Introdução
Ao apresentar ao público estas histórias baseadas no folclore dos povos da Costa do Ouro, parece necessário dizer algo, em termos gerais, sobre o desenvolvimento econômico e social da colônia, na medida em que esse desenvolvimento vem afetando o “saber” do povo.
Só quando a civilização e o industrialismo da Europa começaram a penetrar nos distritos da Costa da Guiné é que se fez alguma tentativa mais ampla de estudar o folclore desses povos. É evidente, portanto, que o estudioso encontrará considerável mistura proveniente de fontes externas, que a ausência de um sistema nativo de escrita e, por consequência, de literatura torna extremamente difícil de detectar. As dificuldades aumentam com o tempo, pois estamos nos afastando cada vez mais do folclore genuíno. A cada ano, de cidades como Accra, Seccondee e Cape Coast, os tentáculos da civilização europeia se estendem lentamente em todas as direções. Ferrovias e estradas avançam, a rudeza antiquada vai cedendo lugar a métodos mais simples e mais rápidos; novas indústrias, como as da borracha e do cacau, vão se estabelecendo.¹ Tudo isso deve ser levado em conta ao estudar o folclore tal como é contado hoje pelo nativo. O que está acontecendo, infelizmente, não é um despertar, mas uma transformação. O negro está trocando seu pano nativo por um traje europeu.
“De todos os lados se informa que a procura por provisões, luxos e vestimentas europeias é grande e aumenta muito. As volumosas importações de alimentos enlatados, farinha etc. devem-se em parte à escassez de gêneros alimentícios nativos em certos distritos, mas não há dúvida de que o padrão de vida está mudando e se elevando.
“Há um desejo geral, não apenas na colônia, mas em Ashanti, por estradas melhores, casas melhores, aldeias mais limpas, e esse desejo foi estimulado pelo exemplo das grandes melhorias sanitárias nas cidades maiores.…
“Pode-se observar que o povo sente crescente orgulho das instituições e tradições de seu país, que os chefes estão percebendo os deveres e a influência de sua posição, e que a opinião pública, ao menos entre as classes instruídas, começa a reconhecer que agora se deve exigir algum avanço em relação aos ideais e padrões do passado.”²
Isso, do ponto de vista utilitário e imperial, é como deve ser; mas tende a ser fatal para a mitologia, os costumes e as tradições de povos como os negros da África Ocidental. Pois essa mudança não ocorre apenas na direção do mero materialismo. O cristianismo, entrando no país pelos portos, e o maometismo, levado pelos haussás ao longo das rotas comerciais vindas do interior, desempenham seu papel nessas mudanças psicológicas e sociológicas. O negro de ontem difere do negro de hoje, assim como este, por sua vez, diferirá do negro de amanhã. Em vista de toda essa metamorfose, é muito de lamentar que as dificuldades geográficas e linguísticas tenham tornado a tarefa do folclorista não apenas difícil, mas quase impossível. Muito, naturalmente, poderia ser feito se aqueles cujos deveres os levam aos vários distritos tomassem a tarefa em mãos. A colação de seus resultados talvez permitisse erradicar influências externas e recentes e, em certa medida, chegar “ao fundo da mente do homem negro”.
O material deste livro foi coletado da seguinte maneira: a nova política educacional do Governo previa uma Instituição de Formação de Professores em Accra. Os primeiros estudantes admitidos eram homens que já tinham tido considerável experiência nas escolas de seus distritos. Portanto, estavam suficientemente familiarizados com a língua inglesa para se expressarem de modo claro e fluente. Ao mesmo tempo, eram homens capazes de lembrar a época em que as novas forças civilizadoras atualmente em ação não eram nem de longe tão pronunciadas. Obtendo desses estudantes uma variedade de versões da mesma história, tornou-se possível, até certo ponto, erradicar o supérfluo e o espúrio.
A seleção dos contos foi feita com cuidado, e, ao recontar e ilustrar a história, o objetivo foi oferecer ao leitor uma introdução ao pensamento e aos costumes do negro da África Ocidental.
