QUINTA PARTE — Capítulo IV
QUINTA PARTE
Capítulo IV
E o bando avançava pela planície rasa, inteiramente branca de geada, sob o pálido sol de inverno, transbordando da estrada por entre os campos de beterraba.
Desde a Fourche-aux-Bœufs, Étienne assumira o comando. Sem que ninguém parasse, gritava ordens, organizava a marcha. Jeanlin, à frente, galopava, arrancando da corneta uma música bárbara. Depois, nas primeiras fileiras, avançavam as mulheres, algumas armadas de bastões; a Maheude, com olhos asselvajados que pareciam procurar ao longe a cidade de justiça prometida; a Brûlé, a Levaque e a Mouquette, esticando as pernas sob os andrajos, como soldados que partissem para a guerra. Se houvesse algum encontro ruim, veriam se os gendarmes ousariam bater em mulheres. Atrás vinham os homens, na confusão de um rebanho, formando uma cauda que se alargava, eriçada de barras de ferro, dominada pelo único machado de Levaque, cujo gume cintilava ao sol. Étienne, no centro, não tirava os olhos de Chaval, a quem obrigava a marchar diante dele; enquanto Maheu, atrás, sombrio, lançava olhares para Catherine, a única mulher entre aqueles homens, obstinada em trotar junto do amante, para que não lhe fizessem mal. Cabeças descobertas se desgrenhavam ao ar livre; ouvia-se apenas o bater dos tamancos, semelhante ao galope de gado solto, arrastado pelo toque selvagem de Jeanlin.
Mas logo se ergueu um novo grito:
— Pão! Pão! Pão!
Era meio-dia. A fome de seis semanas de greve despertava nos ventres vazios, açoitada por aquela corrida em campo aberto. As raras côdeas da manhã, as poucas castanhas da Mouquette, já estavam longe; os estômagos gritavam, e esse sofrimento se somava à raiva contra os traidores.
— Para as minas! Chega de trabalho! Pão!
Étienne, que recusara sua parte de comida no coron, sentia no peito uma insuportável sensação de rasgamento. Não se queixava; mas, num gesto maquinal, pegava de tempos em tempos o cantil e engolia um gole de genebra, tremendo tanto que julgava precisar da bebida para ir até o fim. Suas faces se aqueciam, uma chama se acendia em seus olhos. No entanto, ainda conservava a cabeça lúcida, queria evitar destruições inúteis.
Quando chegavam ao caminho de Joiselle, um cortador de Vandame, que se juntara ao bando por vingança contra o patrão, lançou os camaradas para a direita, berrando:
— Para Gaston-Marie! É preciso parar a bomba! Que a água destrua Jean-Bart!
A multidão, arrastada, já virava, apesar dos protestos de Étienne, que lhes suplicava que deixassem o esgotamento das águas funcionar. Para que destruir as galerias? Aquilo revoltava seu coração de operário, apesar do ressentimento. Maheu também achava injusto atacar uma máquina. Mas o cortador repetia seu grito de vingança, e Étienne teve de berrar mais alto:
— Para Mirou! Há traidores no fundo!... Para Mirou! Para Mirou!
Com um gesto, empurrou o bando para o caminho da esquerda, enquanto Jeanlin, retomando a dianteira, soprava com mais força. Produziu-se um grande redemoinho. Gaston-Marie, daquela vez, estava salva.
E os quatro quilômetros que os separavam de Mirou foram vencidos em meia hora, quase correndo, através da planície interminável. O canal, daquele lado, cortava-a como uma longa fita de gelo. Apenas as árvores despidas das margens, transformadas pela geada em candelabros gigantescos, quebravam a uniformidade plana, prolongada e perdida no céu do horizonte, como num mar. Uma ondulação do terreno escondia Montsou e Marchiennes; era a imensidão nua.
Chegavam à mina quando viram um capataz postar-se numa passarela da seleção, para recebê-los. Todos conheciam muito bem o velho Quandieu, o decano dos capatazes de Montsou, homem de pele e cabelos inteiramente brancos, já perto dos setenta anos, verdadeiro milagre de saúde nas minas.
