Universo da obra
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ΝΑ ΜΟΝΤΑΝHA Ligeiramente o pastor galgava os caminhos asperos.
Nos valles, ao luar brumoso, scintillava a nevada.
Subito, rompendo o silencio da noite, vozes entoaram um canto magnifico.
O pastor, já tão perto da fonte que ouvia o murmurio d'agua, deteve os passos, volveu os olhos em torno por moutas e arvores procurando os cantores quando se lhe fecharam os olhos offuscados por fulgurante claridade. Descançou a bilha sobre uma pedra, esfregou os olhos e, reabrindo-os, vio, com assombro, o espaço cheio de anjos.
Eram de nevoa e de luz, mais claras e mais largas do que a estrada syderal, as azas que distendiam.
Cantavam dizendo que nascera o Senhor, Redemptor dos homens, o Deus de misericordia annunciado pelas prophecias.
Illuminuras Fundio-se a neve rutila, lyrios brotaram trescalando, o murmurio d'agua fez-se musica, passaros chilrearam entre os ramós subitamente revestidos de folhas, balaram, com alegria, os anhos nos apriscos e, das cabanas caladas, dispersas na montanha, irromperam festivamente os rusticos tonilhos. <<Acaba de nascer o Redemptor dos homens» .
Ouvindo o pregão dos anjos o pastor, commovido, ajoelhou-se á beira d'agua, encheu a bilha e partio, montanha acima, caminho da caverna, contendo os estúos do coração sobresaltado, porque deixára a companheira prestes a dar á luz. O cão rosnou vendo-lhe a sombra, mas, reconhecendo-o, festejou-o . <<Acaba de nascer o Redemptor dos homens ... !>>> Cantavam sempre nos espaços as vozes mysteriosas, mas apezar de serem de anjos não iam tão direitas ao coração do pastor como foi um vagído que sahio da caverna. Dobraram-se-lhe os joelhos e a bilha esteve a ponto de rolar na terra, encharcando-lhe as vestes porque mais de metade d'agua derramou-se.
D'olhos immensos, pallido, tremente, atravessou o limiar da caverna e lá estava a pastora, á luz d'uma fogueira, com o pequenino filho que nascera aconchegado ao collo. <<Acaba de nascer o Redemptor dos homens ... »
Cantavam sempre no espaço as vozes mysteriosas.
O rustico fitou o infante extasiado e, inclinando-se, murmurou com lagrimas :
Illuminuras -Ouve o que os anjos cantam -e estendeu o braço para a entrada. E a mulher acenou como a dizer que ouvia.- É Deus ! disse o pastor. Ella elevou os olhos enternecidos e, dos olhos de ambos, copiosas lagrimas rolaram. -É Deus ! balbuciaram os dois.
Repentinamente, porém, outra voz apregoou : <<Acaba de nascer o Messias que ha de morrer na cruz para remir os homens ... »
Estremeceram os dois e a pastora, rompendo em pranto, tomou nos braços o pequenito e, apertando-o ao collo, poz-se a soluçar dizendo : -Meu filho ! Meu Deus! Pois hei de eu, com meus olhos, ver-te soffrer supplicio tão cruel ?! Ah ! meu bem amado filho. Que fiz eu para ter destino tal ? Que virtude tamanha é a minha para que assim merecesse tão altissima graça e que grande falta commetti para tamanha pena ?!
O pastor, para que ella não lhe visse as lagrimas, foi chorar á entrada da caverna e chorava quando um cabreiro que passava disse : -Acaba de nascer o Redemptor dos homens. -Que ha de morrer em uma cruz, disse o pastor baixinho.
Que fazes que o não vens ver ? A gruta está cheia d'anjos e não é longe d'aqui, é alli na estrada.
Relampejaram de alegria os olhos do pastor.
Não é aqui no monte então ? -É alli na estrada. Pódes vel-a d'aqui illumiIlluminuras nada porque está cheia d'anjos luminosos. E o cabreiro, levando o pastor á rampa do rochedo, mostrouThe a caverna que resplandecia ao longe : - Vês ? foi alli que nasceu o Redemptor dos homens .
Não quiz mais ver nem ouvir o pastor montesino e deixando o cabreiro, tornou, a correr, pelos caminhos asperos e, desde o limiar da caverna, foi bradando : -Não é Deus ! Não é Deus ! Não morrerá na cruz o nosso amado filho. Deus nasceu na caverna da estrada que está cheia d'anjos.
A pastora soergueu-se commovida e, vendo a alegria do esposo, sorrio e limpando as lagrimas poude apenas dizer alliviada : -Não é Deus ... Antes assim .
E o pastor, num vivo contentamento, ajoelhado, adorando o filho, não se cançava de repetir :
- Não é Deus ! Não é Deus ! não morrerá na cruz o meu amado filho. E longe as vozes repetiam o pregão : «Acaba de nascer o Redemptor dos homens ... »
- Pobre pai ! disse o pastor. -Pobre mãe ! disse a pastora.
Livro das illusões
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