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Capítulo 38 · Romanceiro

A vendedora de bálsamo

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A vendedora de balsamo Sosinho, pela estrada pedrenta e secca, calado como a tarde triste, um homem, aindo moço, vestido como os essenios taciturnos, caminhava lentamente com a tranquillidade de um lavrador que recolhesse calculando pela colheita o lucro d'aquelle outono. Os seus cabellos, alvoroçados á brisa, eram claros e longos, repartidos ao meio, á maneira dos nazarenos, a barba curta e aguda, a face mais alva que o marmore e os olhos, grandes e calmos entre as compridas pestanas que pareciam alargar ainda mais o negror das pupillas, brilhavam serenamente com uma expressão muito doce.

Pelos mattos raros que beiravam a estrada cantavam grillos ; mais para o interior dos campos, nas finas hervas, pombos turturinavam. Um surdo e vagaroso mugir de gados rolava no silencio e longe, de espaço a espaço, um cão rouco ladrava .

Visões e sonhos la o homem passando ao longo d'uma sebe alem da qual, quasi sumido entre fechadas arvores, quedava um casebre, quando ouvio que gemiam. Deteve-se relanceando o olhar em torno e, de novo, o gemido passou as silentes arvores e a sebe. Colheu as dobras da tunica e, resoluto, como quem acode a um chamado, endireitou para o cancello que havia, empurrouo e entrou num pomar abandonado que as urzes embraveciam.

Ao estrallejo dos seus passos na secca folhagem uma luzinha brilhou tremulamente ao rez da terra no fundo lobrego da moradia e um vulto, que estava encolhido a um canto, moveu-se, esticou um braço, levantando a candeia como para illuminar o intruso.

O homem, sem demorar-se á porta, atravessou o limiar de pedra e, encaminhando-se para o canto onde o vulto se acocorava como a esconder-se, parou. Era uma mulher leprosa .

As suas carnes, roxas e tumefactas, tresandavam, lustrosas de sanie, e molles, como despegadas dos ossos, pendiam flaccidas ; os olhos sumiam, pequeninos e apagados , sob as vultuosas palpebras, a bocca era uma monstruosa chaga esborcinada, os cabellos empastavam-se-lhe na fronte e as orelhas disformes, denegridas, grossas, semelhavam dois cogumellos negros.

O homem, sem dar mostras de haver visto aquella viva carniça, adiantou-se docemente fitando a misera que toda se encolhia, arrepanhando os andrajos. Por fim, sempre agachada e medrosa, a mulher pergunton :

Visões e sonhos A que vindes, senhor ?

A luz do teu lar attrahio-me e tornou mais viva a sede que me abrasa ; venho do secco deserto. Dá-me a beber. A mulher não poudę trahir o seu espanto e, levantando vagarosamente a cabeça, murmurou :

- Senhor, olhae bem para mim: não ha mais que um velho cantaro neste tugurio, é por elle que bebo e vêde. Erguendo, então, a candeia á altura do rosto hediondo, illuminou toda a sua miseria . -Dá-me a beber, insistio o homem com a mesma brandura. Então, sem uma palavra mais, a mulher levantou-se, depoz a candeia na arca e indo ao canto tomou o cantaro a mãos ambas e, inclinando-o, deu a beber ao hospede como Rebecca, filha de Nahor, procedeu com Eliezer junto ao poço da entrada de Damasco .

Saciado o homem agradeceu á mulher a sua bondade. A misera olhava-o fascinada.

De repente, de todo o corpo do homem, como se um fogo o fosse consumindo, foi-se subtilisando uma nevoa luminosasó os cabellos, a barba e os olhos conservavam a cor escura, o mais fundia-se em claridade-todo elle fez-se explendor e, em torno, tudo brilhava.

A mulher, que recuara para o canto, offuscada pela refulgencia, largou o cantaro e levou ambas as mãos aos olhos com um grito e, quando as retirou, apenas a candeia luziao homem desapparecera.

Visões e sonhos Quedou-se a infeliz pasmada, a olhar ; subito, porem, como se se sentisse impellida, ergueu-se agil, correu á porta, poz-se a devassar o arvoredo calado mas, olhando as mãos, logo, impetuosamente, as levou ao rosto e, á medida que calcava afundando os dedos na face, ia-se-lhe a bocca escancellando.

Passou , repassou os dedos pelas gengivas, apalpou as orelhas e, de repente, levantando os farrapos, curvouse examinando o corpo, rasgou os pannos no peito para ver o collo e, numa allucinação, correu ao cantaro, esvasiou-o numa escudella e, no resto d'agua que ficara da sêde do homem, mirou-se de joelhos, curvada e ficou a sorrir, num enlevo e a tremer vendo-se san, sem pustulas, sem sanie, com a cutis fina de outr'ora, os mesmos olhos grandes e aveludados, a bocca rosada e fresca, os dentes todos e alvos, linda e cheia de graça, aquella mesma moça que era o encanto dos mercadores no monte das Oliveiras quando, por entre os bazares toldados de linho, passava apregoando o balsamo da nova colheita.

Quiz levantar-se mas os olhos prendiam-na ao lugar e, sorrindo e chorando, ficou a repetir palavras vans.

Subito, contendo o coração, ergueu-se com um brado feliz, de inspirada : « E' Elle ! » e, agil como uma creança, lançou-se ao pomar que todo se cobria de flores e d'onde toda a herva desapparecera deixando os caminhos lisos e, empurrando o cancello, alongou os olhos pela estrada vendo apenas, ao longe, além da torrente, Visões e sonhos na rampa que levava á Porta dos rebanhos, um brilho radiante d'astro pairando sobre a alvura d'uma tunica. Quiz bradar, mas o grito morreu-lhe na garganta e, olhando sempre, extasiada, recordava-se de haver visto aquelle homem uma vez, á tarde, á hora em que os moinhos descançam e os homens deixam os lagares de Engaddi, no alto da Bethania, debaixo da vinha de Lazaro, com uma moça aos pés, estendida de bruços na herva, a face nas mãos, que o olhava com lagrimas longas a rolarem dos olhos lindos e cheios d'uma luz viva que ardia apezar do pranto como as estrellas brilham á tona dos adormecidos lagos.

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Sinopse

Leia gratuitamente Romanceiro, de Coelho Neto, obra brasileira em domínio público publicada em 1906, com poemas narrativos e páginas líricas organizadas para leitura online por capítulos no Literunico. Esta edição digital foi preparada a partir do exemplar público preservado no Wikimedia Commons/HathiTrust, com capa nova no padrão Literunico, reforçando busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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