— Que diabos vieram fazer aqui, bando de vagabundos? — gritou ele.
O bando parou. Já não era um patrão, era um camarada; e certo respeito os detinha diante daquele velho operário.
— Há homens no fundo — disse Étienne. — Faça-os subir.
— Sim, há homens — respondeu o velho Quandieu. — Umas seis dúzias. Os outros ficaram com medo de vocês, seus malditos!... Mas aviso que nenhum deles sairá, ou terão de se entender comigo!
Exclamações correram pelo grupo, os homens empurraram, as mulheres avançaram. Descendo rapidamente da passarela, o capataz agora barrava a porta.
Então Maheu tentou intervir.
— Velho, é nosso direito. Como conseguiremos tornar a greve geral, se não obrigarmos os camaradas a ficar conosco?
O velho permaneceu calado por um instante. Evidentemente, sua ignorância em matéria de coalizão igualava a do cortador. Por fim, respondeu:
— É direito de vocês, não digo que não. Mas eu só conheço as ordens que recebi... Estou sozinho aqui. Os homens ficam no fundo até as três e lá ficarão até as três.
As últimas palavras perderam-se em vaias. Ameaçavam-no com os punhos, as mulheres já o ensurdeciam, soprando-lhe o hálito quente no rosto. Mas ele permanecia firme, a cabeça erguida, com a barbicha e os cabelos brancos como neve; e a coragem engrossava tanto sua voz que ela se ouvia distintamente acima do tumulto.
— Com mil diabos! Vocês não passarão!... Tão certo quanto o sol nos ilumina, prefiro morrer a deixar que toquem nos cabos... Parem de empurrar, ou me jogo no poço diante de vocês!
Houve um estremecimento; a multidão recuou, tomada de espanto. Ele continuou:
— Qual é o porco que não entende isso?... Sou apenas um operário como vocês. Mandaram-me guardar, e eu guardo.
A inteligência do velho Quandieu não ia além disso, endurecida na obstinação do dever militar, com o crânio estreito e os olhos apagados pela tristeza negra de meio século no fundo. Os camaradas olhavam para ele, comovidos, sentindo em algum lugar dentro de si o eco de suas palavras, aquela obediência de soldado, a fraternidade e a resignação diante do perigo. Julgando que ainda hesitavam, repetiu:
— Eu me jogo no poço diante de vocês!
Um grande abalo levou o bando embora. Todos haviam dado as costas, e a corrida recomeçava pela estrada reta, estendendo-se ao infinito no meio das terras. Novamente se erguiam os gritos:
— Para Madeleine! Para Crèvecœur! Chega de trabalho! Pão, pão!
Mas, no centro, no impulso da marcha, houve um empurra-empurra. Diziam que Chaval tentara aproveitar o incidente para fugir. Étienne acabava de agarrá-lo pelo braço, ameaçando quebrar-lhe os rins se planejasse alguma traição. E o outro se debatia, protestando com raiva:
— Por que tudo isso? A gente não é mais livre?... Estou congelando há uma hora, preciso me lavar. Solte-me!
De fato, sofria com o carvão grudado à pele pelo suor, e o pulôver quase não o protegia.
— Ande, ou nós mesmos vamos lavá-lo — respondeu Étienne. — Não devia ter aumentado a aposta, pedindo sangue.
Continuavam galopando. Étienne acabou por voltar-se para Catherine, que se mantinha firme. Desesperava-o senti-la perto, tão miserável, tremendo sob a velha jaqueta de homem, com as calças enlameadas. Devia estar morta de cansaço, mas continuava correndo.
— Você pode ir embora — disse ele por fim.
Catherine pareceu não ouvir. Seus olhos, ao encontrarem os de Étienne, tiveram apenas uma breve chama de censura. E ela não parava. Por que ele queria que abandonasse seu homem? Chaval não era gentil, claro; às vezes até batia nela. Mas era seu homem, aquele que a tivera primeiro; e a enfurecia ver mais de mil pessoas se lançarem contra ele. Ela o defenderia sem ternura, por orgulho.
