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Capítulo 55 · Romanceiro

O céu

55 de 62 ≈ 7 min de leitura

0 Céu Aos sabbados, á tarde ó as longas e lentas semanas ! - davam-lhe licença para descer á aldeia, ver a mãi e os irmãos e gozar o domingo.

Lá acima, ao seu degredo, chegavam por vezes, com o vento, os alegres e limpidos repiques do sino, um sino só e pequeno mas, em verdade, tão vibrante que punha toda a aldeia em alvoroço quando dançava na forca, tangido pelo Marcello .

Ouvindo o som elle ficava-se a rever os logares queridos : o largo da capella com o rio a correr perto -era sempre alli que se realizavam as feiras festivas em S. João e no Natal -- a grande estrada larga e branca, com os muros de taipa dos pomares, tantas vezes galgados no tempo das fructas ; o hotel do veTho Mendo, sempre com gente á porta, cavallos e carros sob o telheiro ; a venda do Adrião, cercada de limoeiros e um rol de casas, umas cobertas de telhas, Livro das illusões poucas, podia cital-as, o resto todas palhiças, na chan ou trepando pelos outeirinhos, mas fossem correl-as e haviam de achar os armarios abarrotados, as arcas bem providas ; e não havia tendal de pobre onde não se encontrasse uma cabra vagarosa, d'ubres pojados e um gallo orgulhoso para cantar á alvorada.

Era assim e elle lá em cima, a soldo d'aquelle senhor tão rispido, de tão negra barba, sempre taciturno e bravio, vivendo, como os ogres das historias, n'aquelle immenso casarão trepado nas rochas, lá ao cimo da serra onde a noite chegava primeiro porque, ás vezes, já mal se distinguia nos frondosos caminhos e, embaixo ainda era claro o sol.

Só aos sabbados, á tarde, davam-lhe aquella folga mas, porque fizera Deus os domingos menores que os outros dias da semana ?

Lembrou-se, uma vez, de pedir ao senhor que, em vez de o licenciar aos sabbados, lhe desse liberdade aos domingos, á tarde, porque para elle não havia dia tão longo como a segunda-feira, mas não se atrevia a fazer tal pedido áquelle homem merencoreo que nunca sorria e só, de raro em raro, a cavallo, entre cães, que eram feras, sahia á caça ou a visitar a sua riqueza, ordenando tratos ás arvores feridas pelos temporaes. Ah ! vida triste !

Aos sabbados, ao soar da sineta, fechava, ás pressas, a comporta da azenha, vestia o seu grosso casaco, tomava um cajado e descia em tal corrida, salLivro das illusões tando ribeirinhos alegres, despenhando-se de rampas que, em menos de meia hora, estava na estrada larga e era um minuto até a casa onde já o esperavam os irmãos e a mãi com o sorriso e a benção .

Se levava o salario logo o entregava á mãi, sem falha de uma moeda, se não contava episodios da sua vida serrana ou ouvia, sorrindo, os casos da sua aldeia.

Num sabbado, entrando esbaforido em casa, encontrou-a cheia de gente que chorava e que cheiro de flores ! e que cheiro de cêra !

Dois dos seus irmãos quietos, sentados a um canto, numa pelle de ovelha, olhavam com os olhinhos cheios de espanto e ella, a mais velha ? a sua meiga Eunyce, tão sua amiga, para quem elle levava sempre alguma coisa da serra - um fructo, uma flor, um passarinho, e, ás vezes, uma pedra branca e lisa das que brilham nas aguas dos riachinhos ?

Perguntou por ella. «Foi para o céu ... > disseram ; e a mãi, desgrenhada e pallida, rompeu num pranto mais alto, agarrando-se a elle e repetio em soluços : «Foi para o céu, meu filho ! »

Elle chorou de saudade mas não lamentou a sorte da irmãzinha que lá fôra para onde as estrellas, que lá devia estar, talvez feita estrella tambem, brilhando.

Quando tornou, na madrugada da segundafeira, á serra, subindo, a arquejar, pelos trilhos asperos, redizia aquellas palavras que ouvira : «Foi para o céu!

Foi para o céu ... » e, todo o dia, sentado á porta do Livro das illusões moinho, emquanto o milho estrallejava na tremonha e a mó rolava, triturando, elle olhava o céu, lá longe, azul, com o sol flammejando, tão alto, tão perdido ... Pobresinha ! como lhe devia ter custado lá chegar ...

