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Capítulo 57 · Romanceiro

A voz das pedras

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Aspero, todo erriçado de rochas, o sólo esteril forrado de pedregulho, sem a grata folhagem de uma arvore, só com hirtas spathas de seccos e amarellos agaves, o sitio lugubre atroava com o retumbar das aguas estrondosas d'um rapido que espumava, refervendo em cachões, no fundo da grota d'onde subia uma aureola de névoa na qual o sol recurvava um iris deslumbrante.

As mesmas aguias impavidas fugiam, a largo vôo, d'aquella paragem de pavor, só os morcegos e os môchos viviam em lócas : uns oscillando pendurados pelas azas ás arestas das pedras, outros immoveis, d'olhos muito abertos, como emblemas de tristeza pousados no fundo lapidar das cavas.

Tal era o sitio funerario de onde, todas as tardes, subiam os brados melancolicos que assombravam os pastores e faziam uivar os rafeiros assustados.

Livro das illusões Desde que o sol começava a pender para as serras ninguem ousava passar nas immediações d'aquelle logar sinistro. O mesmo gado, ao soarem Trindades, descia atropelladamente, fugindo á beira do valle soturno, a mugir, a balar como assombrado d'algo que vira.

Cada qual narrava um caso e, nas cabanas, ao luzir do fogo, falava-se baixinho do encanto do valle.

Tão diversas fabulas narravam os homens timidos, que eu quiz conhecer a verdade e resolvi descer afoitamente ao valle. Offertas que fiz aos rusticos para que me acompanhassem foram todas rejeitadas, e não houve uma voz que animasse o meu desejo, todas vinham enfraquecel-o com presagios de morte : « Que ides buscar, senhor ? Não vos queiraes medir com o que é do inferno. Se fiaes das armas é porque não conheceis o inimigo - não ha ferro que o penetre, nem bala que lhe faça móssa » .

Deixei as palavras medrosas e, attendendo á minha resolução, parti. * * * Seguindo a trilha sinuosa que abre, através da floresta, uma passagem sombria, ouvindo os pios das aves recolhidas, gozando o arôma das flores entreaberLivro das illusões tas, antes mesmo de chegar á rampa alcantilada ouvi a voz do encanto a gemer no silencio da tarde livida.

Detive-me irresoluto mas, violentando a coragem, prosegui e, deixando as ultimas arvores, dei com a gróta, tão negra que a noite parecia nella condensar-se subindo e espalhando-se nos ares como um fumo espesso.

Uma voz proferia; prestei o ouvido ao clamor e logo distingui um nome de mulher. Abeirando-me da rampa abrupta, inclinando-me agarrado aos pendidos ramos, pude ver, pude ouvir.

Parado no fundo da gróta um moço bradava. Era um rapaz de herdade que eu sempre tivera por idiota ao vel-o, no campo, falando ás arvores e aos passarinhos, beijando as flores ou, de pé, á beira do riacho, chorando sobre as aguas. Perdera a noiva, disseramme, e vivia a recordal-a percorrendo os seus logares preferidos , acariciando as flores e as arvores que ella mais quizera e pedindo aos passaros, que andam nos ares, que levassem as suas saudades ao Paraiso.

Era elle ... Pobre duende amoroso ! Reconhecendo-o logo resolvi descer e lá fui, resvalando pela ribanceira, até o fundo da gróta pedregosa.

O moço bradava e o écho respondia. Cheguei-me ao triste e, tirando-o do enlevo em que jazia, interroguei-o :

- Que fazeis ?

- Ouço-lhe a voz. Todas as tardes com o silencio, Livro das illusões desço ao valle, reclamo da morte o espirito de minha amada, e interrogo-o para convencer-me de que ainda me não esqueceu e tambem para não deixar que se desvaneça a lembrança do que juramos. Ella era ainda uma louquinha, quando morreu - sorria a todos ... e lá em cima ha tantos jovens formosos que se foram da terra no melhor dos annos ... Quereis ouvil-a ? e o misero bradou o doce nome e logo o valle atroou soturno. -Mas, são as pedras que vos respondem, disse eu; é o écho que torna aos vossos ouvidos em som, que é o que ha de material na palavra, o espirito, que é a idéa, desapparece no ar. Não é a vossa amada que vos responde, são as rochas do valle que reflectem os vossos brados. Se quereis convencer-vos deixai-me chamar a vossa amada e ella me responderá. E bradei; e as pedras retumbaram. O moçoçoo fitou-me pallido e assombrado. De novo bradei, de novo o écho repetio o meu brado. Então ? fitei nelle os olhos - o misero chorava e, por entre soluços, disse-me :

Vieste matar a illusão da minh'alma. Eu vivia por ella, chorando e bemdizendo a sua morte porque, se sinto a falta do seu rosto formoso não a vejo sorrir aos outros como sorria e agora que o tumulo a conserva presa, certa de que era só minha, ainda a encontro voluvel como era em vida, respondendo a todos como a todos respondia. Ai ! de mim, ai! de mim !

- Mas são as pedras que respondem.

Livro das illusões -As pedras ... e seria tambem de pedra o seu coração para que a todos respondesse ? A quantos jurou ella amor ? a quantos ! Nem a morte a corrigio.

Ella aqui jaz enterrada e do fundo da cova responde com a mesma facilidade com que attendia ao appello dos moços que iam encontral-a, sorrindo, junto á sébe florida do seu jardim .

Não são as pedras que respondem, é o seu proprio coração que fala. Ella foi sempre voluvel ! Ella foi sempre voluvel ! ... E o misero rompeu a soluçar tão alto que as pedras, talvez com pena, soluçaram com elle.

Oh! a voz da mulher ingrata é como a dos valles concavos. Que ha nos valles vasios ? a bruma ephemera que se desfaz igual ás juras dos corações voluveis.

Escondei-vos, namorados, e mandai que outro invoque o amor de vossa amada mas, fugi em tempo para não terdes o desengano. Ai ! de mim ...

E eis como eu descobri o encanto e desfiz o assombro do valle triste ...

Hoje só ha um homem que foge ao logar sinistro, é o louco enamorado que lá não volta, porque, como se tornou o caso conhecido, o rapazio do lagarejo ajunta-se no valle e brada pela morta infiel e a todos as pedras respondem ... O misero, de longe, chora, ouvindo o clamor e ...

Quantos corações são feitos d'aquellas pedras ...

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Sinopse

Leia gratuitamente Romanceiro, de Coelho Neto, obra brasileira em domínio público publicada em 1906, com poemas narrativos e páginas líricas organizadas para leitura online por capítulos no Literunico. Esta edição digital foi preparada a partir do exemplar público preservado no Wikimedia Commons/HathiTrust, com capa nova no padrão Literunico, reforçando busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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