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Capítulo 62 · Romanceiro

A verdade

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Assegurando-se de que o aprisco ficara bem fechado com a sua rija tranca, o velho pastor tomou o cajado, cobriu-se com o melote e, vagarosamente, cantarolando uma suave cantiga, baixinho, como se não quizesse interromper o somno das arvores, tomou o atalho que levava mais ligeiramente á planicie por entre fraguedos negros e altos carvalhos ramalhosos.

A lua, muito alva e redonda, alumiava toda a montanha; a sua claridade era um fino véo diaphano que se estendia por toda a agrura. Entre os ramos piavam passaros e a brisa respirava tão branda que as folhas buliam apenas com um reluzir de laminas de prata.

O pastor caminhava precedido pela propria sombra.

Ia a pensar no passado.

Tudo na serra conservava a antiga belleza - as arvores pareciam mais verdes, as fontes mais copiosas, cantando com mais alegria, só elle envelhecera e coLivro das illusões meçava a sentir a aspereza dos caminhos e o rigor dos invernos.

Ah ! o bom tempo d'antanho ! Que era uma rampa para quem galgava penedias e saltava, como os cervos, as torrentes fragorosas ? Que era uma noite de neve para quem affrontava tempestades para ficar até a madrugada num palheiro, ao lado de certa zagala formosa ? Ah ! o tempo ...

Lá ia o pastor pela poeira antiga dos mesmos caminhos da mocidade morta. Lá ia pensando, quando ouviu uma voz que cantava no bosque. Deteve-se a escutar.

Quem cantaria a horas taes em sitio tão deserto ?

Os pastores lá estavam no cimo do monte, agasalhados nos seus tugurios. Quem seria ?

A voz era meiga, de um timbre delicado : « voz de mulher» , pensou o pastor. E, resolutamente, embrenhou-se no bosque.

Caminhou guiando-se sempre pela voz maviosa e, ao clarão do luar, descobriu, sentada á borda de uma cisterna, uma linda rapariga toda núa, com os cabellos tão louros que rebrilhavam á claridade. Cantava penteando os cabellos e o seu corpo de neve alvejava ao luar.

O velho pastor deteve-se á distancia comtemplando-a extasiado. Nunca vira belleza tão pura e logo suspeitou que se achava em presença de uma oreada, talvez da propria Artemis que encantara o pastor Endymião.

Livro das illusões :

Ousadamente adeantou-se afastando os ramos e, ao rumor dos seus passos, a moça voltou a cabeça.

Não pareceu perturbar-se, não fez movimento algum de assustado pudor para esconder o lindo corpo nú e, penteando os cabellos finos, continuou a cantar na claridade esplendida que a envolvia.

O pastor afoito avançou, falando á apparição : -Quem és ? Que fazes tão só e núa nesta floresta triste onde nem faunos apparecem ? A moça voltou-se e o pastor ficou deslumbrado com o esplendor dos seus olhos.

- Sou a Verdade, disse. Vim refugiar-me na solidão da floresta porque fui banida dos grandes centros.

A minha nudez escandalisa, a minha palavra revolta, porque é limpida como as aguas limpidas que só reflectem o real. Andei de terra em terra : dos paços repelliam-me, enxotavamme das cabanas. Mal eu abria a boca para falar logo me impunham silencio e, a pretexto de me agasalharem, cobriam-me com os pesados estofos da conveniencia e da polidez. Os poucos que me quizeram seguir soffreram o martyrio. Fui corrida á pedrada e, refugiando-me em cavernas, os cães farejavam o meu rastro denunciando-me aos homens.

Foi então que resolvi habitar a floresta. -E de que vives ? -Do esplendor. A luz é o meu sustento e eu refuljo . Sou a prophetisa dos deuses. Os meus oraculos resplandecem no futuro. Não conheço a sombra : a projecção do meu olhar é mais rutilante que o sol.

Livro das illusões -Que fazes ?

Illumino e guio. Aos que me procuram mostro todas as profundidades, descubro todos os arcanos. Sou como a frecha que rompe a illusão .

Quando me afasto de um ponto nelle se aboletam a Utopia, a Intriga, o Fanatismo e a Lisonja ; estendemse todos os fios da teia dessa aranha - a Mentira. Nunca me ouviste falar ? queres ouvir-me ? -Fala! Fala do meu amor, do meu amor que é morto. A Verdade sorrio.

O teu amor foi um sonho. Tu viveste d'uma illusão . Tua amada trahia-te . -Mentes, disse o pastor. E a apparição continuou tranquilla.

Não a conheci. Sempre que ella jurava eu tinha de recuar atropellada pelas falsidades. Nunca senti o perfume da boca da tua amada. Era a propria perfidia. -Mentes ! insistiu o pastor. Dize-me a côr dos seus cabellos .

