misero ? fôra justiçado por ser pobre e não poder, em tempo, entrar com o dizimo exigido pelo senhor.

A sua terra, com o trigal dourado, fôra confiscada.

Expulsa, sob ameaça de martyrio e morte, andára toda Juma noite sem destino, faminta, com o filho a chorar.

Livro das illusões Fôra aos mosteiros vendo-os alumiados e ouvindo grandes vozes alegres -batêra debalde.

Ao nascer do sol internára-se no bosque receiando os lascivos homens d'armas que violavam creanças, deixando-as mortas nos fossos, com um punhal na gorja e temendo os religiosos que viam nos laivos da miseria estygmas denunciadores de vigilias infames e ella, que passava as noites sem lume em cavernas geladas, dando o pouco calor que conservava ao corpinho esqueletico do filho, devia ter as feições desfiguradas.

Só uma mulher, uma boa mulher a buscava sem nojo, levando-lhe alimentos e hervas maceradas que faziam dormir o pequenito. Diziam-na feiticeira, pactuada com o demonio - era, entanto, mais caridosa que os santos homens da religião, aquella feia bruxa andrajosa.

Na noite triste em que lhe morreu o filho só ella fôra velar o cadaver. Accendêra um fogo e, emquanto o vento soluçava nos ramos e os mochos esvoaçavam, ella falára do sabbat em torno do outeiro lugubre dos enforcados e falára de Satan, patrono dos infelizes.

Não eram os bruxos que sepultavam, á noite, os corpos dos justiçados ? não eram elles, os satanicos, que conheciam as hervas sedativas ? não eram elles que esterilisavam os ventres para que não crescesse a miseria e a dôr não fosse maior nas casas com o choro das crianças núas e famintas ? não eram elles que vinLivro das illusões gavam os villões nos filhos dos senhores ? não eram elles que prégavam a revolta Se o Deus confinado nas egrejas só se mostrava e attendia aos ricos por que haviam os pobres de o venerar ? E o fogo ? Os padres annunciavam as chammas infernaes mas não viviam elles a atiçar fogueiras em que bradavam, rechinando, tantas victimas innocentes ? O inferno não podia ser mais tormentoso do que era o burgo feudal.

Por que não havia de seguir a boa mulher ? Quem daria por ella nos caminhos escusos ?

As corujas chalravam no ar e os sapos coaxavam nos paúes. O sino do mosteiro dobrava no silencio tragico. <<Vamos ! Não ouves o rumor que o vento traz de longe ? é o protesto dos padecentes, é o bramar dos villões . Satan é forte e liberta. Tens fome? lá acharás alimento. Tens frio ? lá acharás a fogueira feita com vigas de forcas e cepos manchados de sangue que serviram para execuções, no ergastulo do castello. Vamos ! aprenderás a vingar-te dos homens e do mesmo Deus que nos abandona. Vamos ! a lua começa a declinar» .

E de pé, com os olhos lampejando, já á entrada da caverna, a bruxa estendeu o braço magro mostrando o céu ao longe, avermelhado, como ao primeiro luzir d'alva. « Olha ! é o clarão da fogueira do sabbat.

E' a alvorada da liberdade. Deixa o teu filho morto, enterral-o-emos á volta. »

Livro das illusões Já desvairada, em delirio energumeno, a feiticeira apressava a infeliz : <<Abracax ! Abracax ! Avi-a te, mulher. Se tens breves e nominas lança-os longe de ti. Só ha um deus para os pobres ... é elle ! »

A misera, fanatisada, arrancou do pescoço a penca de amuletos, atirou-a ás urzes mas, lá no fundo do peito esqualido, como se todas as reliquias e rezas se houvessem nelle entranhado, o coração pôz-se a repetir as preces desprezadas e a bradar pelo Deus renegado, tremendo como um condemnado deante do patibulo . -Vamos ! não te demores mais. Já começa a soprar a brisa da manhan.

Mas o gallo cantou no silencio e, por entre o arvoredo, começou o farfalho ligeiro dos passos dos bruxos que recolhiam. -Covarde ! regougou a feiticeira com asco, fica-te com a tua covardia servil ! E a mulher, pallida, hirta de espanto, quedou como encravada no fundo da caverna mas, ao primeiro raio de sol, ouvindo os passarinhos, sahio a bater as urzes catando os seus amuletos e, á medida que os ia achando, molhados de orvalho, beijava-os, guardava-os no seio como para acalmar o coração medroso.

