PRIMEIRA PARTE — Capítulo VI Germinal · Capítulo 6 de 40
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PRIMEIRA PARTE — Capítulo VI

PRIMEIRA PARTE

Capítulo VI

Na gaiola que o levava de volta à superfície, comprimido junto de outros quatro homens, Étienne resolveu retomar sua caminhada faminta pelas estradas. Era melhor morrer logo do que tornar a descer ao fundo daquele inferno, sem conseguir sequer ganhar o pão. Catherine, enfornada acima dele, já não estava encostada ao seu flanco, aquecendo-o com um calor agradável e entorpecedor. E ele preferia não pensar em bobagens, queria ir embora; pois, com a instrução mais ampla que possuía, não sentia a resignação daquele rebanho e acabaria estrangulando algum chefe.

De repente, ficou cego. A subida fora tão rápida que o grande dia o deixou atordoado, com as pálpebras batendo diante daquela claridade à qual já se desacostumara. Mesmo assim, sentiu alívio quando a gaiola tornou a pousar sobre as travas. Um operador abriu a porta, e a onda de trabalhadores saltou das vagonetas.

— Diga, Mouquet — murmurou Zacharie ao ouvido do operador —, vamos ao Volcan esta noite?

O Volcan era um café-concerto de Montsou. Mouquet piscou o olho esquerdo, com um riso silencioso que lhe abria as mandíbulas. Baixo e gordo como o pai, tinha o nariz insolente de um sujeito que devorava tudo sem a menor preocupação com o dia seguinte. Justamente, a Mouquette saía por sua vez, e ele lhe deu uma palmada formidável nos rins, como demonstração de carinho fraternal.

Étienne mal reconhecia a nave elevada da recepção, que vira tão inquietante sob as luzes suspeitas das lanternas. Era apenas nua e suja. Uma claridade terrosa entrava pelas janelas empoeiradas. Somente a máquina reluzia ao longe, com seus cobres; os cabos de aço, cobertos de graxa, corriam como fitas mergulhadas em tinta; e as polias no alto, a estrutura enorme que as sustentava, as gaiolas, as vagonetas, todo aquele metal espalhado em abundância escurecia a sala com o cinza duro das ferragens velhas. Sem descanso, o ribombar das rodas fazia tremer as placas de ferro fundido; enquanto, do carvão transportado de um lado para outro, subia uma poeira fina que cobria de negro o chão, as paredes e até as vigas do castelo do poço.

Mas Chaval, depois de lançar um olhar ao quadro das fichas no pequeno escritório envidraçado do recebedor, voltou furioso. Verificara que duas vagonetas haviam sido recusadas, uma por não conter a quantidade regulamentar, a outra porque o carvão estava sujo.

— O dia está completo! — gritou. — Mais vinte soldos a menos!... Também, para que contratar preguiçosos que usam os braços como um porco usa o rabo?

Seu olhar oblíquo, dirigido a Étienne, completava o pensamento. Este teve vontade de responder com os punhos. Depois perguntou a si mesmo para quê, já que ia embora. Aquilo terminou de decidir-lhe.

— Ninguém consegue fazer bem no primeiro dia — disse Maheu, tentando apaziguá-los. — Amanhã ele fará melhor.

Ainda assim, todos continuavam irritados, agitados por uma necessidade de briga. Quando passaram pela lampisteria para devolver as lâmpadas, Levaque se agarrou com o lampista, acusando-o de ter limpado mal a sua. Só relaxaram um pouco no barracão, onde o fogo continuava ardendo. Devia até ter sido alimentado em excesso, pois o fogão estava rubro, e a vasta sala sem janelas parecia em chamas, de tal maneira os reflexos do braseiro ensanguentavam as paredes. Ouviram-se grunhidos de satisfação, todos assavam as costas à distância, fumegando como sopas. Quando os rins queimavam, passavam a cozinhar a barriga. A Mouquette, tranquilamente, baixara a calça para secar a camisa. Os rapazes faziam brincadeiras, e todos explodiram em riso quando ela de repente lhes mostrou o traseiro, sua expressão máxima de desprezo.

— Vou embora — disse Chaval, depois de guardar as ferramentas no armário.

