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Capítulo 58 · Romanceiro

O eremita

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: O eremita Ne tempo das grandes e piedosas austeridades, quando os santos homens, fugindo aos vicios e ás seducções do seculo, despojando-se de todos os bens, cortavam um cajado e, com abarcas de cortiça, um grosso burel cingido ao corpo, a governita á ilharga, deixavam, sem voltar os olhos, o esplendor das cidades, o deserto fervilhava de penitentes.

Havia os cenobitas que, com pedras e adobe, levantavam mosteiros na fresca e murmurante visinhança d'um claro rio ou perto d'uma cisterna fundamente cavada nas areias, entre cardos hirtos, e alternando as horas de oração com as de trabalho, cantavam louvores ao Senhor e cultivavam a almoinha monastica.

Terminada a colheita moiam o grão, espadellavam o linho, cardavam a lan, trançavam esteiras e alcofas ou teciam os pannos preciosos que vendiam aos alegres mercadores de Chalcida ou de Apaméa.

Livro das illusões Mais adiante estanceiavam os chamados reclusos que viviam, aos dois e aos tres, em cellas estreitas que eram como fornalhas no estio e que gelavam quando os cimos do Libano rebrilhavam nevados, sem sujeição a regras, praticando, com rigor, a penitencia e interpretando os sagrados textos.

Para o oeste, em regiões seccas de collinas petreas onde, ao sol causticante, só espinhaes medravam escondendo viboras, as cavernas fervilhantes de escorpiões cujas ferroadas eram mortaes como as feridas feitas pelas flechas dos beduinos, serviam de guarida aos anachoretas.

Os sarracenos rapaces, que cruzavam aquellas solidões acamaradados para o assalto ás caravanas que demandavam as alegres cidades da orla do mar, não ousavam subir a tão remótos retiros onde tudo era braveza e miseria e, á noite, ao ladrido dos chacaes errantes, cujas pupillas allumiavam como brazas, aos sibillos das serpentes monstruosas, ao fremito dos leões, casavam-se as vozes que partiam do ambito das lapas, contentes ou desesperadas, vozes dos eremitas que eram visitados por visões beatas ou que eram perseguidos por tentações demoniacas e, extasiados ou flagellando-se, enchiam a noite tremenda com louvores e gritos.

Mais longe, emfim, correndo as montanhas inhospitas, vestidos de grossas cortiças que lhes davam o aspecto estranho de rugosos troncos erradios, com os Livro das illusões cabellos e a barba voando aos ventos tragicos, as unhas crescidas, retorcidas á maneira de raizes, vagavam os chamados pastantes, monges que viviam como alimarias, comendo as hervas da terra, bebendo de bruços nas fontes, dormindo nas arvores como os hamadryas, cantando o esplendor d'alvorada como revelação radiante da omnipotencia divina ou tremendo ao estrondar dos trovões que eram como a expressão ameaçadora da ira do Senhor. Nesse tempo os milagres eram frequentes.

Innumeros peregrinos procuravam os mosteiros e, diante dos monges, ajoelhados, com lagrimas, desnudavam os corpos expondo as fundas e sangrentas cicatrizes dos flagicios ou deformidades repugnantes.

Muitos tornavam consolados e curados, alguns, porém, ou porque não fossem com a necessaria fé ou porque fallecesse poder aos eremitas para allivial-os dos males, voltavam desilludidos, gemendo as mesmas dores, supporando a mesma sanie.

Um dia, porém, propalou-se rapida a noticia de que um dos anachoretas, que vivia enfurnado num antro, entre animaes que a sua virtude domára, tornando -os, de ferozes que eram, mansos e prestativos, realizava maravilhas exorcisando energumenos, sarando cégos e leprosos, reverdecendo campos restolhados, tirando mananciaes das penhas e mesmo resuscitando mortos .

Logo encaminhou-se para a jazida do religioso nuLivro das illusões merosa corrente de peregrinos e, quantos lá chegavam gemendo, tantos voltavam apregoando a sua alta virtude. Foram tantos e taes os milagres do santo que o deserto maninho e lugubre se foi, aos poucos, tornando murmurejante, com o crescer de aldeias e o verdejar de culturas.

Era o santo d'uma pequena e obscura cidade que a peste periodicamente devastava. Sabendo dos prodigios que operava mandaram-lhe os seus conterraneos uma commissão a pedir-lhe que, com as suas rezas, obtivesse de Deus o saneamento da terra que lhe fôra berço e o monge, prostrando-se com o rosto no pedregulho, assim esteve, como morto, tres dias e tres noites e, quando se levantou, illuminado e feliz, despedio os que o cercavam, dizendo-lhesque tornassem tranquillos aos seus lares, porque nunca mais a peste levaria lucto á cidade. E assim foi.