— Vá embora! — repetiu Maheu, violentamente.
A ordem do pai diminuiu por um instante sua corrida. Ela tremia, lágrimas inchavam-lhe as pálpebras. Depois, apesar do medo, retomou seu lugar, sempre correndo. Então a deixaram.
O bando atravessou a estrada de Joiselle, seguiu por algum tempo a de Cron, depois subiu em direção a Cougny. Daquele lado, chaminés de fábricas riscavam o horizonte plano; galpões de madeira, oficinas de tijolos com grandes janelas empoeiradas, sucediam-se ao longo do calçamento. Passaram rapidamente diante das casas baixas de dois corons, primeiro o dos Cento e Oitenta, depois o dos Setenta e Seis; e de cada um, ao chamado da corneta, ao clamor lançado por todas as bocas, saíram famílias, homens, mulheres e crianças, galopando também, juntando-se à cauda dos camaradas. Quando chegaram diante de Madeleine, eram pelo menos mil e quinhentos. A estrada descia numa inclinação suave; a correnteza ruidosa dos grevistas teve de contornar o terril antes de se derramar pelo pátio da mina.
Naquele momento, mal passava das duas horas. Mas os capatazes, avisados, acabavam de apressar a subida; e, quando o bando chegou, a saída estava terminando. Restavam no fundo cerca de vinte homens, que desembarcaram da gaiola. Fugiram, perseguidos a pedradas. Dois foram espancados, outro deixou para trás uma manga da jaqueta. Essa caça ao homem salvou o equipamento; ninguém tocou nos cabos nem nas caldeiras. A correnteza já se afastava, rolando em direção à mina vizinha.
Crèvecœur ficava a apenas quinhentos metros de Madeleine. Ali também o bando caiu no meio da saída. Uma transportadora foi agarrada e açoitada pelas mulheres, com as calças rasgadas e as nádegas expostas diante dos homens que riam. Os galibots recebiam bofetadas, cortadores fugiam com as costelas arroxeadas pelos golpes e o nariz ensanguentado. E, naquela ferocidade crescente, naquela antiga necessidade de vingança cuja loucura transtornava todas as cabeças, os gritos prosseguiam, estrangulavam-se: a morte aos traidores, o ódio ao trabalho mal pago, o rugido dos ventres querendo pão. Começaram a cortar os cabos, mas a lima não mordia; demorava demais, agora que estavam febris para seguir adiante, sempre adiante. Nas caldeiras, quebraram uma válvula, enquanto a água, lançada em baldes cheios nas fornalhas, fazia estourar as grelhas de ferro fundido.
Do lado de fora, começaram a falar em marchar sobre Saint-Thomas. Aquela mina era a mais disciplinada; a greve não a atingira, e quase setecentos homens deviam ter descido. Isso os exasperava. Esperariam por eles armados de porretes, em batalha campal, para ver quem ficaria estendido no chão. Mas correu o rumor de que havia gendarmes em Saint-Thomas, os gendarmes daquela manhã, de quem haviam zombado. Como sabiam? Ninguém poderia dizer. Não importava. O medo os tomou, e decidiram seguir para Feutry-Cantel. A vertigem tornou a arrastá-los, todos se viram novamente na estrada, batendo os tamancos, precipitando-se: para Feutry-Cantel! Para Feutry-Cantel! Ainda havia lá uns quatrocentos covardes, seria uma festa! Situada a três quilômetros, a mina se escondia numa depressão do terreno, perto do Scarpe. Já subiam a encosta das Plâtrières, além do caminho de Beaugnies, quando uma voz desconhecida lançou a ideia de que talvez os dragões estivessem lá, em Feutry-Cantel. Então, de uma ponta à outra da coluna, repetiu-se que os dragões estavam lá. Uma hesitação retardou a marcha; o pânico soprava pouco a pouco naquele país adormecido pelo desemprego, que percorriam havia horas. Por que ainda não haviam esbarrado em soldados? Aquela impunidade os perturbava, diante da repressão que sentiam aproximar-se.
