XIX. Ohia e o veado ladrão
Certa vez viveu sobre a terra um pobre homem chamado Ohia, cuja esposa se chamava Awirehu. Esse casal desafortunado sofrera uma desgraça depois da outra. Não importava o que tentassem fazer, a má sorte parecia ficar à espreita deles. Nada do que faziam tinha sucesso. Tornaram-se tão pobres que, por fim, mal conseguiam obter um pano com que se cobrir.
Finalmente, Ohia pensou em um plano que muitos de seus vizinhos haviam tentado e achado bem-sucedido. Foi até um fazendeiro rico que morava por perto e ofereceu-se para derrubar várias de suas palmeiras. Depois recolheria a seiva delas para fazer vinho de palma. Quando este estivesse pronto para o mercado, sua esposa o levaria para lá e o venderia. O lucro seria então dividido igualmente entre o fazendeiro, Ohia e Awirehu.
Apresentada essa proposta ao fazendeiro, ele se mostrou bastante disposto a aceitá-la. Não só isso, [ 106 ] como ainda concedeu a Ohia uma provisão de potes de barro nos quais recolher a seiva, pois o miserável era pobre demais para comprar algum.
Com grande alegria, Ohia e sua esposa puseram-se a trabalhar. Derrubaram as árvores e as prepararam, colocando os potes embaixo para apanhar a seiva. Antes do canto do galo no dia de mercado, Ohia saiu, com uma tocha acesa, para recolher o vinho e prepará-lo para que sua esposa o levasse à cidade. Ela já estava quase pronta para segui-lo.
Para sua grande aflição, ao chegar à primeira árvore, em vez de encontrar seu pote de barro cheio da seiva doce, viu-o caído em pedaços no chão — e o vinho todo desaparecido. Foi até a segunda e a terceira árvores — mas ali, e em todas as outras também, a mesma coisa havia acontecido.
Sua esposa, animada e pronta para o mercado, juntou-se a ele nesse momento. Viu logo, pelo rosto dele, que alguma desgraça lhes acontecera outra vez. Tristemente, examinaram o estrago e concordaram que alguma pessoa malvada roubara o vinho e depois quebrara os potes para esconder o furto. Awirehu voltou para casa em desespero, mas Ohia pôs-se novamente ao trabalho. Foi buscar uma segunda provisão de potes e os deixou todos prontos para recolher a seiva.
[ 107 ]
Ao retornar na manhã seguinte, descobriu que a mesma conduta se repetira. Todo o seu vinho fora roubado outra vez, e seus potes estavam em cacos. Não teve outro recurso senão ir até o fazendeiro e contar-lhe essas novas desgraças. O fazendeiro revelou-se muito bondoso e generoso, e deu ordens para que Ohia recebesse tantos potes quantos viesse a necessitar.
Mais uma vez, o pobre homem voltou às palmeiras e preparou seus potes. Essa terceira tentativa, porém, não teve resultado melhor que as duas anteriores. Ohia voltou para casa em desespero. Sua esposa era da opinião de que deviam desistir de tentar vencer a má sorte. Era bem evidente que jamais conseguiriam alcançar o sucesso. O marido, contudo, decidiu que, ao menos, encontraria e puniria o culpado, se isso fosse possível.
Assim, corajosamente, colocou seus potes em ordem pela última vez. Quando a noite chegou, ficou de guarda entre as árvores. A meia-noite passou e nada aconteceu, mas por volta das duas horas da manhã uma forma escura deslizou diante dele em direção à palmeira mais próxima. Um momento depois, ele ouviu o som de um pote se quebrando. Aproximou-se furtivamente da forma. Ao chegar perto, descobriu que o ladrão era um veado do mato, que carregava na cabeça uma [ 108 ] grande jarra, na qual despejava o vinho dos potes de Ohia. À medida que os esvaziava, atirava-os descuidadamente ao chão, quebrando-os em pedaços.
Ohia ousou chegar um pouco mais perto, com a intenção de agarrar o culpado. Este, porém, foi rápido demais para ele e escapou, deixando cair seu grande pote no chão enquanto corria. O veado era muito veloz, mas Ohia estava plenamente decidido a apanhá-lo — e assim o seguiu. A perseguição continuou por muitas milhas até que chegou o meio-dia, hora em que haviam alcançado o pé de uma colina alta. O veado começou imediatamente a subir, e Ohia — embora quase esgotado — ainda o seguiu. Por fim, chegaram ao cume da colina, e ali Ohia se viu no meio de uma grande reunião de quadrúpedes. O veado, ofegante, lançou-se ao chão diante do rei Tigre. 1 Sua Majestade ordenou que Ohia fosse levado à sua presença para ser punido por aquela intromissão em uma reunião tão séria.
Ohia suplicou que o ouvissem antes de condená-lo. Queria explicar por completo sua presença ali. O rei Tigre, depois de consultar alguns dos outros animais, concordou em ouvir sua história. Então [ 109 ] Ohia começou a narrativa de sua vida infeliz. Contou como uma tentativa após outra havia fracassado, e como, por fim, tivera a ideia do vinho de palma. Descreveu seus sentimentos ao descobrir o primeiro roubo — depois de todo o seu trabalho. Relatou sua segunda, terceira e quarta tentativas, com o resultado de cada uma. Em seguida, passou a contar sua perseguição ao ladrão, e assim explicou sua presença na conferência deles.
