SEGUNDA PARTE — Capítulo III
SEGUNDA PARTE
Capítulo III
Batiam onze horas na pequena igreja do coron dos Duzentos e Quarenta, uma capela de tijolos onde o abade Joire vinha celebrar a missa aos domingos. Ao lado, na escola, também de tijolos, ouviam-se as vozes hesitantes das crianças, apesar das janelas fechadas contra o frio lá fora. As avenidas largas, divididas em pequenos jardins unidos pelos fundos, permaneciam desertas entre os quatro grandes blocos de casas uniformes; e aqueles jardins, devastados pelo inverno, exibiam a tristeza de sua terra calcária, deformada e suja pelos últimos legumes. Preparava-se a sopa, as chaminés fumegavam, uma mulher aparecia de longe em longe ao longo das fachadas, abria uma porta e desaparecia. De uma ponta a outra, sobre a calçada pavimentada, os canos de descida gotejavam dentro de tonéis, embora não chovesse, tão carregado de umidade estava o céu cinzento. E aquela aldeia, construída de uma só vez no meio do vasto planalto, margeada por estradas negras como por uma tarja de luto, não possuía outra alegria além das faixas regulares de telhas vermelhas, lavadas sem cessar pelas chuvas.
Quando a Maheude voltou, fez um desvio para comprar batatas da mulher de um fiscal, que ainda guardava algumas de sua colheita. Atrás de uma cortina de choupos mirrados, as únicas árvores daqueles terrenos planos, erguia-se um grupo de construções isoladas, casas reunidas de quatro em quatro e cercadas por jardins. Como a Companhia reservava aos porions aquela nova experiência, os trabalhadores haviam apelidado o pequeno bairro de coron das Meias de Seda; assim como chamavam seu próprio coron de Pague suas Dívidas, numa ironia bem-humorada diante da miséria.
— Ufa! Finalmente chegamos — disse a Maheude, carregada de embrulhos, empurrando para dentro de casa Lénore e Henri, cobertos de lama e com as pernas exaustas.
Diante do fogo, Estelle berrava, embalada nos braços de Alzire. Como já não tinha açúcar e não sabia fazê-la calar, a menina decidira fingir que lhe dava o peito. Muitas vezes, aquela simulação funcionava. Mas, dessa vez, por mais que abrisse o vestido e colasse a boca da criança ao peito magro de aleijada de oito anos, Estelle se enfurecia, mordendo a pele sem conseguir tirar nada.
— Passe-a para mim! — gritou a mãe assim que se livrou dos embrulhos. — Ela não vai nos deixar dizer uma palavra.
Quando tirou do corpete um seio pesado como um odre, e a berradora se pendurou no bico, subitamente muda, puderam enfim conversar. De resto, tudo estava bem, a pequena dona de casa mantivera o fogo, varrera e arrumara a sala. E, no silêncio, ouviam no andar de cima o avô roncar com o mesmo ritmo, sem ter parado um instante.
— Quanta coisa! — murmurou Alzire, sorrindo para as provisões. — Posso fazer a sopa, mamãe.
A mesa estava atravancada: um embrulho de roupas, dois pães, batatas, manteiga, café, chicória e meia libra de queijo de porco.
— Ah, a sopa! — disse a Maheude, cansada. — Seria preciso colher azedinha e arrancar os alhos-porós... Não, depois farei para os homens... Ponha algumas batatas para cozinhar, vamos comê-las com um pouco de manteiga... E café, está ouvindo? Não se esqueça do café!
Mas, de repente, lembrou-se do brioche. Olhou para as mãos vazias de Lénore e Henri, que brigavam no chão, já descansados e animados. Aqueles gulosos teriam comido o brioche às escondidas durante o caminho! Ela os esbofeteou, enquanto Alzire, colocando a panela sobre o fogo, tentava acalmá-la.
