Universo da obra
Universo da obra
Foi ao cerrar d'uma tarde feliz, á hora, já quieta, em que se calam as cigarras e as aguas começam a cantar mais alto, que Feridun, sentado nas ruinas alegres d'uma velhissima mesquita, todas recobertas de silvas floridas, compondo enlevadamente uma canção, sentio a morte avisinhar-se.
Feridun, cujo nome tanta vez retumbara, acclamado por mil boccas, entre as altas penhas de Okhad, o valle da reunião, não tivera na vida outras alegrias senão as dos ephemeros triumphos alcançados sobre os poetas rivaes nas luctas da inspiração, celebrando as mulheres do deserto, as lanças dos cavalleiros ou a graça magnifica de Allah, sempre generoso .
Fora-lhe o amor esquivo, o seu aba era todo andrajos, nunca gosara a delicia molle do repouso em leito macio nem o agazalho em moradia propria, não de luxo, como as dos emires, mas um pobre e acaLivro das illusões nhado casebre, de adobe e colmo, entre tamareiras, ao pé d'uma cisterna ou d'uma fonte.
Quantas vezes, com fome e sêde, arrepanhando o manto esfarrapado, dormira na herva dos campos, aquecido pela respiração cheirosa das ovelhas ! Quanta vez se alugara por uma moeda para servir de guia ás caravanas que subiam em direcção ás fundas cidades do deserto !
Muito era para a sua fortuna mesquinha encontrar, nos oasis, espalhados pelas sombras gratas, os homens armados d'uma algára ou uma comitiva de mercadores de balsamo que, a troco dos seus cantares, lhe matavam a fome com um punhado de tamaras.
Não havia homem mais desventurado.
Elle compunha as estancias finaes d'uma canção que lhe pedira Aïka, moça morena, pastora de gazellas. Compunha enlevadamente as ultimas estancias quando Azrael sombrio pairou sobre elle, abrindo largamente as suas azas funebres.
Feridun não poude concluir o canto porque a voz se lhe travou na garganta e o seu corpo alli ficou entre as ruinas, sobre as flores das silvas, inerte, esfriando ao orvalho, nos andrajos do aba.
O seu espirito demorou-se algum tempo errando em torno d'aquelle despojo miseravel, como uma abelha afflicta que esvoaça em volta do panal partido, e errava quando um anjo do Senhor, lindo mancebo d'olhos claros e todo cercado d'um esplendor que ardia, Livro das illusões baixou, num vôo sereno, como a nevoa lenta que desce ao cahir da noite sobre as pomas dos outeiros, e, tomando nos braços a alma do poeta, lá se elevou com ella, remontando aos ares, caminho do Paraiso .
A viagem durou tanto como dura um somno e a alma de Feridun acordou na côrte alta e eterna.
Era uma immensa, radiante, incomparavel cidade bem plantada e bem regada. A cor da folhagem das arvores tirava ao puro e refulgente verde das esmeraldas e a areia que forrava e amaciava os caminhos era d'ouro e de diamante e faiscava á claridade. Fontes irisadas sussurravam e, em fios limpidos e mansos, innumeros arroios serpeavam.
Mulheres, d'uma ardente belleza, perfeitas na graça esbelta das formas ondulantes, envoltas em finas gazes, em festiva farandula, dançavam ligeiras sobre os campos florídos e as compridas pontas das suas tunicas leves, alvas, fluídas como neblinas, seguiam-nas desfraldadas, caracolando alegres.
O ar, azulado e tepido, rescendia ; por toda a parte soavam musicas e vozes em harmonioso e encantado concerto.
A alma de Feridun tremia de enlevo ouvindo os reclamos das mulheres que a disputavam, seguindo-a em chusma, mas o anjo sereno num vôo mais forte, deixou-as perdidas e chegou aos pés do throno esplendido em que assistia o Creador do Todo.
A alma de Feridun encolheu-se tomada de terror Livro das illusões sagrado, unindo-se muito estreitamente ao anjo como a creancinha assustada que se retrahe estarrecida e muda no collo maternal.
Então, como se milhares d'harpas vibrassem, um largo e suave accorde passou no divino silencio e a voz de Allah resoou, vagarosa e magnifica : -Feridun, sê bem vindo. Foste na terra como a flor que perfuma os ares e murcha e morre na tristeza do' pantano. Cantaste a natureza, alliviaste as penas dos homens e louvaste, em versos eternos, a minha Perfeição. Nunca desejaste com inveja nem jámais te insurgiste contra a minha equidadebemdizias o raio do sol e bemdizias o flocco de neve, foste justo, foste puro e honraste o teu Deus. O teu soffrimento foi grande, a tua humilhação foi extrema para que gozasses com mais prazer a gloria e as delicias da Bemaventurança. Contempla e deseja e logo será cumprido o teu desejo.
E a alma de Feridun ergueu-se nos braços do anjo e vio vir, ao desabrido galope de milhares de ginetes claros que levantavam uma poeira luminosa, um glorioso exercito á cuja frente, com um pendão hasteado, lindo moço, de nobre figura, vestido de seda e ouro, acclamava Feridun como scheik da hoste .
E a alma do poeta, num extase quieto, nem parecia ouvir a estropeada atroante dos corseis que desfilavam.
Ainda não cahira a poeira rutila que a cavalgada Livro das illusões levantara quando rompeu, ao som de musicas, uma admiravel theoria de virgens e languidas, rasgando as finas vestes, núas, prostraram-se ante o anjo impassivel ... Ea alma de Feridun continuava extasiada.
Os ares longinquos abrumavam-se com a chegada de outras imprevistas maravilhas, quando Allah falou magnanimo : -Deseja, Feridun, e tudojte será concedido. Tiveste a força que vence e tiveste a belleza que enerva e não tardam outros dons que te destino. Deseja e logo serás attendido .
Então a alma do poeta levantou-se nas braços do anjo e assim falou humildemente : -Senhor, en quizera tornar ao corpo que deixei nas ruinas para completar a estancia derradeira da canção de amor que a morte interrompeu.
- Queres voltar ao soffrimento ! exclamou o Senhor compadecido . E o poeta respondeu sorrindo :
Allah, a canção é bella, ha de agradar á Aïka e ella sorrirá quando a ouvir nas tendas cantada pelos moços do deserto e eu terei na terra os louvores dos homens.
E a alma de Feridun voltou ao corpo gelado que jazia estendido entre as silvas das ruinas.
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