Os quadrúpedes ouviram com muita atenção o relato dos sofrimentos de Ohia. Ao final, concordaram unanimemente que o veado era o culpado e o homem, inocente. O primeiro foi, portanto, condenado ao castigo, enquanto o segundo recebeu um pedido de desculpas em nome de toda a conferência. O rei Tigre, ao que parecia, entregara todas as manhãs ao Veado uma grande soma de dinheiro para que comprasse vinho de palma para toda a assembleia. O veado roubara o vinho e ficara com o dinheiro.
Para compensar Ohia por suas perdas, o rei Tigre ofereceu-lhe, como presente, o poder de compreender a conversa de todos os animais. Isso, disse ele, logo faria de Ohia um homem rico. Mas impôs uma condição ao presente. Ohia jamais deveria — sob pena de morte instantânea — contar a alguém sobre seu maravilhoso poder.
[ 110 ]
O pobre homem, muito encantado, partiu para casa. Ao chegar, não perdeu tempo e voltou ao trabalho com suas palmeiras. A partir daquele dia, seus problemas pareceram acabar. Seu vinho nunca mais foi tocado, e ele e Awirehu tornaram-se cada vez mais prósperos e felizes.
Certa manhã, enquanto se banhava em uma poça bem perto de sua casa, ouviu uma galinha e seus pintinhos conversando em seu jardim. Escutou, e ouviu distintamente um pintinho contar à mãe galinha sobre três jarras de ouro enterradas no jardim de Ohia. A galinha recomendou ao pintinho que tomasse cuidado, para que seu senhor não a visse ciscando perto do ouro e assim o descobrisse.
Ohia fingiu não prestar atenção ao que diziam e foi embora. Pouco depois, quando a mãe galinha e sua ninhada partiram, ele voltou e começou a cavar naquela parte do jardim. Para sua grande alegria, logo encontrou três grandes jarras de ouro. Elas continham dinheiro suficiente para mantê-lo em conforto por toda a vida. Teve cuidado, porém, de não mencionar seu tesouro a ninguém além de sua esposa. Escondeu-o em segurança dentro de casa.
Logo ele e Awirehu se tornaram um dos [ 111 ] casais mais ricos da vizinhança, e possuíam uma quantidade bastante grande de bens. Ohia pensou que agora podia se dar ao luxo de manter uma segunda esposa, e assim casou-se novamente. Infelizmente, a nova esposa não se parecia em nada com Awirehu. Esta sempre fora uma mulher boa, bondosa e honesta. A nova esposa tinha uma natureza muito ciumenta e egoísta. Além disso, era manca, e imaginava continuamente que as pessoas zombavam de seu defeito. Meteu na cabeça a ideia de que Ohia e Awirehu — quando estavam juntos — tinham o costume de rir dela. Nada estava mais longe dos pensamentos dos dois, mas ela se recusava a acreditar nisso. Sempre que os via juntos, ficava parada do lado de fora da porta, escutando para ouvir o que diziam. É claro que nunca conseguia ouvir nada sobre si mesma.
Por fim, certa noite, Ohia e Awirehu haviam ido se deitar. Esta dormia profundamente quando Ohia ouviu uma conversa que o divertiu muito. Dois camundongos, em um canto do quarto, combinavam ir à despensa buscar um pouco de comida assim que seu senhor — que os vigiava — estivesse dormindo. Ohia, achando aquilo uma boa piada, riu em voz alta. [ 112 ] Sua esposa manca o ouviu e correu para dentro do quarto. Acusou-o então de estar novamente zombando dela com Awirehu. O marido, espantado, naturalmente negou isso, mas sem resultado. A mulher ciumenta insistiu que, se ele estava rindo de uma piada inocente, deveria contá-la a ela imediatamente. Isso Ohia não podia fazer sem quebrar sua promessa ao rei Tigre. Sua recusa confirmou plenamente as suspeitas da mulher manca, e ela não descansou até levar toda a questão ao chefe. Este, sendo amigo íntimo de Ohia, tentou convencê-lo a revelar a piada e pôr fim ao assunto. Naturalmente, Ohia estava muito pouco disposto a fazer algo desse tipo. A mulher persistente não deu paz ao chefe até que ele convocou seu marido para responder à acusação dela diante da assembleia.
Sem encontrar nenhuma forma de escapar da dificuldade, Ohia preparou-se para a morte. Primeiro chamou todos os seus amigos e parentes para um grande banquete e despediu-se deles. Depois colocou seus assuntos em ordem — legou todo o seu ouro à fiel Awirehu, e seus bens a seu filho e a seus criados. Quando terminou, foi ao Lugar da Assembleia, onde o povo da vizinhança estava reunido.
[ 113 ]
Primeiro despediu-se do chefe, e então começou sua história. Relatou a história de suas muitas desgraças — de sua aventura com o veado e de sua promessa ao rei Tigre. Por fim, explicou a causa do riso que aborrecera sua esposa. Ao dizer essas palavras, caiu morto, como o Tigre o havia advertido.
Foi enterrado em meio a grande luto, pois todos gostavam dele e o respeitavam. A mulher ciumenta que causara a morte do marido foi capturada e queimada como feiticeira. Suas cinzas foram então espalhadas aos quatro ventos do céu, e é por causa desse fato infeliz que o ciúme e o egoísmo estão tão espalhados pelo mundo, onde antes quase não existiam.
[ 115 ]