— Deixe-os, mamãe. Se era por mim, sabe que não me importo com brioche. Eles estavam com fome, depois de caminhar tão longe.
Bateu meio-dia, ouviram-se os tamancos das crianças que saíam da escola. As batatas estavam cozidas, o café, engrossado com uma boa metade de chicória, passava pelo filtro com o som cantante de gotas grossas. Desocuparam um canto da mesa; mas apenas a mãe comeu ali, as três crianças se contentaram com os próprios joelhos; e, durante todo o tempo, o menino, de uma voracidade muda, virava-se sem dizer nada para o queijo de porco, cujo papel engordurado o deixava excitado.
A Maheude bebia o café em pequenos goles, com as duas mãos envolvendo o copo para aquecê-las, quando o velho Bonnemort desceu. Em geral, levantava-se mais tarde, e seu almoço o esperava sobre o fogo. Mas, naquele dia, começou a resmungar porque não havia sopa. Depois, quando a nora lhe disse que nem sempre se fazia o que se queria, comeu as batatas em silêncio. De vez em quando, levantava-se e ia cuspir nas cinzas, por limpeza; depois tornava a se encolher na cadeira, esmagando a comida no fundo da boca, de cabeça baixa e olhos apagados.
— Ah, esqueci, mamãe — disse Alzire. — A vizinha veio...
A mãe a interrompeu.
Guardava um rancor surdo contra a Levaque, que se lamentara da miséria na véspera para não lhe emprestar coisa alguma; e sabia que ela estava justamente com algum dinheiro naquele momento, pois o inquilino Bouteloup adiantara sua quinzena. No coron, os lares quase nunca emprestavam uns aos outros.
— Espere, você me fez lembrar — retomou a Maheude. — Embrulhe um pouco de café moído... Vou devolver à Pierronne o que lhe devo desde anteontem.
E, depois que a filha preparou o pacote, acrescentou que voltaria imediatamente para pôr no fogo a sopa dos homens. Então saiu com Estelle nos braços, deixando o velho Bonnemort esmagar lentamente as batatas, enquanto Lénore e Henri brigavam para comer as cascas caídas no chão.
A Maheude, em vez de dar a volta, cortou diretamente pelos jardins, temendo que a Levaque a chamasse. Seu jardim confinava justamente com o dos Pierron; e havia na grade estragada que os separava um buraco pelo qual os vizinhos se comunicavam. O poço comum ficava ali, servindo a quatro famílias. Ao lado, atrás de um grupo de lilases raquíticos, encontrava-se o carin, um galpão baixo, cheio de ferramentas velhas, onde criavam, um de cada vez, os coelhos que comiam nos dias de festa. Bateu uma hora, era a hora do café, e nenhuma pessoa aparecia às portas ou janelas. Apenas um operário dos serviços de retaguarda, esperando a hora de descer, cavava seu pedaço de horta sem levantar a cabeça. Mas, quando a Maheude chegou diante do outro bloco de casas, surpreendeu-se ao ver aparecer, diante da igreja, um senhor e duas damas. Parou por um instante e os reconheceu: era a senhora Hennebeau, mostrando o coron aos convidados, o homem condecorado e a dama de casaco de peles.
— Ah, por que teve todo esse trabalho? — exclamou a Pierronne quando a Maheude lhe devolveu o café. — Não havia pressa.