Sem que se soubesse de onde partira, uma nova palavra de ordem os lançou contra outra mina.
— Para a Victoire! Para a Victoire!
Então não havia dragões nem gendarmes na Victoire? Ninguém sabia. Todos pareceram tranquilizados. Dando meia-volta, desceram para o lado de Beaumont, atravessaram os campos para alcançar a estrada de Joiselle. A linha férrea lhes barrava a passagem; atravessaram-na derrubando as cercas. Agora voltavam a se aproximar de Montsou. A lenta ondulação do terreno se abaixava, ampliava o mar das plantações de beterraba, muito longe, até as casas negras de Marchiennes.
Dessa vez, eram cinco longos quilômetros. Um ímpeto tamanho os carregava que não sentiam o cansaço atroz, os pés quebrados e feridos. A cauda continuava a alongar-se, engrossada pelos camaradas arregimentados ao longo do caminho, nos corons. Quando atravessaram o canal pela ponte Magache e chegaram diante da Victoire, eram dois mil. Mas haviam batido três horas, a subida terminara, não restava um homem no fundo. A decepção explodiu em ameaças vãs; só puderam receber a pedradas os trabalhadores da triagem no solo, que chegavam para iniciar o turno. Houve uma debandada, e a mina deserta lhes pertenceu. Na raiva de não encontrarem um rosto de traidor para esbofetear, atacaram as coisas. Uma bolsa de rancor rebentava dentro deles, uma bolsa envenenada, lentamente inchada. Anos e anos de fome os torturavam com uma voracidade de massacre e destruição.
Atrás de um galpão, Étienne avistou carregadores enchendo uma carroça de carvão.
— Vão dar o fora! — gritou. — Não sairá daqui um único pedaço!
Sob suas ordens, uma centena de grevistas acorreu, e os carregadores só tiveram tempo de se afastar. Alguns homens desatrelaram os cavalos, que se assustaram e partiram, picados nas coxas; enquanto outros, virando a carroça, quebravam os varais.
Levaque lançara-se contra os cavaletes, desferindo violentos golpes de machado para derrubar as passarelas. Eles resistiam, e lhe veio a ideia de arrancar os trilhos, cortar a via de uma ponta à outra do pátio. Logo o bando inteiro se entregou à tarefa. Maheu fazia saltar os coxins de ferro fundido, armado com sua barra de ferro, que usava como alavanca. Enquanto isso, a Brûlé, arrastando as mulheres, invadia a lampisteria, onde os bastões, golpeando em todas as direções, cobriram o chão com uma carnificina de lâmpadas. A Maheude, fora de si, batia com tanta força quanto a Levaque. Todas ficaram encharcadas de óleo, e a Mouquette limpava as mãos no saiote, rindo de estar tão suja. Para se divertir, Jeanlin despejara-lhe uma lâmpada no pescoço.
Mas aquelas vinganças não lhes davam o que comer. Os ventres gritavam ainda mais alto. E a grande lamentação tornou a dominar:
— Pão! Pão! Pão!
Justamente na Victoire, um antigo capataz mantinha uma cantina. Sem dúvida, tivera medo, pois o barracão estava abandonado. Quando as mulheres voltaram e os homens terminaram de arrebentar a via, cercaram a cantina, cujas venezianas cederam imediatamente. Não encontraram pão. Havia apenas dois pedaços de carne crua e um saco de batatas. Durante o saque, porém, descobriram cerca de cinquenta garrafas de genebra, que desapareceram como uma gota de água bebida pela areia.
Étienne, tendo esvaziado o cantil, pôde enchê-lo novamente. Pouco a pouco, uma embriaguez ruim, a embriaguez dos famintos, ensanguentava-lhe os olhos e fazia aparecer dentes de lobo entre os lábios empalidecidos. De repente, percebeu que Chaval escapara no meio do tumulto. Praguejou, alguns homens correram e agarraram o fugitivo, que se escondia com Catherine atrás da pilha de madeira.
