Universo da obra
Universo da obra
Não julgues da vastidão de um poema pelo numero de seus versos : palavras são como folhas d'arvores - murcham, seccam e o vento leva-as, vestem apenas o tronco e protegem o fructo. O tronco, esse subsiste, se é forte, porque nelle é que reside a essencia.
Se ha puranas de milhares de versos outros ha, tão pequenos que podem caber na memoria de uma creança ou, escriptos, numa petala de lotus ; nem por serem menores valem menos do que qualquer dos dezoito recolhidos pelo solitario Vyasa.
É d'esse numero o poema ingenuo de Vaïsya, o principe taciturno.
Senhor das terras ferteis que jazem á sombra do Himalaya, vertente das aguas claras, principe d'um povo meigo, Vaïsya, que passára a infancia entre arLivro das illusões vores, ouvindo a sabia doutrina de um brahmine, subio ao throno de ouro e de esmeraldas quando contava vinte e cinco annos.
Ou porque era d'alma triste ou porque a selva e o sabio lhe tivessem infiltrado nalma a melancolia, era taciturno e grave, não sorria e lentas e vagas eram as suas palavras. Sempre cercado de aulicos servís que se curvavam como os juncaes dos rios, sempre a ouvir propostas de mulheres que lhe embargavam o andar, tentando-o a amores, farto de ouvir bravatas de guerreiros e percebendo as mil perfidias que os ministros tramavam nos conselhos, ia enjoando, a mais e mais a vida e ao fausto, ao gozo, á gloria de tal corte preferia os silencios retirados onde, a sós com o sen espirito, vivesse e meditasse.
Numa dôce manhan de verão Vaïsya, estando a contemplar o ceu que a luz recamava, vio despontar o sol, louro como uma gotta d'oleo santo na superficie azul d'um lago e, de mãos juntas, prostrando-se em terra, disse : -Brahma, tres vezes magnifico, dá-me que eu veja o berço de Indra ! dá-me que eu olhe o sacratissimo casúlo que se desabotôa para libertar a borboleta diurna cujas azas de fogo, mal se desfraldam no ceu, matam a phalena pallida. Disse e, após um silencio curto, continuou baixinho : Afigurava-se-me que devia ser tão longe o berço da claridade e, todavia, tão perto fica, ainda em terras do meu dominio. Ah ! se Livro da illusõess eu pudesse velo ! E, concentrando-se, ouvio, como num sonho, uma voz que lhe disse : Caminha !
Vaïsya ergueu-se como inspirado e seguio direito ao palacio onde a sua ausencia era commentada diversamente : pelos cortezãos com murmurios, com suspiros pelas mulheres. Mal o viram chegar curvaram-se os primeiros e, em mudez, lascivamente deitadas, mostrando-se as concubinas. Vaïsya, porém, passou por todos como um somnambulo. Subindo ao throno impoz silencio e determinou que todos se mostrassem promptos, na manhan seguinte, para uma peregrinação veneravel ao berço do sol, e, como pretendia levar offerendas, ordenou que os thesouros do reino fossem transportados no dorso dos elephantes : ouro e pedras, brocados e perfumes.
Pasmados ficaram quantos ouviram tão estranha ordem, nem um só, porém, ousou contrarial-a, e logo começaram os cornacas em serviço acaparaçonando elephantes, carregando-os de ouro e de pedrarias.
Palafreneiros atiravam ao lombo dos ginetes gualdrapas de seda, a soldadesca bem armada cavalgava pôtros árdegos e aos palanques, forrados de seda fina com largas franjas d'ouro, recolhiam-se as concubinas.
Ao primeiro clarão d'alvorada, soando frautas e tambores, desfilou pela porta maior a caravana, em rumo das montanhas .
Livro das illusões Não foi longa a jornada nem desfavorecida : dias claros, noites estrelladas protegeram à comitiva que, ao fim d'um quarto de lúa, chegou ao cimo nevado da cordilheira e parou. Vaïsya, á beira d'um fogo vivo, fez a vigilia. Instrumentos mal tangidos pelos dedos inteiriçados esparziam sons na solidão friissima, e os animaes desacostumados de tão rispido clima, fremiam tonitruosamente.
Primeiros alvores da manhan. -Todos de pé : magos, kchatryas valentes, auletrides e cantarinas, cytharedos e bayaderas, todos de pé! Cornacas e palafreneiros , almocreves e escravos, todos de pé ! Ahi vem o sol ! E a fanfarra reboou atroando o silencio. Ahi vem o sol. Vejamol-o nascer, estamos á beira do seu berço ! bradou Vaïsya e todos debruçaram-se sobre o abysmo esperando o astro.
Abrupta e forte uma voz arrancou-os á contemplação : - O sol !
Levantaram-se todos e, alongando os olhos, viram o sol que nascia alem ! na planicie, entre palmares dourados. Vaïsya sorrio sem desanimo e, de novo, ordenou o marcha .
Cada qual cavalgou o seu ginete ou guindou-se á cabeça do elephante, cerraram-se as cortinas dos palanques, os anafés estridulos soaram e desfilou pela encosta escarpada a caravana morosa.
Novos dias, novas noites ... os palmares : repouso .
Livro das illusões Noite de vigilia e de anciedade - Primeiros raios d'alva, o sol ... alem ! A caminho ! E la foram. Ora ficavam nos montes, ora ficavam em campos. Vadearam rios, atravessaram valles e, a troco de ceirões d'ouro, fizeram-se ao largo mare o sol sempre a nascer alem !
Já era diminuto o numero dos homens : uns desertavam descorçoados, outros succumbiam exhaustos.
Poucos eram os animaes e, das mulheres, a maior parte ficara nos caminhos, morta. Raros homens seguiam de boamente o principe, descalços, famintos, com andrajos apodrecidos. Quantos annos correram !
Na corte ninguem mais cuidava rever o principe, já o tinham por morto, e o povo, como ignorava o rumo que levara e o fim da expedição, dizia pelos mercados : que fora combater e conquistar thesouros e ficára espetado em lanças inimigas .
Outro principe reinava quando atravessou a porta maior, mais roto e pobre que o mais vil dos párias, um peregrino envelhecido e alquebrado. Cançado, parou no viso d'um outeiro repousando sobre a fresca relva.
Era quasi manhan quando se lhe abriram os olhos : o sol nascia e justamente levantava-se dentre as frondosas arvores do parque que fôra, outr'ora, do principe Vaïsya.
Livro das illusões D'olhos immensamente abertos e fitos no astro o peregrino empallidecia. Quiz erguer-se, não lhe sobraram forças, os olhos fundos inundaram-se-lhe de lagrimas e, no esplendor da manhan, poz-se a soluçar, dizendo : -Brahma ! como a luz me illudio. Andei a vida inteira a procurar o berço do sol, o mundo está semeado d'ossos dos que me seguiram e, na hora da morte, miseravel, desilludido, vejo o meu grande erro o sol nasce no parque do meu antigo paço, entre os palmares que fazem sombra aos tumulos dos meus maiores. Brahma ! porque me deixaste partir.
E mais não disse - d'olhos abertos e opacos voltados para o sol que subia, ficou estendido, immovel, na terra do outeiro.
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