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Capítulo 41 · Romanceiro

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Cantava; e as lagrimas rolavam-lhe em dois fios ao longo da face macilenta. Soffria ; mas, como era preciso que o pequenito adormecesse, cantava, indo e vindo, devagar, embalando nos braços a creança.

O mais velho, tres annos, olhava-a e, de quando em quando, cantarolava : « Estou com fome, mamãe ...

Estou com fome » . E o pequenito, insomne, olhava-a, muito esperto, a boquinha collada ao peito. «Estou com fome, mamãe ... » cantarolava o outro.

Ia alta a manhan ; mas se o sol alegrava o quintalejo que tristeza em casa !

Viuva, tisica, desfigurada pela molestia e pela fome, timida de mais para pedir esmolas, que havia de fazer a desgraçada ? « Estou com fome, mamãe ... » cantarolava o mais velho. -Espera, filho ; espera.

Como o pequenito adormecesse a mãe, pé ante pé, Visões e sonhos deitouo sobre uma caminha de pannos, a um canto da casa. E o mais velho, seguindo-a, cantarolava sempre : «Estou com fome, mamãe ... » -Não faças bulha ; espera. E, acenando-lhe, passou á cosinha. Mas que havia de fazer ?

Ardia no fogão a derradeira acha e a mãe, os olhos rasos d'agua, poz-se a soprar a lenha para ateiar o lume, emquanto o filho, que se lhe agarrara ás saias, cantarolava : « Minha mãesinha ... » contente com ver a chaleirinha ao fogo. A' mesa, porem, quando a mãe The apresentou a tigella e o pedacinho de pão da vespera, fitou-a amuado : -Só café, mamãe ? -Só, meu filho ...

Levando a colher á bocca elle foi repellindo a tigella, com um beicinho, prestes a chorar. -Não chores. Olha que vais acordar o maninho.

Espera.

E, desabotoando o corpinho, tirou o peito farto, apojado, espremeu-o trincando os labios descorados, por onde as lagrimas escorriam ; e, entregando a tigellinha ao filho : -Toma e não faças bulha. E o pequeno, arregalando os olhos, satisfeito : -Agora sim ... Agora sim ... poz-se a cantarolar.

Baixinho, então, ella recommendou : - E não peças mais, ouviste ? o outro é para o maninho .

E foi, pé ante pé, expiar o filho que dormia.

Romanceiro

Sinopse

Leia gratuitamente Romanceiro, de Coelho Neto, obra brasileira em domínio público publicada em 1906, com poemas narrativos e páginas líricas organizadas para leitura online por capítulos no Literunico. Esta edição digital foi preparada a partir do exemplar público preservado no Wikimedia Commons/HathiTrust, com capa nova no padrão Literunico, reforçando busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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