Universo da obra
Universo da obra
-Alda morreu ; disse o lenhador, acocorado junto ao brazído, na choupana tristonha.
Quem a matou ? perguntou Gilberto, em sobresalto. -Que sei eu de molestias ? Quem a matou foi Deus. -Não é possivel ! Alda não conhecia outro Deus senão eu e, tu bem sabes, lenhador, que eu lhe dei o meu coração. Achas que o amor é mortal ?
Que sei eu de amores !
E onde repousa a minha amada ? -No cemiterio. Seu tumulo fica protegido por um velho salgueiro, junto ao muro . -Junto ao muro .
Mas, vê lá ! A neve cahe em grandes floccos, estão brancos todos os caminhos.
A neve ! Que receio póde inspirar a neve d'uma Visões e sonhos noite a quem traz no coração o perpetuo, o doloroso inverno da saudade ? Junto ao muro, sob um salgueiro. -Sob um velho salgueiro, junto ao muro.
Boa noite, lenhador.
- Boa noite ! Vê lá ! A neve cahe em grandes floccos, estão brancos todos os caminhos.
No cemiterio Gilberto, tremendo de frio e molhado de neve, poz-se a buscar, por entre as covas lapidadas pelo inverno, a cova da sua noiva, dizendo : -Pobre Alda ! Como deve sentir frio neste desamparo ! E, achando o salgueiro, vio, sob a acenosa ramaria, a tumba recente. E' aqui ! suspirou. Pobresinha ! Como deve sentir o frio da noite. E poz-se a cavar atirando a neve e a terra para longe, até que appareceu o caixão, coberto de rosas murchas. Abrio-o -Alda lá estava, mais pallida que a neve, envolta num lençol de linho, a fronte cercada de rosas, como uma noiva no dia das suas bôdas .
Gilberto tomou-lhe a cabeça fria e collou os labios á bocca gelada da defuncta. Vive, meu amor ! Que te falta ? o espirito ? aqui o tens - divido o meu comtigo, tens aqui a metade de minh`alma. Beijou-a longamente e a morta estremeceu com o beijo. De repente, como se acordasse, estendeu os braços, espreguiçando-se, abriram-se-lhe os olhos e ella poz-se a andar vagarosa, com um triste sorriso nos labios roxos, os cabellos desgrenhados, cheios de terra e de flores .
Visões e sonhos Alda ! exclamou Gilberto .
Alda ! exclamou tambem a resurgida.
Vamos, meu amor. Esperam-nos lá fóra. Faz tanto frio aqui. Eu vim apenas buscar-te. Vamos !
Vamos, Alda ; disse a mesma finada sorrindo . -Mas, eu sou Gilberto, teu noivo, balbuciou , tremendo, o apaixonado.
Gilberto !? Gilberto sou eu, disse a desenterrada. -Estás louca ! Já me não conheces. -E tu ? porque me desconheces ? Vamos, faz frio aqui. Eu vim apenas buscar-te. E, juntos, abraçados, sahiram os dois pelos caminhos pallidos. «Alda ! minha formosa ! » « Alda, meu amor ! » diziam-se, trocando beijos. Repentinamente Gilberto prorompeu em soluços : -Ah ! meu coração ! Meu coração ... ! Pobre Alda! insiste em julgar-se eu, insiste em dar-se o nome de Gilberto porque lhe dei a metade da minh'alma. Sou eu quem fala na sua bocca. Está morta, sim : está morta porque nem sequer de mim se recorda, nem o meu nome, ao menos, pronuncía. E o desgraçado lançou-se a correr através dos campos brancos da neve.
Vivem separadamente nas grótas dos montes ou nos silvedos em flor quando é a primavera e, dia e noite, quem passa, ouve, d'um e d'outro, o mesmo reclamo triste : Alda !
Visões e sonhos Quando se encontram, por acaso, param, fitam-se e murmuram : «Alda ! » Elle está louco. Ella está louca !
Foi o que fez o amor.
Boa noite.
Boa noite, respondeu-me o velho parocho da aldeia que me contou a triste historia dos namorados e, alumiando-me, á porta do presbyterio, disse :
Cuidado ! lembre-se das palavras do lenhador :
A neve cahe em grandes floccos, estão brancos todos os caminhos. Foi numa noite igual que Gilberto desenterrou a noiva. -Descance, eu vou sem receio : minha noiva vive e o que me faz affrontar a noite e a neve é o seu amor. Que importa o frio se ella guarda, para receberme e reconfortar-me, o calor dos seus beijos. Boa noite.
E o parocho, fechando a porta, correspondeu : -Boa noite !
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