— Ah, seu maldito canalha, está com medo de se comprometer! — berrava Étienne. — Foi você, na floresta, que pediu a greve dos maquinistas para parar as bombas, e agora tenta nos abandonar na hora do perigo!... Pois muito bem, com mil diabos! Vamos voltar a Gaston-Marie, e quero que você quebre a bomba. Sim, com mil diabos! Você vai quebrá-la!
Estava bêbado. Ele próprio lançava os homens contra a bomba que salvara poucas horas antes.
— Para Gaston-Marie! Para Gaston-Marie!
Todos o aclamaram e se precipitaram, enquanto Chaval, agarrado pelos ombros, arrastado e empurrado violentamente, continuava a pedir que o deixassem lavar-se.
— Vá embora! — gritou Maheu a Catherine, que também retomara a corrida.
Dessa vez, ela nem sequer diminuiu o passo. Ergueu para o pai os olhos ardentes e continuou correndo.
O bando voltou a cortar a planície nua. Retornava sobre os próprios passos, pelas longas estradas retas, pelas terras que se alargavam sem cessar. Eram quatro horas. O sol, descendo no horizonte, alongava sobre o solo gelado as sombras daquela horda de grandes gestos furiosos.
Evitaram Montsou, reencontraram mais acima a estrada de Joiselle; e, para poupar o desvio da Fourche-aux-Bœufs, passaram sob os muros da Piolaine. Justamente naquele momento, os Grégoire acabavam de sair, pois tinham de visitar o tabelião antes de irem jantar na casa dos Hennebeau, onde deveriam encontrar Cécile. A propriedade parecia dormir, com sua alameda deserta de tílias, a horta e o pomar despidos pelo inverno. Nada se movia na casa, cujas janelas fechadas se embaçavam com o vapor quente do interior; e do silêncio profundo desprendia-se uma impressão de bonomia e bem-estar, a sensação patriarcal das boas camas e da boa mesa, da felicidade prudente em que transcorria a vida dos proprietários.
Sem parar, o bando lançava olhares sombrios através das grades, ao longo dos muros protetores, eriçados de cacos de garrafa. O grito recomeçou:
— Pão! Pão! Pão!
Somente os cães responderam com latidos ferozes, um par de grandes dinamarqueses de pelo fulvo, que se erguiam nas patas traseiras, de bocas abertas. Atrás de uma veneziana fechada, estavam apenas as duas criadas, Mélanie, a cozinheira, e Honorine, a camareira, atraídas pelo clamor, transpirando medo, inteiramente pálidas ao ver passar aqueles selvagens. Caíram de joelhos, julgaram-se mortas quando ouviram uma pedra, uma só, quebrar a vidraça de uma janela vizinha. Era uma brincadeira de Jeanlin: fizera uma funda com um pedaço de corda e, ao passar, deixava uma pequena saudação aos Grégoire. Já tornara a soprar a corneta, e o bando se perdia ao longe, com o grito enfraquecido:
— Pão! Pão! Pão!
Chegaram a Gaston-Marie numa massa ainda maior, mais de dois mil e quinhentos enfurecidos, quebrando tudo, varrendo tudo, com a força crescente de uma torrente que rola. Gendarmes haviam passado por ali uma hora antes e seguido para Saint-Thomas, desencaminhados por camponeses, sem sequer terem a cautela, na pressa, de deixar um posto de alguns homens para guardar a mina. Em menos de um quarto de hora, os fogos foram derrubados, as caldeiras esvaziadas, os edifícios invadidos e devastados. Mas era sobretudo a bomba que ameaçavam. Não bastava que ela parasse com o último suspiro do vapor; lançavam-se contra ela como contra uma criatura viva, cuja vida queriam tirar.
— O primeiro golpe é seu! — repetia Étienne, colocando um martelo na mão de Chaval. — Vamos! Você jurou com os outros!
Chaval tremia e recuava. No empurra-empurra, o martelo caiu, enquanto os camaradas, sem esperar, massacravam a bomba com barras de ferro, tijolos e tudo o que lhes caía nas mãos. Alguns chegavam a quebrar bastões contra ela. As porcas saltavam, as peças de aço e cobre se desconjuntavam como membros arrancados. Um golpe de picareta, desferido com toda a força, arrebentou o corpo de ferro fundido; a água escapou, esvaziou-se, e houve um último borbulhar, semelhante a um soluço de agonia.