Ninguém se mexeu. Apenas a Mouquette se apressou e escapou atrás dele, sob o pretexto de que ambos voltavam para Montsou. Mas continuaram zombando, todos sabiam que ele já não a queria.

Catherine, entretanto, preocupada, acabava de falar em voz baixa com o pai. Ele se espantou, depois aprovou com um movimento de cabeça; e, chamando Étienne para lhe devolver o embrulho:

— Escute — murmurou —, se está sem um tostão, terá tempo de morrer antes do pagamento quinzenal... Quer que eu tente conseguir crédito para você em algum lugar?

O rapaz permaneceu constrangido por um instante. Justamente ia reclamar seus trinta soldos e partir. Mas a vergonha o conteve diante da moça. Ela o olhava fixamente, talvez acreditasse que ele estava fazendo birra com o trabalho.

— Saiba que não prometo nada — continuou Maheu. — No máximo, receberemos uma recusa.

Então Étienne não disse que não. Recusariam. Aliás, aquilo não o comprometia, sempre poderia ir embora depois de comer alguma coisa. Mas logo ficou descontente por não ter recusado, ao ver a alegria de Catherine, um sorriso bonito, um olhar de amizade, feliz por lhe ter prestado ajuda. Para que tudo aquilo?

Depois de calçarem os tamancos e fecharem os armários, os Maheu deixaram o barracão, seguindo os companheiros que saíam um a um assim que se aqueciam. Étienne foi com eles, e Levaque e seu garoto juntaram-se ao grupo. Mas, enquanto atravessavam a triagem, uma cena violenta os deteve.

Era um vasto galpão de vigas negras pela poeira suspensa, com grandes venezianas por onde soprava uma corrente de ar contínua. As vagonetas de hulha chegavam diretamente da recepção e eram despejadas pelos basculadores sobre as tremonhas, longas calhas de chapa; e, à direita e à esquerda delas, as triadoras, instaladas em degraus, armadas de pás e ancinhos, retiravam as pedras e empurravam o carvão limpo, que depois caía por funis nos vagões da linha férrea estabelecida sob o galpão.

Philomène Levaque estava ali, magra e pálida, com um rosto manso de moça que cuspia sangue. A cabeça protegida por um trapo de lã azul, as mãos e os braços negros até os cotovelos, trabalhava logo abaixo de uma velha bruxa, a mãe da Pierronne, chamada de Brûlé, terrível com seus olhos de coruja e a boca apertada como a bolsa de um avarento. As duas se engalfinhavam, a jovem acusando a velha de varrer as pedras para seu lado, a tal ponto que não conseguia completar um cesto em dez minutos. Eram pagas por cesto, e essas brigas renasciam sem parar. Os coques voavam, as mãos deixavam marcas negras nos rostos vermelhos.

— Dê-lhe uma bela pancada! — gritou Zacharie lá de cima para a amante.

Todas as triadoras explodiram em riso. Mas a Brûlé lançou-se furiosamente contra o rapaz.

— Escute aqui, seu imundo! Seria melhor reconhecer os dois filhos que pôs dentro dela!... Onde já se viu, uma vara de dezoito anos que nem se sustenta em pé!

Maheu precisou impedir o filho de descer, pois Zacharie dizia querer ver qual era a cor da pele daquela carcaça. Um fiscal corria para lá, e os ancinhos voltaram a remexer o carvão. De alto a baixo das tremonhas, já não se viam senão as costas curvadas das mulheres, empenhadas em disputar as pedras.

Lá fora, o vento cessara de repente, e um frio úmido caía do céu cinzento. Os mineiros encolheram os ombros, cruzaram os braços e partiram dispersos, com um balanço dos rins que fazia sobressair os ossos grandes sob a lona fina das roupas. Em pleno dia, passavam como um bando de negros revolvidos na lama. Alguns não haviam terminado o briquet; e o resto de pão, guardado entre a camisa e a jaqueta, fazia-os parecer corcundas.

— Olhe, aí está Bouteloup — disse Zacharie, rindo.

Sem parar, Levaque trocou duas frases com seu inquilino, um rapaz moreno e gordo de trinta e cinco anos, com ar tranquilo e honesto.

— A sopa está pronta, Louis?

— Então, a mulher está boazinha hoje?

— Sim, acho que está boazinha.

