Universo da obra
Universo da obra
Naquelle tempo em toda a immensa e afortunada terra d'Asia, desde as altas regiões quasi nuas, onde as neves se não dissolvem e, para um lado, até a orla tepida do mar onde se pescam as perolas, e para outro até os vastos e adustos desertos de areia amarella, hispidos de cardos, sem sombra de arvores ou brilho d'agua, onde alveja a tenda ligeira do beduino e o gypaeto, do alto das rochas seccas, espia as serpentes, só se falava das riquezas maravilhosas do soberano da Ilha dos Arômas, essa que, ao findar de uma tarde de quente nevoaça, como referio, aterrada, a tripolação de um pangaio, com um leve tremor que nem abalou as torres dos templos,nem assustou o gado nos campos, afundou lentamente, sumio-se nas aguas, como um barco que sossobra ao bater num rochedo.
Esse principe, que governava um grande povo industrioso e tinha, para defender o seu reino, o mais Livro das illusões aguerrido exercito e a frota mais numerosa do Oriente, logo que deixou o cadaver do pai no sumptuoso mausoléo de marmore, levantado entre as esbeltas palmeiras do bosque sagrado, e assumio o governo, quiz examinar os thesouros que os reis vinham pacientemente accumulando desde que os primeiros escravos cavaram o terreno das minas e os primeiros exercitos espalharam-se impondo pesados tributos aos povos fracos dos paizes proximos .
Desceu ao subterraneo e, caminhando por entre abarrotados ceirões d'ouro e prata, arcas acoguladas de pedrarias, armas preciosissimas, vasos do mais fino lavor, pannos attalicos e telas levissimas, esvoaçantes, tecidas nos templos por virgens que só trabalhavam para os deuses, e moedas de varios cunhos que luziam amontoadas, espalhadas nas lages, sorrio da miseria, não comprehendendo como reis tão fortes, que podiam dominar o mundo, se contentassem com tão pouco .
Disseram-lhe que, todos os annos, com as primeiras flores da primavera, chegavam barcos com o tributo em ouro de setenta fertilissimos Estados, que os impostos das provincias eram abundantes ; disseramlhe o numero das minas que produziam, das rezes que se espalhavam nos campos, dos navios que faziam o commercio da purpura, dos teares que trabalhavam, das mil fabricas em que se facetavam as pedras preciosas, se polia, rendilhava e floreava o marmore, se cozia a louça transparente, se enformavam as amphoLivro das illusões ras, se trançavam as corbelhas, se fundia o metal das armas - o principe sorria sempre, desdenhoso, achando tudo mesquinho.
Subindo á sala dos despachos logo decidio augmentar os impostos e os tributos para o dobro do que pagavam, exigir dos capatazes da mineração maior quantidade de ouro, prohibir aos pastores a matança de uma só rezque se contentassem com o bolo de farinha e mel e com as hervas tenras que nascem nas terras humidas - dar mais porte aos barcos e exigir das mulheres do povo todas as joias que traziam.
Mandou equipar e apetrechar navios e soltou-os nos mares para a rapina.
Espalhadas, ao som de tambores, as ordens do soberano, o povo, que o temia, deu-se pressa em cumpril-as e centenas d'homens fieis, encarregados de receber o que a gente humilde levava ao erario real, não conseguiam attender a todos com a resalva que era devida aos que se desfaziam dos seus pequenos valores.
As fundições trabalhavam dia e noite reduzindo a grossas barras de ouro as joias de que a pobreza se havia despojado e as pedras, tiradas das encarnas, scintillavam em acertos de côres sobre o branco lagedo dos pateos, entre ennuchos armados.
Ao porto abicavam diariamente altos navios carregados ; caravanas numerosas desciam das minas, em lento andar, com o peso dos fardos que derreavam os Livro das illusões animaes, e os pastores reclamavam mais campos onde pudessem espalhar os rebanhos que cresciam prodigiosamente, já emmagrecendo á mingua de pastura.