Tinha vinte e oito anos e passava pela mulher bonita do coron, morena, de testa baixa, olhos grandes e boca estreita; e era também vaidosa, de uma limpeza de gata, com o peito ainda belo, pois não tivera filhos. Sua mãe, a Brûlé, viúva de um cortador morto na mina, depois de mandar a filha trabalhar numa fábrica e jurar que ela jamais se casaria com um mineiro, vivia enfurecida desde que a moça se casara tarde com Pierron, também viúvo, que tinha uma menina de oito anos. Contudo, o casal vivia muito feliz, apesar dos comentários e das histórias que circulavam sobre a complacência do marido e os amantes da mulher: nenhuma dívida, carne duas vezes por semana, uma casa tão bem cuidada que se poderia usar as panelas como espelhos. Para completar a sorte, graças a proteções, a Companhia lhe permitira vender doces e biscoitos, cujos potes ela expunha sobre duas tábuas atrás dos vidros da janela. Eram seis ou sete soldos de lucro por dia, às vezes doze aos domingos. E, naquela felicidade, havia apenas a mãe Brûlé, que berrava com sua fúria de velha revolucionária, tendo de vingar contra os patrões a morte do marido, e a pequena Lydie, que recebia em bofetadas demasiado frequentes os excessos de vivacidade da família.
— Como já está grande! — retomou a Pierronne, fazendo carinhos para Estelle.
— Ah, o trabalho que dá, nem fale! — disse a Maheude. — Você tem sorte de não ter filhos. Pelo menos pode manter tudo limpo.
Embora em sua casa tudo estivesse em ordem e ela lavasse o chão todos os sábados, lançava um olhar de dona de casa ciumenta para aquela sala tão clara, onde havia até enfeites, vasos dourados sobre o bufê, um espelho e três gravuras emolduradas.
A Pierronne bebia sozinha seu café, pois todos os seus estavam na mina.
— Vai tomar um copo comigo — disse.
— Não, obrigada, acabei de beber o meu.
— E o que tem isso?
Na verdade, não tinha importância. E as duas beberam lentamente. Entre os potes de biscoitos e doces, seus olhares pararam nas casas em frente, que alinhavam nas janelas pequenas cortinas, cuja maior ou menor brancura denunciava as virtudes das donas de casa. As da Levaque estavam muito sujas, verdadeiros trapos que pareciam ter limpado o fundo das panelas.
— Como se pode viver numa sujeira dessas? — murmurou a Pierronne.
Então a Maheude se soltou e já não parou. Ah, se tivesse um inquilino como Bouteloup, faria sua casa funcionar direito! Quando se sabia conduzir as coisas, um inquilino era um excelente negócio. Apenas não era preciso dormir com ele. E, além disso, o marido bebia, espancava a mulher e corria atrás das cantoras dos cafés-concertos de Montsou.
A Pierronne assumiu uma expressão de profundo nojo. Aquelas cantoras transmitiam todas as doenças. Havia uma em Joiselle que contaminara uma mina inteira.
— O que me espanta é você ter deixado seu filho se envolver com a filha deles.
— Ah, sim, tente impedir!... O jardim deles encosta no nosso. No verão, Zacharie estava sempre com Philomène atrás dos lilases, e não tinham vergonha nenhuma no carin, não se podia tirar água do poço sem surpreendê-los.
Era a história comum da promiscuidade do coron, rapazes e moças apodrecendo juntos, jogando-se de traseiro para cima, como diziam, sobre o telhado baixo e inclinado do carin, assim que caía a noite. Todas as empurradoras faziam ali o primeiro filho, quando não se davam ao trabalho de fazê-lo em Réquillart ou no meio do trigo. Não havia grandes consequências, casavam-se depois; apenas as mães ficavam furiosas quando os rapazes começavam cedo demais, pois um filho casado já não entregava o salário à família.
— Em seu lugar, eu preferiria resolver logo isso — retomou a Pierronne, sensata. — Seu Zacharie já a encheu duas vezes, e eles acabarão se juntando em outro lugar... De qualquer maneira, o dinheiro está perdido.
A Maheude, furiosa, estendeu as mãos.
— Escute bem: eu os amaldiçoo se forem morar juntos... Zacharie não nos deve respeito? Custou-nos dinheiro, não custou? Pois então precisa nos devolver antes de se embaraçar com uma mulher... O que seria de nós, diga, se nossos filhos começassem logo a trabalhar para os outros? Seria melhor morrer!
Entretanto, acalmou-se.