Outros operários dos serviços de retaguarda chegavam, novos grupos que, um depois do outro, eram engolidos pela mina. Era a descida das três horas, mais homens que o poço devorava, e cujas equipes substituiriam no fundo das vias as empreitadas dos cortadores. A mina jamais parava, noite e dia havia insetos humanos escavando a rocha, a seiscentos metros sob os campos de beterraba.

Enquanto isso, os garotos caminhavam na frente. Jeanlin confiava a Bébert um plano complicado para conseguir a crédito quatro soldos de tabaco; enquanto Lydie os seguia respeitosamente, a certa distância. Catherine vinha com Zacharie e Étienne. Nenhum dos três falava. Foi apenas diante da taberna do Avantage que Maheu e Levaque os alcançaram.

— Chegamos — disse o primeiro a Étienne. — Quer entrar?

Separaram-se. Catherine permaneceu imóvel por um instante, olhando pela última vez para o rapaz com seus grandes olhos, límpidos e esverdeados como água de nascente, cujo cristal o rosto negro tornava ainda mais profundo. Sorriu e desapareceu com os outros pelo caminho ascendente que conduzia ao coron.

A taberna ficava entre a aldeia e a mina, no cruzamento das duas estradas. Era uma casa de tijolos de dois andares, caiada de alto a baixo, alegrada ao redor das janelas por uma larga moldura azul-celeste. Numa placa quadrada pregada acima da porta, lia-se em letras amarelas: “Ao Avantage, estabelecimento de Rasseneur”. Atrás, estendia-se uma pista de boliche, fechada por uma sebe viva. E a Companhia, que fizera de tudo para comprar aquele pedaço de terreno encravado em suas vastas propriedades, desesperava-se com a taberna, surgida em pleno campo, aberta exatamente à saída do Voreux.

— Entre — repetiu Maheu a Étienne.

A sala pequena tinha uma nudez clara, com suas paredes brancas, três mesas e uma dúzia de cadeiras, um balcão de pinho grande como um bufê de cozinha. Havia ali no máximo dez canecas, três garrafas de bebida, uma jarra e uma pequena caixa de zinco, com uma torneira de estanho, para a cerveja; e nada mais, nenhuma imagem, nenhuma prateleira, nenhum jogo. No fogão de ferro fundido, envernizado e reluzente, ardia lentamente uma massa de hulha. Sobre os ladrilhos, uma camada fina de areia branca absorvia a umidade constante daquela região encharcada.

— Uma caneca — pediu Maheu a uma moça loira e gorda, filha de uma vizinha, que às vezes tomava conta da sala. — Rasseneur está aí?

A moça abriu a torneira e respondeu que o patrão logo voltaria. Lentamente, com um único gole, o mineiro esvaziou metade da caneca, para varrer a poeira que lhe obstruía a garganta. Não ofereceu nada ao companheiro. Havia apenas um freguês, outro mineiro molhado e lambuzado, sentado diante de uma mesa, bebendo cerveja em silêncio, com ar de profunda meditação. Um terceiro entrou, foi servido depois de fazer um gesto, pagou e partiu sem dizer palavra.

Mas um homem gordo de trinta e oito anos, barbeado, de rosto redondo, apareceu com um sorriso bonachão. Era Rasseneur, antigo cortador que a Companhia despedira havia três anos, depois de uma greve. Excelente operário, falava bem, colocava-se à frente de todas as reivindicações e terminara como chefe dos descontentes. A mulher já mantinha uma taberna, como muitas esposas de mineiros; e, quando ele foi jogado na rua, tornou-se também taberneiro, conseguiu dinheiro e instalou seu estabelecimento diante do Voreux, como uma provocação à Companhia. Agora, sua casa prosperava, tornava-se um centro, e ele enriquecia com as cóleras que pouco a pouco havia soprado no coração dos antigos companheiros.

— Este é o rapaz que contratei esta manhã — explicou Maheu imediatamente. — Tem algum dos dois quartos livre e aceita dar-lhe crédito por uma quinzena?

O rosto largo de Rasseneur assumiu de repente uma expressão de grande desconfiança. Examinou Étienne com um olhar e respondeu, sem se dar ao trabalho de demonstrar pesar:

— Meus dois quartos estão ocupados. Não é possível.