E o rei, percorrendo o subterraneo, contemplava a sua riqueza, mas como ainda lhe não bastasse o que via, mandava cavar galerias maiores, mais fundas e exigia mais ouro.
Á noticia das victorias dos seus soldados, das presas dos seus navios logo pedia nota dos thesouros sem se preoccupar com a mortandade nem com o soffrimento dos vencidos.
Á noite, quando a cidade real dormia e das chaminés das fundições subiam, lambendo a tréva, as linguas rubras de fogo, elle levantava os olhos e ficava ambiciosamente contemplando os astros que tremeluziam no céu.
Não dormia. Se, algumas vezes, reclinava-se vencido pela fadiga, logo um sonho o despertava em sobresalto - punha-se de pé e, seguido pela guarda palaciana, que o acompanhava a correr, atropelladamente, fazendo resoar a longa escadaria de marmore, subia á torre mais alta para devassar o mar vasto porque, no sonho, o vira coalhado de navios que vinham cheios de guerreiros, que eram gigantes, assaltar o seu thesouro, passar a fio de espada a sua gente, exgottar as suas minas, abater o seu gado.
Recommendava o mais vigilante cuidado ás sentinellas ameaçando-as de morte se não annunciassem Livro das illusões o que fossem descobrindo na terra, no mar, no espaço.
Ás vezes, no arroxear sereno do crepusculo, uma aguia retardada punha em alvoroço a cidadella. Rugiam buzinas roucas de uma á outra torre,, armas brilhavam, retiniam na pressa tumultuosa com que a soldadesca se lançava pelas escadas e arquejando, esbaforidos, os guerreiros que chegavam á plataforma, atezando os arcos rijos, viam apenas um ponto negro que se sumia no espaço, longe. * * * Certa noite, ao recolher-se, sentio o rei uma dôr violentissima na cabeça como se a varassem ferros terebrantes e em braza e um peso tão grande que só a podia trazer tombada sobre o peito .
Immediatamente, em grande pressa, foram chamados os magos e o rei, por entre gemidos e brados de angustia, dizia-lhes o seu soffrimento promettendolhes immensos thesouros se o curassém ou a morte se nada conseguissem.
O primeiro tudo fez : velou noites seguidas, invocou os deuses, experimentou as mais complicadas formulas, tentou todos os recursos da magia.
Livro das illusões .
Um dia longo e quente, ao sol, e toda uma noite passouos no eirado do palacio consultando o vôo dos passaros e o brilho dos astros e, com o soar das buzinas annunciando a madrugada, resignadamente, entre guardas, desceu para morrer.
Outro veio e teve a mesma sorte.
De todas as partes chegavam magos e feiticeiros e todos desciam ao pateo lobrego onde o carrasco os abatia de um golpe. E o rei, gemendo e sem poder levantar a cabeça, augmentava as promessas de riquezas e inventava supplicios mais dolorosos.
Continuamente subiam sabios á real camara, continuamente o machado do carrasco decepava cabeças veneraveis .
O povo, estarrecido de medo, nem cuidava de negocios porque os guardas tinham ordem de matar todo aquelle que falasse mais alto nas ruas e, todas as tardes, eram levadas para as cavernas funebres centenares de cadaveres de mulheres. Nos templos os victimarios escorriam em sangue e nos altares não se extinguia a chamma dos holocaustos.
Já os cortezãos desesperavam da salvação do monarcha, cujo soffrimento augmentava a mais e mais, quando um velho mago, havia muito apartado da corte, vivendo solitariamente numa montanha, foi trazido a palacio.
Não ignorava as condições impostas pelo rei - a fortuna on a morte e, como o pateo de supplicio fiLivro das illusões cava em caminho da torre em que se havia isolado o enfermo, o ancião, levantando a aba da simarra, passou sobre o sangue dos que o haviam precedido e vio o carrasco inflexivel, afiando o machado junto ao cepo de cedro onde tinham rolado tantas cabeças cheias de sabedoria.
Não se intimidon : serenamente, seguindo o camareiro que o guiava, chegou á presença do rei que gemia.
