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Capítulo 54 · Romanceiro

Os milhões

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-Um momento ! bons homens, bradou o velhinho curvado sobre a sargeta por onde rolavam as aguas da enxurrada. Um momento ! bons homens.

Os varredores, vendo-o em tamanha azafama, raspando as pedras com as mãos tremulas, catando, um a um, os confetti amarellos, riam; elle, porém, sem dar attenção á troça que lhe faziam, continuava a raspar as pedras com ancia, enchendo um grande sacco com aquella massa de papelinhos louros.

Um dos varredores mais impaciente adiantou-se, mas o velhinho deteve-o com um gesto.

- Um instante, meu amigo. Já vos deixo o que vos cabe : não quero mais que o ouro. Aqui ficam esmeraldas verdes, saphiras azues, rubís côr de sangue, opalas côr de leite. A mim basta-me o ouro. Deixaime apanhar em paz as pepitas que brilham, deixo-vos uma fortuna maior em pedras preciosas.

Livro das illusões O homem, sem entender as palavras do velho, atirou a primeira vassourada . -Que fazeis ? Não vêdes que espalhais a riqueza que eu ando a ajuntar desde hontem ? Era noite negra quando sahi a esmolar um pão para a netinha - linda creança de seis annos que me ficou nos braços quando Deus me levou a filha. Sahi. As ruas regorgitavam de gente e eram tantas as luzes que se podia ver nas pedras um alfinete perdido.

Cantavam e riam; uma desusada alegria alvoroçava o povo e, quando a alegria é grande ninguem attende a uma tristeza que passa. Como se ha de ouvir um soluço em tamanho rumor de gargalhadas e de gritos, de sons de trompas e de rufos de tambores ? Debalde eu pedia contando a minha historia « que estava com febre e que a minha Dolores lá ficára em casa chorando de fome » . Riam das minhas palavras, mofavam de mim e das minhas lagrimas ... Houve mesmo quem me empurrasse tomando-me por bebedo ... como se lagrimas embriaguem.

Cançado e desanimado sentei-me no limiar de uma porta, olhando e pensando na pequenita e chorava em silencio quando uma creança, um menino louro, pouco menor do que a minha Dolores, dando por mim, deteve-se e, mergulhando a mãosinha num grande sacco, atirou sobre a minha cabeça um punhado de ouro.

Ouro, ouro sim e do melhor, que eu bem o conheço. Ouro de muito brilho, elle aqui está tinindo no Livro das illusões meu bolso. Agradecí á creança a generosa esmola e dispunha-me a partir quando notei que o ar estava toldado de ouro : era uma chuva que cahia sem descontinuar como se viesse das estrellas.

Nunca vi tanto ouro ! A ambição fez-me esquecer a pequenita, mas ella me ha de perdoar, porque eu só ambiciono por ella e para ella .

Mais um momento, mais um pouco de trabalho e eu entraria em casa tão rico do que o rei mais rico d'essas terras do Oriente de que falam as historias e a minha Dolores nunca mais teria fome, nunca mais teria frio, dormiria em leito de plumas e os seus pequeninos pés, tão pequeninos que eu aconchego e aqueço, a ambos, na minha mão direita, nunca mais palmilhariam, nús, as estradas pedrentas. Aias haviam de vestil-a e perfumal-a, pentear-lhe-iam os finos cabellos doirados e, quando ella crescesse, principes, sim, principes viriam disputal-a e eu, recebendo-os no meu palacio, chamaria a minha Dolores para què escolhesse o seu noivo. Pois não é assim que faz quem tem fortuna ?

Hontem, era eu um miseravel, ninguem se importava commigo, e agora ? vêde que ajuntamento ! Quanta gente a cercar-me ! Não é a mim que cercam, é ao meu ouro .

Como vae ficar contente a minha linda Dolores !

E vós tambem, se tendes filhos ou netos, podeis levar-lhes a alegria : Apanhai as preciosas pedras lapiLivro das illusões dadas que ahi estão pelas ruasverdes esmeraldas, saphiras azues, rubís côr de sangue, opalas côr de leite. Eu contento-me com o ouro.

Esperai um momento mais emquanto apanho o que aqui está junto.

Com este punhado comprarei um palacio para a minha Dolores, mandarei plantar roseiras em torno para que ella sinta o aroma agradavel das flores e dar-lheei tantas bonecas ... tantas ... !

Não imaginais a inveja que ella tem das outras meninas. Ainda hontem, quando sahi, deixando-a só, ella disse affagando-me o rosto com as mãosinhas geladas : « Se eu tivesse uma boneca para fazer-me companhia ... »

Terá muitas, muitas ! tantas quantas quizer, a minha pobre Dolores.

Agora sim - nunca mais direi «não > á minha pequenina neta. Levo ouro bastante para satisfazer-lhe todos os desejos.

Bemdictas sejam as estrellas de Deus que espalharam no ar estas estrellinhas de ouro. E quantos pobres são agora felizes ! quanta creancinha a sorriv contentada !

Os vossos filhos hão de sorrir tambem quando Thes apparecerdes com tantas pedras preciosas.

Enchei os carros ! Enchei os carros !

O varredor, impaciente, sorrio das palavras do velho, os outros tambem sorriram e, como a hora Livro das illusões avançava e era necessario fazer a limpeza da rua, entraram todos a varrer sem pena e lá foram os montes de confetti apezar dos protestos e dos gritos do allucinado que, de bruços, com o peito sobre a lama, defendia o ouro das estrellas, os milhões de Dolores que ficára, na vespera, a chorar de fome o que ainda o esperava com a esmola de um pão que elle sahira a pedir.

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Sinopse

Leia gratuitamente Romanceiro, de Coelho Neto, obra brasileira em domínio público publicada em 1906, com poemas narrativos e páginas líricas organizadas para leitura online por capítulos no Literunico. Esta edição digital foi preparada a partir do exemplar público preservado no Wikimedia Commons/HathiTrust, com capa nova no padrão Literunico, reforçando busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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