Universo da obra
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Visões e sonhos
Duvida Deus meu ! pois é possivel que não tenha comprehendido ainda ? E' possivel que, ao passar por mim, não ouça as pancadas fortes do meu coração ? Se lhe tomo a mão delgada acho-a sempre impassivel. Jamais estremeceu dentro da minha essa pequenina mão, lyrio nevado, de cinco petalas, que perfuma o adeus.
Olho-a quando a vejo distrahida ; mais d'uma vez seus olhos me têm sorprehendido nessa contemplação sem, todavia, demonstrarem haver percebido o que se passa em minh'alma. Que hei de fazer para que ella saiba do meu amor ? Como dizer-lh'o ?
Se a vejo andar sigo-lhe os passos, as flores de que ella fala são as minhas flores, o que ella festeja eu amo. Deus meu! pois é possivel que não tenha comprehendido ainda ?
Sem vel-a, sinto a ausencia de mim mesmo, faltame tudo e tudo me aborrece ; mal a encontro estreVisões e sonhos meço e soffro mal a encontro. Penso em evital-a, penso em esquecel-a mas ... como se pode esquecer a propria vida ?
Tudo tenho tentado ... Quando ella fala inclinome para ouvil-a e, se a vejo em silencio, os olhos baixos (ó presumido coração !) chego a cuidar que ella, indifferente e fria, pensa em mim.
Deus meu ! que hei de fazer para que ella me comprehenda ?
Seu nome não me sahe dos labios, não o pronuncío altoaspiro-o, levo-o á minh'alma, como um canto, para acalental-a e, no meu coração, como em um berço, minh'alma adormece embalada por esse canto . A's vezes tenho impetos de confessar-lhe tudo
- olho-a, mas encontro o seu olhar tão frio que ...
Deus meu! pois é possivel que não tenha comprehendido ainda ?
Á noite enche o meu pensamento essa gélida estatua : são os seus olhos, é a sua bocca, são os seus cabellos, é o seu sorriso, é a sua voz, é o seu andar ...
Como cabem tantas seducções em uma só mulher e porque não tens força, coração, para resistir aos sortilegios d'esse formoso e desejado inferno ? Vives na Thebaida do peito ... faze-te forte, ascéta ! faze-te forte para que te não seduzam mais os seus encantos.
Mas não apenas ouves os seus passos, ficas submisso e humilde e, para que te contenhas, as mais das vezes forças-me a evital-a.
Visões e sonhos Certa manhan achou-me pallido; falou-me. Que The disse eu ? não sei. Melhor fôra que lhe houvesse dado a razão da minha pallidez doentia.
Se lhe falasse ? Mas ... quem sabe ? Quem sabe se ella tambem não soffre em silencio ? se tambem não procura em minh'alma o seu segredo ?
Por vezes tenho-a sorprehendido com os olhos negros fitos em mim ... Quem sabe se ella tambem, á noite, recolhendo-se, não terá, muita vez, soluçado fremente : «Deus meu ! pois é possivel que não tenha comprehendido ainda ?! »
Leia gratuitamente Romanceiro, de Coelho Neto, obra brasileira em domínio público publicada em 1906, com poemas narrativos e páginas líricas organizadas para leitura online por capítulos no Literunico. Esta edição digital foi preparada a partir do exemplar público preservado no Wikimedia Commons/HathiTrust, com capa nova no padrão Literunico, reforçando busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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