A' noite tornou á triste contemplação a ver se em alguma das estrellas podia reconhecer a irman ... mas eram tantas ! tantas e tão altas ...

Uma tarde, ao chegar á casa, disse-lhe a mãi que, na manhan seguinte, iriam todos ao cemiterio levar flores á irman. Ao cemiterio, pensou elle ... e o céu ?

Mal dormio ; ao primeiro canto do gallo já estava acordado, mas não se levantou vendo que todos dormiam - a mãi e os pequenitos, sentindo, porém, o alvor, sahio, pé ante pé, a colher as flores frescas dos moutaes.

Foram. E o cemiterio era longe, no extremo da aldeia, achegado a um monte. Junto do muro, num recanto florido, mostrou-lhe a mãi um tumulosinho.

E' aqui que ella dorme, disse-lhe ; e elle : -E o céu, mãi ? Pois não me disse que ella foi para o ceu ?

Sim, filho, é por aqui que se vae ter ao céu.

E, percebendo o espanto do moleirinho, explicou : Filho, os olhos estão encravados no rosto, mas o olhar está no céu ... é assim. Ella está aqui, mas a sua alma está lá ... -- E que faz ella no céu ?

Livro das illusões -Goza as venturas que Deus reserva aos seus filhos.

No ceu não ha penas : não ha frio que gele, nem soalheiras que escaldem, ninguem se cança, ninguem se atormenta, tudo é paz, tudo é delicia e amor. O ceu, meu filho ... e a pobre mãi suspirou.

Tornou o moleirinho á serra. * * * Uma manhan, subindo, por ordem do senhor, á pedra mais alta da serra, a buscar um cabrito afoito que galgára o penedio, achou-se num plano liso, de pouca verdura, de onde, alongando os olhos, avistou toda a sua aldeia pequenina, longinqua, com as casas espalhadas , alvejando, como pedras brancas num campo.

Oh ! como era funda a sua aldeia ... De repente os seus olhos foram attrahidos por um grande brilho -correu a ver e achou-se á beira de um lago quieto e liso e vio por elle, como vira, uma vez, na feira, nos vidros de uma barraca terras novas, cidades ricas, o céu, o céu azul, o puro céu luminoso, lá embaixo, no fundo.

Ó deslumbramento ! lá estava o céu, o lindo céu, o céu de amor de que lhe fallára a mãi. Só então Livro das illusões comprehendeu o que ella lhe dissera -- que, deixando o corpo da pequenita na terra, elle iria ter ao céu, áquelle mesmo céu que elle via através da agua do lago fundo, azul, translucido, tão longe !

Ficou debruçado, a olhar, a mirarum passaro passou no céu do lago ...

Custava-lhe tanto a vida naquella serra, com aquelle senhor severo e o céu alli, o céu com o Bom Deus, Nossa Senhora, os santos, os anjos bons e ella, Eunyce. Por que não havia elle de ir tambem ?

Alli estava o caminho : erà só metter-se no lago, deixarse cahir e Deus o receberia nos braços e ...

As aguas escachoaram, franziram-se em circulos ; pouco a pouco, porém, foram-se remansando e, tremulo, o céu reappareceu azul no lago. * * * -Que terá acontecido que até agora não vem ! suspirava afflicta a pobre mãi quando se abrio a porta e um velho, de grandes barbas brancas, que era o intendente do senhor da serra, entrou pela casa taciturna e logo, com palavras tremulas, referio que o pequeno perecera no lago e, como a desventurada romLivro das illusões pesse num grande pranto o velho, para a consolar, disse-lhe com voz tremente : -Não te desesperes, mulher, está melhor do que nós, porque está no céu ... * * * Moleirinho, moleirinho ... quantos, como tu, se illudem com esses céus dos abysmos !

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Sinopse

Leia gratuitamente Romanceiro, de Coelho Neto, obra brasileira em domínio público publicada em 1906, com poemas narrativos e páginas líricas organizadas para leitura online por capítulos no Literunico. Esta edição digital foi preparada a partir do exemplar público preservado no Wikimedia Commons/HathiTrust, com capa nova no padrão Literunico, reforçando busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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