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Capítulo 39 · Romanceiro

Rosas

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A' MADEMOISELLE ELISA DE REZENDE Diante do canteirinho florído-porque era mais um canteiro do que um tumulo -- disse-me a pobre mãe, lavada em lagrimas :

- Eram duas apenas, duas lindas rosas gemeas , uma em cada face - agora são tantas acima da terra.

Estou que são filhas das outras que a Morte colheu tão cêdo.

Quando elle morreu ellas ainda resistiram luctando com o frio que lhe foi regelando o corpo, mas ... a Morte é de neve, tão fria que as flores, á hora do enterro, haviam desapparecido como somem na terra, quando o inverno é rigoroso, as boninas mimosas.

Eram duas, duas rosas vermelhas em torno das quaes meus labios andavam como borboletas. Ai ! de mim, hoje meus labios não têm pouso. Uma noite - e foi assim que me illudí-as rosas appareceram com tanto viço, tão coradas, que eu quiz, orgulhosa, que Visões e sonhos as visse toda a gente e, tomando o pequenito nos braços, chamei os visinhos para mostrar-lhes as lindas flores.

Vieram e ficaram maravilhados ... mas, uma mulher, uma velha mulher, cheia de rugas e de cabellos brancos, disse, de repente, tomando o pulso á creança : <<Está com febre ... >> e todos repetiram sombriamente as suas palavras e, durante muito tempo, sussurrou-se em torno de mim, com expressão de piedade : « Que pena ! tão lindo ! Está a arder ! Como abraza ! » E as rosas cada vez mais lindas .

Calor ... mas é naturalmente no tempo do calor que a terra produz as mais formosas flores ; assim devia ser tambem na creancinha. Sem calor como haviam de vingar as flores ? Queriam, talvez, rosas no gêlo !?

Ai ! de mim, era o meu primeiro filho e eu nunca imaginei que a Morte m'o pudesse levar, tão apertado eu o trazia sempre ao collo, tão vigilante andava sempre junto d'elle.

O pobresinho não falava aindaas suas idéas eram pequeninas, não desciam até á bocca em palavras, ficavam nos olhos, em luz, e d'alli, alegremente, como estrellinhas no ceu azul, brilhavam para minh'alma e minh'alma entendia-lhes o brilho .

Nessa noite os olhinhos não se abriram, de sorte que eu não pude ver as claras estrellinhas e não dei pelo soffrimento. A Morte entrara e trancara-se por dentro não deixando, sequer, escapar um gemido.

Visões e sonhos Aconchegado ao meu collo o pequenito era como um fogo vivo e as rosas sempre bellas, desabrochando em plena vida. Foram ellas que me enganaram !

Quando o medico chegou - ai ! de mim ... os seus primeiros olhares foram justamente para as flores e desanimou ao vel-as. Pedio gêlo e os finos cabellos louros e a linda fronte, mais alva do que as Camelias, desappareceram sobre os crystaes friissimos e as rosas ... as rosas sempre vermelhas !

Como o calor augmentava era preciso andar, de instante a instante, a reformar a nivea aureola que se fundia em minutos.

Eu olhava, tão inclinada sobre o pequenito, que as minhas lagrimas cahiam-lhe nas faces como as gotteiras d'um telhado num canteiro de flores.

O medico arredou-me dizendo que o meu pranto ainda augmentava o calor do pobresinho. Em verdade as minhas lagrimas queimavam.

E, até de manhan, os visinhos que eu, tão contente, chamara para que vissem as rosas, o medico e eu trabalhamos para matar as flores e ellas cada vez mais purpurinas e maiores, crescendo sempre nas faces do pequenito. Creio que todo o sangue que elle tinha ellas o consumiram, tingindo-se com elle naquella noite, a ultima ! ... Ah ! souberam enfeitar-se para a morte, as rosas ! ... Foram ellas que o mataram ! ... Essas que estão sobre o tumulo são bellas, mas as verdadeiras , as que as geraram ... ninguem mais as verá, nunca Visões e sonhos mais ! Estão, talvez, no Paraiso, aos pés de Deus ... não eram para este mundo.

Dantes as rosas eram as minhas flores predilectas ... hoje, detesto-as como se póde detestar um assassino.

E diga : não acha natural que eu odeie as flores perfidas que viveram, como parasitas, á custa do pobresinho e ainda deixaram todos os seus espinhos no meu coração ?

Não ! só amam as rosas as mães que não perderam filhos assassinados por ellas.

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Sinopse

Leia gratuitamente Romanceiro, de Coelho Neto, obra brasileira em domínio público publicada em 1906, com poemas narrativos e páginas líricas organizadas para leitura online por capítulos no Literunico. Esta edição digital foi preparada a partir do exemplar público preservado no Wikimedia Commons/HathiTrust, com capa nova no padrão Literunico, reforçando busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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