Universo da obra
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Sim, porque te julguei indifferente, clamei, no meu desespero : «E' preciso esquecel-a ! E' preciso matar esse amor que me allucina. Porque heide viver escravisado a um rochedo que me não attende e só me retem como o poste retem o prisioneiro ? E' preciso esquecela ! »
E resolvi abrir uma cova bem funda no coração para enterrar o teu nome.
Chamei o Amor, o Amor negou-se. Chamei o Ciume e elle, prompto, solicito, acudio vingativo. Disse-lhe o que desejava. Toda a tarde - ó ! o sinistro coveiro toda a tarde o Ciume trabalhou cavando a sepultura funda em que devia ficar o teu nome adorado. Eu olhava a terra que sahia ... a terra ! ...
Eram os nossos protestos, eram os nossos ideaes felizes, palavras tuas, palavras minhas, promessas, sonhos, queixas e sorrisos ...
A's vezes, na pá, rolavam gottas diamantinas eram lagrimas tuas, as tuas lagrimas ciumentas ; e flores, eram os nossos beijos e a cova afundava, escura como um abysmo. «Agora sim, dizia eu radiante, agora sim, vou viver tranquillo, sem a lembrança d'esse amor, esquecido d'aquella que me não ama. »
Tomei, á flor dos labios, o teu nome (oh ! como me custou arrancal-o !) fil-o baixar á cova e logo o Ciume se poz a cobril-a com a terra feral que retirava. E o Amor sorria ao vêl-o atarefado naquelle sinistro empenho.
Cobrio a sepultura, cobrio-a bem, bateu a terra até endurecel-a e, ainda, por cima lançou, como uma pesada lage, o meu despreso com este curto epitaphio : «Aqui jaz uma ingrata. » Depois minh'alma, saciada com a vingança, alegrou-se e cantou o seu triumpho.
Como me julguei feliz !
No mesmo instante, porém, não é tão rapida na terra a germinação da sementesenti que me crescia o coração.
Sobresaltado, mandei minh'alma ao tumulo e, oh! desventura venturosa, teu nome fendia a terra, rebentava a lage, subia com um viço prodigioso, não um, como fôra enterrado, mas multiplicado, como as folhas nas arvores, tantos, tantos eram os que me vinham, em tumulto, á bocca que passei toda a noite a redizer teu nome e ainda a manhan veio encontrar-me redizendo-o arrependido, feliz, extasiado.
Ahi tens o que me succedeu por haver querido esquecer-te ; nunca em ti pensei tanto como nessa noite, amor.
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