Louros. O pastor sorrio triumphante, clamando :

Negros ! Tinha os cabellos negros.

Porque os pintava.

O seu nome ?

Chloris.

Ainda mentes ! Em todas as arvores, em todas as rochas ha o seu nome gravado por mim. Ahi mesmo, na borda dessa cisterna, vel-o-ás, se quizeres : Lycia.

Livro das illusões -Chloris era o seu nome como a sua patria era Mytilena. Dizia-se de Athenas e dava o nome de Lycia para esconder a sua origem e velar o seu passado .

Antes de a conheceres zagala outros a viram em estragulos, núa, vendendo beijos . -Mentes ! bradou o pastor, investindo furioso. E a apparição continuou tranquilla.

- Tinha um signal na espadua. -Um lindo signal que, por modestia e pudor, sempre escondia. Era ali que os meus beijos se juntavam quando deixavam a boca onde vivia o meu nome.

- Era o stygma da escrava : Chloris foi mulher de mercado. -Mentes ! a apparição sorria .

No seu coração nenhum amor deixou rastro - era como as aguas do mar que se fecham, mal as quilhas das fundas naves por ellas deslisam. Nunca te amou nem jámais conheceu o amor. Queres ouvila ? Chama-a, invoca-a : o seu coração deu azas a uma borboleta nocturna que anda a errar pelo bosque. Chama-a ! E o pastor, allucinado, bradou o nome suave : <L<ycia ! »

As folhas pallidas tremeram e no fundo da brenha os egypans gargalharam. Ouves ! são os capros que riem de ti.

Mentes ! Mentes ! Fitou os olhos na formosa virgem, e, repentinamente empurrando-a, fel-a rolar no fundo da cisterna. Então, com uma idéa cruel, retroLivro das illusões cedeu ao viso da montanha, galgando, com agilidade incrivel, as rochosas escarpas.

Despertou os pastores e, no meio d'elles, fallou : «Ha um monstro na floresta - mostrou-m'o o luar.

Vendo-o, invoquei o nosso divino patrono e avancei resoluto. Pan ia commigo, a meu lado, invisivel, e foi elle, de certo, que me ajudou a vencer a hydra que vinha assolar e entristecer a serra benigna. Vagaroso, cauteloso, aproveitando o somno que dormia, chegueime ao monstro e, forte com a protecção do deus sylvestre, filo rolar na cisterna. Lá está ! Urge que o acabemos para que não volte á Terra plana. E todos os pastores em chusma amotinada, seguiram precipitadamente acompanhando o pastor que mentira.

Chegaram á floresta em tumulto. Alguns debruçaram-se á beira da cisterna e viram um clarão-no fundo lugubre. Um bradou : « Que esplendor ! » Outro exclamou: « E' um astro ! » Mas o pastor insistiu : -E' o monstro ... E, para animar os companheiros, atirou para o abysmo o primeiro tronco e todos correndo, bradando, puzeram-se a imital-o. Até a hora d'alva, trabalharam em soterrar o monstro e o fulgor, á medida que se despenhavam toros e pedrouços, ramalho e torrões das barrancas, subia trémulo como se fluctuasse.

Quando o entulho chegou ás bordas o velho pastor saltou sobre elle espesinhandoo, tripudiando, a rugir : < Mentira vil ! mentira infame ! » Mas os pastores reLivro das illusões cuaram deslumbrados, o mesmo velho tombou por terra, como ferido do raio e, núa e linda, clara, de pé á borda da cisterna, a apparição brilhava.

Houve um clarão mais fulgido do que o romper do sol, depois a fórma luminosa ergueu-se, leve no ar, e, suavemente, librando-se, foi ascendendo direita, serena e radiante .

Os homens rojados viam-ņa subir sempre rutila.

Fez-se no espaço como uma lua, diminuiu e não foi mais que uma estrella, ainda scintillou como centelha no céu e perdeu-se. Abriu-se esplendidamente o Olympo o os deuses, deixando o zodiaco, sahiram a receber a pulcherrima deusa.

Fecharam-se de novo os batentes elyseos, a sombra ficou victoriosa na terra e as illusões enxamearam o mundo. E nunca mais a Verdade appareceu entre os homens senão como a pallida luz que desce do corpo de um planeta morto.

FIM

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Sinopse

Leia gratuitamente Romanceiro, de Coelho Neto, obra brasileira em domínio público publicada em 1906, com poemas narrativos e páginas líricas organizadas para leitura online por capítulos no Literunico. Esta edição digital foi preparada a partir do exemplar público preservado no Wikimedia Commons/HathiTrust, com capa nova no padrão Literunico, reforçando busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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