Para produzir a “atmosfera” correta da história, imagine-se uma cena ao entardecer numa aldeia nativa. O sol se aproxima do horizonte ocidental, parecendo cair como uma imensa bola por trás das colinas distantes; o ar está fresco, e reina uma solenidade silenciosa. Até os rapazes e moças barulhentos estão quietos, e ainda não chegou a hora dos tantãs, dos grilos, das rãs-boi e dos variados instrumentos do homem e da Natureza destinados à produção dos sons mais estranhos e desarmônicos. No compound — o pátio em torno do qual ficam as moradias da família — as mulheres, com seus picin, isto é, crianças, às costas, ocupam-se com o pilão e o socador, preparando foo-foo, alimento nativo feito de milho. Agachados junto às paredes de barro, nus da cintura para cima, com o pano servindo apenas de cobertura para os lombos, estão vários homens fumando cachimbos curtos de barro e cuspindo da maneira mais insalubre — um perfeito quadro de ociosidade. Crianças nuas permanecem de boca aberta, escutando a conversa dos mais velhos, ou se divertem com esconde-esconde, bolas de gude ou algum outro jogo nativo.
O breve crepúsculo dos trópicos põe fim a todas as ocupações, exceto à conversa, e a conversa parece não ter fim. Aqui e ali, alguém se deita, cobre-se inteiramente com seu pano e se perde para o mundo.
Trazem uma lanterna para fora, e, inconsciente e imperceptivelmente, ela se torna o centro de formas escuras, aliviadas de quando em quando por fileiras de belos dentes brancos, quando seus donos se entregam a uma gargalhada franca. Às vezes a conversa se arrasta; alguém cantarola uma melodia monótona, outros fumam em silenciosa contemplação, enquanto outros ainda seguem o exemplo dos montículos humanos escuros espalhados pelo compound.
De repente:
— Companheiros, escutem uma história.
No mesmo instante, homens, mulheres e crianças se apertam em torno do narrador, uma multidão ansiosa, pronta para ouvir ou contar os contos de seu povo.
— Está bem, que venha.
Assim começa mais uma noite em que o nativo reconta ao vizinho, pela centésima vez, as histórias transmitidas pela tradição desde o indistinto “tempo de antes”. O nativo é um narrador nato, e suas histórias não são produto de sua imaginação, mas folclore, talvez modificado e ornamentado para se ajustar a determinada plateia ou circunstância particular. Algumas dessas modificações, que assumiram uma forma mais ou menos permanente, são comentadas abaixo.
Em toda a Colônia da Costa do Ouro e no sul de Ashanti, as histórias contadas pelas várias tribos são essencialmente as mesmas. É possível que uma investigação mais ampla e detalhada no domínio do folclore ajude a resolver um problema étnico muito importante, a saber: se as tribos da costa pertencem ou não ao mesmo tronco que as do interior. Atualmente, aceita-se de modo geral que “esses povos da Costa Ocidental eram, em sua maior parte, fragmentos dispersos de raças que foram empurradas para o mar pelas raças mais fortes do interior”.³ Se assim fosse, seria de esperar que se encontrassem diferenças entre o folclore das raças mais fortes e o das mais fracas, semelhantes às existentes entre o folclore dos celtas e o dos anglo-saxões. Na realidade, não parece ser esse o caso, embora, no momento, os dados não sejam suficientes para permitir a formação de uma opinião definida.