O rapaz esperava aquela recusa; no entanto, sofreu, espantou-se com o aborrecimento repentino que sentia diante da ideia de partir. Não importava, iria embora quando recebesse seus trinta soldos. O mineiro que bebia numa mesa já saíra. Outros continuavam entrando, um a um, para lavar a garganta, e depois retomavam o caminho com o mesmo passo requebrado. Era uma simples lavagem, sem alegria nem paixão, a satisfação muda de uma necessidade.

— Então, não há nada? — perguntou Rasseneur num tom particular a Maheu, que terminava a cerveja em pequenos goles.

Este virou a cabeça e viu que apenas Étienne estava ali.

— Houve mais uma discussão... Sim, por causa da escora.

Contou o caso. O rosto do taberneiro ficou vermelho, uma emoção sanguínea o inchava, saía-lhe em chamas pela pele e pelos olhos. Por fim, explodiu:

— Ah, se resolverem baixar os preços, estão perdidos.

Étienne o incomodava. Ainda assim, continuou, lançando-lhe olhares oblíquos. Falava com reticências e subentendidos, mencionava o diretor, o senhor Hennebeau, a esposa dele e o sobrinho, o pequeno Négrel, sem dizer seus nomes, repetindo que aquilo não podia continuar, que um dia desses teria de arrebentar. A miséria era grande demais. Citou as fábricas que fechavam, os trabalhadores que partiam. Havia um mês, distribuía mais de seis libras de pão por dia. Na véspera, tinham-lhe dito que o senhor Deneulin, proprietário de uma mina vizinha, já não sabia como se manter. Além disso, acabava de receber uma carta de Lille, cheia de informações inquietantes.

— Você sabe — murmurou —, veio daquela pessoa que viu aqui certa noite.

Mas foi interrompido. Sua mulher acabava de entrar, uma mulher alta, magra e ardente, de nariz comprido e maçãs do rosto arroxeadas. Em política, era muito mais radical que o marido.

— A carta de Pluchart — disse ela. — Ah, se aquele homem mandasse, as coisas não demorariam a melhorar!

Étienne escutava havia algum tempo, compreendia e se apaixonava por aquelas ideias de miséria e desforra. O nome, lançado de repente, fez com que estremecesse. Disse em voz alta, como que contra a própria vontade:

— Eu conheço Pluchart.

Todos o olharam, e ele precisou acrescentar:

— Sim, sou maquinista, ele foi meu contramestre em Lille... Um homem competente, conversei muitas vezes com ele.

Rasseneur tornou a examiná-lo; e houve em seu rosto uma mudança rápida, uma simpatia repentina. Por fim, disse à mulher:

— Foi Maheu quem trouxe este senhor, um empurrador que trabalha com ele, para saber se há um quarto lá em cima e se podemos dar-lhe crédito por uma quinzena.

Então, o assunto foi resolvido em quatro palavras. Havia um quarto, o inquilino partira naquela manhã. E o taberneiro, muito excitado, entregou-se ainda mais à conversa, embora repetisse que só exigia dos patrões aquilo que era possível, sem reclamar, como tantos outros, coisas difíceis demais de obter. A mulher erguia os ombros, queria seu direito, por inteiro.

— Boa noite — interrompeu Maheu. — Nada disso vai impedir que a gente desça, e, enquanto descermos, haverá gente morrendo lá embaixo... Olhe para você, está forte desde que saiu há três anos.

— Sim, recuperei-me muito — declarou Rasseneur, satisfeito.

Étienne acompanhou até a porta o mineiro que partia, agradecendo-lhe; mas este balançava a cabeça, sem acrescentar palavra, e o rapaz observou-o subir penosamente pelo caminho do coron. A senhora Rasseneur, ocupada em servir fregueses, acabava de lhe pedir que esperasse um minuto para que ela o conduzisse ao quarto, onde poderia se lavar. Deveria ficar? Uma nova hesitação o tomara, um mal-estar que o fazia lamentar a liberdade das grandes estradas, a fome sob o sol, suportada com a alegria de ser dono de si mesmo. Parecia-lhe ter vivido ali durante anos, desde sua chegada ao terril, em meio às rajadas, até as horas passadas sob a terra, de barriga no chão dentro das galerias negras. E sentia repugnância de recomeçar, era injusto e duro demais, seu orgulho de homem se revoltava diante da ideia de se tornar um animal que cegam e esmagam.