— Estou falando de modo geral, depois veremos... Seu café é muito forte, você usa a quantidade certa.
E, depois de quinze minutos de outras histórias, fugiu, gritando que a sopa de seus homens ainda não estava pronta. Lá fora, as crianças voltavam à escola, algumas mulheres apareciam às portas e observavam a senhora Hennebeau, que acompanhava uma das fachadas, explicando o coron aos convidados com gestos. Aquela visita começava a agitar a aldeia. O operário dos serviços de retaguarda parou por um instante de cavar, duas galinhas inquietas se assustaram nos jardins.
Quando a Maheude voltava, encontrou a Levaque, que saíra para abordar o doutor Vanderhaghen, médico da Companhia, um homenzinho apressado, esmagado pelo trabalho, que dava consultas enquanto caminhava.
— Doutor — dizia ela —, não durmo mais, sinto dores por toda parte... Precisamos conversar sobre isso.
Ele tratava todas por você e respondeu sem parar:
— Deixe-me em paz! Você bebe café demais.
— E meu marido, doutor — disse a Maheude por sua vez —, o senhor devia ir examiná-lo... Ele continua com dores nas pernas.
— É você que acaba com ele, deixe-me em paz!
As duas mulheres ficaram plantadas, vendo as costas do médico se afastarem.
— Entre — retomou a Levaque, depois de trocar com a vizinha um erguer de ombros desesperado. — Sabe que há novidades... E vai tomar um pouco de café. Está bem fresco.
A Maheude tentou resistir, mas não teve forças. Vamos, um gole, para não ofendê-la. E entrou.
A sala era de uma sujeira negra, os ladrilhos e as paredes manchados de gordura, o bufê e a mesa pegajosos de imundície; e um fedor de casa malcuidada apertava a garganta. Junto ao fogo, com os dois cotovelos sobre a mesa e o nariz mergulhado no prato, Bouteloup, ainda jovem para seus trinta e cinco anos, terminava um resto de carne cozida, com seu corpo largo de rapaz gordo e tranquilo; enquanto, em pé junto dele, o pequeno Achille, o primeiro filho de Philomène, que já entrava nos três anos, olhava-o com o ar suplicante e mudo de um animal guloso. O inquilino, muito terno sob a grande barba castanha, de vez em quando enfiava-lhe um pedaço de carne na boca.
— Espere eu adoçar — dizia a Levaque, colocando antecipadamente o açúcar mascavo na cafeteira.
Ela, seis anos mais velha que ele, era horrorosa, desgastada, com o peito sobre o ventre e o ventre sobre as coxas, o focinho achatado coberto de pelos grisalhos, sempre despenteada. Ele a aceitara naturalmente, sem examiná-la mais do que examinava a sopa, na qual encontrava cabelos, ou a cama, cujos lençóis serviam por três meses. Ela fazia parte da pensão, e o marido gostava de repetir que contas claras conservavam a amizade.
— Então, eu queria lhe contar — continuou ela — que ontem à noite viram a Pierronne rondando perto das Meias de Seda. O senhor que você conhece esperava atrás da casa de Rasseneur, e os dois seguiram juntos pelo canal... Hein? Bonito para uma mulher casada!
— Ora — disse a Maheude —, antes de casar com ela, Pierron dava coelhos ao porion, agora lhe custa mais barato emprestar a mulher.
Bouteloup soltou uma gargalhada enorme e atirou na boca de Achille uma migalha de pão embebida no molho. As duas mulheres acabaram de desabafar contra a Pierronne, uma vaidosa que não era mais bonita que as outras, mas estava sempre ocupada em examinar os buracos da pele, lavar-se e passar pomada. Enfim, era problema do marido, se gostava daquele pão. Havia homens tão ambiciosos que limpariam o traseiro dos chefes apenas para ouvi-los dizer obrigado. Só foram interrompidas pela chegada de uma vizinha, que trazia uma menina de nove meses, Désirée, a última filha de Philomène: como esta almoçava na triagem, combinava para levarem a criança até lá, e a amamentava sentada por um instante no meio do carvão.