O trecho seguinte vem de uma obra recente sobre a Costa do Ouro e apresenta uma visão ligeiramente diferente daquela da citação acima: “A soma geral dessas tradições [referentes à origem das tribos] é que os fantis, ashantis, wassaws e, de fato, todos os povos de língua twi-[tshi], ou akan, eram originalmente uma única tribo. Eram uma raça pastoril e habitavam a região aberta além da faixa de floresta, mais ao norte que Salaga. Um povo setentrional e de pele mais clara, que comumente se supõe ter sido o dos fulanis, começou a avançar sobre seu território e, sendo mais forte que eles, tomou seu gado e suas jovens mulheres e fez muitos dos demais escravos.… A subdivisão da raça akan unida em seus ramos principais, os fantis e os ashantis, é explicada de maneiras variadas.… Uma história explica de modo muito plausível que as constantes incursões de seu inimigo do norte, que queimava todas as plantações, reduziram os akans a grandes apertos por falta de alimento. Alguns deles subsistiram com uma planta silvestre chamada fan e outros com uma planta chamada shan, e assim receberam os nomes Fan-dti e Shan-dti, isto é, dti, comer.”⁴ Uma explicação alternativa possível é que o mesmo tronco ocupe a costa e o interior, e que a diferenciação tenha surgido como resultado da malária afetando aquela parte da raça que habitava a região dos pântanos de lagoa ao longo da planície costeira. Já se estabeleceu com razoável segurança que a malária pode ter, e de fato tem, efeito deletério sobre as raças, e que, mesmo no caso da Grécia e de Roma, o fator malárico deve ser levado em conta ao discutir as causas que provocaram sua queda.⁵ Talvez os brejos ao redor de Salônica e os pântanos da Campagna tenham seu equivalente na longa linha de pântanos de lagoa situada entre a muralha de arrebentação e a muralha de floresta da “Costa”. Só a ciência médica, talvez, poderá resolver o problema, mas o folclore pode prestar, e presta, valioso auxílio em direção a uma solução. Um povo conquistado não abandona seu “saber” junto com a terra, mas leva seus costumes e tradições consigo para seus novos lares.
Há uma história que tem interesse especial nesse sentido porque, depois de ser levada pelos negros da África para os Estados do Sul nos tempos da escravidão, tornou-se a base de uma narrativa que serviu para divertir as crianças e os adultos de todos os povos de língua inglesa: The Wonderful Adventures of Old Brer Rabbit. É interessante comparar a narrativa do boneco de piche com a maneira pela qual Anansi foi capturado na História X.
Pelo material escasso que temos atualmente, pareceria que os folclores dos povos da costa e do interior são substancialmente os mesmos, sendo as diferenças atribuíveis, em muitos casos, à influência do novo ambiente. Assim, na história em que Anansi procura esconder a sabedoria do mundo, que ele recolhera num pote, entre os povos da costa ele encontra dificuldade em subir na palmeira; entre as tribos da floresta, porém, sua dificuldade é passar por cima do tronco de uma árvore caída atravessando o caminho do mato. Aqui a diferença se deve ao ambiente, e não à raça.
É necessário assinalar que a semelhança de histórias, por si só, não pode ser tomada como indicação de semelhança de raça. De fato, é tão comum encontrar a mesma história contada por povos de tipos variados e em todos os estágios de progresso que isso abriu um problema de grande importância. Teriam tais histórias se originado de uma fonte comum? E, se assim for, onde se poderia encontrar a origem comum? Ou os contos populares são como as produções materiais das raças, isto é, seguem uma linha de desenvolvimento mais ou menos comum?⁶ Que conexão pode haver, por exemplo, entre o negro da Costa do Ouro e o sérvio? E, no entanto, eles têm uma história notavelmente semelhante. Na história de Ohia, foi-lhe concedido o poder de compreender a língua dos animais, sob a condição de que não revelasse o segredo a nenhum ser humano, sob pena de morte. Esse conhecimento muitas vezes lhe dava motivo para rir, e em tais ocasiões sua esposa, ignorando a causa, ficava zangada e desconfiada. Ela exigia saber o motivo de tais explosões, e por fim sua insistência resultou na revelação do segredo e na consequente morte do homem. Na história sérvia,⁷ o desfecho é um tanto diferente, com a comédia tomando o lugar da tragédia. O homem, quando está prestes a entregar a vida para satisfazer a curiosidade da esposa, escuta o galo, que declara conseguir manter suas cem esposas em ordem dando-lhes uma boa bicada quando precisam. O homem, em consequência, abandona o caixão e faz a esposa recobrar o juízo — e cair de joelhos — por meio de um castigo bem aplicado. Como esses dois povos vieram a ter uma história com tantos aspectos em comum? Será possível que o turco e o mouro tenham fornecido os elos?
