Universo da obra
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-E' singular ! disse o velho coveiro diante de outro cadaver intacto que exhumara. A modo que a terra d'este cemiterio está farta porque rejeita todos os corpos. Dantes, mal os recebia, logo os devorava e agora parece que nem por elles dá porque ficam annos e annos perfeitos. E' singular ! Seria bom que nos mudassemos para outro sitio. E o moço coveiro disse :
Não é só isso. Outr'ora não havia jardim mais viçoso do que este cemiterio as rosas mais coradas eram as que aqui nasciam e agora nem sequer as plantas abrolham, os mesmos cyprestes e as casuarinas como se vão finando . De tanto lidar com a morte parece que a mesma terra do cemiterio morreu. -Dizes a verdade, amigo : parece que a mesma terra morreu.
E isto começou no dia em que trouxeram a enterrar uma linda moça cujo esquife vinha acompaVisões e sonhos nhado por um homem pallido, que chorava ; explicou o coveiro moço.
Ouvindo palavras taes eu, que, nessa tarde, andava pelo cemiterio porque, como de costume, fôra levar ao tumulo de Laura um ramo de flores frescas, adeantei-me e, logo que deu commigo, o moço coveiro disse baixinho ao que fizera a estranha observação : -Foi este homem pallido que veio acompanhando o esquife da linda moça. -Sim, fui eu, affirmei. Dizeis, então, que a terra já não consome os cadaveres que lhe entregais ? -E' a verdade. E isto desde aquella tarde triste do enterro da linda moça, por quem choraveis tanto. -E attribuís á sua influencia esse mysterio estranho ?
Quem sabe !? disse penserosamente o velho coveiro e o outro, penserosamente, repetio : -Quem sabe !?
Vamos, então, ver o seu tumulo, propuz. Fica alli no recosto da collina. Se vos não transtorna ... -Podemos ir, disseram. E os dois homens, tomando as pás, acompanharam-me ao recosto da collina e puzeram-se a cavar.
Cigarras cantavam nas casuarinas murchas e elles cavavam cantando. Foi-se escancarando a cova e appareceu o caixão, todo branco, em que jazía o corpo d'aquella que, em vida, tanto me fizera soffrer.
Devagar, meus amigos ; mais devagar, disse eu Visões e sonhos com receio de que elles, com as pás, ferissem a morta ; mas já o caixão apparecia todo e foi retirado e aberto á luz bruxoleante da tarde. Tanto que sahio da terra, logo, como por encanto, varios arbustos abotoaram e roseiras, que pareciam mortas, reverdeceram instantaneamente .
O corpo de minha amada appareceu formoso. No seu rosto pairava o mesmo sorriso perfido com que, tantas vezes, me illudira. Mas um liquido esverdeado escorria-lhe do peito e, como eu a levantasse nos braços, vi que lhe sahia pelas costas por onde os vermes haviam penetrado, achando a morte, - o coração desfeito. E logo comprehendi : era aquella sanie que se infiltrava na terra envenenando-a pouco a pouco, tanto que, já enfraquecida, nem consumia os cadaveres nem alimentava as raizes.
E, como um dos coveiros perguntasse, vendo o liquido a escorrer do coração da morta : -Que é isto ? eu estive para dizer : -E' a hypocrisia da minha amada, é a sua perfidia, é a sua mentira, são todos os vicios do coração que eu tanto busquei. Foi com esse veneno que ella matou a minha alegria, em vida, como, depois de morta, matou os vermes e a terra do cemiterio.
Estive para dizer, mas com os olhos rasos d'agua, com a garganta opprimida pelos soluços, alli mesmo, diante dos coveiros pasmados, atirei-me ao caixão com ancia : Tomei nas mãos ambas a cabeça loura da inVisões e sonhos fiel e puz-me a beijar-lhe a fronte fria e os olhos e a bocca como os beijava antigamente quando era trahido -e nelles achava o sabor da terra ... Ah ! antes o sabor da terra do que o sabor de outros beijos como, quando ella vivia, eu sempre encontrava nos seus labios.
Levaram-me para longe do tumulo e a terra do cemiterio continúa esteril e ha de morrer como a minha alegria morreu porque os coveiros, tomando-me por doido, enterraram de novo o coração venenoso.
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