Livro das illusões Ferrando, á pressa, as largas velas do barco e acenando de longe festivamente, os pescadores procuravam dar a perceber aos de terra um grande e novo acontecimento.

As mulheres affluiram á praia em turba e, mal os marujos poiaram, logo se viram cercados e num alvoroço ancioso de vozes que interrogavam.

Um d'elles narrou, então, a pesca milagrosa que haviam feito : -Era quasi manhan quando, ao retirarem a rede, sentiram tamanho peso e resistencia que receiaram que ella se houvesse emmaranhado nas arestas dos baixios mas, unindo corajosamente todas as forças, conseguiram içal-a e dentro, envolta em sargaço, arrugada de mariscos, viram, rolando nas malhas, entre o peixe vivo que saltava assustado, uma imagem de pedra.

Então , abeirando-se do barco, mostrou a imagem Livro das illusões que jazia deitada sobre um rolo de cabos e na praia, homens e mulheres, ajoelharam-se devotamente venerando aquella que foi logo appellidada a Senhora do Mar.

Espalhada a boa nova resolveu-se formar um cortejo que acompanhasse á ermida a santa das aguas.

A tarde dourava os montes e as gaivotas voavam alegres acima das aguas lisas quando o sino soou vivamente e o povareu, cantando, lá se foi, encosta arribaá frente os pescadores, levando aos hombros, em andas grosseiras, a esverdeada e repoida imagem.

O cura, um velhinho, simples como as suas ovelhas, sahio, commovido, ao limiar do templo e, vendo a imagem e ouvindo o doce cantico com que a levavam, marejaram-se-lhe os olhos de puras lagrimas.

Foi a santa collocada no altar, entre Jesus e Maria, e o cura determinou que todos os annos se celebrasse uma festa commemorando o acontecimento feliz. Assim se fez e foram tantos e tão seguidos os milagres que, em pouco, a ermida, que era do Senhor do Martyrio, passou a ser chamada da Senhora do Mar.

Vinham de longe, d'outras aldeias da costa, barcos em romagem trazer promessas de naufragos e, não raro, subiam o outeiro bandos de pescadores levando andainas e palamentas e muitos, referindo o milagre, affirmavam ter visto a mesma imagem pairando sobre as vagas que logo se amansavam.

Uma manhan, depois da missa, um homem -- que era um sabio e andava a visitar as terras da antiguiLivro das illusões dade-pedio para falar ao cura. O velhinho recebeu-o com muita lhaneza e, dizendo-lhe o hospede que desejava ver de perto a imagem milagrosa, elle o levou ao altar. Logo que o sabio avistou a esculptura saltouThe dos labios, numa exclamação, o nome : Demeter ! e ficou immovel, a olhar, a examinar e o cura regosijava com a exaltação e o extase devoto de tão nobre senhor. -Dizeis, então, que esta é ... ? -A Senhora do Mar, que acalma as tempestades e salva os que se perdem nas ondas bravas disse, com a sua voz tremendo, o suave velhinho.

O sabio fitou-o como se quizesse ler bem fundo nalma do simples e, como só encontrasse sinceridade e fé, encolheu os hombros e ficou em silencio. : Chegava um grande e alegre bando de mulheres, esposas e filhas de marujos que traziam flores e vinham agradecer á Senhora os dias limpidos e as brisas prosperas que iam levando os barcos serenamente.

Ajoelharam-se entoando em côro o cantico amoroso.

O cura afastou-se pé ante pé e o sabio, diante d'aquella scena meiga, comprehendeu a Belleza e a Grandeza da Fé e, afastando-se, a gozar a melodia religiosa de tantas vozes delicadas, murmurou : -Senhora do Mar ou Demeter, que importa ! são todas a mesma Fé. Todos os altares são degráos da mesma escada que leva ao céu. Senhora do Mar ou Demeter ... Qual d'ellas será a verdadeira ? ...

E o cura, ouvindo-o murmurar, sorria satisfeito imaginando, sem duvida, que elle resava á santa.

Romanceiro

Sinopse

Leia gratuitamente Romanceiro, de Coelho Neto, obra brasileira em domínio público publicada em 1906, com poemas narrativos e páginas líricas organizadas para leitura online por capítulos no Literunico. Esta edição digital foi preparada a partir do exemplar público preservado no Wikimedia Commons/HathiTrust, com capa nova no padrão Literunico, reforçando busca, redes sociais e pesquisa por IA.

Romanceiro

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Romanceiro

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de Romanceiro

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Romanceiro Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 61 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de Romanceiro

Todos os capítulos 62 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir