Universo da obra
Universo da obra
Perguntando-lhe eu de quem ouvira palavras taes baixou os olhos sorrindo e balbuciou : « Nunca as ouvi de labio algum, tirei-as do coração.>>> O apologo do ciume nasceu na alma de minha amada como o perfume nasce na corolla da flor.
Vê lá, sisuda Critica, se lhe pões as mãos em cimao que encontras aqui não é da tua alçada, cumpre o teu fadario, mas não exorbites -isto não é litteratura, é carinho. Ouve como eu ouvi, uma noite, emquanto a chuva do inverno fazia chorar o arvoredo.
Ouve e passa.
O principe agonisa.
Leves, cautos, de manso os passos mal se accusam.
Qual foge a correr, qual a chorarum que conduz os balsamos, outro que precede os magos ; e passam, num desferir de sombras ; mal um fremito deixam quando passam. Não murmuram palavra, apenas os olhos falam.
Choram; lagrimas brilham nas lages dos corredores. O silencio é quasi absoluto. As aguas dos rios foran desviadas para que o murmurio não perturbe o somno do moribundo. Os passaros, tomados em grandes redes, foram transportados para longe. Apenas o vento soluça nos tristonhos cyprestes.
O principe agonisa.
Arautos percorrem as terras vastas do reino promettendo cargas de pedrarías, minas de ouro, harens de formosuras, provincias com os seus haveres e habitantes a quem salvar da morte o principe moribundo e ninguem se atreve a concorrer a premios taes .
Pelas tendas e pelos palacios os subditos balbuciam : «O principe agonisa. Pobre princeza noiva ! »
Pobre princeza noiva que não deixa o beiral do leito amado. Quem salvará seu noivo ?
Correm magos e solitarios, astrologos e marabutos é a morte não se arreda.
Subitamente pagens e janisaros precipitam-se na camara merencorea annunciando que uma formosa mulher bate ás portas do palacio promettendo a vida ao moribudo . -Que entre asinha ! Que entre a salvadora ! E a guarda silenciosa abre passagem á peregrina estranha.
E' formosa, maravilhosamente formosa ! Velhos soldados murmuram á sua passagem : -Não é mais linda a estrella da manhan .
Abre-se a cortina do leito : o principe livido, os olhos amortecidos, as mãos crusadas no peito, mais branco do que os linhos alvos, é quasi cadaver frio.
E a princesa soluça : -Trazes a vida, linda peregrina ? indaga, mas com ciume porque, através das lagrimas, seus olhos vêm e admiram a graça e a formosura da estrangeira. -Trago-lhe a vida, diz a mulher formoså. E os olhos do principe reaccendem-se e fulgem. Basta que meus labios toquem, de leve, a polpa de seus labios e logo despertará no seu coração a vida que vasqueja. A princesa estremece e o principe estremece. Pasmam to-- dos de vel-o revivendo e a peregrina, desnastrando os cabellos, vae, a mais e mais, ganhando maior graça.
Já seus braços nús recurvam-se, brancos como dois crescentes, aureolando a cabeça desfallecida ; trememThe os labios, accendem-se-lhe as pupillas. Vai a pousar a bocca sobre o labio morno do principe que morre quando a princesa, assomada em ira, investe repellindo-a :
- Não ! custe-lhe, embora, a vida ! Nunca outros labios sentirão o sabor do seu beijo.
Expulsa a peregrina. Logo a morte envolve em silencio e em frio o corpo do moço principe. -Antes a morte ! profere a princeza em soluços e, para acompanhar o noivo, abre no peito, com o ferro d'um punhal, o caminho á Morte.
Se a minha vida dependesse de outros labios, dize, terias a fria coragem da princeza cruel ?
Antes a morte ! affirmou minha amada chorando.
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