Enquanto Étienne assim lutava consigo mesmo, seus olhos, que vagavam pela planície imensa, pouco a pouco a perceberam. Espantou-se, não imaginara o horizonte daquela maneira quando o velho Bonnemort o indicara com um gesto no fundo das trevas. Diante dele, reencontrava o Voreux numa dobra do terreno, com seus edifícios de madeira e tijolos, a triagem alcatroada, o castelo do poço coberto de ardósia, a casa da máquina e a alta chaminé de um vermelho pálido, tudo comprimido, com ar maligno. Mas, ao redor dos edifícios, o pátio se estendia, e ele não o imaginara tão vasto, transformado num lago de tinta pelas ondas crescentes do estoque de carvão, eriçado pelos altos cavaletes que sustentavam os trilhos das passarelas, entulhado num canto pela reserva de madeira, semelhante à colheita de uma floresta abatida. À direita, o terril fechava a vista, colossal como uma barricada de gigantes, já coberto de capim na parte mais antiga, consumido na outra extremidade por um fogo interior que ardia havia um ano, soltando uma fumaça espessa e deixando na superfície, entre o cinza pálido dos xistos e arenitos, longas estrias de ferrugem sangrenta. Depois, estendiam-se os campos, campos intermináveis de trigo e beterraba, nus naquela época do ano, pântanos de vegetação dura, cortados por alguns salgueiros raquíticos, prados distantes separados por fileiras magras de choupos. Muito longe, pequenas manchas brancas indicavam cidades, Marchiennes ao norte e Montsou ao sul; enquanto a floresta de Vandame, a leste, cercava o horizonte com a linha violácea de suas árvores desfolhadas. E, sob o céu lívido, na claridade baixa daquela tarde de inverno, parecia que todo o negro do Voreux, toda a poeira flutuante da hulha havia tombado sobre a planície, cobrindo as árvores, salpicando as estradas, semeando a terra.

Étienne olhava, e o que mais o surpreendia era um canal, o rio Scarpe canalizado, que não enxergara durante a noite. Do Voreux até Marchiennes, o canal seguia em linha reta, uma fita de prata fosca com duas léguas de extensão, uma avenida cercada de árvores altas, elevada acima dos terrenos baixos, correndo para o infinito com a perspectiva das margens verdes e da água pálida, onde deslizavam as popas avermelhadas das barcaças. Perto da mina, havia um cais, embarcações atracadas que as vagonetas das passarelas enchiam diretamente. Depois, o canal fazia uma curva e cortava os pântanos em diagonal; e toda a alma daquela planície rasa parecia estar ali, naquela água geométrica que a atravessava como uma estrada larga, transportando hulha e ferro.

Os olhos de Étienne subiam do canal até o coron, construído sobre o planalto, do qual só distinguia as telhas vermelhas. Depois voltavam para o Voreux e paravam, embaixo da encosta argilosa, sobre duas enormes pilhas de tijolos, fabricados e cozidos no próprio local. Um ramal da estrada de ferro da Companhia passava atrás de uma paliçada, servindo à mina. Deviam estar fazendo descer os últimos operários dos serviços de retaguarda. Apenas um vagão empurrado por homens soltava um grito agudo. Já não era o desconhecido das trevas, os trovões inexplicáveis, os clarões de astros ignorados. Ao longe, os altos-fornos e os fornos de coque haviam empalidecido com a aurora. Restava ali, sem interrupção, apenas a descarga da bomba, soprando sempre com o mesmo hálito grosso e longo, o hálito de um ogro cuja névoa cinzenta ele agora distinguia e que nada poderia saciar.

Então, Étienne decidiu-se de repente. Talvez tivesse acreditado ver novamente os olhos claros de Catherine, lá no alto, na entrada do coron. Talvez fosse antes um vento de revolta vindo do Voreux. Não sabia, queria tornar a descer à mina para sofrer e lutar, pensava com violência naquelas pessoas mencionadas por Bonnemort, naquele deus saciado e agachado a quem dez mil famintos entregavam sua carne sem conhecê-lo.

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