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Capítulo 43 · Romanceiro

Meu túmulo

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Meu tumulo Quero eu tambem ter o meu tumulo. Vou mandar construil-o de marmore e de bronze para que a clava do tempo o não destrúa. Quero-o bem alto ! Tão alto como as pyramides para que venham pastores, com os seus rebanhos, repousar á sombra dos seus muros .

Em torno, chorando, as aguas de uma ribeira e salgueiros em desalinho e cyprestes lutuosos, firmes como eremitas extaticos, em alas funebres.

O interior resplandecente como uma nave de egreja.

Nichos, ao longo das muralhas, guardarão santamente os meus primeiros sonhos, as minhas ultimas esperanças e, num grande altar lapidario, dentro de um tabernaculo, o meu Ideal que ninguem jamais poude descobrir, o meu Ideal, mysterioso como a face de Isis magnifica que um veo denso ainda esconde.

Arderão, em tripodes de ouro, abrazados em chamVisões e sonhos mas de amor insaciado, corações de vinte annos è o teu coração, minha amada, irá para junto do meu corpo como o escaravelho, symbolo da Alma immortal, que os egypcios collocavam á cabeceira das mumias.

Uma grande lage, pesada e grossa, fechará a entrada para que não penetre o sol nem os olhares dos homens penetrem desvendando os arcanos da Morte.

Levarei commigo todas as minhas canções jocundas e tu, sempre querida, não esqueças na vida os teus sorrisos -tral-os para encher com elle o nosso eterno palacio : serão as aves do amor, as aves da primavera infinita.

E não chores a minha morte para que os teus olhos não fiquem esmaecidos, porque os quero bem claros : havemos de os utilisar como alampadarios nessa treva silente do sepulchro..

Quero bem alto, bem vasto o meu tumulo para que os homens invejosos digam : -Grande tumulo ! Tão alto monumento para dois corações apenas.

E nós, como a saxifraga, iremos brocando a lage para expandir o nosso amor porque, de certo, o tumulo será pequeno para conter os beijos que me prometteste e os beijos que eu te prometti e, então ... quantas violetas virão á flor da terra quantas rosas, amor, e quantos lyrios ... e os homens dirão mais tarde : -Pois não lhes chegou o tumulo para que, assim, tragam os seus beijos á luz do sol ?!

Visões e sonhos Bem alto e vasto o tumulo que vou mandar construir, isoladotão alto como as pyramides para que venham pastores com os seus rebanhos repousar á sombra dos seus muros.

E vós, almas piedosas, vós que respeitaes os mortos, quando passardes junto do meu tumulo, esquecei orações, esquecei lastimas. Cantai ! Cantai amores para que nos regosijemos na morte sabendo que ainda ha vivos no mundo. E não terão pavor os que morarem perto, não terão pavor das nossas almas as mesmas creanças e virão brincar em torno do tumulo como as aves brincam junto do altar de uma egreja e, aos que as intimidarem, dirão sorrindo : -Não sahem. São dois corações apaixonados que não se deixam. No dia em que sahirem desabará o tumulo de pedra.

E Deus, no fim das eras, quando tudo fôr destruição e silencio, encontrará, como um padrão de amor, o tumulo alto que vou mandar construir, tão alto como as pyramides, para que avulte na poeira morta das ruinas universaes .

Illuminuras

Romanceiro

Sinopse

Leia gratuitamente Romanceiro, de Coelho Neto, obra brasileira em domínio público publicada em 1906, com poemas narrativos e páginas líricas organizadas para leitura online por capítulos no Literunico. Esta edição digital foi preparada a partir do exemplar público preservado no Wikimedia Commons/HathiTrust, com capa nova no padrão Literunico, reforçando busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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