— A minha eu não posso deixar nem por um minuto, começa logo a berrar — disse a Maheude, olhando para Estelle, que adormecera em seus braços.
Mas não conseguiu evitar a exigência que havia algum tempo lia nos olhos da Levaque.
— Escute, precisamos pensar em resolver isso.
A princípio, as duas mães, sem necessidade de conversar, tinham concordado em não concluir o casamento. Se a mãe de Zacharie queria receber durante o maior tempo possível os pagamentos quinzenais do filho, a mãe de Philomène se enfurecia com a ideia de perder os da filha. Não havia pressa, ela até preferira conservar o pequeno enquanto existira apenas um filho; mas, desde que este crescera e começara a comer pão, e outro nascera, passou a ter prejuízo e pressionava furiosamente pelo casamento, como mulher que não pretendia contribuir com nada.
— Zacharie já tirou seu número no recrutamento — continuou. — Nada mais impede... Vamos, para quando?
— Deixemos para quando chegar o tempo bom — respondeu a Maheude, constrangida. — Como são desagradáveis esses assuntos! Como se não pudessem ter esperado o casamento para ficar juntos!... Palavra de honra, eu estrangularia Catherine se soubesse que ela cometeu a mesma estupidez.
A Levaque deu de ombros.
— Deixe disso, ela vai passar pelo mesmo, como as outras!
Bouteloup, com a tranquilidade de um homem que estava em casa, remexeu o bufê à procura de pão. Legumes para a sopa de Levaque, batatas e alhos-porós, espalhavam-se num canto da mesa, meio descascados, retomados e abandonados dez vezes durante as conversas intermináveis. A mulher acabava de tornar ao serviço quando o abandonou de novo, para se plantar diante da janela.
— O que é aquilo?... Olhe, é a senhora Hennebeau com algumas pessoas. Estão entrando na casa da Pierronne.
As duas voltaram imediatamente a falar da Pierronne. Ah, aquilo nunca falhava: sempre que a Companhia mostrava o coron a visitantes, levavam-nos diretamente à casa dela, porque estava limpa. Sem dúvida, não contavam as histórias com o capataz-geral. Era fácil manter tudo limpo com amantes que ganhavam três mil francos, com casa e aquecimento pagos, sem contar os presentes. Se estava limpo por cima, não devia estar muito limpo por baixo. E, durante todo o tempo em que os visitantes permaneceram em frente, elas falaram sem parar.
— Estão saindo — disse enfim a Levaque. — Vão dar a volta... Olhe, minha querida, acho que estão indo à sua casa.
A Maheude foi tomada pelo medo. Quem sabia se Alzire passara um pano na mesa? E sua sopa, que ainda não estava pronta! Gaguejou um “até logo” e fugiu, correndo para casa sem olhar para os lados.
Mas tudo reluzia. Alzire, muito séria, com um pano amarrado à frente do corpo, começara a fazer a sopa ao perceber que a mãe não voltava. Arrancara os últimos alhos-porós do jardim, colhera azedinha e estava justamente limpando os legumes, enquanto, no fogo, dentro de um caldeirão grande, aquecia a água para o banho dos homens quando retornassem. Henri e Lénore, por acaso, estavam quietos, muito ocupados em rasgar um almanaque velho. O velho Bonnemort fumava silenciosamente seu cachimbo.
Enquanto a Maheude recuperava o fôlego, a senhora Hennebeau bateu à porta.
— A senhora permite, não é, minha boa mulher?
Alta, loira, um pouco corpulenta na maturidade magnífica dos quarenta anos, sorria com um esforço de amabilidade, sem deixar aparecer demais o medo de manchar o vestido de seda cor de bronze, coberto por uma capa de veludo negro.
