Universo da obra
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O LEPROSO Encolhido no lar, longe das gentes, canta. A pelle roxa tresúa, os olhos se lhe encovam : é uma mandrágora viva. A lepra já lhe vai roendo os dedos, os labios, as palpebras, as orelhas e elle, vendo-se, aos poucos, destruir, soffre calado ou geme baixinho.
A fonte amiga é um espelho cruel-sempre que a sêde o leva ás aguas claras, a sua sombra nas aguas o repelle. Os que passam desviam os olhos, as esmolas lhe são jogadas, a propria Caridade tem repugnancia.
Ninguem o procura, os cães evitam-no, mas o sol, todas as manhans, lá vai ao seu monturo e affaga-o ; o sol apenas, esse não tem nojo, e tanto basta ao infeliz para que bemdiga a vida.
Agora mesmo elle lá está, sentado e humilde, mas contente. Ouvio o canto do gallo e, ouvindo-o, ergueu-se : Jesus nascia !
Illuminuras Ah ! tempos idos, quando, ainda limpo, caminhava á aragem balsamica das manhans para a ermida, -em companhia das moças do seu lugar.
Ah! tempos idos ... Entanto não maldiz. Eis chega o sol que o não esquece, devem vir esmolas porque todos commemoram a festa natalicia do bom Deus. E o leproso canta.
Tem um resto de azeite, mas como nem a imagem do Senhor possúe, accende a lamparina, deixa-a a um canto, porque Jesus bem sabe que é em sua intenção que aquella chamma brilha.
Que lhe importa o abandono em que vive ? não estão alli as arvores verdes, as aguas claras, o ceu azul, as borboletas, os passaros, as flores ? Não lhes estão chegando aos ouvidos ulcerados os cantos alegres dos que celebram a festa nos presepes ? Não estão seus olhos espiando pelas frinchas dos muros da cabana os grupos que passam jocundamente ?
Ah ! que ella não passe, a que elle amou ! Que ella não passe pelo braço de outro para que o ciume, peior do que a lepra, não lhe rôa o coração.
Busca outro caminho, moça formosa, mesmo que te prolongue a viagem. Sê misericordiosa, ao menos hoje, dia de Natal, para que se não desvaneça a alegria do infeliz.
Elle lá está ouvindo os sinos e os cantos, aspirando o perfume das flores sylvestres. Elle sangra por tantas feridas ... sê misericordiosa ! não queiras, com teus Illuminuras olhos lindos, apuar o coração miserrimo para que tambem sangre, mais que sangue : lagrimas !
Natal ! Natal ! Gloria a Jesus nascido ! murmura devotamente o leproso solitario .
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