Vendo que Deus nada negava ao santo quizeram os seus conterraneos possuil-o certos de que, com a sua presença, não só veriam as molestias conjuradas como sempre teriam abundancia nos campos que elle abençoasse só com passar por elles. Assim, tomando carinhosamente o casal de velhinhos que bemdizia aquelle filho, foram com elle ao tenebroso antro do deserto buscar, em triumpho, o milagroso anachoreta.

Preparou-se a cidade para recebel-o : Ornaram-se festivamente as casas, juncaram-se as ruas de espadanas e, ao encontro do thaumaturgo, sahiram bandos Livro das illusões jocundos de moços e de raparigas com flores e alegres doçainas e, com rumorosos trebelhos encontraram, a pouco andar da cidade, o humilde eremita, que vinha com o seu rosario de contas gastas, o seu burel remendado e as suas sylvestres abarcas de cortiça.

Mal o viram em tão abatida miseria logo, na turba, alguns entraram a sorrir : « Quê ? Pois era aquelle esfarrapado mendigo que afugentava a peste ? Pois era aquelle o homem que tornava ferteis os terrenos mais sáfaros, que restituia a vista aos cegos, a voz aos mudos e despertava os mortos no fundo dos gelados tumulos ?>> Acolheu-se o santo á casa paterna e logo se vio cercado pela gente da terra que o apertava com pedidos e supplicas. Um queria saude, queria outro que o seu vageiro produzisse ; este reclamava o gado que perdêra, aquelle, com macias palavras, queixava-se do pouco que lhe davam o vinhedo e o olival e succediamse as requestas e elle, com paciencia, a todas attendia deferindo-as, com a ajuda de Deus, até que chegou um homem rude da serra, a quem havia morrido uma gorda novilha, rogando, com lagrimas de avaro, que lh'a restituisse .

Inclinou-se o santo á piedade e resou mas o Senhor, talvez mesmo para mostrar-lhe o fundo do coração ambicioso e ingrato dos homens, negou-se a attendel-o.

Foi o bastante para que o dono da juvenca entrasse Livro das illusões a bradar que o eremita não passava de um impostor. <<Como podia elle conjurar as pestes, dar vigor aos campos, resuscitar os mortos se não tinha prestigio para chamar á vida uma gorda novilha ? »

E logo, por toda a cidade, nas casas e nos bazares , nas praças e nos mercados, nos campos e á beira do mar todos concordaram com o homem, affirmando, sem lembrança dos bens que haviam recebido -<< que o santo não passava de um impostor » : e riam-se da sua pobreza e das suas feições ascéticas.

Chegando-lhe aos ouvidos as murmurações ingratas uma manhan, antes de nascer o sol, vestindo o burel, calçando as abarcas e empunhando o cajado o santo entreabrio devagarinho a porta da casa paterna e ia sahindo, a fugir, quando os velhinhos, que o sentiram de pé, correram a tomar-lhe o passo : -Pois quê ! queres deixar-nos, filho ? Agora que, : de novo, nos acostumaste com a tua presença queres que voltemos tristemente aos dias de solidão e de saudade ? -Não, pais : é preciso. Volto á minha caverna.

De longe, com as minhas orações, farei quanto Deus quizer pela terra em que nasci e não me arrependerei porque não verei os ingratos e os descontentes. Sois testemunhas do muito que tenho feito, com a graça do Senhor, pois bemsó porque não restitui a vida auma novilha anda o seu dono a murmurar contra mim e muitos dos que me devem a saúde e a fortuna Livro das illusões repetem as suas palavras e apupam-me quando me veem, achando que valho tanto como o pelotiqueiro que empalma e sonega sob as dobras da tunica os objectos que lhe offerecem . 'Volto á minha caverna. Os que fazem milagres devem viver na solidão, cercados de mysterioo mesmo Deus, se tornasse ao mundo, seria de novo sacrificado. De longe serei amado, adorado, talvez, e ninguem rirá do meu burel nem das minhas abarcas, sentirão apenas os beneficios das minhas orações, imaginando-me um ser superior, differente dos homens.

Volto á minha caverna-lá continuarei a ser o santo misericordioso e patrocinarei, com as minhas preces, a terra em que nasci e aqui, confundido com os homens, nem posso rezar com calma e não passo de um mendigo que nem possue um burel decente para cobrir o corpo . Adeus, abençoae-me e deixae-me partir.

E, tomando o cajado, lá foi, por veredas escusas, caminho do deserto, sem voltar os olhos para a cidade que começava a acordar á luz da madrugada.

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Sinopse

Leia gratuitamente Romanceiro, de Coelho Neto, obra brasileira em domínio público publicada em 1906, com poemas narrativos e páginas líricas organizadas para leitura online por capítulos no Literunico. Esta edição digital foi preparada a partir do exemplar público preservado no Wikimedia Commons/HathiTrust, com capa nova no padrão Literunico, reforçando busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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