— Entrem, entrem — repetia aos convidados. — Não incomodamos ninguém... Hein? Vejam como continua limpo, e esta boa mulher tem sete filhos! Todos os nossos lares são assim... Eu lhes explicava que a Companhia aluga a casa por seis francos mensais. Uma grande sala no térreo, dois quartos em cima, um porão e um jardim.
O homem condecorado e a dama de casaco de peles, desembarcados naquela manhã do trem vindo de Paris, abriam os olhos vagamente, com no rosto o espanto produzido por coisas repentinas que os deslocavam de seu mundo.
— E um jardim — repetiu a dama. — Mas seria possível viver aqui, é encantador!
— Damos a eles mais carvão do que conseguem queimar — continuava a senhora Hennebeau. — Um médico os visita duas vezes por semana; e, quando envelhecem, recebem pensões, embora não façamos qualquer desconto em seus salários.
— Uma Tebaida! Um verdadeiro país da Cocanha! — murmurou o senhor, encantado.
A Maheude se apressara em oferecer cadeiras. As damas recusaram. A senhora Hennebeau já se cansava, satisfeita por um instante em se distrair no papel de exibidora de animais, em meio ao tédio de seu exílio, mas imediatamente enojada pelo cheiro insosso de miséria, apesar da limpeza selecionada das casas nas quais se arriscava. Aliás, apenas repetia pedaços de frases ouvidas, sem nunca se preocupar mais profundamente com aquele povo de operários que trabalhava e sofria perto dela.
— Que crianças bonitas! — murmurou a dama, que as considerava horrorosas, com as cabeças grandes demais e os cabelos cor de palha emaranhados.
E a Maheude precisou dizer a idade delas. Também lhe fizeram perguntas sobre Estelle, por educação. Respeitosamente, o velho Bonnemort retirara o cachimbo da boca; mas continuava sendo motivo de inquietação, tão devastado por seus quarenta anos no fundo, com as pernas rígidas, a carcaça demolida e o rosto terroso; e, quando um acesso violento de tosse o tomou, preferiu sair para cuspir lá fora, pensando que seu escarro negro incomodaria os visitantes.
Alzire obteve todo o sucesso. Que pequena dona de casa adorável, com aquele pano diante do corpo! Elogiaram a mãe por ter uma menina que já entendia tanto das tarefas domésticas em tão pouca idade. E ninguém mencionava a corcova, embora olhares de compaixão constrangida tornassem sempre para a pobre criatura aleijada.
— Agora — concluiu a senhora Hennebeau —, se lhes fizerem perguntas em Paris sobre nossos corons, poderão responder... Nunca há mais barulho do que isto, costumes patriarcais, todos felizes e saudáveis, como estão vendo, um lugar onde deveriam vir se recuperar um pouco, por causa do bom ar e da tranquilidade.
— É maravilhoso, maravilhoso! — gritou o senhor, num ímpeto final de entusiasmo.
Saíram com o ar encantado de quem deixa uma barraca de fenômenos; e a Maheude, que os acompanhava, permaneceu na soleira enquanto se afastavam lentamente, conversando em voz muito alta. As ruas haviam se povoado, e eles precisavam atravessar grupos de mulheres, atraídas pelo rumor da visita, que se espalhava de casa em casa.
Justamente diante de sua porta, a Levaque detivera a Pierronne, que correra até ali por curiosidade. As duas fingiam uma surpresa maldosa. Então, aquelas pessoas queriam dormir na casa dos Maheu? Não era tão divertida assim.
— Sempre sem um tostão, com tudo o que ganham! Ora, quando se tem vícios!
— Acabei de saber que ela foi mendigar esta manhã na casa dos burgueses da Piolaine, e Maigrat, que lhes recusara pão, acabou dando... Sabe-se como Maigrat recebe o pagamento.