Os aulicos , curiosos da sciencia do solitario, cer- 'caram-n'o, elle, porém, depois de haver purificado as mãos n'um vaso de ouro, declarou que, para conseguir a cura, era necessario ficar a sós com o monarcha.
Com um leve murmurio, como o d'um fio d'agua a fluir, os cortezãos sahiram e o velho correu, experimentou os ferrolhos de todas as portas. Dirigindo-se, então, ao enfermo que apertava a cabeça entre as mãos, disse : -Senhor, para que eu vos examine, como convem, é necessario que adormeçais. Tenho commigo um elixir de somno que vos dará um momento de allivio.
E d'um gutturnio verteu, num pequeno copo cavado em uma esmeralda, as gottas d'um narcotico que o rei bebeu sem hesitar, cahindo immediatamente em profundo lethargo. O mago tirou, então, do seio uma pequena bolsa, despejou-a sobre uma patena de prata e miudas lascas de ouro scintillaram . Olhou-as sorLivro das illusões rindo e despertou o rei que, ao reabrir os olhos, logo se pôz a gemer : -Por que tão depressa me tiraste do somno ? -Senhor, não foi para adormecer-vos e sim para curar-vos que aqui me trouxeram, entre armas. Se vos mergulhei no somno de que sahistes foi para examinar, com descanço, a vossa cabeça e descobrir a causa do soffrimento que vos traz combalido e todo o reino em grande e justa tristeza.
E então ? -Tenho o que basta para garantir-vos a curaé o conhecimento do mal. E, adeantando-se com a patena, no fundo da qual brilhavam as lascas de ouro, explicou: A vossa molestia é de natureza estranha e, a meu ver, originou-se no vosso constante pensar em riquezas. A prova aqui a tendes nestas pepitas. A idéa fixa materialisou-se. A vossa cabeça está-se transformando em ouro. Comprometto-me a curar-vos em menos de uma hora raspando toda a crosta que forra o vosso craneo e destacando todas as particulas que se acham incrustadas na massa cerebral, se assim julgardes que devo fazer. Como é um thesouro não quiz proceder sem ouvir a vossa palavra.
O rei ficou largo tempo a pensar e a gemer. Tomou entre os dedos as pepitas luzentes, chegou-as bem aos olhos, examinou-as, pesou-as na palma da mão, murmurando : Bom ouro ! Bom ouro ! Por fim, disse : Fizeste bem em consultar-me . Tal molestia só Livro das illusões póde ser um capricho dos deuses, porque não consta que homem algum houvesse jámais produzido ouro.
E suspirou : Cumpra-se a vontade divina. E em quanto tempo julgas que terei toda a cabeça transformada em ouro ? -Senhor, em menos tempo do que gasta a lua Para mostrar ao mundo as suas quatro faces .
Bem, vai ! Concedo-te a vida ... E o mago inclinando-se, ajuntou : -E outro maior thesouro não me podieis conceder. Todavia, se vos quizerdes curar, senhor, eu lá estou na montanha, disse o mago de cabeça baixa. sorrindo por trás das grandes barbas alvas que rojavam no chão. -Curar-me ! ... suspirou o rei. Pudesse eu mè- lhorar um segundo e daria, de bom grado, metade do meu reino, o mais rico da terra ... mas, como hei de eu contrariar a vontade superior dos deuses ! Já agora soffrerei até que toda a minha cabeça se transforme em ouro. Vai ! e que os deuses sejam propicios á tua velhice. () mago retirouse contente com a sua astucia recolhendo-se ao silencio religioso da montanha e numa doce noite de lua, á hora em que cessaram os canticos no templo, o rei deixon de gemer no seu leito de ouro e marfim .
Leia gratuitamente Romanceiro, de Coelho Neto, obra brasileira em domínio público publicada em 1906, com poemas narrativos e páginas líricas organizadas para leitura online por capítulos no Literunico. Esta edição digital foi preparada a partir do exemplar público preservado no Wikimedia Commons/HathiTrust, com capa nova no padrão Literunico, reforçando busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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