Universo da obra
Universo da obra
-Foi sempre assim, desde pequena. Ninguem, jámais, a vio chorar.
Mocinha, quanta vez a mãi a reprehendia dizendo que não lhe ficava bem aquelle rir constante, mas que se havia de fazer se, mesmo dormindo, o sorriso não lhe deixava o rosto, como se fosse uma parte d'elle.
Ha moças pallidas, outras ha coradasella é risonha.
Ria de tudo, por tudo.
No dia do casamento, quando foi para dizer o « sim » , não imagina o trabalho que nos deu. Depois é um riso alegre, communicativo, um riso que nos entra pelo coração como a propria alegria de sorte que, na egreja, toda a gente se poz a rir, o mesmo padre, um bom velho, teve de disfarçar, baixando o rosto para que o não vissem rindo, alli deante do altar, em acto tão respeitoso .
Visões e sonhos Quando the nasceu o filho todos disseram : « Agora sim, agora com os cuidados e os trabalhos, queremos ver se continúa a rir ... » Pois, meu senhor, ao primeiro vagido do pequeno ella respondeu com uma gargalhada e, rindo, o aconchegou ao collo e, abraçada com elle, adormeceu sorrindo.
Se o pequenito dormia, lá estava ella debruçada ao berço e era preciso affastala para que não acordasse a creança, tanto ria.
Ria se elle chorava ; quando lhe dava o peitoficava-se a rir de vel-o mamar sugando a goles largos.
Quando descobrio o primeiro dente ... que alegria ! a casa vibrou com as suas gargalhadas ; e, rindo, ella o foi guiando nos primeiros passos, rindo ensinou-lhe as primeiras palavras e rindo, coitadinha ... !
E a velha avó limpou vagarosamente as lagrimas e continuou :
Durante a molestia, nas longas noites de vigilia, sem tirar-se um minuto de junto do berço, sorria contemplando o doentinho que a febre ia consumindo e, quando elle expirou, noite alta, nós acordamos sobresaltados com uma gargalhada. Corremos ao quarto e achamola a rir, com o filho morto nos braços, a rir, que fazia pena. E assistio a tudo quieta, múda, com o olhar parado como o de uma defuntasó o sorriso dizia que ella estava viva.
Vestiram o pequenito, cobriram-no de flores, levaram-no - e ella sorria. Agora o medico entende que é Visões e sonhos preciso fazel-a chorar ... por que? se ella foi sempre assim.
Passos interromperam as palavras da velha. Volteime e vi apparecer a formosa e desventurada creatura -foi a primeira vez que a vi. Vinha entre senhoras que choravam. Ella ... ella sorria.
Era alta, loura e branca. Os longos cabellos soltos vestiam-na d'ouro, os olhos enormes, d'um azul de ceu, pareciam cheios de sol. Seguiam-na, á distancia, o esposo e o medico.
De repente, relanceando em torno o olhar que ardia, estremeceu, estendeu os braços, agitaram-se-lhe os labios lividos e seccos e desatou a rir, a rir descahindo, como morta, nos braços das meigas senhoras.
A velha avó, tremendo e em pranto, disse-me baixinho : « Vê !? » E o esposo suspirou desanimado : «E não chora ! »
Quando o medico a declarou perdida as senhoras accenderam velas no oratorio e rezaram para que Deus mandasse lagrimas á misera como se fazem preces, nos campos, para que venham chuvas.
Foi tudo baldado ! o mesmo Deus poderoso não poude extinguir aquelle riso e a pobresinha, desde então, magra e envelhecida, atrôa a casa com as gargalhadas, principalmente quando, por discuido dos que a guardam, os seus grandes olhos seccos descobrem uma creança.
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