Era o fim. O bando tornou a se reunir do lado de fora, enlouquecido, esmagando-se atrás de Étienne, que não soltava Chaval.
— Morte ao traidor! Ao poço! Ao poço!
O miserável, lívido, gaguejava e voltava, com a obstinação imbecil de uma ideia fixa, à necessidade de se lavar.
— Espere, se isso o incomoda — disse a Levaque. — Olhe, aí está a bacia!
Havia ali uma poça formada pela infiltração das águas da bomba. Estava branca sob uma espessa camada de gelo. Empurraram-no para lá, quebraram o gelo e o obrigaram a mergulhar a cabeça naquela água glacial.
— Mergulhe! — repetia a Brûlé. — Com mil diabos! Se não mergulhar, jogamos você inteiro aí dentro... E agora vai beber um gole, sim, sim! Como os animais, com o focinho no cocho!
Ele teve de beber, de quatro. Todos riam, com uma risada cruel. Uma mulher puxou-lhe as orelhas, outra lançou-lhe no rosto um punhado de esterco fresco encontrado na estrada. Seu velho pulôver já não se sustentava, reduzido a farrapos. Desvairado, tropeçava e arqueava as costas para fugir.
Maheu o empurrara, e a Maheude estava entre as que mais se encarniçavam, ambos satisfazendo a velha rancor que guardavam; até a Mouquette, que normalmente continuava boa camarada de seus amantes, se enfurecia contra aquele, chamava-o de inútil, falava em lhe arrancar as calças para ver se ainda era homem.
Étienne a fez calar-se.
— Já chega! Não é preciso que todos se atirem contra ele... Caso queira, você e eu vamos resolver isso juntos.
Seus punhos se fechavam, os olhos acendiam-se numa fúria homicida; nele, a embriaguez transformava-se numa necessidade de matar.
— Está pronto? Um de nós dois tem de ficar aqui... Deem-lhe uma faca. Eu tenho a minha.
Catherine, exausta e apavorada, olhava para ele. Lembrava-se das confidências, da vontade que sentia de comer um homem quando bebia, envenenado já no terceiro copo, de tanto que seus pais beberrões lhe haviam posto aquela podridão no corpo. De repente, lançou-se para a frente, esbofeteou-o com as duas mãos de mulher e gritou-lhe na cara, sufocada de indignação:
— Covarde! Covarde! Covarde!... Então todas essas atrocidades ainda não bastam? Agora quer assassiná-lo, quando ele nem sequer consegue ficar de pé!
Virou-se para o pai e para a mãe, depois para os outros.
— Vocês são covardes! Covardes!... Matem-me com ele. Eu arranco os olhos de vocês se voltarem a tocá-lo. Ah, covardes!
E plantara-se diante de seu homem, defendendo-o, esquecida dos golpes, esquecida da vida miserável, erguida pela ideia de que lhe pertencia, já que ele a tomara, e de que era uma vergonha para ela vê-lo assim destruído.
Sob as bofetadas da moça, Étienne ficara lívido. A princípio, quase a derrubou com um golpe. Depois, enxugando o rosto num gesto de homem que recobra a sobriedade, disse a Chaval, no meio de um grande silêncio:
— Ela tem razão, já chega... Dê o fora!
Chaval começou imediatamente a correr, e Catherine galopou atrás dele. A multidão, tomada de espanto, observava-os desaparecerem na curva da estrada. Apenas a Maheude murmurou:
— Fizeram mal. Deveriam tê-lo segurado. Com certeza ele vai cometer alguma traição.
Mas o bando retomara a marcha. Quase batiam cinco horas, e o sol, vermelho como brasa na borda do horizonte, incendiava a planície imensa. Um mascate que passava informou-lhes que os dragões desciam para o lado de Crèvecœur. Então recuaram, e uma ordem correu:
— Para Montsou! Para a Direção!... Pão! Pão! Pão!