Talvez não seja fora de propósito mencionar aqui o efeito do contato dos europeus traficantes de escravos sobre o folclore dos negros da Costa. Os sombrios castelos brancos, erguidos a cada poucas milhas ao longo de toda a Costa da Guiné, permanecem como severos lembretes do tempo em que as indefesas tribos costeiras eram atacadas e homens, mulheres e crianças eram vendidos como escravos. Mas quem conversou com o nativo de hoje não pode duvidar de que o maior efeito daqueles dias terríveis é discernível na própria mentalidade nativa. Como se poderia esperar, isso influenciou mais ou menos o conto popular. Eis aqui, por exemplo, um tipo de influência:
“Quando os portugueses desembarcaram pela primeira vez, os nativos fugiram para a floresta. Quando o homem branco partiu de novo, os nativos se arrastaram cautelosamente de volta à praia. Para sua grande surpresa, encontraram ali uma bacia cheia de rum. Um deles, de nome Mbura, provou um pouco e, achando-o doce, bebeu tanto quanto pôde e ficou embriagado. Outros fizeram o mesmo, e, quando muitos deles estavam indefesos, os barqueiros voltaram e os levaram embora. Por ter o rum sido provado por Mbura, chamamos rum em fânti de Mbura-nsa — isto é, vinho de Mbura.”⁸
Ainda mais notável é a origem do deus Nyankupon, que figura amplamente tanto na mitologia quanto no folclore. Muitas histórias introduzem Nyankupon, e, no entanto, ele não é de modo algum um deus nativo.
“Depois de alguns anos de convivência com os europeus, os habitantes de língua tshi das cidades e aldeias nas proximidades dos vários fortes acrescentaram a seu sistema de politeísmo uma nova divindade, a quem chamaram Nana-Nyankupon — às vezes simplesmente Nyankupon. Era o deus dos cristãos, tomado deles e adotado sob uma nova designação. A grande superioridade manifestada pelos brancos em suas armas, navios, manufaturas — em suma, em tudo — convenceu os nativos com quem tinham contato de que eles necessariamente deviam ser protegidos por uma divindade de poder maior que qualquer uma daquelas a que eles próprios ofereciam sacrifício, visto que suas próprias divindades não os haviam ajudado, exceto de modo muito remoto, a alcançar semelhante prosperidade. Assim, eles se alistaram de bom grado entre os seguidores do deus dos brancos e, sendo informados de que ele morava nos céus, deram-lhe o nome de Nana-Nyankupon, que pode ser livremente traduzido por ‘Senhor do Céu’.”⁹
Os contos populares da Costa do Ouro dividem-se facilmente em dois grupos: contos de Anansi e contos sem Anansi. Anánsi é a aranha, e a ele geralmente se associa seu filho, Kweku Tsin, ou Tsĩ. Por que tantas histórias de aranha? Ainda não se pode dar uma explicação satisfatória. Não pode ser inteiramente devido à superabundância de aranhas nas moradias nativas e em seus arredores, pois outras tribos ao longo da Costa parecem concentrar-se em outras criaturas, como o elefante e a tartaruga. Também não parece haver evidência suficiente para remontar a origem ao totemismo. Sem dúvida, muitas das histórias de Anansi contadas hoje se devem à observação dos modos e das características peculiares da aranha, e são uma tentativa de explicar o porquê e a razão das coisas. E, de modo geral, decide-se que ele é uma criatura sábia, astuta e enganadora, que sai correndo para se esconder no teto porque fez algo de que deveria se envergonhar e, infelizmente, foi descoberto. Eis dois comentários de contos populares sobre Anansi:
“A sabedoria da aranha é maior que a de todo o mundo reunido.”
“Ai daquele que pusesse sua confiança em Anansi — pessoa matreira, egoísta e gananciosa.”
Os contos sem Anansi são geralmente do tipo “era assim que…”: por que as orelhas do veado são longas, por que a cintura da vespa é fina etc. Não há nada no vasto reino da botânica, da astronomia ou da geografia que tenha caráter peculiar ou marcante sem que apareça uma explicação no saber do povo. Há, naturalmente, a costumeira pitada de contos mágicos, que apresentam notável semelhança com muitos märchen europeus, ou contos de fadas.
Por fim, é preciso apresentar um pedido de desculpas ao folclorista científico. As histórias foram recontadas a fim de agradar a um público mais amplo, mas espera-se que, em breve, o material original completo possa estar disponível ao estudioso do folclore.
W. H. B.