Universo da obra
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Musa ...
Porque não lhe sabia o nome era este o que eu lhe dava nos meus sonhos. O ' creatura meiga ! Nos seus olhos olhos de sonhadora e de amorosa tanto carinho havia e tanta ingenuidade que eu, muita vez, pensei beijal-os, mas como se beijasse as contas negras de um rosario bento.
E jamais nos falamos. Digo: jamais as nossas boccas se entenderam, porque falar ... bem que falaram os nossos olhos .
Todas as tardes, ao sol posto, ella sahia ao jardim: era a primeira estrella. Sempre de branco, os cabellos entrançados, uma só trança, farta e negra, outros dias soltos, cobrindo-a de uma grande sombra.
Joias, se as tinha nunca as procurava, outras não vi jamais senão as que trazia no escrinio de coral da bocca pequenina.
Visões e sonhos Musa ! ...
Uma tarde, á hora acostumada da sahida das estrellas, da minha janella, os olhos alongados, eu esperava-a com ancia. Luzio uma estrella no ceu ... estranho caso ! Outra estrella, mais outra, milhares de estrellas, a Via Lactea, a lúa ... e ella ? Comecei a impacientar-me. Subitamente a porta abrio-se, um vulto appareceu e logo a voz de alguem que soluçava disse :
Das brancas , das que nascem perto do muro .
Foram sempre as suas preferidas.
E outra voz tremula respondeu : -Das brancas, perto do muro.
Um presagio agitou-me. Inclinando-me procurei distinguir, ao luar, as feições de quem curvava os ramos soluçando. Era um velho, bem velho, já derreado.
E chorava. E a tesoura, com estalídos, ia devastando o roseiral viçoso.
- Que tem, visinho ? perguntei. O velho deteve-se, levantou a cabeça branca e choroso, soluçando, poude apenas dizer : -Lavinia ...
Lavinia, pensei. Seria ella ? E se fosse ? Porque tanto choro ? para que tantas rosas ?
Seria o seu noivado ?! Vesti-me ás pressas, e fui á casa proxima.
Tudo em silencio. O unico rumor que eu escutava era o do meu coração. Bati, abriram.
Entrei e logo que appareci na sala um sussurro correu entre os que lá estavam :
Visões e sonhos -E' elle ! E' elle !
Sobre a mesa, de branco, os cabellos soltos formando uma alfombra negra e, ao mesmo tempo, um veu de lucto, postas no peito as mãos pequenas, o sorriso nos labios, estava morta e gelada. Musa ! Estive a contemplal-a sem lagrimas, calado. O velho, soluçando, cobria-a de flores e, em torno, soluçavam. De repente, tempestuosamente, o pranto rebentou-me dos olhos. E, de novo, ouvi que sussurravam: E' elle !
Chorei e, antes de retirar-me, baixei o rosto sobre a face fria e beijeia-a, beijei as lapides das palpebras que escondiam, á minha vista, os olhos negros formosos ... Beijei as brancas palpebras geladas como se beijasse osculatorios dentro dos quaes houvesse duas reliquias santas .
Mas (ingrata fragilidade humana !) o que mais me preoccupou n'essa noite de morte depois que deixei o corpo amado, não foi a saudade, não foi a lembrança de que jamais tornaria a vel-a, pobre Musa !
O que me fez penar toda a noite em preoccupada vigilia foi o sussurro dos que guardavam o corpo, a phrase de mysteriosa annunciação que andou de bocca em bocca emquanto, debruçado sobre o cadaver pallido, eu chorava : « E' elle ! ... >>
Leia gratuitamente Romanceiro, de Coelho Neto, obra brasileira em domínio público publicada em 1906, com poemas narrativos e páginas líricas organizadas para leitura online por capítulos no Literunico. Esta edição digital foi preparada a partir do exemplar público preservado no Wikimedia Commons/HathiTrust, com capa nova no padrão Literunico, reforçando busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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