— Dela? Ah, não! Seria preciso muita coragem... É de Catherine que ele cobra.
— Ah, escute, ela não teve a audácia de me dizer ainda há pouco que estrangularia Catherine se a menina passasse por isso!... Como se o grandalhão Chaval já não a tivesse posto de traseiro para cima no carin há muito tempo!
— Silêncio!... Aí vem gente.
Então, a Levaque e a Pierronne, com ar tranquilo, sem curiosidade indiscreta, limitaram-se a espiar de esguelha a saída dos visitantes. Depois, fizeram rapidamente um gesto para chamar a Maheude, que ainda carregava Estelle nos braços. E as três, imóveis, olharam as costas bem vestidas da senhora Hennebeau e dos convidados se afastarem. Quando estavam a uns trinta passos, os comentários recomeçaram com violência redobrada.
— Elas carregam uma fortuna sobre a pele, talvez valham menos que as roupas!
— Ah, com certeza!... Não conheço a outra, mas por esta daqui eu não daria quatro soldos, por mais gorda que seja. Contam umas histórias...
— Hein? Que histórias?
— Parece que ela tem homens!... Primeiro, o engenheiro...
— Aquele rapazinho magro!... Ah, ele é pequeno demais, ela o perderia entre os lençóis.
— E o que importa, se isso a diverte?... Eu não confio quando vejo uma dama fazendo cara de nojo e parecendo nunca gostar do lugar onde está... Olhe como balança o traseiro, com ar de desprezar todas nós. Isso é decente?
Os visitantes se afastavam com o mesmo passo lento, ainda conversando, quando uma carruagem parou na estrada diante da igreja. Dela desceu um homem de cerca de quarenta e oito anos, apertado numa sobrecasaca negra, de pele muito morena, rosto autoritário e correto.
— O marido! — murmurou a Levaque, abaixando a voz como se ele pudesse ouvi-la, tomada pelo medo hierárquico que o diretor inspirava em seus dez mil operários. — E é verdade que tem cara de corno!
Agora, o coron inteiro estava do lado de fora. A curiosidade das mulheres crescia, os grupos se aproximavam e se fundiam numa multidão; enquanto bandos de crianças de nariz sujo se arrastavam pelas calçadas, de boca aberta. Por um instante, viu-se a cabeça pálida do professor, que também se erguia atrás da cerca da escola. No meio dos jardins, o homem que cavava continuava com o pé sobre a pá, os olhos arregalados. E o murmúrio dos comentários se elevava pouco a pouco com um barulho de matracas, semelhante a uma rajada entre folhas secas.
Era sobretudo diante da porta da Levaque que o ajuntamento crescera. Duas mulheres se aproximaram, depois dez, depois vinte. Prudentemente, a Pierronne se calava, agora que havia ouvidos demais. A Maheude, uma das mais sensatas, também se limitava a olhar; e, para acalmar Estelle, que despertara berrando, tirara tranquilamente à luz do dia seu seio de boa fêmea nutriz, pendente, arredondado, como que alongado pelo fluxo contínuo do leite. Quando o senhor Hennebeau fez as damas se sentarem no fundo da carruagem, que partiu na direção de Marchiennes, houve uma última explosão de vozes tagarelas, todas as mulheres gesticulavam e falavam umas na cara das outras, em meio ao tumulto de um formigueiro em revolução.
Mas bateram três horas. Os operários dos serviços de retaguarda haviam partido, Bouteloup e os demais. De repente, na curva da igreja, apareceram os primeiros mineiros que voltavam da mina, com os rostos negros, as roupas encharcadas, cruzando os braços e arqueando as costas. Então houve uma debandada entre as mulheres, todas correram, todas entraram em casa, no pânico de donas de casa que o excesso de café e de mexericos deixara em falta. E já não se ouvia senão este grito inquieto, carregado de futuras brigas:
— Ah, meu Deus! E a sopa! A sopa que ainda não está pronta!